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LADISLAU ANTÔNIO JOSÉ DA GUIA
Nome: Ladislau Antônio José da Guia
Nascimento: 27/6/1906       31/10/1988
Período: 1922 a 1940
Posição: Atacante
Jogos: 325 (132 v, 53 e, 140 d)
Gols: 222
Expulsões: 2
Estreia: 2 x 1 Andaraí, 4/6/1922
Despedida: 2 x 4 Botafogo, 22/12/1940

         Domingo, 4 de junho de 1922. O Bangu se preparava para enfrentar o Andaraí, fora de casa, pelo Campeonato Carioca. No entanto, o meia Tatá (Oswaldo Silva) reclamava uma lesão e iria desfalcar o time. Para substituí-lo, a comissão técnica resolve escalar um menino alto, franzino, de apenas 16 anos. Começava, assim, tal como a história de tantos outros garotos no futebol, a vida esportiva de Ladislau Antônio José da Guia.
         Em 1922, o irmão mais velho, Luiz Antônio, era um ícone da zaga banguense, Ladislau fez a estreia e o time ganhou por 2 x 1. Não há informações nos jornais se ele atuou bem ou mal. Sabe-se que, mesmo sendo jogador do 2º time, o jovem passou a figurar na reserva da equipe principal, ainda como meio-campo. Naquele mesmo ano, teve outra oportunidade – contra o Fluminense, entrando na vaga de Waldemiro Silva que, neste dia, foi para o ataque substituir o lesionado Anchyses Carrilho.
        Mesmo jovem, Ladislau vinha tendo chances que outros jogadores do 2º time não conseguiam. Por isso, foi de se estranhar que, em 1923, ele tenha abandonado o Bangu para criar o seu próprio time: o Torpedo. Ali, ele era presidente, técnico e atacante, não ficava na reserva, escalava os outros meninos e fazia muitos gols. O Torpedo durou só até 1924, depois acabou, como muitos outros times de “pelada”.
       Em 1925, ingressou no América. Parecia sina: continuava sendo reserva. Segundo consta, por motivos raciais. “Como era preto, Ladislau fora para o 2º time; acabara compreendendo, o lugar dele era no Bangu” – conta o jornalista Mário Filho. Por isso, voltou e foi recebido de braços abertos no clube do irmão Luiz Antônio para a temporada de 1926.
        O Bangu tinha feito um mau campeonato em 1925, queria se reformular para 1926. Mudou muita gente. Se as camisas tivessem número naquela época, Ladislau ganharia a 8, a de meia-direita – um atacante que ficava entre o ponta-direita e o centroavante, já que se atuava com cinco homens na linha de frente.
        Para resumir, em sua primeira temporada completa pelo Bangu, assombrou o mundo esportivo carioca ao marcar 16 gols em 18 jogos, ajudando o alvirrubro a chegar ao quarto lugar em 1926. Jamais, então, seria relegado à reserva por ser jovem demais ou por motivos raciais. Se o apetite do atacante era indiscutível, logo cedo ele conheceu o outro lado da fama. Foi taxado de desleal ao atingir o goleiro Amado, do Flamengo, num jogo na Rua Ferrer.
        “Não fora a maneira brutal por que agiu o player Ladislau, do Bangu, e esta pugna seria das mais lindas do presente campeonato. Aos poucos minutos do 2º tempo, após ter o keeper flamengo feito linda defesa, já sem a bola, o jogador do Bangu deu-lhe formidável pontapé nas costas, contundindo-o bastante. O jogo foi suspenso por 11 minutos com discussão de diretores, juízes, jogadores” – Jornal do Brasil, 29 de junho de 1926.
       Expulso quando o placar indicava empate em 2 x 2, Ladislau acabou prejudicando o Bangu, que perdeu por 4 x 3. A diretoria decidiu não punir o atacante, precisava dele para se recuperar da derrota. No jogo seguinte – na época não havia suspensão automática -, ele estava em campo para marcar um dos gols da vitória sobre o Botafogo por 3 x 1, em General Severiano.
        Em pouco tempo, o Bangu – que era chamado de “o grêmio de Luiz Antônio”, passou a ser chamado de “o grêmio de Ladislau”. Em 1928, Médio, outro irmão da família Da Guia ingressou no time. Em 1929, foi a vez de Domingos estrear na zaga, enquanto o veterano Luiz Antônio se aposentava dos gramados. Nada disso, no entanto, tirava as atenções de Ladislau que era, sem dúvida, o mais cobiçado jogador da Rua Ferrer.
        Ganhou notoriedade pelo chute fortíssimo – a “tijolada” -, que furava as redes, fulminava zagueiros que ficassem na frente e queimava as mãos dos goleiros que ousassem defender essas bolas. Ladislau da Guia virou “o Tijoleiro da Rua Ferrer”.
         Em 1930, no auge da forma, no ano da primeira Copa do Mundo, no Uruguai, o “Tijoleiro” foi lembrado na hora da convocação. Entretanto, como o scratch treinava toda tarde no campo das Laranjeiras, e Ladislau não estava disposto a ir de Bangu até a Zona Sul diariamente, foi logo excluído pelo técnico Píndaro de Carvalho. Nos tempos de hoje, o artilheiro teria cometido uma heresia. Na época, algo perfeitamente compreensível. Ladislau era atleta amador, tinha que trabalhar na fábrica para se sustentar, não era abonado ao ponto de ter um automóvel, tinha que pegar um trem e um bonde para ir treinar. Compreendeu logo, Seleção era coisa para jogador do Fluminense.
        Na Copa, o Brasil estreou perdendo para a Iugoslávia por 2 x 1. Ao invés de Ladislau, o scratch contava com Nilo Murtinho Braga, do Botafogo, na posição. Em entrevista ao jornalista Tomás Mazzoni, o meio-campo Fausto dos Santos (companheiro de Ladislau no Bangu, em 1926), desabafou: “Estou convencido de que se Ladislau tivesse vindo, ganharíamos o jogo de ontem com facilidade”.
        O Bangu, no entanto, precisava mais de Ladislau do que a Seleção. No final do Campeonato Carioca de 1930, ele sairia consagrado como artilheiro máximo, com 21 gols. Preguinho, centroavante do Fluminense e do scratch, fez um a menos.
        Com os três irmãos Da Guia atuando juntos – Domingos na zaga, Médio no meio e Ladislau no ataque –, o Bangu melhorou muito naquele início de anos 30. Mas, Domingos foi embora para o Vasco em 1932, magoando o “Tijoleiro”, que não esperava que seu irmão fosse trocar o time da família por outra agremiação.
         Em 1933, o futebol mudou. Deixou de ser amador, passou a ser profissional. Como atleta remunerado, Ladislau era o maior salário do time do Bangu. Não que isso significasse ganhar muito, mas era um dinheiro que os ex-amadores nunca tinham visto. Fora o pagamento, ainda existiam os “extras” por vitórias conquistadas. E o alvirrubro venceu como nunca em 1933, erguendo pela primeira vez o título de campeão carioca. Uma honra inquestionável para o jogador que há mais tempo estava no elenco.
         “Ladislau passou a receber 500 contos de réis, o que me deixou aborrecido, já que eu só recebia 350. Antes do profissionalismo, quando eu e ele éramos amadores, tínhamos o mesmo salário na Fábrica Bangu, na base de 250 mil réis. Lembro também que a premiação pelo título foi equivalente. Cada um de nós recebeu 100 contos de réis ” – contou o ponta-esquerda Dininho em entrevista ao Jornal do Brasil, cinqüenta anos depois da conquista de 1933.
          Realizado, Ladislau começou em ritmo lento o ano de 1934. É verdade que ele marcou os dois gols na final do Torneio Início, diante do América, em São Januário, que deram o título ao Bangu. Mas agora, sua função principal era abastecer de passes o centroavante Tião. Mesmo assim, em outro ano de Copa do Mundo, seu nome voltava a ser lembrado. Ainda mais porque o técnico da Seleção era o mesmo Luiz Vinhaes que treinava o Bangu.
          Só que havia um problema. A Seleção teria que ser formada apenas por jogadores amadores. No Rio de Janeiro, só o Botafogo ainda não tinha aderido ao profissionalismo. Ladislau e o zagueiro Mário Carreiro foram lembrados por Luiz Vinhaes, mas só iriam para a Copa, na Itália, se estivessem atuando por um clube amador – coisa que o Bangu já não era desde 1933.
         Pode parecer sem lógica, mas a Confederação Brasileira de Desportos – que defendia o amadorismo – chegou a oferecer altas somas em dinheiro para que os atletas profissionais deixassem seus clubes e fossem vestir as cores da CBD na Itália. No dia 9 de maio de 1934 – três dias antes do embarque -, a CBD chegou a publicar o nome de Ladislau e de Domingos numa lista enviada à FIFA, certa de que os irmãos Da Guia iriam aceitar a proposta.
         Nenhum dos dois, no entanto, aceitou. Ladislau perdia pela segunda e última vez a chance de ir para uma Copa. Entre a Seleção e suas raízes banguenses, era óbvio, preferia continuar na tranqüilidade da Rua Ferrer.
         Talvez, a história dele tivesse sido melhor se aceitasse a grana da CBD e ido com a delegação. No Rio, defendendo as cores do Bangu, Ladislau caiu em desgraça na tarde de 24 de junho, nas Laranjeiras. O jogo contra o Vasco estava sendo muito badalado pela imprensa. O time da cruz-de-malta era o favorito para o título de 1934; os “Mulatinhos Rosados” sonhavam com o bicampeonato, mas vinham atrás na tabela de classificação. Portanto, era preciso derrotar o rival.
          Essa confluência de fatores deve ter mexido com a cabeça de Ladislau. O Bangu perdeu por 5 x 2 e o árbitro Jorge Marinho ainda deu um pênalti duvidoso para o Vasco. Após a partida, o “Tijoleiro” ficou sem a razão: foi para cima do juiz, agrediu-o. O genial Ladislau mostrava, mais uma vez, ser bastante genioso. Jorge Marinho tinha apanhado, é verdade, mas riu por último. O craque banguense pegou uma suspensão de um ano. Um ano sem jogar partidas oficiais. Aos 28, este parecia ser um duro golpe na carreira.
         “Com a pena imposta a Ladislau de um ano de suspensão, o Bangu se vê sem um de seus melhores elementos. O meia suburbano é um jogador de grande eficiência, notável sobretudo para o conjunto do Bangu, onde todos o compreendem maravilhosamente. Com Ladislau sucede um fato interessante: é a primeira punição que sofre. E a primeira é de um ano. Há por isso um movimento de simpatia em torno de Ladislau. Trata-se de um elemento disciplinado que sempre se manteve com linha na cancha” – Diário Carioca, 30 de junho de 1934.
         Como nem tudo é pra valer, a suspensão durou apenas seis meses. Ladislau já poderia voltar aos gramados no início de 1935. E o fez com maestria. Recuperou o título de goleador máximo do Campeonato Carioca, com 19 gols. Antes da consagração, outra confusão. No dia 11 de agosto, em General Severiano, o Botafogo empatava com o Bangu em 1 x 1 até que, aos 25 minutos do 2º tempo, Carvalho Leite marca, em completo impedimento, um gol para o alvinegro. O árbitro Loris Cordovil valida o lance. Desta vez, ao invés de ir para cima do juiz, Ladislau vai ao encontro de Carvalho Leite. Foi uma briga generalizada, que impediu o prosseguimento da partida. Dizem até que, quando Carvalho Leite caiu no chão, Ladislau chutou a cabeça do atacante botafoguense. Tal fato, provavelmente, não ocorreu. Com as pesadas botinas daquela época, um bico de Ladislau fatalmente teria vitimado o adversário. Por sorte, ninguém foi punido e a Federação anulou a partida.
        “Quando a partida atingia a sua fase culminante, faltando apenas 11 minutos para o término da peleja, Ladislau indispôs-se com Albino e Canalli, dando origem ao conflito. Em dado momento, Carvalho Leite, acudindo em auxílio de seus companheiros, deu um salto atingindo com os pés o player banguense. No salto, Carvalho Leite cai, sendo violentamente pisado na nuca pelo jogador que agredira. Houve depois, então, o conflito, no qual participaram quase todos os jogadores e assistentes, vendo-se a polícia em sérias dificuldades para serenar os ânimos” – Diário Carioca, 13 de agosto de 1935.
         No primeiro semestre de 1936, vestiu a camisa do Vasco em uma excursão ao Nordeste. Depois, voltou a ser banguense no Campeonato Carioca e, em outubro, foi contratado pelo Flamengo – time pelo qual já havia feito uma excursão ao Uruguai, em 1933. Ficou pouco tempo. Fez 15 jogos e marcou sete gols. Voltou para a Rua Ferrer em junho de 1937. Em outubro, foi para o São Paulo, mas atuou em apenas uma partida. Em novembro, já estava de volta à Rua Ferrer. Com 31 anos, deixou de ser o temível artilheiro que sempre fora. Depois de ser o jogador que mais marcou gols no Rio de Janeiro entre 1926 e 1935, Ladislau diminuiu o ímpeto. Ainda assim, foi o maior atacante banguense em 1938 e 1939. Em 1940, aceitou ficar na reserva.
         No dia 22 de dezembro, contra o Botafogo, em General Severiano, o Bangu perdia por 2 x 0. Ladislau estava no banco. Entrou no 2º tempo e conseguiu o que parecia impossível para um veterano de 34 anos: ajudou a igualar o marcador – Baleiro fez o primeiro e ele empatou o jogo. Pena que o alvinegro fez outros dois tentos e venceu por 4 x 2. Era a despedida de Ladislau após 18 anos e 325 jogos com a camisa alvirrubra.
         Em 1941, foi atuar no Canto do Rio, em sua última temporada como profissional. Depois, voltou ao Bangu para ser o destaque da equipe de veteranos. Aproveitando-se do físico avantajado, foi trabalhar na Polícia Especial do Exército.
         Teve três filhos – Jairo, Hélio e Onerino – que tentaram a sorte, sem muito sucesso, no time do Bangu nos anos 50. Jairo quis ser atacante, como o pai, mas atuou apenas 14 vezes entre 1951 e 1954 e marcou somente dois gols. Onerino também tentou balançar as redes. Atuou em 11 jogos entre 1948 e 1951, marcou quatro gols. Hélio chegou a participar de 32 partidas entre 1950 e 1956, mas preferiu a posição de zagueiro, como os tios Luiz Antônio e Domingos.
           No dia 31 de outubro de 1988, aos 82 anos, falecia o maior atacante que o Bangu já teve. Dois dias depois, o seu time de coração entrava em campo para jogar contra o Guarani pelo Campeonato Brasileiro. Ladislau sequer foi lembrado com um minuto de silêncio. Com 222 gols com a camisa alvirrubra, o “Tijoleiro” não foi e, provavelmente, jamais será superado.

“Seja o jogo na marreta
Seja na delicadeza
Haja toda gentileza
Haja mesmo sururu
Deus me livre toda vida
De receber na costada
A terrível tijolada
Do Ladislau do Bangu”

Versinho enviado por um torcedor banguense ao jornal O Sport, em 1928


Todos os gols do Tijoleiro

Botafogo

27

Bonsucesso

21

Sport Club Brasil

19

América

15

Andaraí

14

Flamengo

13

São Cristóvão

13

Fluminense

13

Madureira

13

Olaria

12

Vasco

11

Sírio e Libanês

7

Carioca

6

Vila Isabel

5

Fluminense (BA)

4

São Bento (SP)

4

Goytacaz

3

Seleção Capixaba

2

Associação (BA)

2

Ypiranga (RJ)

2

Ypiranga (BA)

2

Portuguesa (RJ)

2

América Mineiro

1

Botafogo (BA)

1

Seleção Baiana

1

ASDET (PE)

1

Sel. Pernambucana

1

Atlético Mineiro

1

Anchieta

1

Santos

1

Ypiranga (SP)

1

Corinthians

1

Portuguesa (SP)

1

Combinado da CBD

1

 

Carlos Molinari
Pesquisador da história do Bangu Atlético Clube.
     
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