CAMPEONATO
ESTADUAL DE 1966
"Esse jogo não acaba..."
Foto:
Arquivo JS
SANGUE
QUENTE - Almir (E) parte para cima de
Ladeira, dando início à
pancadaria que resultou em nove expulsões.
Sem opção, o árbitro
antecipou o fim da partida
Os
primeiros anos da década de 60 foram
emocionantes para a torcida do Flamengo. Em
1962, o time rubro-negro perdeu (3 a 0) a
decisão para o Botafogo, numa tarde
em que Garrincha foi o dono do espetáculo.
Em 1963, ainda com o "professor"
Flávio Costa no comando da equipe,
mas com sérios problemas com Gérson,
o Flamengo chegou ao título carioca
após empate de zero a zero com o Fluminense.
Naquele 15 de dezembro, um domingo, o Maracanã
recebeu nada menos do que 177 mil pagantes,
recorde absoluto de público em jogos
entre clubes. Em 1964, um gol de cabeça
do atacante Roberto Miranda, do Botafogo,
tirou o Flamengo do triangular final que seria
disputado com Bangu e Fluminense. Em 1965,
uma vez mais, o rubro-negro sagrou-se campeão
carioca por antecipação de uma
rodada, mesmo perdendo o último jogo
para o Botafogo.
Veio a temporada seguinte e o Bangu, que já
vinha despontando há algum tempo, fez
um campeonato irrepreensível. E não
foi uma campanha isolada, já que em
1967 o clube de Moça Bonita também
chegou à final do Campeonato Carioca,
perdendo de 2 a 1 para o Botafogo. Mas naquele
ano de 1966, também o Flamengo exibia
a força de costume, lutando para chegar
ao bicampeonato. O duelo Flamengo x Bangu
no primeiro turno foi espetacular e ficou
marcado pelo sensacional gol de cabeça
de Almir, arrastando-se na lama do gramado
encharcado pela chuva, na única e escassa
derrota (2 a 1) do clube alvirrubro. Na véspera
da decisão, o clima era de grande rivalidade
entre os dois finalistas. O Bangu ainda lamentava
o lance que decidira o jogo do primeiro turno,
enquanto o Flamengo exibia orgulhoso a sua
campanha sem derrota até aquela data.
Na tarde daquele 18 de dezembro de 1966, com
arbitragem de Aírton Vieira de Morais,
o Sansão, o Flamengo pisou o gramado
do Maracanã com Valdomiro, Murilo,
Itamar, Jaime Valente e Paulo Henrique; Carlinhos
e Nelsinho; Carlos Alberto, Almir, Silva e
Osvaldo Ponte Aérea. O Bangu de Castor
de Andrade colocou em campo Ubirajara, Fidélis,
Mário Tito, Luís Alberto e Ari
Clemente; Jaime e Ocimar; Paulo Borges, Ladeira,
Cabralzinho e Aladim. Numa época em
que as substituições não
eram permitidas, o Flamengo foi logo prejudicado
quando perdeu, ainda no primeiro tempo, o
ponteiro Carlos Alberto, após uma entrada
desleal de Ari Clemente. Uma das revelações
do Campeonato Carioca de 1966, Carlos Alberto
submeteu-se a operações no joelho
atingido, voltou aos treinos mas jamais se
recuperou totalmente, sendo obrigado a abandonar
o futebol.
Estranhamente, aquele Flamengo vibrante, que
jogava de maneira vistosa, dono de um meio-de-campo
clássico - com Carlinhos e Nelsinho
- pareceu totalmente desfigurado a partir
da saída de Carlos Alberto. Já
o Bangu, percebendo a timidez do adversário,
lançou-se ao ataque e marcou dois gols
praticamente seguidos ainda na primeira etapa:
Ocimar, aos 23 anos, e Aladim, aos 26 minutos.
No segundo tempo, Paulo Borges, numa jogada
inspirada, marcou o terceiro gol logo aos
três minutos. Com 3 a 0 no placar, o
sonho da conquista do bicampeonato carioca
parecia quase impossível, ou totalmente
impossível, para uma equipe desfalcada
de um de seus principais atacantes. Foi então
que, aos 26 minutos, Almir decidiu acabar
com o jogo, provocando uma briga generalizada,
que terminou com a expulsão de nove
jogadores antecipando o final da partida.
Temperamental, Almir Pernanbuquinho, que morreu
assassinado em Copacabana, aos 35 anos, poucos
meses depois de ter abandonado a carreira,
entrou para a história do futebol carioca.
Logo no início da carreira, no Vasco,
quebrou a perna de Hélio, do América,
inutilizando o companheiro de profissão.
Depois, na Seleção Brasileira,
foi o estopim de um conflito total num Brasil
x Uruguai pelo Campeonato Sul-Americano de
1959, na Argentina. E ainda, quando atuava
pelo Santos, aplicou uma covarde cabeçada
no rosto de Amarildo na decisão de
1963 do Mundial Interclubes com o Milan, no
Maracanã. Sua reação
naquele Flamengo x Bangu, portanto não
pode ser classificada de acidental. No vestiário,
com a desvantagem de 2 a 0, Almir teria dito
ao dirigente rubro-negro Flávio Soares
de Moura que aquele jogo não acabaria
e que o Bangu não daria a volta olímpica
porque ele não permitiria.
Hoje, passados quase 37 anos, muitos comparam
o temperamento de Almir com o de Heleno de
Freitas (1920-1959), centroavante do Botafogo,
do Vasco e do América na década
de 40 e início da de 50. Heleno, porém,
de acordo com o laudo do hospital onde morreu,
em Barbacena, era comprovadamente um caso
patológico. Mesmo levando-se em conta
que contraiu sífilis no auge da carreira,
não resta dúvida de que Heleno
sofria de esquizofrenia desde muito jovem.
Quanto a Almir, nunca se pôde chegar
a uma conclusão.
Que seu comportamento não era normal,
não resta dúvida. Possivelmente
era, igualmente, um caso de esquizofrenia
(distúrbio mental e fragmentação
da personalidade). Por ironia do destino,
entretanto, na noite em que morreu, com um
tiro na cabeça, numa briga de bar da
Galeria Alaska, Almir Pernanbuquinho entrara
justamente para evitar o conflito que havia
começado.
Pela primeira e última vez, Almir Pernanbuquinho
esboçou um gesto de paz.
Texto:
Roberto Porto
Fonte: Jornal dos Sports (Memória),
27/04/2003.