Mais
um título para o engrandecimento do
melhor futebol do mundo foi conquistado de
forma brilhante e irretocável pela
Seleção Brasileira sub-17 em
gramados europeus, enriquecendo ainda mais
a sala de troféus da CBF.
E
esse título, como todos os outros,
incluindo o pentacampeonato mundial, é
fruto do trabalho de base feito pelos clubes,
a maioria com grandes sacrifícios,
despesas cada vez maiores e quase sem nenhum
reconhecimento por parte da entidade máxima
de nosso futebol. Não me canso de repetir:
sem clube não haveria Seleção,
não haveria título. E isto não
vale só para o futebol. Vale também
para o basquete, o vôlei, o handebol
e por aí afora.
E nesta Seleção dirigida com
a maior competência pelo técnico
do Flamengo, Marcos Paquetá, nada menos
do que sete jogadores são do futebol
do Rio de Janeiro: o goleiro Marcelo (Flamengo),
o lateral -direito Léo (Flamengo),
o zagueiro Marlon (Flamengo), o cabeça-de-
área Júnior (Vasco), os apoiadores
Arouca e Juliano (Fluminense) e o atacante
Hugo (Botafogo).
Não quero polemizar nem provar nada,
mas que isso não é sintoma de
decadência não é mesmo.
Ao contrário, é sinal de que
o futebol do Rio de Janeiro segue sendo um
dos celeiros de craques que acabam honrando
a famosa camisa verde-amarela da Seleção,
ajudando-a a se manter no mais alto lugar
dos pódios e de todos os rankings.
Uma história que começou em
1958, nos campos da Suécia, tendo à
frente os geniais Garrincha e Pelé.
Por falar nisso, a Federação
de Futebol do Rio de Janeiro, o seu presidente
Eduardo Viana, e também os presidentes
dos outros clubes, principalmente os grandes,
têm a obrigação de não
ficar parados, olhando a banda passar, assistindo
como se não fosse com eles o drama
porque passa o Bangu.
O grande Bangu de Domingos e Ademir da Guia,
de Zizinho, Zózimo, Parada, Paulo Borges,
Mauro Galvão e muitos outros craques
atravessa o pior momento de sua gloriosa existência
de 99 anos. Está à beira da
extinção. E isso será
mais um golpe profundo no futebol do Rio de
Janeiro. Ainda é muito recente a situação
de penúria vivida pelo América,
outro clube quase centenário e, como
o Bangu, parte do que há de mais rico
na história de nosso futebol.
Estamos já nos aproximando do fim de
mais um ano, os clubes passando por situações
críticas, endividados, tendo de disputar
um campeonato que não vem tendo o mínimo
retorno financeiro, em parte pelo mau desempenho
dos times. Como pode um Campeonato Brasileiro
ter, num domingo, no Maracanã, pouco
mais de dez mil heróis assistindo a
um Flamengo x Corinthians?
O que já aconteceu com o Fluminense
duas vezes e uma vez com o Botafogo parece
que não deu para abrir os olhos dos
dirigentes. Será que vai ser preciso
um Bangu morrer para que eles façam
enfim o seu mea- culpa, se unam, debatam os
problemas, sentem-se à mesa com a televisão
(Rede Globo) e a CBF e façam valer
a sua força?
Quem avisa amigo é. Futebol de poltrona,
só com torcedor de olho na telinha,
sem ânimo para ir aos estádios,
vibrar e sofrer por seu clube, sua paixão,
será o caminho mais curto para o futebol
brasileiro, mais cedo do que alguns supõem,
despencar do alto do pódio.
Texto:
José Antonio Gerheim
Fonte: Jornal dos Sports (Passe Livre), 01/09/2003.