O
Bangu viveu dois contos de fadas em 1985.
O primeiro ocorreu logo no início do
ano e envolvia uma vultosa herança
deixada por um apaixonado torcedor. O segundo,
aconteceu em julho, na final do Campeonato
Brasileiro, quando perdemos para o Coritiba.
O caso da herança merece um destaque
especial. No dia 21 de dezembro de 1984, o
matemático Luiz Oswaldo Teixeira da
Silva, 65 anos, professor catedrático
da Universidade Federal Fluminense (UFF) e
do Instituto Militar de Engenharia (IME),
faleceu, deixando uma herança a ser
dividida entre o Bangu Atlético Clube,
a Casa São Luiz para a Velhice e mais
sete pessoas.
O professor vivia em um sobrado da rua Alfredo
Gomes, em Botafogo. Era filho de um comerciante
muito conhecido no bairro, que lhe deixou
uma boa herança. Foi também
herdeiro de sua mãe e de uma tia solteira.
Durante o dia, seu casarão ficava entregue
a vinte gatos e a uma empregada.
Torcedor apaixonado, Luiz Oswaldo não
era conhecido em Moça Bonita, mas fazia
questão de assistir aos jogos do Bangu
no Maracanã e às vezes chegava
a passar mal durante quando o resultado não
lhe era favorável. Em sua casa, o único
sinal de que torcia pelo alvirrubro era uma
flâmula e uma foto do time campeão
de 1966.
O
Jornal do Brasil, de 01 de fevereiro de 1985,
chegou a anunciar que o Bangu receberia a
fabulosa quantia de 140 milhões de
dólares. Castor de Andrade passou a
falar em obras de ampliação
no Estádio Proletário e a pretensão
de contratar craques como Zico, Sócrates
e até mesmo Maradona. O chargista Ique
chegou a desenhar o nosso Patrono ao telefone
fazendo o seguinte pedido: "Embrulha
aí pra presente: quatro Zicos, um Maradona,
três Sócrates...".
A herança nunca chegou aos cofres do
Bangu. Familiares de Luiz Oswaldo entraram
na Justiça impedindo que tal quantia,
aplicada pelo professor na bolsa de valores,
não poderia ir para um clube de futebol.
Por fim, o advogado banguense Humberto Gaze,
irmão do ex-presidente Elias José
Gaze, divulgou que teríamos direito
a 1,5 milhão de dólares. O jornal
O Globo, de 19 de janeiro de 1987 publicou:
"Já se passaram quase dois anos
do anúncio da herança, mas tudo
indica que agora, depois de muitos retrocessos
e confusões, o clube poderá
receber a fortuna que lhe foi legada: cerca
de 100 milhões de Cruzados, entre títulos,
ações e imóveis".
Em outra edição de O Globo,
no dia 16 de junho de 1987, a herança
já tinha caído para 50 milhões
de Cruzados, e os dirigentes do Bangu falavam
apenas em construir uma vila olímpica.
Segundo o jornal: "A vila olímpica
terá piscinas, quadras de tênis,
pistas de atletismo, além de dois campos
de futebol. A construção de
uma ampla concentração no complexo
esportivo, em substituição à
Toca do Castor, também não está
descartada".
Tudo em vão, a herança do professor
Luiz Oswaldo Teixeira da Silva tornou-se um
conto de fadas, sem final feliz. O último
presidente a se pronunciar sobre o caso foi
Rubens Lopes, em 1999: "Isso foi tudo
estória. O Bangu nunca viu a cor deste
dinheiro".
Ontem, dia 4 de setembro de 2003, 19 anos
após a morte do professor, o tal cofre
milionário foi aberto e o resultado
pode ser lido na matéria publicada
pelo Jornal dos Sports. Não tinha esperanças
de encontrar mais do que ações
de empresas já falidas, como a Mesbla
e a Sears, mas o resultado me surpreendeu.
Pela reportagem, cabe ao Bangu algumas quitinetes,
bem no estilo cortiço, na Lapa, que
ainda terá que ser dividido com a Casa
São Luiz para a Velhice. Não
creio que a venda destes imóveis traga
receita significativa ao Bangu, mas sugiro
que estes muquifos sejam utilizados para pagarmos
a dívida trabalhista com a ex-funcionária
Sônia Regina dos Santos, que acionou
o clube na Justiça e hoje tem direito
a receber 150 mil reais.
Entendo que, se o Bangu esperou 18 anos para
receber a "herança", a Dona
Sônia deveria dar-se por contente em
ganhar esta causa no "curto" prazo
de 12 anos. Isso impediria o desastroso leilão
do Parque Aquático, inaugurado em 1948
e comprado pelo Bangu Atlético Clube
junto à Companhia Progresso Industrial
do Brasil na década de 70. Apesar de
não crer que venha a aparecer comprador
para o complexo desportivo banguense, não
há lógica em se vender um patrimônio
de mais de 1 milhão de reais para pagarmos
esta senhora.
O Bangu não pode mais ser visto como
a "casa da mãe Joana". É
preciso um compromisso sério para evitar
que quimeras como esta suscitem a tão
falada, tão odiada e espero eu, tão
distante, falência completa do clube
que tanto amamos.
Texto:
Carlos Molinari, 23, é Produtor Executivo
do Departamento de Telejornalismo da Radiobrás,
em Brasília, 05/09/2003.