O QUE FIZEMOS?
Uma
onda de nostalgia, um mar de saudades. Impressionante
como todos nós sentimos falta dos bons
tempos do futebol carioca - e ainda assim
nada se consegue fazer para afastar do poder
os carrapatos que sugaram todo o seu sangue
nas últimas décadas. O estopim
do movimento - que surgiu através de
inúmeros e-mails - foi a última
coluna, lembrando a final da Taça Brasil
de 1966.
São rubro-negros lembrando os tempos
que vão de Zizinho a Zico, Júnior,
Carpegianni etc; tricolores clamando pelas
épocas de Félix, Samarone, Flávio,
Lula, Rivelino, Romerito, Branco, Assis e
tantos outros; vascaínos que não
se esquecem das glórias de Ademir Marques
de Menezes a Roberto Dinamite, Romário
e Cia. e alvinegros saudosos daqueles timaços
com Garrincha, Nílton Santos, Gerson,
Jairzinho, Paulo César e que tais.
Como pudemos deixar que se chegasse ao ponto
que chegamos? Por que deixamos que nos roubassem
(literalmente) algumas de nossas maiores alegrias
- e prazeres?
***
Um
e-mail me tocou em especial, por representativo
de como as coisas mudaram por aqui. Com a
palavra, Carlos Molinari:
"Muito boa a sua crônica de hoje
trazendo aos leitores mais novos a finalíssima
entre Santos e Cruzeiro pela Taça Brasil
de 1966. Melhor ainda foi a lembrança
dos dois grandes esquadrões cariocas
da década de 60: o Botafogo e o Bangu,
bancado pelo pai de Castor de Andrade, 'seu'
Euzébio, e que trazia feras como você
citou: Paulo Borges, Bianchini, Parada e Aladim,
além de craques como Ubirajara no gol,
Cabralzinho no ataque, Roberto Pinto no meio,
Fidélis na lateral".
"Esse Bangu dos dias de hoje, que a moçada
mais nova mal conhece, não é
nem a sombra do Bangu da década de
60".
"Um bom exemplo aconteceu no início
de 1967, quando foi realizado, no Mineirão,
o Torneio dos Campeões - quem vencesse
seria o Campeão dos Campeões
do Brasil".
"E lá estavam o Cruzeiro, campeão
mineiro e da Taça Brasil; o Palmeiras,
campeão paulista; o Bangu, campeão
carioca, e o Atlético Mineiro - para
dar renda".
"Na primeira partida após o título
da Taça Brasil (os dois históricos
jogos contra o Santos que você lembrou
em sua última coluna) o Cruzeiro estreou
no quadrangular contra os campeões
cariocas. E sabe quanto foi
este confronto? Bangu 2 a 0".
"Na final, o time de Moça Bonita
pegou o Atlético - que tinha eliminado
o Palmeiras, por 3 a 1. Como houve empate
de 2 a 2, os cariocas ficaram com o título,
pelo goal average".
"O time base do Bangu na conquista: Ubirajara,
Fidélis, Mário Tito, Luís
Alberto e Pedrinho; Jaime e Ocimar; Paulo
Borges, Cabralzinho, Norberto e Aladim".
***
É,
amigos mais jovens, o futebol carioca tinha
seis grandes clubes. Pois além do Bangu
e dos quatro mais famosos (Flamengo, Fluminense,
Botafogo e Vasco), havia ainda o simpaticíssimo
América - o segundo time de todos que
não fossem americanos.
Quando comecei no jornalismo, em 1976, cobrindo
justamente o Ameriquinha, no Andaraí,
olha só o esquadrão que envergava
a camisa rubra: País, Orlando Lelé,
Alex, Geraldo e Álvaro; Ivo, Renato
(irmão de Amarildo) e Bráulio;
Flecha, Luizinho Tombo e Gílson Nunes.
Era um timaço!
***
Foi
do América também um dos mais
talentosos jogadores que vi jogar: Eduzinho,
o irmão de Zico. Meu Deus, como jogava
o Edu! Até hoje há quem diga
que, em seus bons tempos, era melhor que o
Galo.
Não chego a tanto mas, ainda como torcedor,
me cansei de ver Edu e seu irmão Antunes
entortarem várias vezes zagas do Flamengo
formadas por Ditão, Onça, Itamar,
Guilherme, Manicera (já em final de
carreira) e
outros tantos.
O "Pequeno Polegar" era mesmo infernal!
***
Hoje
em dia costuma-se festejar públicos
de 40 mil torcedores como "casa cheia"
no Maracanã. Pois saibam os mais novos
que assisti a vários Flamengo x América
com 100 mil pessoas nos tempos do "Maior
e mais belo estádio do Mundo".
Hoje em dia o Maraca nem é mais o maior
e muito menos o mais bonito...
Texto:
Renato Mauricio Prado, publicado no Jornal
O Globo, em 21/09/2003.