Domingos
da Guia, maior zagueiro brasileiro de todos
os tempos, ganha, finalmente, um livro biográfico,
cinco anos depois de sua morte. Por ironia,
quem conta a história do "Divino"
é um autor inglês.
Já
disseram que o brasileiro não tem memória.
A afirmativa pode não ser cem por cento
verdadeira, principalmente em se tratando
de futebol. Motivo de discussões acaloradas,
o esporte mais popular do país é
um poço de referências históricas.
Ou algum brasileiro consegue esquecer as proezas
de Garrincha, de Pelé, ou o sofrimento
nos pés de Paolo Rossi, ou ainda, os
gols de Zico e Roberto Dinamite? Entretanto,
os craques de um período pré-televisão
ficam, na maioria das vezes, esquecidos. Zizinho,
Leônidas da Silva, Fausto dos Santos,
Friedenreich e Domingos da Guia são
nomes de peso no nosso futebol, mas marginalizados
no atual contexto.
Justamente para relembrar aos próprios
brasileiros a importância de Domingos
da Guia - considerado pelos especialistas
o melhor zagueiro do país em todos
os tempos - é que um autor inglês
correu atrás e escreveu a biografia
de Domingos da Guia, após uma árdua
pesquisa de cinco anos. O autor é o
britânico Aidan Hamilton - um inglês
radicado no Rio de Janeiro - que trocou o
cinzento clima londrino pelo sol da Zona Sul
carioca. Apaixonado não somente pela
cidade, mas pelo futebol, Aidan não
é um estreante. Em 2001, lançou
o livro "Um jogo inteiramente diferente
- Futebol: a maestria brasileira de um legado
britânico", que conta a influência
dos imigrantes ingleses no início do
futebol nacional. A obra, publicada pela Editora
Gryffus, é uma excelente referência
para quem quer entender os primórdios
do esporte no país.
Agora, também pela Editora Gryffus
- uma ramificação da Editora
Forense -, Aidan está colocando nas
livrarias "Domingos da Guia - O Divino
Mestre", uma obra de 334 páginas
e que demorou cinco anos para ser concluída
e é extremamente minuciosa em detalhes,
buscando sempre a opinião de atletas
que tiveram o prazer de jogar com o craque,
de seu filho Ademir da Guia e de cronistas
da época que escreviam nos jornais
sobre o melhor zagueiro de todos os tempos.
Domingos fez carreira entre 1929 e 1949 e
é uma lenda viva em todos os clubes
pelo qual passou - Bangu, Vasco, Nacional
de Montevidéu, Boca Juniors, Flamengo
e Corinthians, além de ter participado
com destaque da Copa do Mundo de 1938, na
França.
O lançamento oficial do livro é
neste sábado, dia 16 de abril, ao lado
da estátua de Da Guia, em pleno calçadão
de Bangu. E o melhor: seu filho, Ademir, estará
presente ao evento.
Segundo Aidan Hamilton, "Domingos é
um atleta único. Ele foi tricampeão
sul-americano em três países
diferentes. Em 1933, ganhou o campeonato uruguaio
com o Nacional. Em 1934, levantou o Campeonato
Carioca com o Vasco.
E em 1935, ajudou o Boca Juniors a se tornar
campeão argentino". Esse feito
exclusivo é o que levou o pesquisador
inglês a se interessar pela carreira
de um jogador que ele sequer viu jogar. "Tive
alguns contatos com Domingos antes de ele
morrer, mas infelizmente ele já não
se lembrava mais nada de sua época,
por isso tive que reconstituir toda sua história
através de uma longa pesquisa em jornais
e revistas".
Quem foi Domingos?
Era uma época em que o manual do bom
zagueiro recomendava que a bola deveria ser
espanada o mais rápido possível
das imediações da área.
Habilidoso e estilista, Domingos da Guia fazia
as coisas a seu modo. Protegia a bola com
categoria e saía com ela sem temer
os atacantes, driblando os que aparecessem
pelo caminho. A ousada jogada era a sua marca
registrada e passou a ser conhecida como "domingada".
O jeitão abusado de Domingos encontra
explicação na várzea
de Bangu, subúrbio do Rio de Janeiro.
Desde criança exibia um talento incomum
para um becão. Sair driblando em plena
área era, então, uma conseqüência
natural para alguém como Domingos.
A fama de rei das peladas logo o levou para
a categoria de base do clube local. Sua primeira
partida como jogador profissional, defendendo
as cores da equipe principal do Bangu aconteceu
em 28 de abril de 1929, contra o Flamengo.
O time de Moça Bonita bateu o rubro-negro
por 3 x 1. Os dirigentes do Vasco da Gama
viram o show e foram mais rápidos,
contratando-o. Seu futebol era tão
espetacular que, aos 18 anos, ele já
estava na Seleção Brasileira.
Recebeu propostas de muitos clubes e preferiu
o Nacional, do Uruguai. Aos 20 anos, já
era chamado de "El Divino Mestre",
apelido dado pelos uruguaios. Passou depois
por Vasco, Boca Juniors e ganhou três
estaduais no Flamengo. O lance mais discutido
de sua carreira, no entanto, aconteceu durante
as semifinais da Copa do Mundo da França,
em 1938. A Seleção perdia por
1 x 0 para a Itália, mas pressionava
o adversário em busca do empate. Aos
17 minutos do segundo tempo, veio o golpe
fatal. O italiano Piola provocou e Domingos
da Guia cometeu um pênalti infantil
que custou a eliminação brasileira.
Ficha completa
Nome: Domingos
Antônio da Guia
Nascimento/morte:
Rio de Janeiro, RJ, 19/11 /1911; Rio de Janeiro,
RJ, 18/5/2000
Posição:
Zagueiro
Clubes em que jogou:
Bangu (1929 a 1931, 1948 a 1949), Vasco
da Gama (1932 e 1934), Nacional-URU (1933),
Boca Juniors-ARG (1935 a 1936), Flamengo (1936
a 1943) e Corinthians (1944 a 1947)
Títulos:
Campeão uruguaio (1933) pelo Nacional;
carioca (1934) pelo Vasco; argentino (1935)
pelo Boca Juniors; carioca (1939, 1942 e 1943)
pelo Flamengo. Texto:
Carlos Molinari.