Sinceramente,
já não consigo nem mais ouvir
falar de Fluminense e Volta Redonda. Ao constatar
a pobreza do noticiário dos últimos
dias, com declarações óbvias
e maçantes (tá duro ficar ouvindo
as pérolas de Dário Lourenço
e Abel Braga e essa tediosa guerra de nervos
de quem é favorito quem não
é, quem tá contando vantagem
quem não está), tomei uma decisão:
só volto a pensar no jogo na hora em
que a bola começar a rolar. Ou seja:
às 16 horas deste domingo.
Por isso, vou me deter hoje a comentar sobre....
arte. Sim, vou falar de quem transformou o
ofício do futebol numa manifestação
essencialmente artística. Refiro-me
a Domingos da Guia (foto), que poderá
ser mais conhecido pelas novas gerações
(assim espero) a partir da biografia que o
jornalista inglês radicado no Brasil
Aidan Hamilton estará lançando,
neste sábado, às 10 horas, na
Avenida Cônego de Vasconcellos, em Bangu,
no calçadão que leva o nome
do craque (o livro chama-se "Domingos
da Guia, O Divino Mestre", 250 páginas
e editado pela Gryphus).
Recomendo vivamente a leitura da obra, principalmente
para essa rapaziada habituada a pseudo-ídolos
que infestam nossos gramados (os conhecidos
bad e bobosboys), porque em Domingos podemos
encontrar as verdadeiras virtudes de um ídolo
na sua plenitude. Apesar de ter sido um fora-de-série,
reverenciado por escritores (Augusto Frederico
Schmidt contava que Domingos era tão
inteligente quanto o pensador alemão
Göethe; o romancista Otávio de
Faria afirmava que o futebol do Divino tinha
a harmonia das composições de
Mozart) e companheiros (o craque Tim, conhecido
pelos dribles curtos e secos, dizia que era
impossível passar por Da Guia, tal
o seu senso de colocação), Domingos
era um homem de alma extremamente simples.
Capaz de, depois de ter sido campeão
na Argentina, pelo Boca Juniores, recusar
o prêmio de uma viagem de férias
à Europa ofertado pelo presidente do
clube. Preferiu estar em Bangu, com os familiares
e amigos.
Sofisticado era tão-somente o seu futebol
que o levou, por exemplo, a ser campeão
por três anos seguidos em três
países diferentes (por Nacional, do
Uruguai, em 1933; Vasco, em 1934; e Boca,
em 1935, na Argentina). Quando jogava pela
Seleção Brasileira nesses países,
muita gente ia aos estádios só
para contemplar a sua performance.
A dimensão do seu futebol realmente
atravessou fronteiras num tempo em que as
comunicações ainda engatinhavam.
O Rádio, é verdade, começava
a viver o seu auge, mas Tevê nem existia.
O escritor uruguaio Eduardo Galeano diz: "A
Leste, a muralha da China; a Oeste, Domingos
da Guia. Nunca houve zagueiro mais sólido
na história do futebol mundial."
Além disso, a cor negra de sua pele
ajudou a dar uma nova feição
ao futebol naqueles tempos ainda românticos.
Foram nos anos 30 que, ao lado de Leônidas
e Fausto, A Maravilha Negra, o craque rompeu
de vez com preconceitos que ainda viam o esporte
bretão como uma atividade para brancos.
Assim, o futebol brasileiro ganhou ginga,
molejo, virou arte. Plasmava-se a nossa história
de melhores do mundo.
Domingos da Guia morreu em 2000, aos 87 anos,
deixando um legado que representa a alma do
verdadeiro futebol brasileiro. Por tudo isso,
o trabalho de Aidan é leitura mais
que obrigatória. É impositiva. Texto:
Roberto Sander.
Fonte: Coluna Toque de Efeito, publicada no
Jornal dos Sports, em 14/04/2005.