RETRATO
CRUEL E SEM RETOQUE
A
curiosidade, aliada ao prazer de reviver áureos
tempos do futebol do Rio de Janeiro, levou-me
sábado à tarde ao simpático
estádio de Moça Bonita, onde
o outrora grande Bangu iria jogar uma partida
chave pelo Campeonato Estadual da Segunda
Divisão, contra o Nova Iguaçu,
um time que tem como seu maior destaque e
líder Zinho, um tetracampeão
mundial, titular da Seleção
Brasileira de 1994. Um profissional exemplar,
campeão pelo Flamengo, pelo Cruzeiro
e o idealizador do projeto, objetivo, prestes
a ser alcançado, que é o de
levar o Nova Iguaçu à Primeira
Divisão do Rio de Janeiro.
Se o Nova Iguaçu, que empatou o jogo
e se manteve na liderança do quadrangular
decisivo do campeonato, confirmando o trabalho
que lá vem sendo feito e inclusive
já revelou para o futebol o excelente
Deivid, atualmente no Santos, me dá
esperança, o Bangu, ao contrário,
só me faz sofrer. Não tanto
pelo time, modesto, mas lutador, mas pela
situação em que se encontra
o clube.
Empobrecido, isolado, o Bangu parece um daqueles
velhos templos em ruínas, um santuário
decadente, retrato empoeirado e envelhecido
pelo tempo, uma página amarela quase
que definitivamente virada e perdida na poeira
da história. História que já
teve páginas escritas em letras de
ouro, por craques e ídolos que vestiram
e honraram sua linda camisa branca e vermelha:
Domingos e Ademir da Guia, Zizinho, os zagueiros
Mendonça e Zózimo, este titular
bicampeão mundial no Chile, em 1962,
seu irmão Calazans, Parada, Bianchini,
Paulo Borges, Fidélis, Cabralzinho,
Mauro Galvão, Marinho, Paulinho Criciúma
e tantos outros.
A desolação de ver o Bangu logo
me transportou para o América de meu
companheiro de viagem Newton Zarani, que,
por sinal, está cobrindo com seu conhecimento
e sua dedicação o campeonato
que vai apontar quem subirá em 2006
para ocupar o lugar do Olaria, outro clube
tradicional do Rio de Janeiro, rebaixado este
ano. Tudo isso me fez pensar e temer muito
pelo quadro atual do futebol de nosso estado.
Quem, torcedor apaixonado ou profissional
consciente do que representa na história
do futebol brasileiro o futebol do Rio de
Janeiro, pode estar dormindo tranqüilo
com a realidade de nossos quatro grandes clubes,
que já foram seis?
Dá para ficar calado e conformado com
o Vasco se afundando na zona de rebaixamento,
escalando um time que não condiz com
sua trajetória no futebol brasileiro,
sofrendo derrotas como a de sábado
para o Goiás, um resultado que o time
goiano jamais havia conseguido em São
Januário?
Será esse o Vasco, o grande Vasco,
clube que sempre se orgulhou de ser um templo
da democracia e na vã tentativa de
esconder e camuflar suas atuais dificuldades
tenta impor a lei do silêncio, em vez
de enfrentar os problemas de frente, de buscar
as soluções que não só
ele, Vasco, necessita encontrar urgentemente,
mas também o Botafogo, Fluminens e
o Flamengo, que ontem passou a integrar a
lista dos quatro rebaixados se o campeonato
terminasse hoje.
Sim, porque quem está num momento de
grave crise é o futebol do Rio como
um todo. O empobrecimento acelerado dos clubes
é resultado de estruturas envelhecidas,
ultrapassadas historicamente e que necessitam
ser imediatamente revistas para que não
ocorra com eles o que já ocorreu com
Bangu e América.
Hoje, Botafogo, Flamengo, Fluminense e Vasco
terão na simbólica sede das
Laranjeiras, motivados pela discussão
do projeto da Timemania, a oportunidade de
iniciarem um debate honesto que os leve a
se unirem no objetivo de retocar o velho retrato
do futebol do Rio de Janeiro com todas as
cores e recursos do futebol moderno, da era
do marketing e da televisão.
Texto:
José Antonio Gerheim.
Fonte: Coluna Passe Livre, publicada no Jornal
dos Sports, em 04/07/2005.