Nesse
domingo sem futebol no Rio de Janeiro, o Jornal
dos Sports, para não deixar a bola
cair, resgata a lembrança de tempos
inesquecíveis para o torcedor carioca.
Com base na opinião do nosso time de
editores e colunistas, agora reforçado
por ninguém menos que Luiz Mendes,
escalamos a seleção de todos
os tempos dos principais clubes da cidade.
É um farto material para o debate dos
torcedores que estarão acompanhando
o jogo da Seleção Brasileira,
que, em outras épocas, teria como palco
o Maracanã, hoje fechado para obras.
É sabido que a força de uma
nação vem da sua capacidade
de valorizar e preservar a sua história.
Não temos dúvida de que o mesmo
se dá com o esporte. E, nesse sentido,
o JS cumpre um papel fundamental nesses seus
74 anos de existência. O leitor encontrará
as seleções dos quatro grandes
do Rio nas páginas que trazem o noticiário
de Fluminense, Flamengo, Vasco e Botafogo.
Abaixo, uma homenagem a outros clubes que
marcaram época, mas que ao longo do
tempo acabaram perdendo a sua força.
Trazemos, portanto, também o melhor
de todos os tempos de América e Bangu
e ainda o time do São Cristóvão
campeão carioca de 1926. Para completar,
quatro momentos históricos que ajudaram
a transformar os grandes clubes cariocas nos
mais populares de todo o país.
No Fla-Flu da Lagoa, o título dos
títulos
O
título de bicampeão carioca
de 1941, conquistado pelo Fluminense no lendário
Fla-Flu da Lagoa, ganha em importância
por ter reforçado de forma definitiva
e irreversível a mística do
clássico mais tradicional do futebol
brasileiro, o que se deve, e muito, ao talento
de Mário Filho. Criador do moderno
jornalismo esportivo, Mário fez desse
clássico um capítulo à
parte em qualquer antologia futebolística,
algo como uma odisséia de dimensões
bíblicas. Rubro-negro assumido, ele
descreveu em diversas crônicas as peripécias
de Carreiro, os dribles de Romeu, as defesas
de Batatais, a luta do artilheiro rubro-negro
Pirillo para evitar a derrota (o empate teve
esse significado) e o episódio das
bolas chutadas para a Lagoa Rodrigo de Freitas
pelos jogadores do Fluminense para ganhar
tempo depois que o Flamengo empatou o jogo
em que era vencido por 2 a 0. O placar de
2 a 2 deu o título ao Fluminense, que,
nessa época, tinha nada menos que cinco
jogadores titulares da Seleção
Brasileira.
O Tricampeonato de Dida & Cia
Por
ter garantido o primeiro tricampeonato do
Flamengo da era Maracanã (o outro foi
em 42/44/45), o título de 1955, disputado
em três turnos e decidido apenas em
1956, tem um sabor especial para os rubro-negros.
Aquela equipe reunia craques emblemáticos
que marcaram várias gerações
de torcedores eles ajudaram de forma
inexorável a sedimentar a enorme popularidade
do clube. Eram tempos de Dequinha, Evaristo,
Rubens, Zagallo e Dida, que acabaria por se
transformar no maior ídolo de ninguém
menos que Zico. Na campanha de 30 jogos, o
time conquistou 21 vitórias, marcando
87 gols. Na série decisiva com o América
de craques como Pompéia, Édson
e Canário, o Flamengo venceu o primeiro
jogo por 1 a 0, gol de Evaristo, mas perdeu
o segundo por incríveis 5 a 1, o que
comprovava a força do adversário.
Na última partida, o Flamengo se superou
e, mais do que nunca, se mostrou Flamengo.
Devolveu a goleada com o convincente placar
de 4 a 1. Nesse jogo, Dida se exibiu em grande
estilo: marcou três gols, sendo merecidamente
considerado o grande herói da conquista.
O show de Garrincha e Paulo Valentim
O
primeiro título do Botafogo no Maracanã
teve a marca de um gênio do futebol:
Garrincha. Aos 26 anos, ele estava no auge
da carreira e foi decisivo como nunca até
então. Mas aquele Botafogo não
era só Garrincha. Era também
Nilton Santos, Didi, Quarentinha, Paulo Valentim,
e tantos outros. E a síntese do futebol
de todos esses craques veio à tona
naquela histórica final contra o Fluminense,
um adversário de respeito, que tinha
nas suas linhas nomes como o de Castilho,
Pinheiro, Valdo e Telê. Desde 1948 sem
conquistar um Campeonato Carioca, o Botafogo
parecia em estado de graça naquela
tarde de 22 de dezembro. Às vésperas
do Natal, já no primeiro tempo, presentearia
a torcida alvinegra com a vantagem de 3 a
0. No segundo tempo, prosseguiu massacrando
o adversário, chegando ao placar de
6 a 2, com cinco gols de Paulo Valentim e
um de Garrincha, que deu um show inesquecível.
João Saldanha era o técnico
da equipe. Posteriormente, ele diria: "Não
costumo me emocionar com o futebol, mas nesse
dia o Botafogo me tirou do sério."
O único Supersupercampeão
da história
Para
muitos, o Carioca de 1958 foi o mais emocionante
e equilibrado de todos os tempos. No clima
da vitória no Mundial da Suécia
(o campeonato teve início apenas duas
semanas depois da conquista de Pelé,
Garrincha & Cia.), Flamengo, Vasco e Botafogo
somaram o mesmo número de pontos nos
dois turnos disputados. Assim, as três
equipes foram para o desempate jogando entre
si. No chamado Supercampeonato, cada uma venceu
um jogo e, com isso, foram para a disputa
do chamado Supersupercampeonato. O Botafogo,
o favorito, tinha Nilton Santos, Didi, Garrincha
e Quarentinha; o Flamengo Dequinha, Moacir,
Dida e Babá; e o Vasco, que não
ficava atrás em matéria de craques,
exibia, entre outros, Bellini, Orlando Peçanha,
Sabará e Pinga. Na primeira partida,
o Vasco derrotou esse poderoso Botafogo por
2 a 1, com dois gols de Pinga. Depois, um
empate de 1 a 1 com o Flamengo, com um gol
de Roberto Pinto, foi suficiente para garantir
o título histórico. Coincidentemente,
só em 70, quando o Brasil garantiu
o Tri, o Vasco voltou a ser campeão.
O maior ídolo Rubro
Edu
é o maior símbolo da história
do América. Ele defendeu o clube de
1962 até 1974 e é até
hoje o seu maior artilheiro com 212 gols.
Para muitos, foi tão bom quanto o irmão
Zico. Com apenas 1,64 de altura, enfrentava
os zagueiros adversários com destemor,
pois muitas vezes era vítima da violência.
Mas nada o detinha. Era um atacante de muita
habilidade, que se caracterizava pelos dribles
curtos, passes precisos e chutes bem colocados.
Depois de deixar o América jogou no
Vasco, Flamengo (onde, inclusive, jogou com
Zico), Bahia, Colorado e Joinville. Em 1969,
foi o maior artilheiro do Brasil e para muita
gente merecia uma vaga na Seleção
de 70.
O Risadinha fez a Moça sorrir
A
simpatia de Paulo Borges lhe rendeu o carinhoso
apelido de 'Risadinha'. Ponta-direita típico,
fez sucesso no Bangu, onde jogou de 1962 a
1967, com um futebol incisivo, de muitos dribles
e jogadas de linha de fundo. Participou do
histórico time de 1966, campeão
carioca em cima do Flamengo com um
gol de Paulo Borges, a equipe de Moça
Bonita venceu por 3 a 0. Foi vendido para
o Corinthians em 1968 por uma quantia recorde,
pois era considerado, naquele momento, o maior
ponta-direita da América do Sul. Nesse
mesmo ano, foi o principal responsável
pelo fim de um jejum de 10 anos sem vitórias
do Timão sobre o Santos.
O MELHOR DO BANGU: Ubirajara, Fidélis,
Mário Tito, Zózimo, Médio,
Moacir Bueno, Zizinho, Mendonça, Paulo
Borges, Cabralzinho e Aladim.
Um romântico campeão
Imaginem
um campeonato em que o São Cristóvão
vence o Flamengo por 5 a 0 e 5 a 1, o Botafogo
por 6 a 3 e o Fluminense por 4 a 2. Parece
algo impossível? Hoje em dia com certeza,
mas em 1926, nos tempos românticos do
futebol, isso aconteceu. Esse foi o único
título do São Cristovão
em toda a sua história, num ano em
que ocorreram mudanças na regra de
jogo que prevalecem até os tempos atuais:
começou a valer o gol olímpico
e, para que fosse caracterizado o impedimento,
passou a ser necessário que apenas
dois, em vez de três jogadores, estivessem
entre quem recebe a bola e a linha de fundo
do adversário. Naquele momento de transformações,
o São Cristovão montou um time
aguerrido, que priorizou a preparação
física e, assim, passou por cima dos
favoritos.
Texto:
Roberto Sander.
Fonte: Coluna publicada no Jornal dos Sports,
em 04/09/2005.