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ZIZINHO
Há
quatro anos, na madrugada de 8 de fevereiro
de 2002, morria, em Niterói, aos 80 anos,
um dos maiores nomes do futebol brasileiro,
ídolo do Flamengo, do Bangu e do São
Paulo
Dizer
que Zizinho inventou o drible em ziguezague,
aquele em que o atacante serpenteia por entre
os beques inimigos, ora pela esquerda, ora pela
direita, tocando a bola, gingando o corpo, sempre
no rumo vertical do gol; dizer, pois, que Zizinho
patenteou o drible em ziguezague seria atribuir,
a um divino criador, a autoria de algo que sempre
pertenceu ao domínio público.
Seu mérito indiscutível foi o
de ter conferido nobreza e eficiência
a uma jogada tão vistosa quanto difícil,
empolgante, mas na maioria das vezes improdutiva.
Não por acaso, entrou para a história
do futebol brasileiro como Mestre Ziza.
Enfeitiçado pela magia dos pés
daquele mulato magro de apenas 1,70m, assim
mesmo um tormento para os corpulentos beques
europeus que aqui disputavam a Copa do Mundo,
o jornalista inglês Willy Meisl enviou
um emocionado despacho para o semanário
World Sports. O Brasil acabava de vencer a Iugoslávia
(2 x 0) no dia 1º de julho, no Maracanã,
e um trecho do telegrama afirmava ao mundo:
"Não se trata apenas de um craque,
dos muitos que andam espalhados pelo mundo.
Este é um gênio, um homem que possui
todas as qualidades que podem ser idealizadas
para um profissional chegar mais próximo
da perfeição".
Era a pátria do futebol admitindo, quem
sabe pela primeira vez, o talento de um nativo
de outro continente. Ao lado, portanto, de portentosas
legendas como Wright, Finney, Swift e Hardwick
- ídolos de uma Inglaterra que pela primeira
vez se apresentava numa Copa do Mundo -, emergia
um Zizinho que sequer era nome próprio.
Àqueles tempos gloriosos em que o sol
jamais se punha em todo o império britânico,
isso soava tão exótico quanto
aceitar a idéia de instalar o volante
do carro à esquerda.
Que um italiano assumisse tal encantamento era
óbvio e cristalino. Após presenciar
o massacre sobre a Espanha (6 x 1) no Maracanã,
no dia 13 de julho, o enviado do milanês
Gazetta dello Sport, Giordano Fattori, exortou:
"O maestro da esquadra maravilhosa. O futebol
de Zizinho me faz recordar Da Vinci pintando
alguma coisa rara".
Quando as imagens do passado se diluem num horizonte
em que ficção e realidade são
indivisíveis - por obra da humana condição
de cultivar seus próprios mitos - torna-se
também difícil o exercício
da reconstituição histórica.
Porque, especialmente no universo mágico
do futebol, palavras são traiçoeiras.
Nem Zizinho resiste a uma comparação
com Da Vinci, nem seu gênio será
merecidamente exaltado.
Numa manhã de outubro de 1939, ele apresentou-se
a um auxiliar do técnico Flávio
Costa, na Gávea. Por um notável
acaso, o intocável Leônidas da
Silva estava ausente. Flávio o examinou
de alto a baixo, cruzou os braços sobre
o peito, como majestosamente apreciava fazer,
e ordenou: "O senhor de cabelo gomado.
Sim, o senhor mesmo. Eu lhe dou dez minutos
para roubar o lugar de Leônidas".
Um desafio. Acabara de completar 18 anos no
dia14 de setembro, decidido a fazer carreira
de conferente no Lóide Brasileiro. Duas
experiências anteriores o tinham frustrado
a tal ponto que, morador em Niterói,
jurara nunca mais botar os pés do outro
lado da Baía de Guanabara. A primeira
acontecera na rua Campos Sales, bairro da Tijuca,
sede do time de seu coração. O
amigo Clóvis - que viria a ser pai de
um dos mais competentes armadores do país,
o canhotinha Gérson - fez questão
de levá-lo ao América e apresentá-lo
ao treinador Costa Velho.
"Você é muito baixo e muito
magrinho", diagnosticou o homem, com ar
sapiente. "Além disso, meia-direita
temos aos montes".
Semanas depois, no São Cristóvão,
teve licença para mostrar conhecimentos.
Mas, ao driblar o zagueiro Afonsinho, viu-se
premiado com um pontapé no joelho que
imobilizou sua perna direita durante quatro
dias.
"Eu lhe dou dez minutos", repetiu
Flávio Costa, que rapidamente afastou-se
para atender os cobras do Flamengo. Camisa branca
de treino na mão, desafio na cabeça,
decidiu: "É hoje ou nunca".
Na primeira bola que conseguiu dominar, junto
ao círculo central, hesitou. O ponta-esquerda
Jarbas acenava, pedindo o passe. Apito na boca,
Flávio Costa o observava com severidade.
Um adversário chegou por trás
e fez o desarme.
Zizinho perdeu o fôlego. Mas, inesperadamente,
a bola voltou a cruzar seu caminho e, dessa
vez, cinco minutos de treino, ele fechou os
ouvidos ao mundo. Ergue os olhos, aprumou o
tronco e iniciou o ziguezague. Levou um, levou
dois, levou três. Avançando com
a destreza de um esquiador na neve, driblou
o quarto e o quinto, para, à aproximação
do goleiro, enfiar um preciso cruzado no seu
contrapé.
Antes dos dez minutos, apanhou outra bola. Empreendeu
o mesmo roteiro e, se o experiente Flávio
Costa nutria dúvidas a respeito de sua
habilidade, ficou então perplexo. Zizinho,
como um pêndulo, evitava os marcadores
e, quando um deles conseguiu esbarrar o corpanzil
na intenção de derrubá-lo,
o atacante reagiu com um sólido golpe
de ombro. Da meia lua, encobriu o goleiro e
coroou o segundo ziguezague.
"O tempo era curto e tratei de fazer tudo,
prender a bola, driblar, marcar gol", recorda
Thomaz Soares da Silva.
O bem-sucedido teste de outubro de 1939 rendeu-lhe
a inscrição na divisão
de aspirantes, o que não significava
nada além de uma esperança no
futuro. Por isso, a véspera de Natal
trouxe-lhe um fantástico presente.
No início daquela tarde, Zizinho dirigiu-se
ao estádio de São Januário,
o principal da cidade, para assistir a Flamengo
x Independiente de Buenos Aires, aliás,
time que formava a base da Seleção
Argentina. O meia Valdemar de Brito fora cedido
ao San Lorenzo e, ao passar pelo vestiário
rubro-negro, Zizinho ficou para a preleção.
O técnico Flávio Costa recomendou
empenho e dedicação aos jogadores.
Em seguida, chamando pelo nome e pelo número,
passou a distribuir as camisas.
"... Sá, tome a 7. Leônidas,
a 9. González, tome a 10. Jarbas, 11.
'Seu' Zizinho, o senhor será o 8, vai
ocupar o lugar do Valdemar. Espero que mostre,
lá no campo, tudo o que já mostrou
nos treinos. Viva o Brasil!"
Viva. Bem que, por instantes, Zizinho tremeu,
assustado. "Lá no Byron de Niterói,
onde eu batia bola sempre, não tinha
física", recorda. Das peladas de
Niterói para a tratadíssima grama
de São Januário! Na falta de pernas,
correu com o coração; afobado
e inexperiente, compensou com garra e juventude.
Detalhes que não passaram despercebidos
pelo sensível Flávio Costa que,
apesar da derrota (3 x 4), o efetivou como titular.
"A partir do Natal de 1939 passei a torcer
apaixonadamente pelo Flamengo", assinala
Zizinho.
"Era cérebro e pulmão de
qualquer time", louva Domingos da Guia,
seu companheiro naqueles primeiros anos.
"Quando os outros sucumbiam diante dos
fortes e violentos beques, Zizinho ia mais à
frente e, com fibra e coração,
abria espaço, marcava os gols",
testemunha o jornalista Geraldo Romualdo da
Silva.
"Na véspera da final contra o Vasco
em 1944, que nos deu o tricampeonato, ele nem
dormiu. Passou a noite cuidando do Pirilo, que
urrava de dor com uma orquite, do Vevé,
com distensão na coxa, e de mim, com
lumbago. No jogo, foi um leão",
recorda Modesto Bria.
Calcula ter assinalado em torno de 300 gols.
Todos tiveram a marca do heroísmo, do
refinamento e da valentia, três virtudes
que o fizeram único em sua época
que se estendeu por duas décadas.
No Sul-Americano de 1953, em Lima, líder
da Seleção, sofreu uma distensão
na coxa. O técnico Aimoré Moreira
o considerava imprescindível à
campanha, e Zizinho aceitou jogar contra o Chile,
com uma atadura protegendo o músculo
combalido. Deu os passes que resultaram nos
gols de Julinho e Baltazar, mas a dez minutos
do fim, a partida acusava 2 x 2. Esgotado, mesmo
assim aproveitou um contra-ataque para lançar-se
num pique de 30 metros que garantiu duas coisas:
a vitória por 3 x 2 e o agravamento da
contusão.
Quatro dias depois, capengou 90 minutos contra
um guerreiro Paraguai que venceu (2 x 1) e venceria
também a revanche, válida pela
decisão do torneio (3 x 2), desta vez
sem a sua presença. No retorno ao Brasil,
viu-se taxado de mercenário por ter reivindicado,
como capitão, melhores gratificações.
Assim, estigmatizado, sequer foi relacionado
entre os convocáveis para a Copa de 1954,
quando pretendia afinal apossar-se de um troféu
que o destino cruel roubara quatro anos antes,
no momento em que uma nação inteira
já saboreava sua conquista.
No fatídico 16 de julho de 1950, Zizinho
caminhou para os vestiários do Maracanã,
após o desastre, nos ombros do goleiro
uruguaio Máspoli, que sequer ousava comemorar.
"Havíamos nos defrontado tantas
vezes que nos tornamos amigos", relembra
o craque.
Bem mais numerosos foram os grandes, épicos
momentos. Num domingo de 1954, por exemplo,
ele comandou uma das reações mais
deslumbrantes que o Maracanã jamais presenciou.
O Bangu - que defendia desde 1950, negociado
pela soma recorde de 800.000 cruzeiros - perdia
do Fluminense por 2 x 0. Logo no início
do segundo tempo, executou um irresistível
ziguezague: 2 x 1. Aos 22, repetiu o lance,
arrastando área tricolor adentro um atônito
Bigode agarrado à sua camisa. Pênalti
que bateu com perfeição, 2 x 2.
Aos 40, novo ziguezague, 3 x 2. Perdeu exatos
4,5 kg, terminou a partida com câimbras
nas duas pernas, mas sentiu-se um artista feliz
com sua obra, mais do que nunca.
De outra feita, provou sua solidariedade aos
companheiros, para o bem ou para o mal. Num
disputado Cariocas x Paulistas, em 1945, no
Pacaembu, irritou-se ao ver seguidas agressões
do lateral Begliomini sobre o ponta Pedro Amorim.
"Pedro, bate o lateral aqui no meu peito",
determinou. A bola veio, rolou limpa no ar.
Zizinho alçou uma bicicleta e explodiu
o pé direito na cara do zagueiro paulista.
Em 1957, desencantado com o futebol e brigado
com o técnico Gentil Cardoso, aceitou
um último desafio: aos 35 anos, reger
o time do São Paulo. Chegou numa segunda-feira,
estreou 48 horas depois: goleada de 4 x 0 sobre
o Palmeiras. Não cometia mais seus ziguezagues,
claro, mas seus lançamentos, sua colocação
em campo, eram inigualáveis. Cruzou com
Pelé no início de carreira, não
perdoou: "Demos de 6 x 2, com a fera e
tudo", vangloria-se. Naquele encontro,
sem perceber, passou simbolicamente o bastão
de gênio. Pois que outro rei senão
Pelé seria capaz de reinventar o diabólico
ziguezague celebrizado pelo Mestre Ziza?
Os números de Zizinho
|
CLUBES
|
J
|
V
|
E
|
D
|
GOLS
|
PERÍODO
|
| Flamengo |
318
|
187
|
56
|
75
|
146
|
1939
a 1950
|
| Bangu |
266
|
148
|
52
|
66
|
120
|
1950
a 1957
|
| São
Paulo |
66
|
40
|
14
|
12
|
27
|
1957
a 1958
|
| Seleção
Brasileira |
54
|
37
|
4
|
13
|
28
|
1942
a 1957
|
|
TOTAL
|
704
|
412
|
126
|
166
|
321
|
|
Obs:
Não estão computados os jogos
de Zizinho quando atuou pela Seleção
Carioca, nem pelo Audax Italiano do Chile, clube
onde encerrou sua carreira.
Texto:
Carlos Molinari, 26, é Editor da TV Nacional
e Jornalista do Tribuna do Brasil, ambos em Brasília,
08/02/2006.
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