"Em
Bangu se o clube vence há na certa
um feriado..."
E o Bangu venceu e era realmente feriado.
O hino de Lamartine Babo, datado de 1949,
previa o jogo deste sábado, sem dúvida
alguma. Quem foi a Moça Bonita (e muita
gente foi) deve ter saído de alma lavada.
Recebi ligações de pessoas dizendo
que o clima era igual ao da década
de 80, com muitos carros, bandeiras, muita
festa. Eu, aqui no meu exílio em Brasília,
fiquei escutando o jogo por uma rádio
de Aperibé que chegava com 10 minutos
(!!!!) de delay.
Mas eu já cantava a vitória
há uma semana. Depois da vitória
sobre o Tigres eu já sabia que seria
campeão no dia 15 de novembro. Eu já
falava isso, enchia o saco dos meus companheiros
de trabalho. Eu só pensava nisso. Jamais
fui tão banguense quanto nessa semana.
Eu me via várias vezes gritando "tricampeão!
tricampeão!" pelas ruas. Dizia
na redação: "Sábado
eu serei campeão".
E quando o Vitor Moniz - popularmente chamado
de Vitor Bangu - me ligou avisando que Bruno
Luís fizera 1 x 0, eu tirei um peso
das costas, assim como todo banguense. Estava
detestando a idéia de ser vice-campeão.
Bruno Luís, é bom que se diga,
é o nosso Ladislau, o nosso Paulo Borges,
o nosso Jorge Mendonça, o nosso Marinho
dos tempos atuais.
Depois, logo em seguida, enquanto a rádio
de Aperibé ainda narrava um chato 0
x 0, Vitor Bangu me ligou novamente. Fizemos
2 x 0, justamente com Sassá, de quem
eu sempre fui crítico. Dizem que foi
um gol que até minha avó fazia,
mas foi um gol de título, um gol de
explosão, que deixou a galera banguense
- e nessa hora eu imagino o Fábio Labre
- com a certeza de que éramos o melhor
time do mundo.
Sim, eu não tenho dúvidas de
que só um Hércules do futebol
pode ganhar um torneio gigantesco de 26 clubes,
com várias fases, com 30 jogos, com
muita gente torcendo contra, com equipes tão
niveladas. O título do dia 15 de novembro
foi um dos momentos mais marcantes da nossa
história, foi um dos mais suados.
Depois de gritar feito um louco, comecei a
ligar para várias pessoas para dividir
a minha alegria - Paulo Roberto foi um dos
responsáveis por minha conta vir mais
alta no final desse mês. Tinha que sair
de casa, mostrar para a rua que o Bangu era
o maior time do mundo. Aqui nessa Capital
Federal que ninguém sabe nem que existe
o Bangu, eu peguei o carro, coloquei o CD
com o hino do clube no volume máximo,
vesti a camisa, peguei a bandeira - doação
do amigo Eugênio Castelo Branco - e
saí por aí. Sei que em Padre
Miguel tinha até carreata. Aqui era
só o meu carro. Músicas do título
de 66 também tocavam no CD. "E
hoje, com alegria no meu coração,
eu grito bem alto, o Bangu é campeão..."
Sei que no final a bandeira virou um saiote,
que eu fui parar numa festa com um bando de
gente que eu nunca tinha visto, que eu tive
que explicar que eu estava naquelas cores
e naquele estado de êxtase porque um
time fundado por ingleses em 1904 tinha sido
novamente campeão. E que naquele momento
eu me sentia o sujeito mais feliz do mundo,
assim como vocês aí ainda devem
estar com a camisa vermelha e branca no corpo.
Temos que reconhecer que este ano nossos dirigentes
foram profissionais, que pensaram realmente
no acesso, contrataram o técnico campeão
certo, trouxeram - com muito esforço
- bons jogadores que se mostraram gigantes
na hora certa.
Cléber Moura, Valdir, Abílio,
Edinho, Baiano, Fred, Tiago Costa, Beto, Vitor
Hugo, Bruno Luís e Sassá já
garantiram lugar na minha galeria de heróis.
Nós somos os campeões! Nós
é que somos banguenses!
Texto:
Carlos Molinari, pesquisador da história
do Bangu Atlético Clube, 16/11/2008.