CRÔNICA DE UMA PAIXÃO BANGÜENSE
E
lá se vão 65 de idade! Neles,
durante eles, algumas paixões, que
sem paixão não há como
se viver. Uma delas, não sei se a maior
mas certamente a mais duradoura: o Bangu.
Era o ano de 1951, logo
após a Copa do Mundo (que não
acompanhei, a não ser por rumores),
quando tive minha atenção voltada
para o futebol. Filho de portuguesa, talvez
tivesse me tornado torcedor cruzmaltino, não
fossem aquelas férias em Conservatória,
aquele grupo de pessoas em torno do rádio
do hotel, os comentários sobre uma
decisão invulgar de campeonato: de
um lado, o consagrado tricolor das Laranjeiras,
de Didi, Castilho, Pinheiro, Tele, Carlyle
e tantos outros; de outro, David contra Golias,
um time que parecia não contar com
muita torcida entre os presentes, mas de quem
se falava com respeito, um time pequeno que
se tornara grande pela força do magistral
Zizinho, o maior craque da Copa de 50. Sem
saber direito por que, meu sentimento tendeu
para o mais fraco – como tenderiam todos
os meus sentimentos a partir daí –
e nasceu a paixão. O Bangu perdeu os
dois jogos da melhor de três –
dizem que, no primeiro jogo, pela brutal atitude
de Didi ao quebrar a perna de Mendonça
-, mas incorporou-se à minha vida de
forma definitiva.
De lá pra cá, muita coisa aconteceu,
comigo, com o país, com o futebol.
Os mais fracos continuaram mais fracos, as
covardias dos mais fortes mantiveram-se presentes,
mas eu sempre via no Bangu e no sentimento
que nutria por esse clube uma marca da minha
própria visão do mundo.
Fui feliz. Pude presenciar o Bangu dos anos
60, um time de músicos orquestrados
pelo inolvidável Tim, o time do Parada,
do Bianchini, do Mateus, do Paulo Borges,
que não chegou a ser campeão
– novamente o Fluminense... -, mas que
ditava cátedra nos campos de futebol
carioca. O Bangu do Zózimo, estrela
de ébano, a classe tornada zagueiro.
Pude assistir a memoráveis jogos em
que o time de Moça Bonita desfilava
talento no Maracanã. Esse time não
foi campeão, mas deixou preparado o
caminho para 1966. Fui feliz, eu estava lá...com
Cabralzinho, Paulo Borges, Aladim, Ocimar,
Jaime, Mário Tito, Ubirajara, tantos
outros...3 x 0 , o jogo que não acabou,
porque, se acabasse, se teria transformado
na maior das humilhações rubro-negras
na história do Mário Filho.
Fui feliz pela presença do Castor,
que acompanhei dividido, misto de torcedor
admirador e cidadão não tanto,
mas inevitavelmente deslumbrado por sua ousadia
no meio dos grandes, única forma de
fazer valer méritos que nem sempre
o futebol concede a quem não tem poder.
Vi grandes equipes. A de 1985, esplendor e
tragédia bangüense, com o divino
Marinho e o injustamente estigmatizado Ado.
Um time apoteótico, um Maracanã
de simpatizantes. Estive lá. Ri, gritei,
chorei, chorei demais... Mas a isso levam
as verdadeiras paixões. Estive lá
também no título conferido ao
Fluminense (sempre o Fluminense...) pelo parcialíssimo
Wright, o único que não viu
o abraço no Cláudio Adão,
talvez em troca de outros abraços tricolores
que viriam...
Vi o ocaso do time. Acompanhei de longe suas
derrotas sem glória, sua história
desprezada por quantos não o souberam
conduzir. E sofri, porque a tanto levam as
paixões verdadeiras.
Um companheiro diário: o site Bangu.net,
trazendo de volta tantos momentos vividos,
mantendo acesas tênues luzes de esperança,
fazendo e refazendo a história.
Voltei a Bangu no dia do jogo com o Olaria.
Era véspera de uma cirurgia séria
por que teria que passar. Senti que teria
que estar lá. Não poderia estar
na final. Levar meu filho comigo foi emoção
indescritível. Rever o estadinho, conviver
com pessoas irmanadas pelo mesmo amor naqueles
90 minutos, coisa sem preço. Fui feliz,
muito.
Feita a cirurgia, afastados os fantasmas,
ainda pude ouvir pelo rádio os dois
a zero da volta à primeira divisão.
E agora aqui estou. Lá se vão
57 anos de paixão, mas, aqui, o mesmo
entusiasmo, a mesma sensação
de garoto, de rapaz, homem maduro que me foi
acompanhando nos campos do futebol alvi-rubro.
Quem sabe que alegrias ainda me reservará
o Bangu? Não importam as poucas perspectiva,
as difíceis probabilidades. Estou feliz
pela simples existência delas. Estou
feliz porque o Bangu está de volta.
Texto:
Rodolpho Motta Lima
Fonte: Texto enviado por e-mail em 21/11/2008.