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BANGU,
UMA ELITE OPERÁRIA DO FUTEBOL?
Mas,
diferentemente de todos os times daquele tempo,
o Bangu (The Bangu Athletic Club) mantém-se
até hoje, apesar de fugir à regra
geral. Que os times ricos tenham varado o tempo,
isto é normal e fácil de entender.
O Bangu, no entanto, não é só
uma exceção nesse aspecto. Ele
representa ainda o momento inicial de todo o
processo posterior de democratização
no futebol brasileiro. Por isso, justifica-se
um retrospecto histórico da sua existência.
Fundado por ingleses em 1904, sob o nome de
The Bangu Athletic Club, este time, na verdade,
pertence aos altos funcionários da Companhia
Progresso Industrial do Brasil, uma próspera
fábrica de tecidos localizada no subúrbio
carioca, no bairro de Bangu. Vindos da Inglaterra,
os técnicos dessa empresa logo pensaram
em criar seu time de futebol; com o apoio da
diretoria foi muito fácil. Além
do gramado bem próximo à fábrica
para servir de campo, a direção
facilitou ainda a importação do
material necessário para a criação
do time, mandando buscar tudo em Londres. Até
aí, tudo corria muito bem. Os técnicos
ingleses da Cia. Progresso Industrial estavam
felizes. Entre outras, por terem podido criar
um time de futebol para seu lazer.
Mas, ao mesmo tempo, surgem os primeiros problemas.
Não havia técnicos suficientes
para formar dois times e isso, é claro,
frustrava a expectativa dos ingleses. A saída
possível e imediata para resolver o impasse
era convidar seus compatriotas que trabalhavam
nas empresas no centro da cidade do Rio de Janeiro.
Isso não resolveu o problema. A distância
do centro até o bairro de Bangu desencorajava
a qualquer inglês ir praticar seu futebol
após o expediente de trabalho.
Nesse caso, então, a solução
teria que ser doméstica, e a única
alternativa possível era contar com os
operários interessados em jogar futebol.
Isto, é claro, resolveu o problema imediatamente
mas trouxe alguns privilégios aos jogadores-operários
e outros desdobramentos de ordem administrativa
na empresa.
O critério de escolha do jogador baseava-se
principalmente em três aspectos: no seu
desempenho profissional, no tempo de serviço
na empresa e no comportamento pessoal. Ao ser
escolhido, o jogador-operário passaria
imediatamente a desempenhar um tipo de trabalho
mais leve, onde pudesse economizar suas energias
para concentrá-las no futebol. Nos dias
de treino, ele tinha autorização
dos diretores da empresa para deixar o trabalho
mais cedo, com uma condição: dirigir-se
ao campo de futebol, a fim de realizar os treinos
coletivos.
Quase sempre o jogador-operário era mais
rapidamente promovido. Os considerados craques,
então, eram nitidamente protegidos pela
diretoria. Além disso, o contato mais
informal no campo de futebol com os altos funcionários
ingleses teria função determinante
nas vantagens auferidas pelos jogadores-operários.
A partir desse instante, o operário (embora
a coisa não fosse oficializada) não
representava para a Cia. Progresso Industrial
apenas um trabalhador a mais. Ele era, entre
outras coisas, um veículo de divulgação
da própria empresa, uma vez que o Bangu
sistematicamente viajava para jogar noutras
cidades. A presença de operários
no time criava, junto ao público, uma
imagem simpática da Cia. Progresso Industrial.
Portanto, a partir de um determinado momento,
o futebol do jogador-operário servia
também de "merchandise" àquela
empresa. Não era por acaso, nem pelo
simples prazer de jogar futebol, que havia uma
verdadeira luta surda entre esses operários.
Todos eles ficavam sempre na expectativa de
uma possível convocação
por parte dos altos funcionários ingleses,
para participarem dos treinos do The Bangu Athletic
Club.
A convocação, é bom destacar,
significava prestígio junto aos diretores,
privilégios, possíveis promoções
e, sobretudo, a garantia de permanecer empregado.
Pelo menos enquanto satisfizesse as expectativas
como jogador de futebol. E era isso, efetivamente,
o que ocorria. Nesse termos, portanto, é
que podemos, hoje, pensar que existiu no The
Bangu Athletic Club, no início da sua
história, uma espécie de "elite
operária do futebol".
Daquela época, no entanto, de todos os
times de futebol, o Bangu sempre foi realmente
o menos elitizado: talvez menos por determinação
(é difícil saber) e mais pela
impossibilidade de sê-lo. O número
de ingleses para formar o time era muito pequeno.
Além disso, os ingleses que vinham para
o Brasil não se interessavam pelo Bangu.
A maioria deles integrava-se no Paysandu Cricket
Club ou Rio Cricket Athletic and Association,
que eram clubes mais próximos do centro
do Rio e, portanto de melhor acesso. O Bangu,
como se localizava no subúrbio, não
tinha chances de concorrer com o Paysandu e
o Rio Cricket.
Desses fatos emergem algumas questões
quanto à democratização
do futebol no Brasil ter sua origem no Bangu.
Isso parece realmente incontestável.
Resta sabermos, no entanto, quais os fatores
que estimularam a presença da democracia
num time de ingleses (de elite) como o Bangu.
De início, já podemos pensar na
localização geográfica
que dificultava o acesso de outros ingleses
até o campo do Bangu. Este, aliás,
nos parece o motivo determinante para o sucesso
da democratização do futebol no
Bangu. A partir daí, é claro,
surgia a necessidade de completar o time com
os operários, a única opção
que se oferecia aos ingleses se quisessem praticar
seu futebol.
Portanto, como se vê, a democratização
do futebol nessa época (como nos mostram
Mário Filho e Anatol Rosenfeld) parece
ter decorrido muito mais de uma contingência
(o empecilho da distância) do que propriamente
da intenção precípua da
diretoria do The Bangu Athletic Club. Não
fosse este clube localizado no subúrbio
carioca e sim mais próximo do centro
da cidade ou dos outros clubes ingleses, dificilmente
teríamos operários, juntamente
com ingleses, vestindo a camisa do mesmo time.
O estudo realizado por Anatol Rosenfeld apresenta
mais um motivo para a democratização
do futebol no Bangu. Estaria, nesse caso, envolvida
a produção industrial da empresa.
O lazer, via futebol para os operários,
servia de estimulante para aumentar sua disposição
física e, conseqüentemente, mais
energia ele teria para o trabalho.
Embora admitindo ser apenas uma hipótese,
o autor parece, no decorrer do seu ensaio, acreditar
muito nessa intenção dos ingleses
e é precisamente por isso que ele cita
um exemplo claro e interessante:
"Viram-se obrigados a recorrer aos operários
da fábrica, estimulados pela direção
esclarecida, que provavelmente soubera que os
fabricantes de tecidos ingleses na Rússia
fomentavam o futebol entre os turnos para animar
sua disposição ao trabalho e seu
esprit de corps".
Se efetivamente a hipótese de Rosenfeld
fosse verdade, a situação no Bangu
seria outra. Não teria sentido, por exemplo,
só um número reduzidíssimo
de operários começar a praticar
o futebol, uma vez que o objetivo maior era
o aumento da produção. Ao contrário,
neste caso, esse lazer deveria estar ao alcance
de todos os trabalhadores. E, como sabemos,
não foi isto o que ocorreu. Além
disso, os ingleses teriam à sua escolha
diversas outras modalidades esportivas, não
precisando escolher justamente o futebol, um
esporte caro e altamente elitizado naquela época.
Mais tarde, porém, quando este esporte
se tornou um pouco mais conhecido, o Bangu realmente
iria popularizá-lo ainda mais. As excursões
do time por outras cidades ajudavam a divulgar
o nome e criar boa imagem da Companhia Progresso
Industrial e assim, de certo modo, começava
a desaparecer o privilégio dos ingleses
de só eles poderem vestir a camisa do
The Bangu Athletic Club, que logo abandonaria
o "The".
Em pouco tempo, o time de futebol já
era mais conhecido do que a fábrica.
A partir desse instante, a diretoria da empresa
passa a se preocupar em criar uma imagem vencedora
do Bangu. Não era à toa, claro.
Quando menos, ela ajudaria a aumentar o prestígio
e o sucesso comercial da empresa dona do time.
Para isso, no entanto, contar só com
os ingleses já não era suficiente
e nem interessante. Havia operários que
jogavam melhor que os ingleses e por isso poderiam
contribuir mais para as vitórias do Bangu.
É precisamente nesse momento, me parece,
que realmente inicia a democratização
do nosso futebol. Ao mesmo tempo, possuir um
time vitorioso passou a ser vital para a Companhia
Progresso Industrial. Até o critério
de admissão na fábrica (operários,
funcionários de escritório, etc.)
sofreria algumas pequenas mudanças. Agora,
a preferência era não apenas pelo
bom profissional, mas também pelo trabalhador
que jogasse bem futebol.
Sendo assim, o prestígio comercial que
o Bangu representava para a fábrica obrigou,
de certo modo, seus diretores a dar mais importância
ao futebol. Mas esse foi um processo lento.
Somente a partir de 1909, os operários
passariam a treinar regularmente, a fim de integrar
o time.
Aqui, verdadeiramente, temos o início
da democratização do futebol no
Brasil. O critério classista dos técnicos
ingleses já não tinha mais forças
para se manter. Operário "bom de
bola, o az da pelota", como era chamado
o bom jogador, tinha assegurado o seu lugar
no time. Os próprios ingleses, agora,
tinham interesse nisso. Atenua-se o conflito
de classes (apenas na aparência) e com
ele o preconceito de cor. O negro dribbler por
exemplo, poderia e até deveria integrar
o eleven do Bangu, desde que evidentemente,
trabalhasse para a Companhia Progresso.
Texto:
CALDAS, Waldenyr.
Fonte: O Pontapé Inicial - Memória do
Futebol Brasileiro. IBRASA, São Paulo, 1990,
pp. 29-32.
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