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BANGU
EM NOVA ENCRUZILHADA
Expira
dentro de poucos dias o mandato da atual Diretoria
e nem parece que haverá eleição
no Bangu, tal o clima de entendimento e confiança
reinante no seio da família banguense.
O ambiente de paz e harmonia em nosso querido
Clube resultou do acendrado espírito
democrático manifestado pelo nosso admirável
Patrono, desde quando começou a arrumar
a casa, encontrada com os adeptos completamente
desarvorados pelo incêndio nas arquibancadas,
que destruiu o fruto da abnegação
dos seus fundadores. Qual Fenix, o Bangu teria
de ressurgir das suas próprias cinzas.
Para tanto, teve que exercer a Presidência
durante sucessivos mandatos, já que tomara,
por iniciativa própria, o compromisso
de honra de eternizar o nosso ideal, ainda que
para isso tivesse que custear a construção
de uma moderna praça esportiva. Dai a
denominação do nosso Estádio,
materializando a homenagem com a sua eleição
para Patrono, a fim de constituir, como é
fácil compreender, a mínima prova
de reconhecimento e gratidão a êsse
valoroso capitão da nossa indústria,
que tanto tem dignificado o patriótico
nome da Companhia Progresso Industrial do Brasil.
Completada a sua grande obra de soerguimento,
devolveu a direção do Clube aos
seus próprios associados, pois para poder
alcançar a sua meta, fase em que os sacrifícios
seriam redobrados, o seu recrutamento para os
cargos diretivos se faziam quasi compulsóriamente
entre seus próprios empregados.
Aceitamos o desafio. A revolução
idealizada pelo nosso Patrono prosseguiu e já
na primeira administração verdadeiramente
autônoma, de 1957/1958, o patrimônio
do Clube foi enriquecido com as primeiras substanciais
contribuições materiais exclusivamente
dos associados: os refletores, diferentes de
todos os demais existentes no país.
Indiscutivelmente, de lá para cá
o Bangu mudou muito de posição
no cenário esportivo, como provam as
suas façanhas, em campos nacionais e
até no estrangeiro, acumulando títulos
altamente honrosos. Quando o nosso time entra
em campo, ultimamente, no Maracanã, o
adversário treme. Conquistamos a simpatia
do público, que nas decisões dos
títulos passa a torcer pelo nosso triunfo,
ainda que tenhamos sofrido seguidas frustações.
Isso porque jogamos limpo. Tivemos que defender
os nossos interêsses com firmeza, com
ardor e até com veemência, que
alguns confundiram com violência.
Agora nos encontramos em encruzilhada semelhante,
decorridos 29 anos.
Um banguense autêntico, arrastando tôda
a série de sacrifícios e vicissitudes,
nos levou à situação invejável
que alcançamos. Mas a sua saúde
combaliu. As emoções do esporte
são paradoxais: enche-nos de alegria,
mas sacrificam-nos a saúde, ainda que,
a meu ver compensadoramente.
Tenho a rara felicidade de haver assistido ao
pavilhão alvi-rubro tremular vitorioso
em várias praças esportivas de
três continentes, e se o Bangu vier a
jogar na Ásia ou na Oceânia, únicos
onde ainda não ofereceu seus espetáculos,
peço a Deus que não me leve antes
disso. Posso contar pelos dedos o número
de jogos oficiais do Bangu a que deixei de assistir
no Rio e, se recorrer aos dos pés, generalizarei
amistosos também.
Tendo cumprido, nos limites das minhas indisfarçáveis
deficiências, as mais variadas funções
diretivas e tôdas as missões que
me confiaram e completado, exatamente hoje (15
de novembro), o 40º aniversário
do dia em que assisti ao primeiro jôgo,
no qual aliás sofremos o contundente
revés de 4 x 1 para o Vasco da Gama,
êsse resultado desfavorável foi
o suficiente para inflamar o meu natural idealismo.
Com essa autoridade, que vaidosamente julgo
possuir, ainda que já tenha voltado as
arquibancadas, tomo a liberdade, confiando no
espírito de tolerância de meus
admiráveis companheiros de Clube e de
ideal, de sugerir uma retribuição
e uma manifestação de gratidão
ao nosso valoroso Presidente.
Faltam poucos dias para a eleição,
e por estima e consideração que
lhe devotamos, tôdas as candidaturas à
sua sucessão foram logo sufocadas pelos
próprios candidatos, não fossem
êles também banguenses autênticos.
Parece incrível, mas há alguns
dias do pleito, por imposição
estatutária, ninguém fala em eleição.
Constitue demonstração irrefutável
de que desejamos, ardentemente, a sua permanência
por mais alguns dias, ou o tempo que fôr
possível, enquanto suportar a sua saúde,
dirigindo os nossos destinos, pois, banguense
autêntico como êle é, a sua
renúncia só ocorrerá no
seu último dia de vida.
Se motivos imponderáveis, porém,
vierem a tornar impossível a concretização
dêsse nosso sonho, então a reafirmação
do nosso eterno reconhecimento e gratidão,
a quem tanto contribuiu para a grande projeção
do nosso Clube, últimamente, só
poderá materializar-se elevando-se para
o lugar que com tanta dignidade e sacrifício
ocupa, de fato e de direito o sangue de seu
sangue.
Texto:
Fausto de Almeida
Fonte: Revista Bangu em Revista, dezembro/1966.
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