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NAS
FÉRIAS DO FUTEBOL, UM JEITO PARA CANTAR O BANGU
As
férias do futebol são péssimas
para o colunista. Armando Nogueira chegou a
desabafar, certa vez: "Não sofro
da mania de perseguição, mas,
de quando em quando, desconfio que o recesso
do futebol no Maracanã faz parte de um
plano sinistro para tirar-me o ganha-pão.
Chega janeiro, os homens recolhem as bolas,
descem a picareta no campo e fico eu obrigado
a esse trabalho braçal de produzir crônicas
e mais crônicas sobre o jogo que não
houve e, pior ainda, sobre o próximo
que não haverá".
Os colunistas, porém, têm as suas
compensações. Livres de acompanhar
o dia-a-dia do futebol até porque não
há dia-a-dia - podem apresentar ao leitor
um tema como o de hoje, oferecido pelo leitor
Jairo L. Salles: um poema sobre o Bangu. Como
se sente um torcedor do Bangu? É o que
procura definir o nosso Jairo em seu poema "Ser
Bangu":
"É não ser time pequeno/Não
conseguindo ser grande É ser clube proletário/Sem
a torcida do operário/É ser clube
de fábrica/Sem conseguir fabricar torcida/É
um time de mulatinhos rosados/Com a pouca simpatia
dos mulatinhos/E também a dos rosado
e É ter no vermelho e branco/As cores.
da nação "potência"/E
jogar sem prepotência/É ter preso
na garganta/Um gol de campeonato/Para libertá-lo/De
quando em vez/Em 33... em 66.../É esperar
por um patrono/Alguém que faça
a de dono/Realizando apenas por amor/Como no
caso, o Castor/É a equipe numa boa/Lutar,
num só domingo, duas vezes/No campo,
contra o time oponente/E, na arquibancada, contra
a torcida adversária, renitente/E haja
coação: Mengo! Mengo!/E haja coração:
Nense! Nense!/E haja determinação:
Vasco! Vasco!! E haja resolução:
Fogo! Fogo!/ E haja abnegação:
Sangue! sangue!/Convenhamos, é exigir
demais/De simples mortais/Perdemos lances fatais/Lá
se foi mais um campeonato/E o Bangu?/Não
foi campeão/Mas, de quando em vez.../
Em 33.. em 66...".
Jairo enviou o seu trabalho para este Papo de
Esquina com a humildade revelada em seus versos:
"se achar conveniente, publique";
"haverá o risco enorme de o artigo,
nesse dia, ser lido apenas em consideração
à esta coluna, já arraigada ao
hábito carioca". É a chamada
humildade bangüense. Se fosse um poema
em homenagem ao Flamengo ou ao Vasco, é
provável que nem fosse transcrito, pois
não se constituiria em nenhuma novidade.
Mas, em homenagem ao Bangu, não deixa
de ser um assunto jornalístico: noventa
por cento da torcida carioca, comprometida com
os demais clubes, não sabe, provavelmente,
como se sente um torcedor do Bangu. E esse sentimento,sem
dúvida, aparece no poema do leitor. Não
me cabe discutir os méritos literários
do poema, mas que ele é verdadeiro, isso
é. E reflete o sentimento não
só do Jairo, como daquele torcedor que
comparece a todos os jogos do clube e de gente
importante, como Jorge Amado que, ao lado de
Adonias Filho, defende as cores bangüenses
na literatura brasileira. Jorge Amado só
não freqüenta o Maracanã
e Moça Bonita porque não mora
aqui. Mas é um leitor constante do noticiário
esportivo para saber as novidades do seu time.
Sei que Leonel Brizola também torce pelo
Bangu. Mas sei também que ele não
liga para futebol. Portanto, não está
no poema.
Texto:
Sérgio Cabral.
Fonte: Coluna Papo de Esquina - Publicada na Revista
Bangu e Suas Glórias, Ano I - novembro/1981.
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