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HONRA AO MÉRITO
Caro
leitor, caríssima leitora, escrevo estas
linhas antes do jogo entre Santos e São
Paulo. Não sei se a equipe que terminou
a primeira fase do torneio como líder
passou ou não pelo meu time. De qualquer
modo, deixo cá minha opinião.
É mais justo, dizem uns. Transforma todas
as partidas em decisões, dizem outros.
Concordo com uns e outros. Por mais que se diga
que o charme do futebol é sua imprevisibilidade,
fica uma sensação esquisita quando
uma equipe que demonstrou menos méritos
ao longo da competição ergue a
taça em lugar daquela que obteve mais
pontos.
Não será uma simples crônica
que fará mudar a opinião dos adeptos
das fórmulas caça-níqueis,
mas, só para apimentar a discussão,
lembrarei aqui algumas ocasiões em que
o time de melhor campanha no Brasileiro acabou
sendo castigado pelos quadrangulares, pelos
hexagonais, pelos octogonais, pelas cobranças
de pênaltis e por outras formas de decisão
que dão margem a questionamentos.
A primeira vez que isso ocorreu foi em 1974,
quando o genial Cruzeiro de Nelinho, Piazza,
Zé Carlos, Dirceu Lopes e Palhinha perdeu
para o apenas eficiente Vasco de Moisés,
Alfinete, Jorginho Carvoeiro e, ufa!, Roberto
Dinamite. O time mineiro ponteou durante todo
o torneio, mas aí, por uma razão
que me custa entender, a decisão foi
jogada no Maracanã, onde o Vasco venceu
por 2 a 1.
Em 1977, o Atlético-MG chegou à
última rodada com oito pontos a mais
do que o São Paulo. No Mineirão,
o esforçado time paulista segurou o 0
a 0 bravamente e aí, graças a
são Valdir Perez, levou o título
nos pênaltis.
Já em 1981 o feitiço virou contra
o feiticeiro, e o São Paulo foi castigado.
O time de Serginho e Zé Sérgio
fez dois pontos a mais do que o Grêmio
de Baltazar. Mas, no segundo jogo, no Morumbi,
o clube paulista foi derrotado por 1 a 0. Gol
de quem? De Baltazar.
Até o meu Santos, acreditem, teria sido
campeão pelo sistema de pontos corridos
em 1983. Com um time experiente e pragmático,
o Peixe terminou o torneio um ponto à
frente do Flamengo de Zico. Pena que, na decisão,
o time perdeu a cabeça e o jogo (3 a
0).
1985 marcou uma das maiores injustiças
da história do Brasileiro. O Bangu, que
terminou como vice-campeão, chegou à
final contra o Coritiba tendo feito 16 pontos
a mais que o adversário. Dezesseis! Mas,
mais uma vez, os pênaltis se encarregaram
de punir o melhor desempenho.
No ano seguinte, a vítima foi o Guarani,
que tinha Marco Antônio Boiadeiro, Evair
e João Paulo. O beneficiado, outra vez,
foi o São Paulo. Os seis pontos à
frente não serviram para nada e, na final,
o Bugre não teve forças para segurar
uma vantagem de 3 a 2 no Brinco de Ouro. Cedendo
o empate, acabou derrotado nos pênaltis.
Em 1992, foi a vez de o Botafogo lamentar a
fórmula de disputa. Mesmo com seus dois
pontos a mais, o time de Márcio Santos,
Carlos Alberto Dias e Valdeir não conseguiu
superar o Flamengo de Júnior na decisão.
Resultado: teve que se contentar com o vice.
Não se trata de questionar os títulos
de Vasco, São Paulo, Grêmio, Flamengo
e Coritiba, conquistados de acordo com as regras
estabelecidas à época. Aqui só
realço um detalhe: o fato de que, em
31 edições do Nacional, sete ficaram
com o gostinho amargo, senão da injustiça,
da dúvida. Qual a solução
para isso?
Os pontos corridos.
Texto:
José Roberto Torero (Colunista da Folha)
Fonte: Folha de São Paulo, 29/11/2002. |