|
O
NOVO GRANDE DO FOOTBALL CARIOCA
Há
quem não queira ver o Bangu grande. Sabendo,
inclusive, que não adianta, que o Bangu
já é grande.
No fundo é aquela velha resistência
à nobreza nova. Os condes e barões
mais antigos achando que devem ser os únicos
condes e barões. E mesmo os plebeus torcendo
o nariz. Por tradição aceitamos
os antigos condes e barões que sempre
conheceram como condes e barões, mas
não aceitando os novos, resistindo a
ter neles nobres. Sobretudo porque esses novos
nobres foram como eles. Plebeus como eles. O
Bangu, embora sempre clube de fábrica,
tem um direito, que por assim dizer nasceu com
ele, de um título de nobreza do football
carioca. O football carioca não tem quatrocentos
anos, como certos troncos de nobreza brasileira.
Não se pode usar em football carioca
ou brasileiro a expressão que enche a
boca de muito portador de nome de aristocracia
bandeirante: paulista de quatrocentos anos.
O Fluminense que foi a origem do football carioca
vai agora completar o cinqüentenário.
O Fluminense nasceu com o football carioca e
não de maior título de nobreza
no football carioca. Mas dos que ficaram o Bangu
é o segundo. Tem alguns meses mais do
que o Botafogo. É verdade que outros,
a partir do patriarca do football carioca, cresceram
mais. São grandes há mais tempo.
Em football porém, a grandeza nada tem
que ver com idade.
A grandeza do Vasco em football data de 23.
E em 23 ninguém acreditava que pudesse
aparecer mais nenhum grande. Tanto que o Bangu
repete o Vasco. É negado e combatido
como foi o Vasco. Fala-se do dinheiro do Bangu
como se falou no dinheiro do Vasco. No dinheiro
dos Silveirinhas - o Guilherme e o Joaquim -
como se falou no dinheiro do português.
E a conseqüência vem sendo a mesma.
O Vasco tornou-se maior por necessidade. Foi
de um certo modo obrigado a ser orgulhoso. A
ostentar grandeza. Quando se ridicularizava
o Vasco, "entra Basco que o meu marido
é sócio", o que se queira
era assustar o português. Para que o português
desistisse de fazer o Vasco. O português
tomou o pião na unha, tratou de empurrar
mais o Vasco para frente. Hoje o Vasco não
é conde nem barão: é duque
do football carioca.
Quando se fala no dinheiro dos Silveirinhas
- do Guilherme e do Joaquim - o que se quer
é assustá-los. Fazê-los
arrepiar carreira. Mas o ideal é de tornar
o Bangu grande não por um capricho de
moços ricos. O Bangu que não tem
os cinqüenta anos do Fluminense, tem quarenta
e oito, que nasceu logo depois de nascer o football
carioca, merecia ser grande. Nobre já
era. Só que era do subúrbio, um
clube de fábrica, como se dizia. Vários
clubes foram de fábrica mas só
o Bangu continuou para poder ser grande agora.
Para ser grande agora. Com um pouco mais ninguém
estranhará mais em ver o Bangu grande,
por mais que o Bangu cresça. Os pequenos
deixarão de olhar o Bangu como um trânsfuga
e os grandes deixarão de olhar o Bangu
como um arrivista. O Bangu nunca foi uma coisa
nem outra. Clube algum se tornou grande sem
um Silveirinha, com mais ou menos dinheiro.
Clubes houve que tiveram vários Silveirinhas.
Só que não precisaram dar tanto,
já que os Silveirinhas se sucediam, um
passando o bastão a outro. A diferença
está apenas em que os Silveirinhas do
Bangu chegaram depois. E são dois somente.
Mas são Bangu. Dizem - e esta a maior
acusação que lhes fazem - que
dão demais. Como se alguém pudesse
dar demais pelo esporte. Pelo esporte dá-se
o que se pode. E se os Silveirinhas podem dar
ao Bangu o que dão, mais do que o Bangu,
quem lucra com isso é o esporte.
(*)
Crônica escrita pelo jornalista Mário
Rodrigues Filho no aniversário de 48
anos do Bangu, em 1952, analisando o momento
que vivia o clube e as glórias que colecionava
graças ao empenho do nosso Patrono Guilherme
da Silveira Filho e do Benemérito Joaquim
Guilherme da Silveira.
|