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JORGE
AMADO SOFRE EM PARIS
O
escritor Jorge Amado, aos 73 anos de idade,
conserva seu eterno ar jovial e está
contente da vida com sua atual temporada de
férias em Paris. Personagem admirável,
requisitado por toda a Europa - nesta quarta-feira
vai a Portugal, onde passará um mês
-, é permanentemente assediado por jornalistas,
intelectuais ou simples fãs, para falar
sobre todos os assuntos. Na semana passada,
ele esteve menos disponível na quarta
e na quinta-feira, angustiado com a falta de
notícias sobre a sorte do Bangu na final
da Taça de Ouro. Como o Bangu pode ser
time do coração de um baiano?
"É aquele lado do coração
que eu dedico aos cariocas", explica. E,
no seu sotaque maravilhoso, diz que nunca deixará
de ser Ypiranga, em sua terra. "E não
digam que o clube acabou", protesta. "O
Ypiranga andou deslizando lá pela Segunda
Divisão, mas que existe, existe. Tanto
que eu até sou sócio."
Álvaro Teixeira, de PLACAR, procurou
Jorge Amado na quinta-feira com a desagradável
missão de informá-lo da derrota
do Bangu e da forma como ela ocorreu. Depois,
colheu o seguinte depoimento do escritor sobre
o futebol e suas outras paixões esportivas.
| Foto:
Revista Placar agosto/1985 |
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| "Sou
Bangu por causa do Domingos da Guia
e porque é um clube proletário,
de um povo trabalhador" |
"Eu
sou um velho torcedor do Bangu. Logo que cheguei
ao Rio de Janeiro, um grande jogador despontava,
justamente lá: Domingos da Guia. Ele
era a sensação da época.
Sou muito de acompanhar a carreira de craques
e comecei a ir aos jogos do Bangu. Além
disso, é um clube proletário,
um clube dos operários. Aquela fábrica
de tecidos, daquele bairro tão popular
que é Bangu. E um time do povo, no sentido
do povo trabalhador.
Fiquei contente e triste ao mesmo tempo com
o desfecho do Campeonato Brasileiro de futebol.
De um lado, estou contente porque o Bangu fez
uma campanha excelente até chegar à
decisão: pelo que ouvi falar, creio que
não houve nenhum outro time com mais
bonito estilo de jogo. E é claro que
estou triste por ele ser apenas o vice-campeão.
Mas o Bangu é assim mesmo: um time há
muito tempo à procura de títulos.
Se eu tivesse de deixar uma mensagem ao pessoal
do clube seria para que não se deixasse
entregar ao desânimo e à tristeza.
O negócio é ir para a frente.
Gostaria de deixar claro meu absoluto repúdio
a estas decisões por pênaltis.
Se deu empate, então que se marcasse
uma outra partida para o domingo seguinte. Porque,
no fundo, existe uma enorme frustração.
Duvido que o torcedor do Coritiba esteja inteiramente
satisfeito. Ele está contente com o título,
mas não com a forma como ele foi conquistado.
Empatou? Um outro jogo lá em Curitiba.
Já imaginaram essa final lá no
Paraná? A beleza de um estádio
lotado, com o Coritiba sagrando-se campeão
vencendo o jogo? O título teria outro
sabor. Seria uma decisão mais brasileira
- quer dizer, mais bonita
O
FUTEBOL É UM BALÉ
É isso. A gente está sentindo
que falta ultimamente um jeito brasileiro de
se jogar futebol. O futebol no nosso país,
ao lado da capoeira, sempre foi uma arte. Em
ambos, o brasileiro se exprime maravilhosamente.
A capoeira nasceu nas senzalas, uma herança
dos escravos que se tomou uma das mais belas
criações do gênio artístico
nacional. Igualmente, o futebol é um
balé - desde que, repito e carrego na
ênfase, seja jogado à maneira brasileira.
E o que é isso? É difícil
de se definir. É... uma arte. Porque
nem sempre o futebol é arte. Aqui na
Europa, por exemplo. Às vezes é
um esporte violento. Às vezes, o que
se vê é uma forma defensiva de
disputa visando apenas ganhar o jogo. O futebol
é arte quando jogado possessivamente.
E um esporte para se fazer gols. E para se tomar
gols, também - e por que não?
Quando você joga para não fazer
gols, você abandona a arte. Abandona mesmo
o princípio maravilhoso desse espetáculo,
o que lhe dá grandeza.
CASTOR,
UM APAIXONADO
Por isso volto ao exemplo do Bangu: é
lá que se tem jogado o futebol realmente
brasileiro. Tem um técnico excelente
- Moisés, que foi um grande jogador -
que se revela de muita competência, a
quem mando meus parabéns. E tem uma meninada
muito boa. Já vi jogar Marinho, que é
um craque (prefiro deixá-lo como exemplo
para não cometer injustiças, com
os demais). Uma ressalva: cumprimento também
o pessoal do Coritiba que chegou ao título.
Só que a campanha do Bangu foi uma campanha
superior. O que eu senti no Bangu foi um trabalho
feito com seriedade. Trabalho de homens devotados,
como Castor de Andrade. Ele é um apaixonado:
briga, bota dinheiro, comete injustiças,
entra correndo em campo e coisas assim. Ele
formou uma equipe de jovens, que, exatamente
por não estarem nos grandes clubes, sem
estrelismos, estão jogando um futebol
muito solto. Esse time não se dispersou
em individualidades. Concentrou-se num todo,
num jogo profundamente coletivo. Além
do mais, o Bangu é o próprio bairro
onde tem fincadas suas raízes. Veja o
Botafogo: era um clube que se identificava com
os moradores do bairro. De repente se mudou
para o subúrbio. Já não
era a mesma coisa. Você tem a impressão
de que passa a faltar algo. O que falta é
o bairro, o calor da vizinhança - mesmo
que mantenha a fidelidade de velhos torcedores,
como João Saldanha, Sandro Moreyra, Alfredo
Machado...
Às vezes, são esses pequenos
detalhes que passam despercebidos que fazem
a diferença da vitória e da derrota.
Outras vezes, nem isso: por que, por exemplo,
perdemos a Copa de 1982, na Espanha? Por pura
infelicidade contra a Itália, só
isso - assim como o Bangu foi infeliz com o
Coritiba. Muitos me falam que contra os italianos
entramos em campo de salto alto. É possível,
não sei. Só sei que o brasileiro,
nessa hora, não é de fazer isso,
não. Veja o caso do Joaquim Cruz, um
exemplo do que é capaz um brasileiro.
E maravilhoso: um menino que veio de lá
de baixo, que veio do povo, que batalhou e está
vencendo. Isso é bom e ao mesmo tempo
um reconforto para o povo brasileiro, tantas
vezes xingado, humilhado e de quem se diz não
ser capaz disto ou daquilo. Que é preguiçoso
e outras coisas miseráveis. Esse rapaz
é o símbolo exatamente da força,
da energia, da coragem desse povo. É
o talento e a maneira de ser do brasileiro.
Essa deliciosa malícia, fruto da mistura
de sangues que dá esse tipo de personalidade
exclusivamente nossa. Isso você não
vê só no esporte, mas também
na nossa vida cultural. Uma mistura de cultura,
uma cultura mestiça. Uma mistura capaz
de dar um Pelé, um Garrincha. E que,
quando é levada devidamente a sério,
nos toma quase imbatíveis."
Texto:
Jorge Amado
Fonte: Revista Placar, 09/08/1985. Fotógrafo:
Álvaro Teixeira.
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