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O PRIMEIRO... E O MAIS...

O
primeiro presidente do nosso Clube foi William
French, um inglês clássico que
fumava cachimbo e falava pouco, quase taciturno
que nunca se familiarizou com a língua
da nova pátria, ao contrário do
seu conterrâneo Guilherme Procter que
se esqueceu, por completo, da língua
materna: falando apenas a portuguesa.
Naquele longínquo 1904, em que a vida
era muito mais difícil do que hoje, qualquer
cidadão de ânimo fraco baquearia
na direção de empreendimentos,
por menores que fossem, que exigissem pertinácia
e convicção para levá-los
à frente e engrandecê-los. Só
mesmo um inglês da têmpera do velho
French seria capaz de enfrentar as borrascas
que desabariam sobre o nosso Bangu quando despontava
para a vida longa e gloriosa.
Os ingleses que foram os seus fundadores, dirigiram-no
até 1914, com proficiência e honestidade
nunca postas em dúvida. Foi fase pioneira
e dos maiores sacrifícios. Tirava-se
água de pedra... Mas...
O primeiro brasileiro que quebraria a dinastia
dos ingleses, e isso em 1915, foi Noel de Carvalho,
vindo do Estado do Rio, ou melhor, de Rezende.
Era escritor, poeta e orador de indiscutíveis
méritos aliando tudo isso as virtude
e qualidades de um homem dos esportes, sobretudo.
O seu período administrativo distinguiu-se
pela força moral e elevadas atitudes
postas a serviço do Bangu e do desporto,
tendo como prioridade a defesa do jogador preto,
que os clubes tentavam de todos meios e modos
afastar das lutas gramado a dentro, porque de
seus quadros sociais, já os pretos tinham
sido banidos há muito tempo ou neles
nunca tiveram ingresso. A defesa constante que
fêz do homem preto, jogador de futebol
reavivou nele o abolicionista íntegro
e pugnas, expontâneo e intransigente defensor
da raça negra, na qual via gente tão
boa e tão útil quanto a gente
da raça branca, faltando-lhe somente
a instrução adequada, que lhe
negavam, para tornar-se um válido social.
Entretanto...
O mais moço dos Presidentes do Bangu
foi o Ministro Ary de Azevedo Franco. Era de
Paracambi, no Estado do Rio.
Aos vinte e um anos foi guindado ao posto máximo,
na direção do Clube. A dizer bem,
era tão jovem que, às vezes, sentia
vergonha de comandar as Assembléias Gerais,
delegando poderes a outros mais antigos para
as dirigir. E essa era a sua principal característica:
uma encantadora modéstia.
Mais tarde, quando já Ministro do Supremo
Tribunal Federal, não evitava, ou antes,
falar ou cumprimentar, ao encontrar-se nas ruas,
ou em outra qualquer parte até no recinto
do Supremo, as pessoas que conhecera na sua
juventude, toda ela vivida em Bangu. Deu ao
nosso Clube prestígio e respeito. Mas...
O primeiro carioca, e presidente de mandato
mais longo, foi o Dr. Guilherme da Silveira
Filho, nosso Patrono. Até hoje é
o homem decisivo na vida do Clube. A sua jornada,
na Presidência, não sofreu solução
de continuidade, praticamente. Está hoje
em 1973, como se estivéssemos em 1937,
enfrentando galhardamente as dificuldades que
o Clube atravessa, sem queixas e sem azedumes.
É o nosso bastião... Entretanto...
O primeiro banguense, isto é, o primeiro
homem nascido em Bangu, a ocupar a presidência
do Clube foi o Dr. José Vital, que deixou
o posto recentemente por término de mandato.
Custou a vir mas veio bem...
O Bangu, que foi fundado à 17 de Abril
de 1904, só viria a ter um presidente
filho de suas terras em 9 de novembro de 1971,
ou seja, 67 anos depois.
Foi o homem providencial. Quando o Bangu, mergulhado
numa das suas maiores crises, maior mesmo que
as de 1907 e 1917, procurou-o para gerir os
seus destinos, José Vital nem pestanejou.
Estava em jogo o Clube do seu coração.
Viver ou morrer era o dilema de fogo a ser enfrentado.
E José Vital fez a opção:
- Viver, sim... Enquanto houver um banguense
da minha estirpe o Bangu não morrerá...
E desandou a trabalhar, pois sem o trabalho
nada se constroe. Ele e, agora, a sua famosa
equipe e alma à luta que lhe exigia a
presidência do Bangu. Não parou
enquanto não viu debelada a terrível
crise que chamaremos, daqui para diante, a de
1917.
E, apesar de sua atividade de médico
muito solicitado, entregou-se de corpo.
Abrindo-se um curioso parênteses:
SETE é um número fatal para o
Bangu.
Ele aparece três vezes marcando situações
anormais na nossa vida. Em 1907, a célebre
questão dos ingleses que chegou a provocar
a sua desfiliação da Liga Metropolitana.
Salvou-se o inesquecível Andrew Procter,
a quem o Bangu trabalhando o resto da sua vida
não, não vai pagar, em amor e
dedicação, o que lhe deve.
Em 1917, foi a ajuda da Fábrica que não
o deixou sossobrar, dando-lhe a admirável
administração de Firmino de Carvalho.
E em 1971, que está quente ainda, foi
José Vital quem o tirou de um rebaixamento
inexplicável. Em todo estes anos, porém,
o número SETE não deixou de marcar
a sua indesejável presença. E,
por outro lado, o Bangu foi campeão em
1911 e 1914, na segunda divisão e campeão
em 1933 e 1966, já na era profissionalista,
e em nenhum dos anos citados aparece o número
SETE. Influência negativa do número
SETE ou simples coincidência?
Agora, entretanto,a crise de 1971 está
vencida. José Vital, cujo nome significa
o que dá e conserva vida, se encarregou
de colocar tudo em seus lugares. E o fez com
a sabedoria a grandeza d'alma que Deus lhe deu.
Texto:
Paschoal José Granado. |