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RETRATOS: ESPELHO DA VIDA
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time do Bangu em 14 de maio de 1905, antes da
partida contra o Fluminense no campo da Fábrica:
da esquerda para a direita, última fila:
José Villas Boas (Presidente), Frederich
Jacques e João Ferrer (Presidente Honorário);
fila do meio: César Bochialini, Francisco
de Barros, John Stark, Dante Delocco e Justino
Fortes; fila da frente: Segundo Maffeu, Thomas
Hellowell, Francisco Carregal, William Procter
e James Hartley. |
O
time do Bangu em 1905 tinha cinco ingleses,
Frederick Jacques, John Stark, William Hellowell,
William Procter e James Hartley; três
italianos, César Bochialini, Dante Delocco
e Segundo Maffeu; dois portugueses, Francisco
de Barros, o 'Chico Porteiro', guarda da fábrica,
um jogador que em quase todo jogo batia com
a cabeça na trave, só via a bola
e não via mais nada, e Justino Fortes,
grandalhão, do tamanho de William Hellowell;
e um brasileiro, Francisco Carregal. Brasileiro
com cinqüenta por cento de sangue preto.
O pai, branco, português, a mãe,
preta, brasileira.
Francisco Carregal, talvez por ser brasileiro
e mulato, o único brasileiro, o único
mulato do time, caprichou na maneira de vestir.
Era o mais bem vestido dos jogadores do Bangu.
Um verdadeiro dândi em campo.
Há uma fotografia desse time do Bangu.
Bem que a fotografia merecia ser guardada num
álbum. Frederick Jacques, mestre gravador,
o goalkeeper, está lá atrás,
de pé, entre José Villas Boas,
diretor de esportes, e João Ferrer, presidente
de honra do Bangu. João Ferrer todo de
branco, roupa branca, colarinho branco, confundindo-se
com o peitilho branco e a gravata branca, parecia
um enfermeiro. José Villas Boas de fraque
cinza, fechadinho em cima.
Olha-se para a fotografia e só vê
bigodes. Bigodes caídos, como o de Frederick
Jacques, enrolados como o de José Villas
Boas, torcidos como o de João Ferrer.
Somente três jogadores não usavam
bigodes: o português Justino Fortes, o
inglês William Hellowell, de cara muito
branca, sem sinal de buço, lisa e macia
feito rosto de menino, e o brasileiro Francisco
Carregal.
O bigode de César Bochialini, bem italiano,
um bigodinho atrevido, de pontas finas, para
cima. O de Francisco de Barros, Chico Porteiro,
nada tinha de atrevido. Pelo contrário:
bigode austero, pesado como a responsabilidade
de um pai de família cheio de filhos.
Já o de John Stark lhe dava, ajudado
pelo ar manso que ele tinha, uma cara de cachorro
perdigueiro, boa e amiga. E havia, ainda, o
bigode de Dante Delocco, bem aparado, como o
de Segundo Maffeu. O de William Procter era
preto, amorenava-lhe o rosto, o de James Hartley,
louro, quase branco, fazia-o parecer mais velho.
Também James Hartley já estava
de cabelo ralo.
A camisa do Bangu não era, como agora,
de malha, colante, com listras largas, vermelhas
e brancas. Tinha as listras bem finas, quase
juntas. E uma gola mais parecida com um colarinho
mole. Pelo menos com um desses colarinhos de
hoje, cujo desenho saiu das camisas esporte.
O tecido um pouco sedoso e brilhante, como musselina.
Nem todas as camisas eram iguais. Umas tinham,
bem no centro, de cima a baixo, barras do mesmo
pano, de listras horizontais. Barras largas,
da grossura de um punho, finas, da grossura
de um dedo. Os ingleses não prestavam
muita atenção a esses detalhes.
Eram mais descuidados na maneira de vestir do
que os italianos e os portugueses.
E muito mais descuidados do que o brasileiro
Francisco Carregal. Talvez por orgulho de raça
superior. Francisco Carregal aparece na fotografia
em primeiro plano, de pernas cruzados, segurando
a bola. Desenhada na bola, a giz, uma data da
fotografia do match e as inicias do Bangu, sem
o tê do The. Um bê, um a, um ce,
em letras maiúsculas. E uns números,
zero, cinco, traço, cinco, traço,
quatorze. Primeiro o ano, 1905, depois o mês
de maio, depois o dia, quatorze. As botinas
travadas de Francisco Carregal, novinhas em
folha. Se não novinhas, engraxadas de
manhã para o jogo.
Chama atenção a diferença
entre o apuro de Francisco Carregal, preocupado
em não fazer feio, e o pouco se me dá
de William Procter, que não ligava para
essas coisas.
Francisco Carregal, um simples tecelão,
comprou tudo de novo: as botinas travadas, as
meias de lã, os calções.
A camisa, quem dava era o clube. William Procter,
o mestre eletricista, mandou travar umas botinas
velhas, cortou com uma tesourada uma calça
branca que não servia mais, nem comprou
as meias de lã que custavam oito mil
réis na Casa Clark. Enfiou o pé
numa meia comum, que lhe ia somente até
o meio da perna, e deixou-se fotografar de ligas
pretas.
As ligas pretas chegam a ferir os olhos na perna
branca de William Procter. Parece até
que ele não acabara de se vestir, que
viera correndo lá de dentro, para a pose
fotográfica, sem calças, de cuecas.
Principalmente porque está ao lado de
Francisco Carregal, todo vestidinho, entre Francisco
Carregal e James Hartley, que, além das
meias de lã, botou, cobrindo as pernas,
as caneleiras. Caneleira era coisa rara, não
havia por aqui, só vindo da Inglaterra,
como um verdadeiro requinte.
William Procter podia descuidar-se, Francisco
Carregal, não. No meio de ingleses, de
portugueses, de italianos, sentia-se mais mulato,
queria parecer menos, quase branco. Passava
perfeitamente. Pelo menos não escandalizava
ninguém.
Se Manuel Maia, goalkeeper crioulo, filho de
preto com preta, não foi apontado a dedo,
o center-forward mulato Francisco Carregal nem
chamou atenção. Que mal fazia
um operário jogar futebol? Deixava de
ser operário por isso?
No domingo dava seus pontapés na bola,
corria em campo molhando a camisa, na segunda-feira
cedinho, quando o portão da fábrica
se abria, lá estava ele. Ia para os teares
como os outros operários, trabalhava,
só parava na hora do almoço, para
voltar, depois, até às quatro
horas. Nem tinha tempo de se lembrar do jogo
da véspera.
E lembrar para quê? Na hora do trabalho,
só do trabalho, na hora do jogo, só
jogo. Afinal de contas, o Bangu era, apesar
do The, um clube dos trabalhadores da Companhia
Progresso Industrial do Brasil. Se não
fosse a fábrica, como o clube arranjaria
um campo? O campo só? E o resto? O resto
era tudo.
O operário que jogava ao lado dos mestres,
branco ou preto, não subia, não
descia, ficava onde estava. Se quisesse subir
tinha de trabalhar muito, de aprender muito,
para passar de tecelão a mestre. Como
Francisco Carregal acabaria passando à
custa de trabalho, e não de futebol.
O futebol era divertimento. Como todo divertimento
custava dinheiro. Mais ou menos. Menos em Bangu
do que na Rua Retiro de Guanabara, onde o Fluminense
fizera o seu campo. Por isso não havia
o perigo de que um Francisco Carregal, apesar
de mulato limpo, ou um Manuel Maia, apesar de
bom preto, respeitador, entrasse no Fluminense.
FILHO,
Mario Rodrigues. O Negro no Futebol Brasileiro.
Rio de Janeiro, 1947. Editora Mauad, 2003, 4ª
edição, p. 32-34.
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