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A VERDADEIRA ELITE!
O
Bangu, clube que outrora era uma grande fábrica
de craques (surgido de uma excelente fábrica
de tecidos), sempre foi uma agremiação
voltada para a verdadeira função
socializante do futebol. De fato, o FUTEBOL
ASSOCIADO (verdadeiro nome do esporte-rei),
é uma prova do sentido de conjunto e
do prevalecimento da união sobre o egoísmo
e o individualismo. É, ao contrário
do tênis, a antítese da filosofia
do elitismo, onde o falso poder da auto-suficiência
é exercido, manipulando e subjugando
as massas.
Com este conceito democrata e neste sentido,
tanto o Bangu (e o time de Moça Bonita
historicamente é um dos grandes do futebol
brasileiro), como o Vasco da Gama, entre os
clubes considerados, por tradição
esportiva, competitivos da cidade do Rio de
Janeiro, sempre colaboraram para a formação
de times, onde os membros de todos os segmentos
da sociedade estivessem envolvidos e fossem
bem-vindos, possibilitando o surgimento de uma
verdadeira elite no futebol da cidade, que depois
acabou ajudando de uma maneira definitiva a
consagrar o Brasil como o melhor do mundo no
esporte mais globalizado do planeta.
Quando o futebol engatinhava na nossa cidade,
o panorama era esquálido. Pouca gente
tinha acesso ao jogo, às regras, e tudo
aquilo que poderia custar algum dinheiro, como
uniformes, bolas e tudo que se referia ao esporte
que nascia, numa cidade ainda bastante provinciana.
O quadro era desanimador e a mentalidade, pior
ainda. Só os ricos podiam jogar e presenciar
aqueles jogos. Quando formaram a primeira liga
no Rio de Janeiro (e o Bangu foi um dos fundadores),
o povo trabalhador não podia participar
dos grandes clubes à época, que
eram racistas e elitistas. O mesmo acontecia
em São Paulo, assim como em outros estados
da nação. Sem dúvida, a
história marcou negativamente e por um
bom tempo a existência destes clubes.
Apesar deste panorama, nada promissor, os clubes
que tinham origem nas classes trabalhadoras,
como o Bangu, estavam lá e participavam
formando grandes craques que haveriam de brilhar
pelos gramados mundo afora. O clube surgido
entre os operários da Fábrica
Bangu, uma das melhores fábricas de tecidos
da América do Sul nesta primeira metade
do século, também fabricava jogadores
aos montes e não foi à toa que
craques que fizeram a história de nosso
futebol, como Domingos da Guia, Fausto, Zózimo,
Ademir da Guia, Paulo Borges, entre tantos outros,
foram formados na escolinha do Bangu, famosa
por sempre ter sido um verdadeiro celeiro de
campeões. Outros mestres da bola, mesmo
que provenientes de outros clubes, como o fantástico
Zizinho, Parada, para citar apenas dois, deram
sua colaboração vestindo a tradicional
camisa alvi-rubra. Zizinho foi inclusive considerado
o melhor jogador do mundo em 1950, quando foi
o craque daquela Copa, já envergando
as cores banguenses. É para muitos o
maior craque brasileiro, depois de Pelé
e seguramente o era, antes da chegada do atleta
do século, no mundo do futebol.
Assim como o Bangu, o Vasco da Gama quebrava
tabus. Foi expulso da liga em 1924 pelos clubes
"elitistas" comandados pelo Fluminense,
simplesmente por ser democrata e aceitar jogadores
de todas as etnias, classes sociais e com todas
as correntes ideológicas. Construiu o
maior estádio da América do Sul
à época, e teve de ser aceito
por sua grandeza, inerente e proveniente das
camadas populares. Este mesmo estádio,
conhecido até hoje como o "colosso
de São Januário", foi durante
muito tempo o maior do Brasil e é até
hoje o maior estádio privado do Estado
do Rio de Janeiro.
Não podia deixar de registrar aqui que
os clubes chamados "pequenos", que
sempre lutaram contra todo o tipo de armação
dos homens que dirigem (sic!) o nosso combalido
futebol, também colaboraram e colaboram
até hoje com a revelação
de grandes jogadores. A análise objetiva
dos fatos não deixa a mínima dúvida.
Não é por acaso que Romário
veio do Olaria e Ronaldinho do São Cristóvão.
Os dois foram os craques dos dois últimos
Campeonatos do Mundo, a maior competição
esportiva do planeta. Romário foi o craque
absoluto da Copa de 94, quando o Brasil conquistou
o tetracampeonato e Ronaldinho foi, também
eleito, o craque da última Copa, quando
o Brasil conquistou, pela segunda vez, o vice-campeonato.
Como se vê, nem seria preciso ir ao início
da história, nem mesmo ao começo
do profissionalismo, para valorizarmos os clubes
de menor porte.
Ainda assim, não custa lembrarmos que
Leônidas da Silva, que começou
no Sírio e Libanês e se revelou
no Bonsucesso e Didi, que veio do Americano
de Campos, tendo aparecido no Madureira, foram
dois cracaços consagrados, em meio à
uma constelação, vinda dos menores
clubes. Alguma objeção quanto
ao valor dos clubes de pequeno investimento?
Não! Nenhuma pessoa de bom senso poderia
contestar a evidência dos fatos. Isto
sem levar em conta que estes clubes jogam quase
sempre contra juízes, público,
a estrutura muito maior dos clubes de grandes
investimentos e, o que é pior, contra
os grandes interesses financeiros que injustamente
regem nosso esporte mais popular nos dias de
hoje. E que num país com grande injustiça
social, como desde sua origem é o caso
do Brasil, os problemas refletem ainda mais
nas classes produtivas, que são as classes
trabalhadoras, de onde vêm estes mesmos
atletas dos clubes considerados "pequenos".
Finalizando, acho por tudo que foi dito explicitamente
acima, o que acontece constantemente com algumas
das "grandes" agremiações
do nosso futebol, formadas de uma pseudo-aristocracia,
de uma falsa elite, é lógico e
justo, não merecendo estes clubes exigirem
privilégios para permanecerem em divisões
quando os resultados não forem conquistados
no campo. Por serem produtos e terem coexistido
num passado segregacionista e consequentemente
repugnante, seus dirigentes deveriam pensar
nos erros do passado, para não voltarem
a cometer tamanha injustiça no presente.
Num futuro democrático e organizado (como
todos sempre esperam), deveria prevalecer a
verdadeira elite. E esta, não é,
nem nunca foi, formada por este tipo de mentalidade.
FIM
Texto:
Luiz Eduardo Lages, jornalista, cronista e historiador
de futebol, torcedor do Bangu.
Fonte: http://www.algonet.se/~lages/coluna1.htm,
escrito em 12/11/1998.
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