Rio de Janeiro, quinta-feira, 17 de maio de 2012 - 21h34min
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Apresentação Agradecimentos  Prefácio

 
1889 a 1903

Oficialmente, o Bangu Atlético Clube foi fundado em 17 de abril de 1904, porém, atividades esportivas em geral e futebol, em particular, já eram práticas conhecidas no bairro desde o século XIX. O football era um esporte que já existia há muito tempo na Inglaterra e cujas regras oficiais foram traçadas em 1863. Inúmeros clubes já haviam sido criados no Reino Unido e, nas escolas, era tradição a prática desses jogos entre os jovens.

No Brasil, conta a história que o esporte bretão chegou em 1894, na cidade de São Paulo, trazido por Charles Miller. Porém, somente em abril de 1895 foi realizada a primeira partida de que se tem notícia: São Paulo Railway 4 x 2 The Team of Gaz. Mas a história verdadeira é outra...

Na Capital da República, Rio de Janeiro, também se começou a jogar futebol no século XIX, obra dos ingleses "importados" pelas fábricas de tecidos e pelos setores de ferrovias e energia elétrica. Em Bangu, os primeiros técnicos têxteis britânicos chegaram no ano de 1891, dois anos depois do início da construção do prédio da fábrica e dois anos antes de sua inauguração. Era um número reduzido, que não iria ficar permanentemente no Brasil. Vieram apenas para a instalação das primeiras máquinas.

O segundo grupo chegou no final do ano de 1892, vindos de Manchester, Oldham, Yorkshire e Southampton, onde havia fábricas têxteis nos moldes da que viria a existir em Bangu. Estes técnicos estavam com o emprego garantido e passariam a fazer parte do desenvolvimento da região. Segundo consta, foram estes ingleses que introduziram as atividades esportivas no bairro.

Os ingleses utilizavam uma forma de organizar o trabalho nas fábricas que é muito comum até os dias de hoje: trabalhava seis dias por semana e havia folga no domingo. Cada imigrante utilizava esta folga como desejava. Os italianos realizavam festas com cantorias após o almoço, os portugueses cultivavam a religião e os ingleses voltavam-se para os esportes.

 
Thomas Donohoe, o verdadeiro pai do futebol brasileiro, era morador de Bangu.

No ano de 1893, foram contratados quatro técnicos da firma inglesa Platt Brothers and Co., de Southampton, eram eles: Thomas Hellowell, Andrew Procter, William French e Thomas Donohoe, este último escocês. Antes de se mudarem para o Brasil, os quatro receberam um salvo-conduto da Rainha Vitória. Eles chegariam ao seu destino em janeiro daquele ano e no dia 8 de março assistiriam a inauguração da fábrica.

Eram suficientemente competentes e foram escolhidos por apresentarem grande capacidade. A primeira sensação que eles tiveram foi o calor. Afinal, saíram da Inglaterra no inverno e chegaram ao Brasil no verão. Quando chegaram em Bangu, só havia uma rua e menos de mil habitantes. Com o emprego garantido os Srs. Hellowell, Procter, French e Donohoe deram-se o luxo de trazerem suas respectivas famílias, investindo realmente no desenvolvimento do local que eles nem conheciam.

Desses quatro técnicos, todos com passagens pelo Southampton Football Club, o que mais amava o esporte era Thomas Donohoe. O escocês, que logo cedo descobriu uma oportunidade de trabalho na Inglaterra e que tinha quase dois metros de altura, era um sportman nato. Depois de estar bem adaptado em sua nova residência e conhecer melhor os outros trabalhadores da fábrica, Donohoe descobriu que não se praticavam esportes por aqui.

Aos domingos era comum ver grupos pedalando suas bicicletas rumo à lugares novos na paisagem ou treinarem algum instrumento musical e com isso almejar uma vaga na banda da Sociedade Musical Progresso de Bangu, fundada em 1892.

Football era algo desconhecido para os brasileiros. Os técnicos ingleses mais antigos o conheciam, porém nunca o haviam praticado em terras tropicais. Foi neste momento que o Sr. Donohoe se deu conta do engano que cometera. Achou desnecessário trazer uma bola de futebol para o Brasil pois acreditava que o esporte já era popular por aqui. Na viagem de navio, Donohoe dizia que iria jogar com os estudantes das escolas superiores de Bangu e que logo ao chegar iria se associar a um clube local. O Sr. French, mais moderado, questionou Donohoe da existência do football em terras brasileiras e obteve a seguinte resposta:

- Ora, se até mesmo os franceses, que nunca tiveram a mínima intimidade com a pelota, conseguiram praticá-lo, é porque em todo o mundo já o fazem muito bem.

Para decepção de Donohoe, não havia football em Bangu e muito menos escolas superiores ou clubes.

Consta que Thomas Donohoe chegou a ir até o Centro do Rio de Janeiro procurando alguma loja que vendesse uma bola de football. Não encontrou nada. Ou melhor, encontrou sim um outro inglês que o ensinou a fazer uma bola com barbante e meia, mas não era a mesma coisa. Não dava para jogar uma partida inteira com esse paliativo. Donohoe tentou até esquecer a sua paixão pelo football. Passou a aproveitar o seu dia de domingo indo para o Centro assistir a algumas encenações teatrais, porém como não entendia uma só palavra do que era dito e além disso, a escassez de trens fazia a viagem virar uma eternidade, a idéia não vingou. Era preferível continuar em Bangu, assistir as reuniões musicais e procurar se divertir com elas.

Mas a frustração inicial de Donohoe teria um fim. Ainda no ano de 1893, o Sr. Henry Bennet iria à Inglaterra adquirir peças de reposição, máquinas e outros equipamentos industriais. Era a chance que Thomas pedira para fazer uma encomenda especial ao importador. Precisava de uma bola urgentemente, com agulha e bomba para enchê-la e um livro de regras para ensinar aos brasileiros. Feita a encomenda, Donohoe esperou longos meses até o regresso do Sr. Bennet. Neste tempo a empolgação de Thomas crescera enormemente. Conversava com os outros ingleses, convidava os amigos para participarem do primeiro jogo assim que a bola chegasse... Quando o Sr. Bennet regressou de viagem, uma notícia partiu o coração de Donohoe: o amigo esquecera a encomenda no quarto do hotel onde ficara hospedado em Londres. Não dava para acreditar, era azar demais!

Porém, há males que vêm para o bem. No ano seguinte, 1894, Thomas Donohoe tanto insistiu com os grandes diretores da Fábrica, que estes permitiram sua ida a trabalho para a compra de material na Inglaterra. O tesoureiro da Companhia, o Sr. Manoel Moreira da Fonseca, certamente pensou que Donohoe já estava morrendo de saudades de sua terra e liberou o técnico do serviço por três meses, além de pagar todas as suas despesas de viagem.

De volta à Inglaterra, Donohoe visitou amigos, contou da sua vida no Brasil, buscou as encomendas da Fábrica, e pôde, finalmente, comprar a sua pelota de couro, com o dinheiro que sobrara da verba dada pelo Sr. Fonseca.

Todo o equipamento industrial da fábrica vinha em enormes caixas de madeira. Dentro de uma dessas, o Sr. Donohoe colocou bem camuflado um pacote contendo uma bola de couro novinha, uma bomba para enchê-la e alguns pares de chuteiras. Ao regressar, em abril de 1894, foi só abrir a caixa, retirar a encomenda e dar o pontapé inicial para o desenvolvimento do esporte em Bangu.

O intrépido futebolista falou de sua nova aquisição e marcou para o próximo dia de folga uma partida entre todos os técnicos ingleses que trabalhavam na fábrica. Distribuiu algumas chuteiras para os amigos mais próximos e mostrou a sua preciosidade, que estava guardada na cristaleira de sua casa. A bola, sem dúvida a primeira existente no Brasil, era um verdadeiro troféu, que ele precisou suar muito para conquistá-lo.

No domingo pela manhã, já era possível ver o Sr. Donohoe arrumando uma área livre (o que era fácil de encontrar nas proximidades da Fábrica), de preferência bem nivelada (isso era um pouco mais difícil) e fincando quatro estacas, duas de cada lado da várzea, formando assim as traves. Quem passasse pelo local naquela manhã poderia imaginar que o escocês estivesse tentando construir alguma coisa. À tarde, porém, devem ter pensado que todos os técnicos britânicos enlouqueceram. Donohoe chamou de casa em casa todos os seus companheiros dos tempos de Southampton e, um grupo composto de aproximadamente dez homens apareceu nas proximidades do terreno para estrearem a bola nova e matarem a saudade do tão salutar jogo que eles haviam deixado para trás na Inglaterra.

Cada time jogou com apenas cinco players, mas foi o suficiente para garantirem a diversão. Com o tempo, um maior número de pessoas se interessariam e neste momento poderia ser realizada uma partida com dois elevens. Para Donohoe isso pouco importava, pois o fato principal é que ele havia matado as suas saudades do football e conseguido realizar a sua primeira partida. Não houve preocupação com o uniforme, com as anotações dos gols marcados, com a cronometragem e tão pouco se pensou em anotar o nome dos jogadores, o importante era matar a fome de bola. Por esta falta de dados palpáveis é que se prefere creditar a Charles Miller a introdução do futebol no Brasil em outubro de 1894 e a realização da primeira partida em abril de 1895, um ano após o jogo do Sr. Donohoe.

A diversão dos finais de semana estava garantida. Tornou-se hábito. Todo domingo, exceto quando chovia, os ingleses reuniam-se para jogar futebol. Os instrumentos musicais já haviam até ficado de lado. As bicicletas de passeio já não tinham mais utilidade no dia de folga - eram apenas um meio de transporte. Alguns estrangeiros se interessaram em aprender o incrível jogo dos ingleses. Foram introduzidos os italianos, os espanhóis, os portugueses. Os brasileiros apenas assistiam ao espetáculo e teciam comentários assustados. Afinal, como podiam os renomados técnicos serem tão loucos?

Aos poucos os nacionais foram se adaptando. Assistia aos jogos uma dúzia de espectadores, que apreciavam somente os tombos e os empurrões, desconhecendo por absoluto as regras mais elementares do esporte.

Thomas Donohoe nem suspeitava, mas havia sido o pioneiro, o introdutor desta nova espécie de arte no Brasil. Bangu tem motivos de sobra para se orgulhar: foi o primeiro lugar no país onde se praticou o esporte mais popular do mundo. Aqui foi realizada a primeira partida e também morou por 32 anos, anonimamente, o pai do futebol brasileiro.

Charles Miller, paulista nascido no bairro do Brás em 1874, que foi estudar na Inglaterra, na Banister Court School, de Southampton, provavelmente jogou com Thomas Donohoe por lá, é hoje considerado, erroneamente, o introdutor do futebol no Brasil. As justificativas para o mérito ter ido para Miller e não para Donohoe acabam sendo óbvias: era mais interessante que o homem que trouxe o futebol para o Brasil fosse um brasileiro do que um escocês. Além disso, Miller realizou suas partidas no centro de São Paulo, à vista de todos. Enquanto que Donohoe disputou seus matches no distante Bangu, que ficava a duas horas de trem do Centro do Rio, fazendo com que apenas os moradores do local tomassem conhecimento do seu pioneirismo.

Nem mesmo no Rio de Janeiro, a "paternidade" de Donohoe é reconhecida. Concede-se a honra de trazer a primeira bola para o Estado ao descendente de suíços Oscar Cox, no ano de 1897, três anos depois do verdadeiro pioneiro.

No longínquo 1897, enquanto o Sr. Oscar Cox desfilava do bairro das Laranjeiras ao Centro exibindo sua bola, em Bangu a paixão pelo jogo era tanta que mais duas outras já haviam sido trazidas da Inglaterra, em mais uma encomenda do Sr. Donohoe. Foi neste ano também que o incansável escocês juntou um punhado de companheiros do Reino Unido para pedirem a ajuda da Fábrica na fundação de um clube, nos moldes dos existentes em seu país. Foram vetados pelo secretário da Companhia, Eduardo Gomes Ferreira, que se declarou inimigo de qualquer espécie de jogo, principalmente o football.

As idéias voltadas às atividades atléticas eram, na época, confundidas com jogos de azar. Pensavam que o futebol iria viciar os funcionários da fábrica e que traria problemas para a administração. Além disso, quem quisesse lazer que procurasse a Sociedade Musical Progresso de Bangu e a Banda de Música dos Operários da Fábrica, que organizavam seus bailes constantemente. Por todos estes motivos, a idéia de fundação de um clube foi recusada. Já imaginou se os funcionários resolvessem faltar ao trabalho para ficarem no clube chutando uma bola?

Poderíamos ter sido o primeiro clube fundado no país que teria o futebol como esporte principal...

Atravessamos para o século XX e a paixão pelos esportes aumentava, principalmente entre os brasileiros. Além de assistirem as disputas dos ingleses, os brasileiros viam a alegria do novo gênero. Se antes os nacionais pouco sabiam do futebol, agora já se entusiasmavam em assistir os matches, e inclusive participar deles. Jogava-se nos grandes terrenos existentes em Bangu, nos enormes espaços que o recente desenvolvimento ainda não havia ocupado.

Bangu era, portanto, o primeiro lugar no Brasil que aceitou esta mistura no futebol. Como não havia ingleses suficientes para montar dois times, os operários da Fábrica acabaram sendo enturmados pelos técnicos para a realização de partidas deste sport.

Por volta de 1901, os praticantes dos esportes ganharam um espaço exclusivo para disputarem suas partidas. Por determinação conjunta dos Srs. Manoel Antônio da Costa Pereira e João Ferrer ficou decidido que a Companhia Progresso Industrial do Brasil cederia uma área localizada bem ao lado direito das salas de trabalho então existentes para a construção de um campo provisório. Este field situado dentro da Fábrica Bangu existiu até 1906, sendo disputadas muitas partidas com bastante audiência.

Em 1903, Thomas Donohoe, como prêmio por completar dez anos de sua chegada ao Brasil para trabalhar como técnico da Fábrica, ganhou da Companhia uma viagem a passeio para a Inglaterra com direito a levar sua família. Em dezembro deste ano, retornando da viagem, "seu Danau", como já era chamado pelos operários da Fábrica, trouxe mais duas bolas de football.

Conta a história que após desembarcar na Praça Mauá, o Sr. Donohoe seguiu até a Estrada de Ferro com sua família e todas as bagagens numa carroça, e da Estação da Praça da República tomou o trem para Bangu. Causou surpresa aos viajantes quando retirou da bolsa aquele pedaço de couro, com costuras expostas nos gomos, e com a ajuda de uma bomba de ar, encheu a bexiga dentro do vagão, começando a quicá-la. Duas horas depois, desceu com a pelota em baixo do braço, como não podia deixar de ser.

Esta é a história original do nascimento do futebol no Brasil e de seu mais ferrenho incentivador. O atraente esporte ganhava, a cada dia, novos adeptos, e era cada vez mais visível a necessidade de um clube para o seu melhor desenvolvimento. Para esta nova iniciativa Donohoe não estaria só, contaria com o forte apoio do Sr. Andrew Procter, companheiro de tantos matches.

Porém, o ano de 1903 já estava acabando, e qualquer pretensão de surgimento de um clube ficaria para 1904. Será que desta vez eles obteriam êxito?
 
Football - Desenho do século XIX feito pelo chefe da seção de gravura da Fábrica Bangu, José Villas Boas.
          
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