Oficialmente,
o Bangu Atlético Clube foi fundado
em 17 de abril de 1904, porém,
atividades esportivas em geral e futebol,
em particular, já eram práticas
conhecidas no bairro desde o século
XIX. O football era um esporte que já
existia há muito tempo na Inglaterra
e cujas regras oficiais foram traçadas
em 1863. Inúmeros clubes já
haviam sido criados no Reino Unido e,
nas escolas, era tradição
a prática desses jogos entre
os jovens.
No Brasil, conta a história que
o esporte bretão chegou em 1894,
na cidade de São Paulo, trazido
por Charles Miller. Porém, somente
em abril de 1895 foi realizada a primeira
partida de que se tem notícia:
São Paulo Railway 4 x 2 The Team
of Gaz. Mas a história verdadeira
é outra...
Na Capital da República, Rio
de Janeiro, também se começou
a jogar futebol no século XIX,
obra dos ingleses "importados"
pelas fábricas de tecidos e pelos
setores de ferrovias e energia elétrica.
Em Bangu, os primeiros técnicos
têxteis britânicos chegaram
no ano de 1891, dois anos depois do
início da construção
do prédio da fábrica e
dois anos antes de sua inauguração.
Era um número reduzido, que não
iria ficar permanentemente no Brasil.
Vieram apenas para a instalação
das primeiras máquinas.
O segundo grupo chegou no final do ano
de 1892, vindos de Manchester, Oldham,
Yorkshire e Southampton, onde havia
fábricas têxteis nos moldes
da que viria a existir em Bangu. Estes
técnicos estavam com o emprego
garantido e passariam a fazer parte
do desenvolvimento da região.
Segundo consta, foram estes ingleses
que introduziram as atividades esportivas
no bairro.
Os ingleses utilizavam uma forma de
organizar o trabalho nas fábricas
que é muito comum até
os dias de hoje: trabalhava seis dias
por semana e havia folga no domingo.
Cada imigrante utilizava esta folga
como desejava. Os italianos realizavam
festas com cantorias após o almoço,
os portugueses cultivavam a religião
e os ingleses voltavam-se para os esportes.
Thomas
Donohoe, o verdadeiro pai do
futebol brasileiro, era morador
de Bangu.
No ano de 1893, foram contratados quatro
técnicos da firma inglesa Platt
Brothers and Co., de Southampton, eram
eles: Thomas Hellowell, Andrew Procter,
William French e Thomas Donohoe, este
último escocês. Antes de
se mudarem para o Brasil, os quatro
receberam um salvo-conduto da Rainha
Vitória. Eles chegariam ao seu
destino em janeiro daquele ano e no
dia 8 de março assistiriam a
inauguração da fábrica.
Eram suficientemente competentes e foram
escolhidos por apresentarem grande capacidade.
A primeira sensação que
eles tiveram foi o calor. Afinal, saíram
da Inglaterra no inverno e chegaram
ao Brasil no verão. Quando chegaram
em Bangu, só havia uma rua e
menos de mil habitantes. Com o emprego
garantido os Srs. Hellowell, Procter,
French e Donohoe deram-se o luxo de
trazerem suas respectivas famílias,
investindo realmente no desenvolvimento
do local que eles nem conheciam.
Desses
quatro técnicos, todos com passagens
pelo Southampton Football Club, o que
mais amava o esporte era Thomas Donohoe.
O escocês, que logo cedo descobriu
uma oportunidade de trabalho na Inglaterra
e que tinha quase dois metros de altura,
era um sportman nato. Depois de estar
bem adaptado em sua nova residência
e conhecer melhor os outros trabalhadores
da fábrica, Donohoe descobriu
que não se praticavam esportes
por aqui.
Aos domingos era comum ver grupos pedalando
suas bicicletas rumo à lugares
novos na paisagem ou treinarem algum
instrumento musical e com isso almejar
uma vaga na banda da Sociedade Musical
Progresso de Bangu, fundada em 1892.
Football era algo desconhecido para
os brasileiros. Os técnicos ingleses
mais antigos o conheciam, porém
nunca o haviam praticado em terras tropicais.
Foi neste momento que o Sr. Donohoe
se deu conta do engano que cometera.
Achou desnecessário trazer uma
bola de futebol para o Brasil pois acreditava
que o esporte já era popular
por aqui. Na viagem de navio, Donohoe
dizia que iria jogar com os estudantes
das escolas superiores de Bangu e que
logo ao chegar iria se associar a um
clube local. O Sr. French, mais moderado,
questionou Donohoe da existência
do football em terras brasileiras e
obteve a seguinte resposta:
- Ora, se até mesmo os franceses,
que nunca tiveram a mínima intimidade
com a pelota, conseguiram praticá-lo,
é porque em todo o mundo já
o fazem muito bem.
Para decepção de Donohoe,
não havia football em Bangu e
muito menos escolas superiores ou clubes.
Consta que Thomas Donohoe chegou a ir
até o Centro do Rio de Janeiro
procurando alguma loja que vendesse
uma bola de football. Não encontrou
nada. Ou melhor, encontrou sim um outro
inglês que o ensinou a fazer uma
bola com barbante e meia, mas não
era a mesma coisa. Não dava para
jogar uma partida inteira com esse paliativo.
Donohoe tentou até esquecer a
sua paixão pelo football. Passou
a aproveitar o seu dia de domingo indo
para o Centro assistir a algumas encenações
teatrais, porém como não
entendia uma só palavra do que
era dito e além disso, a escassez
de trens fazia a viagem virar uma eternidade,
a idéia não vingou. Era
preferível continuar em Bangu,
assistir as reuniões musicais
e procurar se divertir com elas.
Mas a frustração inicial
de Donohoe teria um fim. Ainda no ano
de 1893, o Sr. Henry Bennet iria à
Inglaterra adquirir peças de
reposição, máquinas
e outros equipamentos industriais. Era
a chance que Thomas pedira para fazer
uma encomenda especial ao importador.
Precisava de uma bola urgentemente,
com agulha e bomba para enchê-la
e um livro de regras para ensinar aos
brasileiros. Feita a encomenda, Donohoe
esperou longos meses até o regresso
do Sr. Bennet. Neste tempo a empolgação
de Thomas crescera enormemente. Conversava
com os outros ingleses, convidava os
amigos para participarem do primeiro
jogo assim que a bola chegasse... Quando
o Sr. Bennet regressou de viagem, uma
notícia partiu o coração
de Donohoe: o amigo esquecera a encomenda
no quarto do hotel onde ficara hospedado
em Londres. Não dava para acreditar,
era azar demais!
Porém, há males que vêm
para o bem. No ano seguinte, 1894, Thomas
Donohoe tanto insistiu com os grandes
diretores da Fábrica, que estes
permitiram sua ida a trabalho para a
compra de material na Inglaterra. O
tesoureiro da Companhia, o Sr. Manoel
Moreira da Fonseca, certamente pensou
que Donohoe já estava morrendo
de saudades de sua terra e liberou o
técnico do serviço por
três meses, além de pagar
todas as suas despesas de viagem.
De volta à Inglaterra, Donohoe
visitou amigos, contou da sua vida no
Brasil, buscou as encomendas da Fábrica,
e pôde, finalmente, comprar a
sua pelota de couro, com o dinheiro
que sobrara da verba dada pelo Sr. Fonseca.
Todo o equipamento industrial da fábrica
vinha em enormes caixas de madeira.
Dentro de uma dessas, o Sr. Donohoe
colocou bem camuflado um pacote contendo
uma bola de couro novinha, uma bomba
para enchê-la e alguns pares de
chuteiras. Ao regressar, em abril de
1894, foi só abrir a caixa, retirar
a encomenda e dar o pontapé inicial
para o desenvolvimento do esporte em
Bangu.
O intrépido futebolista falou
de sua nova aquisição
e marcou para o próximo dia de
folga uma partida entre todos os técnicos
ingleses que trabalhavam na fábrica.
Distribuiu algumas chuteiras para os
amigos mais próximos e mostrou
a sua preciosidade, que estava guardada
na cristaleira de sua casa. A bola,
sem dúvida a primeira existente
no Brasil, era um verdadeiro troféu,
que ele precisou suar muito para conquistá-lo.
No domingo pela manhã, já
era possível ver o Sr. Donohoe
arrumando uma área livre (o que
era fácil de encontrar nas proximidades
da Fábrica), de preferência
bem nivelada (isso era um pouco mais
difícil) e fincando quatro estacas,
duas de cada lado da várzea,
formando assim as traves. Quem passasse
pelo local naquela manhã poderia
imaginar que o escocês estivesse
tentando construir alguma coisa. À
tarde, porém, devem ter pensado
que todos os técnicos britânicos
enlouqueceram. Donohoe chamou de casa
em casa todos os seus companheiros dos
tempos de Southampton e, um grupo composto
de aproximadamente dez homens apareceu
nas proximidades do terreno para estrearem
a bola nova e matarem a saudade do tão
salutar jogo que eles haviam deixado
para trás na Inglaterra.
Cada time jogou com apenas cinco players,
mas foi o suficiente para garantirem
a diversão. Com o tempo, um maior
número de pessoas se interessariam
e neste momento poderia ser realizada
uma partida com dois elevens. Para Donohoe
isso pouco importava, pois o fato principal
é que ele havia matado as suas
saudades do football e conseguido realizar
a sua primeira partida. Não houve
preocupação com o uniforme,
com as anotações dos gols
marcados, com a cronometragem e tão
pouco se pensou em anotar o nome dos
jogadores, o importante era matar a
fome de bola. Por esta falta de dados
palpáveis é que se prefere
creditar a Charles Miller a introdução
do futebol no Brasil em outubro de 1894
e a realização da primeira
partida em abril de 1895, um ano após
o jogo do Sr. Donohoe.
A diversão dos finais de semana
estava garantida. Tornou-se hábito.
Todo domingo, exceto quando chovia,
os ingleses reuniam-se para jogar futebol.
Os instrumentos musicais já haviam
até ficado de lado. As bicicletas
de passeio já não tinham
mais utilidade no dia de folga - eram
apenas um meio de transporte. Alguns
estrangeiros se interessaram em aprender
o incrível jogo dos ingleses.
Foram introduzidos os italianos, os
espanhóis, os portugueses. Os
brasileiros apenas assistiam ao espetáculo
e teciam comentários assustados.
Afinal, como podiam os renomados técnicos
serem tão loucos?
Aos poucos os nacionais foram se adaptando.
Assistia aos jogos uma dúzia
de espectadores, que apreciavam somente
os tombos e os empurrões, desconhecendo
por absoluto as regras mais elementares
do esporte.
Thomas Donohoe nem suspeitava, mas havia
sido o pioneiro, o introdutor desta
nova espécie de arte no Brasil.
Bangu tem motivos de sobra para se orgulhar:
foi o primeiro lugar no país
onde se praticou o esporte mais popular
do mundo. Aqui foi realizada a primeira
partida e também morou por 32
anos, anonimamente, o pai do futebol
brasileiro.
Charles Miller, paulista nascido no
bairro do Brás em 1874, que foi
estudar na Inglaterra, na Banister Court
School, de Southampton, provavelmente
jogou com Thomas Donohoe por lá,
é hoje considerado, erroneamente,
o introdutor do futebol no Brasil. As
justificativas para o mérito
ter ido para Miller e não para
Donohoe acabam sendo óbvias:
era mais interessante que o homem que
trouxe o futebol para o Brasil fosse
um brasileiro do que um escocês.
Além disso, Miller realizou suas
partidas no centro de São Paulo,
à vista de todos. Enquanto que
Donohoe disputou seus matches no distante
Bangu, que ficava a duas horas de trem
do Centro do Rio, fazendo com que apenas
os moradores do local tomassem conhecimento
do seu pioneirismo.
Nem mesmo no Rio de Janeiro, a "paternidade"
de Donohoe é reconhecida. Concede-se
a honra de trazer a primeira bola para
o Estado ao descendente de suíços
Oscar Cox, no ano de 1897, três
anos depois do verdadeiro pioneiro.
No longínquo 1897, enquanto o
Sr. Oscar Cox desfilava do bairro das
Laranjeiras ao Centro exibindo sua bola,
em Bangu a paixão pelo jogo era
tanta que mais duas outras já
haviam sido trazidas da Inglaterra,
em mais uma encomenda do Sr. Donohoe.
Foi neste ano também que o incansável
escocês juntou um punhado de companheiros
do Reino Unido para pedirem a ajuda
da Fábrica na fundação
de um clube, nos moldes dos existentes
em seu país. Foram vetados pelo
secretário da Companhia, Eduardo
Gomes Ferreira, que se declarou inimigo
de qualquer espécie de jogo,
principalmente o football.
As idéias voltadas às
atividades atléticas eram, na
época, confundidas com jogos
de azar. Pensavam que o futebol iria
viciar os funcionários da fábrica
e que traria problemas para a administração.
Além disso, quem quisesse lazer
que procurasse a Sociedade Musical Progresso
de Bangu e a Banda de Música
dos Operários da Fábrica,
que organizavam seus bailes constantemente.
Por todos estes motivos, a idéia
de fundação de um clube
foi recusada. Já imaginou se
os funcionários resolvessem faltar
ao trabalho para ficarem no clube chutando
uma bola?
Poderíamos ter sido o primeiro
clube fundado no país que teria
o futebol como esporte principal...
Atravessamos para o século XX
e a paixão pelos esportes aumentava,
principalmente entre os brasileiros.
Além de assistirem as disputas
dos ingleses, os brasileiros viam a
alegria do novo gênero. Se antes
os nacionais pouco sabiam do futebol,
agora já se entusiasmavam em
assistir os matches, e inclusive participar
deles. Jogava-se nos grandes terrenos
existentes em Bangu, nos enormes espaços
que o recente desenvolvimento ainda
não havia ocupado.
Bangu era, portanto, o primeiro lugar
no Brasil que aceitou esta mistura no
futebol. Como não havia ingleses
suficientes para montar dois times,
os operários da Fábrica
acabaram sendo enturmados pelos técnicos
para a realização de partidas
deste sport.
Por volta de 1901, os praticantes dos
esportes ganharam um espaço exclusivo
para disputarem suas partidas. Por determinação
conjunta dos Srs. Manoel Antônio
da Costa Pereira e João Ferrer
ficou decidido que a Companhia Progresso
Industrial do Brasil cederia uma área
localizada bem ao lado direito das salas
de trabalho então existentes
para a construção de um
campo provisório. Este field
situado dentro da Fábrica Bangu
existiu até 1906, sendo disputadas
muitas partidas com bastante audiência.
Em 1903, Thomas Donohoe, como prêmio
por completar dez anos de sua chegada
ao Brasil para trabalhar como técnico
da Fábrica, ganhou da Companhia
uma viagem a passeio para a Inglaterra
com direito a levar sua família.
Em dezembro deste ano, retornando da
viagem, "seu Danau", como
já era chamado pelos operários
da Fábrica, trouxe mais duas
bolas de football.
Conta a história que após
desembarcar na Praça Mauá,
o Sr. Donohoe seguiu até a Estrada
de Ferro com sua família e todas
as bagagens numa carroça, e da
Estação da Praça
da República tomou o trem para
Bangu. Causou surpresa aos viajantes
quando retirou da bolsa aquele pedaço
de couro, com costuras expostas nos
gomos, e com a ajuda de uma bomba de
ar, encheu a bexiga dentro do vagão,
começando a quicá-la.
Duas horas depois, desceu com a pelota
em baixo do braço, como não
podia deixar de ser.
Esta é a história original
do nascimento do futebol no Brasil e
de seu mais ferrenho incentivador. O
atraente esporte ganhava, a cada dia,
novos adeptos, e era cada vez mais visível
a necessidade de um clube para o seu
melhor desenvolvimento. Para esta nova
iniciativa Donohoe não estaria
só, contaria com o forte apoio
do Sr. Andrew Procter, companheiro de
tantos matches.
Porém, o ano de 1903 já
estava acabando, e qualquer pretensão
de surgimento de um clube ficaria para
1904. Será que desta vez eles
obteriam êxito?
Football
- Desenho do século XIX
feito pelo chefe da seção
de gravura da Fábrica Bangu,
José Villas Boas.