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Apresentação Agradecimentos  Prefácio

 
1889 a 1903

Thomas Donohoe (1863-1925), o verdadeiro pai do futebol brasileiro, era morador de Bangu.

Oficialmente, o Bangu Atlético Clube foi fundado em 17 de abril de 1904, porém, atividades esportivas em geral e futebol, em particular, já eram práticas conhecidas no bairro desde o século XIX.

O football era um esporte que já existia há muito tempo na Inglaterra e cujas regras oficiais foram traçadas em 1863. Inúmeros clubes haviam sido criados no Reino Unido e, nas escolas, era tradição a prática desse jogo entre os jovens.

No Brasil, conta a história que o esporte bretão chegou em 1894, na cidade de São Paulo, trazido por Charles Miller. Porém, somente em abril de 1895 foi realizada a primeira partida de que se tem notícia: São Paulo Railway 4 x 2 The Team of Gaz. Mas há outras versões para este pioneirismo...

Na Capital da República, o Rio de Janeiro, também se começou a jogar futebol no século XIX, obra dos ingleses “importados” pelas fábricas de tecidos e pelos setores de ferrovias e energia elétrica.

Em Bangu, um distante lugarejo, a uma hora de trem do centro da cidade e que só em 1890 ganhou o direito de ter uma estação ferroviária, um grupo de acionistas portugueses resolveu investir naquelas terras, comprando quatro fazendas de áreas gigantescas - a Fazenda Bangu, a Fazenda do Retiro, o Sítio do Agostinho e o Sítio dos Amaraes – para ali construir uma fábrica de tecidos e uma vila operária. Estava, assim, fundada a 6 de fevereiro de 1889 a Companhia Progresso Industrial do Brasil, uma audaciosa iniciativa de desenvolvimento fabril, numa época em que o país ainda era uma monarquia e que a Lei Áurea, que dera fim à escravidão, não tinha completado nem um ano de assinada.  

O mapa apresenta o trajeto de Thomas Donohoe em 1894. O ponto A, próximo a Glasgow, representa a vila operária de Busby, na Escócia. O ponto B, próximo a Manchester, representa a sede da Platt Brothers, em Oldham. E o ponto C, próximo ao Canal da Mancha, refere-se ao porto de Southampton.

Naquele lugarejo, os primeiros técnicos têxteis britânicos chegaram no ano de 1891, dois anos depois do início da construção do prédio da fábrica e dois anos antes de sua inauguração. Era um número reduzido, que não iria ficar permanentemente no Brasil. Vieram apenas para a instalação das primeiras máquinas.

O segundo grupo chegou no início do ano de 1893, vindos de Manchester, Oldham, Yorkshire e Liverpool, onde existiam fábricas têxteis nos moldes da que era construída em Bangu. Eram 21 ingleses - contando também os familiares -, que foram contratados para trabalhar como chefes das diversas seções da fábrica. Estes técnicos estavam com o emprego garantido e passariam a fazer parte do desenvolvimento da região. Segundo consta, foram estes ingleses que introduziram as atividades esportivas no bairro.

Os ingleses utilizavam uma forma de organizar o trabalho nas fábricas que é muito comum até os dias de hoje: trabalhava-se seis dias por semana (das 6 horas da manhã até às 5 horas da tarde!) e havia uma folga no domingo. Cada imigrante utilizava esta folga como desejava. Os italianos realizavam festas com cantorias após o almoço, os portugueses cultivavam a religião e os britânicos se voltavam para os esportes.

Quem fazia a contratação desses técnicos era a firma Platt Brothers and Co., de Oldham, que era, ao mesmo tempo, a fornecedora de maquinário e equipamentos para a Fábrica Bangu. Tratava-se da mais conceituada empresa de máquinas têxteis do mundo. Fundada em 1770, a Platt Brothers podia se orgulhar de ter, em 1890, mais de 12 mil trabalhadores e era tão importante que 42% da população de Oldham, naquela época, viviam diretamente ligadas a essa potência.

De todos esses especialistas que foram chegando a Bangu, chamou atenção a fantástica história de Thomas Donohoe, escocês, nascido em 25 de janeiro de 1863 na vila industrial de Busby, a 8 quilômetros de Glasgow. Como todo morador da vila, Donohoe teve como destino trabalhar na fábrica Printworks, lidando diretamente com o setor de tingimento de tecidos.

Thomas Donohoe e a esposa, em foto tirada no jardim de sua casa, na Rua Fonseca nº 7.

Em 1890, aos 27 anos, casou-se com Elizabeth Montague, nove anos mais moça que ele, e passaram a viver na vila operária da cidadezinha, num sobrado, que dividia porta a porta com seu irmão, um bombeiro da fábrica. A situação era difícil e Donohoe começou a perceber que as finanças vinham mal quando nasceu o primeiro filho: John, em 1891.

A vida de um operário no berço da Revolução Industrial não era fácil: trabalhava-se muito, ganhava-se pouco. Em 1894, nasceu o segundo filho do casal: Patrick. Foi aí que Donohoe notou que o ordenado pago pela Printworks não cobriria as despesas da família.

Dados estatísticos gerais mostram que um operário inglês do final do século XIX gastava mais da metade do seu ordenado mensal (56,9%) só com gêneros alimentícios, restando pouco para os gastos com vestuário (16,6%), habitação/aluguel (13,5%) e lazer/educação (8%). Os demais 5% eram consumidos pelos impostos. (VEIGA, Eli José da. O desenvolvimento agrícola – Uma visão histórica. EdUSP, São Paulo, 2007, p. 41)

Para sorte de Thomas Donohoe, seu irmão James era, desde 1884, o chefe da seção de tinturaria. Pena que a fábrica vinha mal das pernas. Fundada em 1796, a Printworks de Busby encaminhava-se para a falência (de fato, encerraria suas funções em 1901).

Foi o irmão de Thomas Donohoe quem o indicou para a Platt Brothers & Co., de Oldham, que estava recrutando trabalhadores para uma nova fábrica têxtil instalada no Brasil, justamente a Companhia de Bangu. Deixaria de ser operário, viraria mestre de seção.

Trabalhadores da seção de tinturaria da fábrica de Busby, na Escócia. James Donohoe é o mestre do grupo e está na última fila, trajando seu chapéu coco, privilégio dos chefes. O jovem Thomas Donohoe, na ocasião com 21 anos, está à direita da fila de trás, com a mão na cintura, e o já tradicional bigode que manteria por toda a vida.

Assim, após ser bem recomendado pelo seu “patrão-irmão”, Thomas Donohoe saiu do vilarejo de Busby, na Escócia e foi, de trem, até Oldham, na Inglaterra, firmar o seu novo contrato. Antes de embarcar, recebeu também uma espécie de “salvo-conduto” assinado por John Wodehouse, 1st Earl of Kimberley, que garantiria toda a proteção em terras brasileiras ao cidadão britânico.

Salvo-conduto expedido pelo governo britânico à sra. Sarah Hanna Hellowell, esposa de um dos técnicos ingleses que vieram trabalhar em Bangu, datado de 8 de agosto de 1894. Todo súdito da Rainha Vitória recebia uma carta dessas quando deixava o país. Sinal de que poderia contar com a proteção da legação britânica em outro território.

Era sexta-feira, 4 de maio de 1894, primavera no porto de Southampton, no sul da ilha da Grã-Bretanha. Fundado em 1843, era a porta de saída de muitos navios a vapor que cruzavam o oceano Atlântico. Havia linhas regulares para os Estados Unidos e também para a América do Sul.

Entre os 48 passageiros que embarcaram no destino inicial do “paquete” S.S. Clyde, um belo navio de 3.369 toneladas, forte o suficiente para atravessar as tormentas que o esperariam durante a travessia do Atlântico, estava um escocês de 31 anos, Thomas Donohoe.

Durante 17 dias, com paradas para embarque e desembarque nos portos de Cherburgo (França), Vigo (Espanha), Lisboa (Portugal), Recife e Salvador até chegar ao Rio de Janeiro, suas cabines seriam a morada provisória de vários imigrantes numa época em que “fazer a América” parecia ser um sonho possível para vários europeus. Depois do Rio, a viagem continuaria. Santos, Montevidéu, Buenos Aires, até Valparaíso, no Chile. Ida e volta, várias vezes por ano, o capitão A. E. Bell fazia esta rota.

Thomas Donohoe seria um dos 60.182 imigrantes que desembarcariam no Brasil naquele ano de 1894. Os britânicos estavam longe de ser a maioria neste número. Portugueses, italianos e espanhóis puxavam a fila e até mesmo franceses, alemães e os chamados turcos asiáticos (turcos, sírios, libaneses) estavam à frente dos ingleses. Afinal, qual seria a lógica para um cidadão sair da maior potência mundial para viver definitivamente em um país que só agora começava a investir em industrialização?

Qual seria a oportunidade que esses ingleses viam do outro lado do Atlântico? Muitos vinham trabalhar em companhias de eletricidade, de gás, em ferrovias, em firmas de importação, na instalação de máquinas, em fábricas têxteis. Muitos ao fim de um período de contrato, retornavam ao seu país, não fixavam residência no Brasil.

Anúncio da chegada do Paquete Clyde, publicado no jornal O Paiz, em 21 de maio de 1894. “Os paquetes empregados no serviço durante este ano são todos grandes e rápidos” – ressaltava.

Thomas Donohoe não tinha essa visão. Sexto filho de uma família de sete irmãos, logo cedo conheceu o mundo do trabalho. Trabalho industrial, é bom que se diga, numa fábrica de impressão de estampas e tinturaria de chitas.

A história se atém a fatos, provas documentais, registros confiáveis. Não há método científico que recomende o livre exercício de imaginar o que se passa na cabeça de um personagem, em determinado momento da sua vida. De qualquer forma, seria interessante visualizar a imagem de Thomas Donohoe embarcando no S. S. Clyde, em Southampton, com uma mala na mão e um sem-número de pensamentos na cabeça. Pensaria na sua esposa, que ficara na Escócia? Pensaria nos dois filhos pequenos – um com três anos e outro com alguns meses – que deixara para trás? Pensaria no que lhe esperaria do outro lado do Atlântico? Pensaria em como sua vida tinha virado de cabeça para baixo ou entenderia que aquela travessia solitária era uma necessidade que o destino lhe impunha?

Tinha percorrido, por ferrovias, mais de 450 milhas entre Busby e Southampton, cruzado o Reino Unido de norte a sul. Tinha dado sua palavra aos diretores da Printworks e assinado um contrato com a poderosa Platt Brothers & Co., de Oldham, que não somente vendia maquinário para as novas indústrias têxteis que eram criadas no Brasil, mas também recrutava jovens trabalhadores interessados em viverem como imigrantes nos trópicos.

O desembarque no porto do Rio de Janeiro ocorreu numa segunda-feira, 21 de maio. Dentro do navio, Thomas Donohoe, o futuro mestre de tinturaria, conheceu Clarence Sam Hibbs, um inglês natural de Derbyshire, 35 anos, e que também viria trabalhar na Fábrica Bangu como mestre da seção de estamparia. Enquanto o paquete navegava, os dois só viam vantagens em vir para o Brasil.

Emprego garantido como mestre de seção, uma boa casa na vila operária, passagens da viagem paga pela Companhia, salário pago por dia de trabalho de acordo com a cotação da Libra, vantagens que os brasileiros ofereciam para os destemidos que cruzassem o Atlântico para desenvolver a nossa incipiente indústria têxtil. Porém, quando chegaram em Bangu, viram que a localidade tinha apenas uma rua e menos de mil habitantes.

Em 1894, ano em que Thomas Donohoe desembarcou no Rio de Janeiro, era também inaugurada a tradicional Confeitaria Colombo, no dia 17 de setembro, no Centro.

O escocês era um sportman nato. Depois de estar bem adaptado em sua nova residência e conhecer melhor os outros trabalhadores da fábrica, Donohoe descobriu que não se praticavam esportes por aqui. Aos domingos era comum ver grupos pedalando suas bicicletas rumo a lugares novos na paisagem ou treinarem algum instrumento musical e com isso almejar uma vaga na banda da Sociedade Musical Progresso de Bangu, fundada em 1892.

Football era algo desconhecido para os brasileiros. Os técnicos ingleses mais antigos o conheciam, porém nunca o haviam praticado em terras tropicais. Foi neste momento que o sr. Donohoe se deu conta do engano que cometera. Achou desnecessário trazer uma bola de futebol para o Brasil, pois acreditava que o esporte já era popular por aqui. Na viagem de navio, Donohoe chegou a comentar com Clarence Hibbs que poderia jogar com os estudantes das escolas superiores de Bangu e que logo ao chegar iria se associar a um clube local. Puro engano.

Para decepção de Donohoe, não havia football em Bangu e muito menos escolas superiores ou clubes. Parecia um castigo ir parar em lugar em que ninguém conhecia seu esporte predileto. Justo ele que chegou a ser um ídolo do football na sua localidade. Já tinham se passado cinco anos, é verdade, mas na memória de Thomas Donohoe ainda estava muito viva aquela partida de 2 de março de 1889, diante de um grande público no Cartsbrigde Park, quando saiu de campo carregado nos ombros pelos torcedores, ao marcar um gol que dera a vitória ao seu Busby F. C. diante do rival Cartvale F.C., em um clássico local.

Consta que Thomas Donohoe chegou a ir até o centro do Rio de Janeiro procurando alguma loja que vendesse uma bola de football. Não encontrou nada. Ou melhor, encontrou sim outro inglês que o ensinou a fazer uma bola com barbante e meia, mas não era a mesma coisa. Não dava para jogar uma partida inteira com esse paliativo. Donohoe tentou até esquecer a sua paixão pelo football. Passou a aproveitar o seu dia de domingo indo ao centro assistir a algumas encenações teatrais, porém como não entendia uma só palavra do que era dito e, além disso, a escassez de trens fazia a viagem virar uma eternidade, a ideia não vingou. Era preferível continuar em Bangu, assistir as reuniões musicais e procurar se divertir com elas.

Anúncio da chegada ao Rio do navio Liguria, publicado no jornal O Paiz, em 5 de setembro de 1894. “Os paquetes desta linha são iluminados à luz elétrica”, fazia questão de ressaltar. Benefício que pode desfrutar Elizabeth Donohoe, esposa de Thomas.

No entanto, outra preocupação ainda povoava a cabeça de Thomas Donohoe. Sua esposa e seus dois filhos pequenos tinham ficado na Escócia. Não perdeu tempo: foi até a diretoria da fábrica. Certificou-se com o tesoureiro Manoel Moreira da Fonseca que seu contrato era longo, iria realmente ficar no bairro, precisava trazer Elizabeth. Foi assim que a fábrica pagou a viagem da sra. Donohoe, que embarcou no paquete S.S. Liguria, em Liverpool, no dia 16 de agosto de 1894, trazendo os filhos John, com 3 anos, e Patrick, de seis meses, mais uma bola de couro na bagagem – pedido feito por Thomas em carta escrita à mulher.

No dia 5 de setembro, uma quarta-feira, quando Elizabeth desembarcou no porto do Rio, junto com outros 169 passageiros, incluindo sua irmã Margareth Montague - que veio junto para ajudar na longa travessia com as duas crianças -, Thomas Donohoe estava lá para recepcioná-la.

Ao lado de Thomas Donohoe no cais do porto, estava o mestre de fiação Thomas Hellowell, inglês da cidade de Yorkshire, ansiosíssimo. Ele chegara ao Brasil em 1893 e só agora, um ano depois, veria sua mulher, Sarah Hanna Hellowell, e seus três filhos – William, John e Albert – novamente. Era praxe da Fábrica Bangu comprar passagens para que dois técnicos têxteis ou duas famílias de imigrantes viajassem juntas, o que serviria para afinar ainda mais os laços de união entre os britânicos.

Conta a história que após presenciar o desembarque na Estação Terminal de Passageiros do porto do Rio, o sr. Donohoe seguiu até a Estrada de Ferro com sua família e todas as bagagens numa carroça, e da Estação da Praça da República tomou o trem para Bangu. Causou surpresa aos viajantes quando retirou da mala aquele pedaço de couro, com costuras expostas nos gomos, e com a ajuda de uma bomba de ar, encheu a bexiga dentro do vagão, começando a quicá-la. Uma hora depois, desceu com a pelota em baixo do braço, como não podia deixar de ser, enquanto Elizabeth e Margareth tinham que se virar para dar atenção aos dois meninos pequenos...

Presente raro. A bola importada por Thomas Donohoe era uma novidade no Brasil. Com ela, ele pode introduzir em terras tropicais um esporte que, por aqui, ninguém conhecia: o football.

O intrépido futebolista após percorrer o bairro, cheio de orgulho, com sua mulher e seus dois filhos, foi logo falando de sua mais nova aquisição – provavelmente a primeira bola a existir no Rio de Janeiro - e marcou para o próximo dia de folga uma partida entre todos os técnicos ingleses que trabalhavam na fábrica.

No domingo pela manhã, já era possível ver o sr. Donohoe arrumando uma área livre (o que era fácil de encontrar nas proximidades da fábrica), de preferência bem nivelada (isso era um pouco mais difícil) e fincando quatro estacas, duas de cada lado da várzea, formando assim as traves. Quem passasse pelo local naquela manhã poderia imaginar que o escocês estivesse tentando construir alguma coisa. À tarde, porém, devem ter pensado que todos os técnicos britânicos enlouqueceram. Donohoe chamou de casa em casa todos os seus companheiros dos velhos tempos e um grupo composto de doze homens apareceu nas proximidades do terreno para estrearem a bola nova e matarem a saudade do tão salutar jogo que eles haviam deixado para trás na Inglaterra.

Participaram deste primeiro jogo pioneiro de football, em setembro de 1894, em Bangu, os srs.: F. Smith, Clarence Hibbs, E. Elkin, Thomas Hellowell, John Stark, M. Sutton, James Hartley, Thomas Donohoe, W. Jeakes, Henry Bennet, J. Harmond e Thomas Sterling.

Cada time jogou com apenas seis players, mas foi o suficiente para garantirem a diversão. Com o tempo, um maior número de pessoas se interessaria e neste momento poderia ser realizada uma partida com dois elevens. Para Donohoe isso pouco importava, o fato principal é que ele havia matado as saudades do football e conseguido realizar a primeira partida. Não houve preocupação com o uniforme, com as anotações dos gols marcados, com a cronometragem - o importante era matar a fome de bola. Por esta falta de dados palpáveis é que se prefere creditar a Charles Miller a introdução do futebol no Brasil em outubro de 1894 e a realização da primeira partida em setembro de 1895, bem depois do jogo do sr. Donohoe.

O Football: desenho do século XIX feito pelo chefe da seção de gravura da Fábrica Bangu, José Villas Boas. Note que os jogadores aparecem de calças compridas.

A diversão dos finais de semana estava garantida. Tornou-se hábito. Todo domingo, exceto quando chovia, os ingleses se reuniam para jogar futebol. Os instrumentos musicais já haviam até ficado de lado. As bicicletas de passeio já não tinham mais utilidade no dia de folga. Alguns estrangeiros se interessaram em aprender o incrível jogo dos ingleses. Foram introduzidos os italianos, os espanhóis, os portugueses. Os brasileiros apenas assistiam ao espetáculo e teciam comentários assustados. Afinal, como podiam os renomados técnicos serem tão loucos?

Aos poucos os nacionais foram se adaptando. Assistia aos jogos uma dúzia de espectadores, que apreciavam somente os tombos e os empurrões, desconhecendo por absoluto as regras mais elementares do esporte.

Thomas Donohoe nem suspeitava, mas havia sido o pioneiro, o introdutor desta nova espécie de arte no Brasil. Bangu tem motivos de sobra para se orgulhar: foi o primeiro lugar no país onde se praticou o esporte mais popular do mundo e também morou por 31 anos, anonimamente, o pai do futebol brasileiro.

Fotos de Charles Miller, o introdutor do futebol em São Paulo. Mais atento aos detalhes, o anglo-brasileiro anotou todos os detalhes de suas primeiras partidas, enquanto que Thomas Donohoe apenas queria se distrair com os amigos.

Charles Miller, paulista nascido no bairro do Brás em 1874, que foi estudar na Inglaterra, na Banister Court School, de Southampton, é considerado, erroneamente, o introdutor do futebol no Brasil. As justificativas para o mérito ter ido para Miller e não para Donohoe acabam sendo óbvias: era mais interessante que o homem que trouxe o futebol para o Brasil fosse um brasileiro do que um escocês. Além disso, Miller realizou suas partidas no centro de São Paulo, à vista de todos. Enquanto que Donohoe disputou seus matches no distante Bangu, que ficava a uma hora de trem do centro do Rio, fazendo com que apenas os moradores do local tomassem conhecimento do seu pioneirismo.

Nem mesmo no Rio de Janeiro, a “paternidade” de Donohoe é reconhecida. Concede-se a honra de trazer a primeira bola para a cidade ao descendente de suíços, Oscar Cox, no ano de 1897, três anos depois do verdadeiro pioneiro.

No longínquo 1897, enquanto o sr. Oscar Cox desfilava do bairro das Laranjeiras ao centro exibindo sua bola, em Bangu a paixão pelo jogo era tanta que mais duas outras já haviam sido trazidas da Inglaterra, em mais uma encomenda do sr. Donohoe, que chegou ao seu destino de forma bem peculiar.

Todo o equipamento industrial da fábrica vinha em enormes caixas de madeira. Dentro de uma dessas, o sr. Henry Bennet – responsável pelas importações da Companhia - colocou bem camuflado um pacote contendo as bolas de couro novinhas, uma bomba para enchê-las e até mesmo alguns pares de chuteiras.

Foi neste ano de 1897 que o incansável escocês juntou um punhado de companheiros do Reino Unido para pedir a ajuda da fábrica na fundação de um clube, nos moldes dos existentes em seu país. A “junta inglesa” foi vetada pelo secretário da Companhia, Eduardo Gomes Ferreira, que se declarou inimigo de qualquer espécie de jogo, principalmente o football.

Atividades atléticas eram, na época, confundidas com jogos de azar. Pensavam que o futebol iria viciar os funcionários da fábrica e que traria problemas para a administração. Além disso, quem quisesse lazer que procurasse a Sociedade Musical Progresso de Bangu e a Banda de Música dos Operários da Fábrica, que organizavam seus bailes constantemente. Por todos estes motivos, a ideia de fundação de um clube foi recusada. Já imaginou se os funcionários resolvessem faltar ao trabalho para ficarem no clube chutando uma bola?

Poderíamos ter sido o primeiro clube fundado no país que teria o futebol como esporte principal...

Vítima e Algoz: em setembro de 1901, o sapateiro italiano Garibaldi Romanelli assassinou o negro brasileiro Emygdio Barbosa por causa de uma briga de bar, em Bangu. O crime desencadeou tamanha revolta no operariado, que uma greve foi organizada na fábrica exigindo a demissão de todos os funcionários italianos.

Atravessamos para o século XX e a paixão pelos esportes aumentava, principalmente entre os brasileiros. Além de assistirem as disputas dos ingleses, os brasileiros viam a alegria do novo gênero. Se antes os nacionais pouco sabiam do futebol, agora já se entusiasmavam em assistir os matches, e inclusive participar deles. Jogava-se nos grandes terrenos existentes em Bangu, nos enormes espaços que o recente desenvolvimento ainda não havia ocupado.

Bangu era, portanto, o primeiro lugar no Brasil que aceitou esta mistura no futebol. Como não havia ingleses suficientes para montar dois times, os operários da fábrica acabaram sendo enturmados pelos técnicos para a realização das partidas.Por volta de 1901, os praticantes ganharam um espaço exclusivo para disputarem suas partidas. A administração da Fábrica resolveu destinar uma área para a criação de um mercado permanente, onde os rendeiros e pequenos produtores rurais do lugar poderiam vender os seus produtos. Antes, isto era feito somente aos domingos sob a forma de uma feira que funcionava em frente à fábrica. Com a saída da feira do local, a área passou a ser destinada apenas para a prática do esporte. Este field, situado do lado direito das salas de trabalho, existiu até 1906, sendo disputadas muitas partidas com bastante assistência.

Em 1903, Pereira Passos assume como prefeito do Distrito Federal no dia 3 de janeiro e inicia série de reformas urbanas na capital.

Em dezembro de 1903, Thomas Donohoe retornou de uma viagem a passeio à Grã-Bretanha. Na bagagem, “seu Danau” – como já era chamado pelos operários da Fábrica -, trouxe mais duas bolas de football, prova irrefutável de que o esporte em Bangu se desenvolvia a olhos vistos.

Eis a história original do nascimento do futebol no Brasil e de seu mais ferrenho incentivador. O atraente esporte ganhava, a cada dia, novos adeptos, e era cada vez mais visível a necessidade de um clube para o seu melhor desenvolvimento. Para esta nova iniciativa, Donohoe não estaria só, contaria com o forte apoio dos seus companheiros de tantos matches, os demais chefes de seções da Companhia: Fred. Jacques (mestre em mecânica), William French (mestre de máquinas e oficinas), Henry Bennett (mestre de cardas), Thomas Hellowell (mestre de fiação), James Hartley (mestre de dobração e teares), Clarence Hibbs (mestre da estamparia), James McGregor (mestre em preparações químicas), Andrew Procter (mestre do almoxarifado) e William Procter (mestre eletricista).  Porém, o ano de 1903 já estava acabando, e qualquer pretensão de surgimento de um clube ficaria para 1904. Será que desta vez eles obteriam êxito?

          
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