Fundado em 17 de abril de 1904
Clube
História
Estádios
Símbolos
Presidentes
Futebol
Jogos
Títulos
Atletas
Técnicos
Competições
Informação
Livros
Crônicas
Reportagens
Por onde anda?
Estatísticas
Gerais
Confrontos
Campanhas
Ranking CBF
Competições
Multimídia
Fotos
Áudios
Vídeos

» 1ª Página » Informação » Livros » Nós é que somos banguenses
 
Apresentação Agradecimentos  Prefácio

 
1951
 
Os vice-campeões de 1951: Oswaldo Topete, Ramón Rafanelli, Mirim, Vermelho, Ruy Campos,
Alaíne Pereira, Mendonça, Zizinho, Moacir Bueno, Djalma e Nívio Gabrich.

Depois do grande impacto que o Bangu causou no mundo esportivo em 1950 com a contratação de Zizinho, com a conquista do Torneio Início e a terceira colocação no Campeonato Carioca, poucos duvidavam que o alvirrubro era um dos favoritos para o ano de 1951. Principalmente porque o clube manteve o técnico uruguaio Ondino Vieira, campeão pelo Fluminense e pelo Vasco na década de 40 e ainda contratou o mineiro Nívio, grande ponta-esquerda, que formaria com Djalma, Zizinho, Moacir Bueno e Menezes um ataque imbatível.

O ano de 1951 foi a coroação do grande trabalho realizado pelo Dr. Silveirinha desde 1937. O clube evoluía a olhos vistos, não só nos campos de futebol, mas em todos os outros departamentos, podendo ser considerada a associação mais bem estruturada do Rio de Janeiro.

O patrimônio do clube, que recentemente ganhara da Companhia Progresso Industrial do Brasil, o Estádio Proletário e a Sede Aquática, adquiria mais um local para práticas esportivas. No dia 21 de julho, foi inaugurado o Ginásio do Trabalhador, em uma área contígua à Sede Social, na avenida Cônego de Vasconcelos (antiga Rua Ferrer).

Graças a essa administração, o Bangu dotou-se de magníficas instalações, perfeitamente aparelhado para exercer as mais variadas atividades não só no terreno esportivo como no social, pois, além do futebol, tênis, basquete, vôlei, atletismo, ciclismo, hipismo e natação, mantínhamos seções de recreação, de música, de teatro, de cultura e de xadrez.

A boa classificação no Campeonato Carioca de 1950 fez com que o clube adquirisse o direito de participar do Torneio Rio-São Paulo.

Reunindo os grandes times das duas maiores cidades do país, o torneio foi disputado pela primeira vez em 1933, quando o Bangu chegou em quarto lugar. Desde então, apenas mais uma edição foi realizada: em 1950.

Para 1951, além do Torneio Rio-São Paulo, surgiu a idéia de um Torneio Início antes de começar esta competição, como já acontecia no Campeonato Carioca. No dia 30 de janeiro de 1951 - na inauguração dos refletores do Maracanã - reunindo as equipes do Bangu, Corinthians, Palmeiras, Portuguesa, São Paulo, Flamengo, Vasco e América, foi disputado o Torneio Início do Rio-São Paulo.

Foi uma verdadeira festa. Maracanã lotado. Os torcedores recebiam velas na entrada do estádio. Quando foi iniciar o primeiro jogo, os refletores apagaram-se, sendo acesas as milhares de velas. Um espetáculo emocionante.

Surpreendendo os favoritos, a final foi carioca, entre Bangu e América, como já ocorrera no Torneio Início do Rio de Janeiro de 1934 e 1949. Jogo dificílimo, o América vencia por 1 a 0 até o último minuto, quando o salvador Joel empatou a partida para o Bangu, com um chute certeiro de fora da área. O título estava garantido. Como levávamos vantagem no número de escanteios - 4 a 1 - o título do único Torneio Início do Rio-São Paulo da história ficava com os banguenses. Era o segundo campeonato conquistado após as grandes contratações do Patrono Guilherme da Silveira Filho.

Neste dia, o Bangu eliminou dois fortes concorrentes de maneira incontestável. Na primeira fase, vencemos o Palmeiras por 3 a 0, gols de Joel, Teixeirinha e Zizinho. Nas semifinais foi a vez de derrotarmos o Corinthians por 2 a 0, gols de Joel e Menezes. Foi muito mais difícil a final contra o já conhecido América. O recém-inaugurado Maracanã dava sorte para o Bangu. Em quatro títulos disputados no novo estádio, o alvirrubro conquistara três (o Torneio Início e o Campeonato Carioca de Aspirantes em 1950 e agora o Início do Rio-São Paulo), perdendo apenas o Campeonato Carioca de 1950, no qual chegou em terceiro lugar, atrás de Vasco e América.

Foi, sem dúvida, um grande começo de ano para o treinador uruguaio Ondino Vieira, que teria outra difícil missão pela frente: conquistar também o Torneio Rio-São Paulo.

O destaque da conquista

Vermelho, Joel e Zizinho,
grandes nomes do Bangu.

Joel Rezende foi o grande nome na conquista do Torneio Início do Rio-São Paulo, brilhando mais do que o craque Zizinho nesta noite. Em três jogos, marcou três gols, sendo o último o gol do título. Autor de outras façanhas, como o primeiro gol de um atleta profissional no estádio de Moça Bonita, o tempo acabou consumindo um pouco das suas glórias, ficando na sombra de outros craques que passaram pelo Bangu no mesmo período. Em 1951, este mineiro de Sete Lagoas viveu sua glória e seu drama em uma só partida. No dia 21 de outubro, jogávamos na Rua Bariri contra o Olaria. No primeiro tempo deste jogo, o zagueiro Olavo acertou um chute na cabeça de Joel, que imediatamente teve que ir para o vestiário levar quatro pontos no local do ferimento.

Ao iniciar o segundo tempo (até então a partida estava empatada em 0 a 0), para surpresa de todos os torcedores, Joel retornou ao campo e continuou lutando contra a violentíssima defesa Bariri. A raça, a valentia e a coragem do artilheiro foi demonstrada aos 40 minutos, quando de um cruzamento vindo da direita, Joel saltou entre os zagueiros e testou a bola para o fundo das redes, marcando 1 a 0. No momento em que fazia o gol ele foi empurrado e bateu com a cabeça na trave. Resultado: ali mesmo desmaiou e depois levou mais quatro pontos, pois o ferimento anterior havia aberto no mesmo lugar.

Não só por este momento de bravura e amor às cores alvirrubras, mas a muitos outros, é que devemos considerar Joel Rezende como um dos grandes nomes da história do Bangu Atlético Clube.


 
O prefeito do Rio de Janeiro, Mendes de Morais entrega a taça de campeão do Torneio Início do Rio-São Paulo ao capitão do Bangu, Ramon Rafanelli, no dia 30 de janeiro de 1951, no Maracanã,após a final contra o América.

O Torneio Rio-São Paulo, efetivamente, começaria após o Carnaval, no dia 17 de fevereiro, com as mesmas equipes que disputaram o Torneio Início. Os atletas banguenses realizaram ótima campanha, classificando-se em terceiro lugar ao final das sete partidas disputadas, sendo a melhor colocação do Bangu neste certame interestadual. Vencemos três jogos, empatamos um e perdemos outros três; nosso ataque fez 22 gols (média de mais de três por partida) e sofremos 18.

A equipe chegou a liderar a classificação após as três primeiras rodadas, quando empatamos com o Corinthians (1 a 1), em um jogo dificílimo no Pacaembu, vencemos São Paulo (4 a 1) e Flamengo (2 a 1) no Maracanã. A invencibilidade só caiu diante do Vasco (3 a 4).

Combinado Bangu-São Paulo na Europa

Após a boa campanha no Torneio Rio-São Paulo, chegara a hora da realização de um sonho do Dr. Silveirinha: a primeira grande excursão internacional. Durante todo o mês de abril de 1951, o Bangu estaria desfilando sua classe pela Europa. Mas, como os gastos eram muitos e para que a turnê atraísse a atenção da imprensa e que o nome Bangu ficasse marcado na memória dos europeus não só como grande time de futebol, mas também como grande fábrica exportadora de tecidos, o Dr. Silveirinha chegou a um acordo com a diretoria do São Paulo, para que os melhores jogadores desta equipe se aliassem ao alvirrubro formando um combinado imbatível: o Combinado Bangu/São Paulo, afinal a equipe paulista já estava na Europa, quando o Bangu embarcou no primeiro dia de abril com os seguintes jogadores: Oswaldo Topete, Rafanelli, Sula, Mendonça, Pinguela, Mirim, Barbatana, Alcino, Moacir Bueno, Menezes, Zizinho, Nívio, Décio Esteves e Teixeirinha.

Desta forma, o Combinado agregava os melhores jogadores de cada time. Nomes que disputaram a Copa do Mundo de 1950, como Bauer, Noronha e Ruy Campos faziam parte da delegação. O técnico seria o craque do Brasil na Copa de 1938, Leônidas da Silva.

Foi a maior exibição de todos os tempos de uma equipe brasileira no exterior, superando inclusive, a vitoriosa campanha do Paulistano em 1925. Enquanto os maiores nomes do futebol nacional desfilavam seu talento contra a nata européia, o Dr. Silveirinha fechava novos contratos para a fábrica, o que era uma garantia também de melhores perspectivas para o clube. Foram, ao todo, treze partidas em oito países diferentes, obtendo nove vitórias, dois empates e duas derrota. Infelizmente, o Combinado se desmanchou antes do previsto. Após o jogo contra a Lazio, da Itália, em 25 de abril, Leônidas da Silva se desentendeu com o craque banguense Zizinho. O "Mestre Ziza" argumentava que não poderia entrar em campo pois estava doente. O técnico são-paulino não acreditou em Zizinho e a partir daí o clima foi ficando insustentável. Os dois times se separaram em Portugal. O Bangu regressou ao Brasil coberto de glórias, enquanto o São Paulo prolongou um pouco mais sua turnê pela Europa, sem o apoio dos craques alvirrubros.

Nesta excursão, junto com a delegação, viajou o grande sócio banguense e diretor do clube desde 1923, o italiano Vicente Jaconiani, que preferiu não regressar, voltando a morar em seu país por um tempo relativamente curto já que em 5 de novembro deste mesmo ano chegava a Bangu a notícia de seu falecimento.

Participação no Torneio Municipal

A Federação Metropolitana de Futebol resolveu recriar em 1951 o Torneio Municipal, disputado entre 1943 e 1948. A competição, iniciou-se no mês de abril, pegando o Bangu desfalcado de seus principais titulares, em viagem pela Europa. O jeito foi armar a equipe com alguns profissionais que ficaram por aqui e agregar a esses valores os titulares do time de aspirantes, campeão carioca em 1950. O resultado foi surpreendente: em quatro partidas realizadas, obtivemos quatro vitórias. O time tinha tudo para decolar para a conquista do título inédito, porém derrotas para o Olaria (3 a 5) e o Botafogo (2 a 4) - que viria a ser o campeão - nos deixaram na segunda colocação a apenas um ponto dos botafoguenses. Ponto este que poderia ter sido obtido na partida contra o Canto do Rio, onde os alvirrubros não passaram de um empate em 2 a 2. Entretanto, o vice-campeonato no Torneio Municipal foi a nossa melhor colocação neste tipo de certame, que realizou em 1951 sua última edição.

O Bangu também fez uma pequena excursão ao Uruguai no mês de julho, para disputar dois jogos contra o fortíssimo time do Peñarol. Atuando em Montevidéu, empatamos o primeiro em 2 a 2, e perdemos o segundo por 2 a 0. Apesar da violência dos "orientais", regressamos aquecidos para o Torneio Início do Rio de Janeiro, que aconteceria no dia 29 de julho.

Assim como no Torneio Municipal, o Bangu sagrou-se vice-campeão, perdendo a final para o Flamengo por 2 a 1, no Maracanã. Essa síndrome de chegar em segundo lugar afetaria o clube pela última vez na temporada, onde menos esperávamos, no Campeonato Carioca.

Participação no Campeonato Carioca

Sobre a batuta de Ondino Vieira, o onze titular banguense estava composto por: Oswaldo Topete, Mendonça e Rafanelli; Mirim, Pinguela e Djalma; Menezes, Zizinho, Joel, Moacir Bueno e Nívio.

Imbatível? Praticamente. Nas cinco primeiras partidas, cinco vitórias. A primeira derrota veio contra o Fluminense, por 5 a 3, no Maracanã, no dia 23 de setembro. Atormentados por perder a invencibilidade o alvirrubro acabou esquecendo-se da importância de manter a seriedade. E, num jogo lamentável, empatou com o Canto do Rio, em Moça Bonita, uma semana depois. O resultado de 1 a 1 e a perda deste precioso ponto fez uma tremenda falta no final do campeonato.

A campanha continuou sem maiores problemas a partir desta dura lição, vencendo seus adversários um a um, o clube rumava ao segundo título da sua história, até perder para o Botafogo, seu adversário direto, por 2 a 1, no dia 2 de dezembro; e para o Flamengo, que tinha poucas chances na tabela, por 2 a 0. Esses resultados adversos obrigaram o Bangu a vencer todos os seus compromissos restantes. Passamos pelo Olaria, em Moça Bonita, por 4 a 1, e tivemos a oportunidade de nos vingarmos do Canto do Rio, atuando em Caio Martins. Neste dia 30 de dezembro, o Bangu aplicou uma goleada de 11 a 3, a maior do alvirrubro na história dos campeonatos carioca - Zizinho fez cinco gols. Faltava apenas o jogo contra o Fluminense. No dia anterior, no Maracanã, o Botafogo havia vencido o Flamengo por 2 a 1, chegando aos 30 pontos, enquanto que o Fluminense tinha 31, e o Bangu vinha com 29. Apesar de matematicamente estar fora do campeonato, o Botafogo ainda pleiteava na justiça os pontos perdidos na partida contra o Madureira, o que acabou não conseguindo, afastando-se definitivamente da briga.

Restava ao Bangu vencer no dia 6 de janeiro de 1952 o Fluminense para empatar em número de pontos com o tricolor e jogar uma "melhor-de-três" pelo título de 1951. Um empate neste jogo e a taça iria para as Laranjeiras. Entramos em campo com a seguinte escalação: Oswaldo Topete, Mendonça e Rafanelli; Ruy Campos, Alaíne e Mirim; Djalma, Moacir Bueno, Zizinho, Vermelho e Nívio. E foi justamente o atacante Vermelho, no segundo tempo, que fez o gol da vitória por 1 a 0, tirando dos tricolores a chance de encerrar o certame. Agora, a partir do dia 13 de janeiro de 1952, Bangu e Fluminense voltariam a duelar.

Após vinte rodadas, o Campeonato Carioca de 1951 estava empatado. Bangu e Fluminense somavam, cada um, 31 pontos, e ambos os clubes lamentavam ter perdido pontos para clubes pequenos. O Bangu havia empatado com o Canto do Rio em casa por 1 a 1, ainda no primeiro turno; e o Fluminense empatara nas Laranjeiras com o São Cristóvão em 0 a 0, pelo segundo turno.

Enquanto o Fluminense tinha uma equipe jovem, com jogadores recém-promovidos dos juvenis, como era o caso de Telê e Joel; o Bangu impressionava o futebol carioca desde 1948, quando remontou seu time com nomes como Luiz Borracha, Rafanelli, Mirim, Djalma, Zizinho e o treinador Ondino Veira. Neste ano de 1951, trouxe ainda Ruy Campos, médio que fora do Fluminense, São Paulo e Seleção Brasileira e Nívio, ex-integrante do Atlético Mineiro.

O primeiro jogo foi realizado no dia 13 de janeiro de 1952, no Maracanã, com arbitragem vergonhosa de Mário Vianna. Logo aos 5 minutos de jogo o zagueiro banguense Mendonça tem sua perna fraturada em falta cometida pelo tricolor Didi. O árbitro sequer expulsou o jogador do Fluminense, enquanto que o Bangu teria que jogar a partida inteira com um jogador a menos, pois não eram permitidas substituições. Com um a mais, Orlando abriu o placar para o seu time ainda no primeiro tempo. Na segunda etapa, com os ânimos mais exaltados, Telê, do Fluminense, e Mirim, do Bangu, foram expulsos por trocarem agressões. Parecia que não haveria situação pior para o alvirrubro, atuando acuado com nove jogadores, porém o zagueiro Rafanelli teve entorse no joelho e foi fazer número na ponta-direita. Por sorte, a partida terminou com o placar de apenas 1 a 0 para o Fluminense, mesmo o Bangu tendo atuado com três baixas no seu elenco.

Para o segundo jogo, uma semana depois, no dia 20 de janeiro, a situação era drástica. Sem poder contar com Mendonça, Rafanelli e Mirim, a equipe foi bastante reformulada pelo treinador uruguaio Ondino Vieira. Surpreendente foi saber no Maracanã que, enquanto Mirim estava suspenso da partida decisiva por ter sido expulso no último jogo, Telê, que também havia sido expulso, poderia atuar neste dia por um favorecimento feito ao Fluminense pela Federação. Novamente, era preciso superar todos esses obstáculos que eram colocados para impedir que o Bangu chegasse ao seu segundo título carioca.

Enfraquecido, o Bangu não conseguiu oferecer resistência ao Fluminense, que ganhou o jogo com dois gols do próprio Telê, colocado para jogar de centroavante, surpreendendo o esquema de marcação de Ondino Vieira. O título que parecia tão próximo após a vitória do dia 6 de janeiro sobre o mesmo Fluminense, acabou indo para as Laranjeiras, em condições difíceis de acreditar.

Em Bangu, todos lamentavam a falta de sorte do time no primeiro jogo e os estranhos favorecimentos ao time tricolor por parte do árbitro Mário Vianna.

A grande equipe montada por Guilherme da Silveira não mais conseguiria chegar a uma decisão de título no futebol carioca, embora a base desta verdadeira seleção de craques ainda permanecesse no clube por mais alguns anos.

Dentro deste Campeonato, o Bangu venceu 14 partidas, empatou três e perdeu cinco. Marcamos 57 gols e sofremos 31. Nívio e Zizinho foram os nossos grandes artilheiros, tendo cada um marcado 15 gols. O zagueiro Mendonça se recuperaria e voltaria aos gramados no dia 7 de maio de 1952, numa partida contra o Oriente, em General Severiano.

 
Lance da final entre Bangu e Fluminense, no dia 20 de janeiro de 1952. Zizinho se esquiva
do chute, enquanto Ruy Campos observa a conclusão do lance.

Êxitos na natação

Não foi só o futebol do Bangu que se saiu bem no ano de 1951 - a equipe de natação tornou-se, em apenas três anos de disputa, uma das melhores do Rio de Janeiro e até mesmo do Brasil na categoria Infanto-Juvenil. Na soma de pontos no Campeonato Carioca, o Bangu sagrou-se vice-campeão, mesmo obtendo vitórias individuais em diversas provas. Rubem Trilles, Adelino Simeão da Motta, Paulo César Tames Moura, Edervan Guedes Coutinho e Cely Gama conseguiram expressivos triunfos nas piscinas durante o ano. O nadador Adelino foi eleito o segundo melhor do Rio de Janeiro pela Federação Metropolitana de Natação. Essa sina de ficar em segundo lugar na classificação final, que já vinha desde 1950, quando o Bangu foi vice-campeão de natação na categoria Petizes, terminou quando o próprio Adelino ganhou o Campeonato Brasileiro na categoria Infanto-Juvenil, dando ao clube o seu primeiro título a nível nacional. Uma mostra perfeita de que o investimento feito pelo Dr. Silveirinha, inaugurando em fins de 1948 a piscina da Companhia Progresso Industrial do Brasil, estava dando um resultado acima do esperado.

Dia de competição na piscina do Bangu era dia de festa,
afinal tínhamos a melhor equipe do Rio de Janeiro.

Zizinho conta detalhes sobre a excursão do Combinado Bangu-São Paulo
por Nildo Teixeira de Melo Júnior

 
Último jogo do Combinado Bangu/São Paulo na Europa, contra o Sporting, em Lisboa. Em pé: Ruy Campos, Mirim, Poy (com a camisa do São Paulo), Mauro, Pinguela e Bauer. Agachados: Alcino, Bibe, Dido, Teixeirinha e Nívio. O craque Zizinho não atuou por ter sido barrado pelo técnico são-paulino Leônidas da Silva. Era o fim do Combinado.

Bangu e São Paulo juntaram suas forças para excursionar pelos campos europeus. Seriam três meses fora do país. Um total de 25 jogos em 11 países diferentes. Seria uma maratona, pois os jogos foram programados com menos de 48 horas de descanso. Formaram-se dois grupos diferentes, comandados por Ondino Vieira e Leônidas da Silva, respectivamente. E um compromisso contratual que abreviaria a excursão. A obrigatoriedade de Zizinho estar em campo em todos os jogos.

É Zizinho quem afirma que, a princípio, ele teria sido convidado para participar da excursão vestindo a camisa do São Paulo, mas Carlos Nascimento não o teria liberado, formando-se então o Combinado. O fato é que a organização pensou em tudo. Até o guarda roupa era especificado: um terno, oito jogos de roupa interna (camisas brancas), quatro gravatas, dois pijamas, sendo um de flanela e assim por diante.

Zizinho e Décio Esteves lembram que Teixeirinha tomou uma iniciativa fundamental antes da viagem. Levou de Blumenau camisetas e ceroulas da Hering em grande quantidade. "Para nós ele vendeu, para os diretores, ele deu", diverte-se Décio Esteves. "Aquelas ceroulas nos quebrou um galho. Pegamos um inverno brabo", observa Zizinho, relembrando as baixas temperaturas enfrentadas no inverno europeu.

Uma pequena brochura com todas as informações foi entregue a cada atleta. Entre outras orientações, o regulamento trazia características de cada país, como moeda (quanto valia em relação ao Cruzeiro), capital, forma de governo, aeroporto, idioma. Outro aspecto bastante considerado foi a disciplina, por isso a rigidez no tratamento à questão: "Da boa ou má conduta durante as partidas em que competir depende o bom ou mau conceito que o público terá do povo da sua Pátria".

Este era o primeiro dos 14 itens relacionados à disciplina. "Competir é bom, mas competir disciplinadamente é muito mais honroso", assinado: CPT, ou seja, a comissão técnica, que tinha Cícero Pompeu de Toledo como diretor geral do Combinado, o diretor-técnico Carlos Nascimento e o diretor-social, o jornalista Geraldo José de Almeida.

A primeira turma viajou no dia 26 de março. A turma do Bangu, dia 3 de abril. Momentos antes da viagem, Joel estava todo "arrumadinho", de terno, pronto. Quando menos esperava, chegou um telefonema anunciando que ele não iria. Em seu lugar viajaria Nívio, recém-contratado junto ao Atlético, de Minas.

A excursão transcorria normalmente com os dois grupos cumprindo os compromissos assumidos. Em 13 dias, o Combinado jogou seis partidas num frio danado. O jornal A Noite repercutiu o jogo em Saarrbruken com uma foto-legenda mostrando o campo encharcado, sob o título "Futebol ou water pólo?":

"Os campos por aqui, carecas como bola de bilhar, transformam-se em arquipélagos com as chuvas que, além do frio, tem atormentado os nossos players. Acontece que os europeus já estão acostumados a jogar na lama e levam mais essa vantagem contra os nossos. Todavia, embora treinando em ônibus e aviões, os brasileiros vão levando a melhor e apresentando um saldo de vitórias favorável".

Até então, o Combinado tinha jogado com o Genoa, em Gênova (1 a 1); com o Anderlecht, em Bruxelas (derrota por 1 a 2); com a Seleção de Liège, na Bélgica (vitória por 3 a 0); com o Saarrbruken, na Alemanha Ocidental (outro 3 a 0); com a Seleção da Holanda, em Amsterdã (3 a 1) e contra o Rot-Weiss, em Essen (1 a 5).

Após a goleada, o Combinado iria atuar contra o Nuremberg, vencendo por 1 a 0. Um dia depois, novo jogo. Desta vez contra o Munchen 1860, em Munique. Foi a partir daí que a excursão passaria a correr risco, graças a uma incompatibilidade de gênios, entre Zizinho e Leônidas da Silva. Antes de iniciar o jogo perguntaram ao craque banguense como estaria fisicamente. Zizinho respondeu que os músculos estavam um pouco enrijecidos devido ao frio, mas que daria para atuar. O Combinado imprimiu um ritmo forte e fez o resultado. Faltando alguns minutos, Leônidas tirou Zizinho a fim de poupa-lo:

"Entrou o Ponce de Leon. Estava sentado num banco, não sabia nem que ia entrar, e com aquela friagem acabou entrando mal, errou três lances seguidos. Ele tirou o Ponce de Leon, que mal pegou na bola, então Ponce de Leon discutiu com ele. Iam mandar o Ponce de Leon de volta para o Brasil por causa da discussão. Falei com o Carlos Nascimento sobre a reunião que ia haver para decidir a volta do jogador. Pedi para que participasse da reunião. Para evitar que ele fosse mandado de volta, podia até multar, mas mandar de volta não".

Deixaram Zizinho falar expondo seus argumentos para os diretores dos dois times e mais Leônidas. Ele pediu diretamente para o treinador do São Paulo:

"Se você mandar embora, a imprensa toda vai estar esperando ele. Sabe o que vai acontecer? Acabam com ele. Ele deu um sorriso, tá bem. Se ele nega, eu também iria reagir. Eu poderia não jogar mais, e minha presença era uma exigência. Há uma lei internacional que prevê que não pode jogar futebol 24 horas depois".

O Combinado venceu o jogo por 4 a 3, sem problemas. O próximo compromisso seria com o Áustria, em Viena, time que não perdia em casa a 20 anos. A invencibilidade caiu: os brasileiros venceram por 2 a 1, de virada.

De Viena, a delegação partiu para Paris, onde ficou praticamente dez dias. Só um jogo contra o Racing. Um momento especial porque Leônidas da Silva, a pedidos da torcida francesa, acabou atuando pelo Combinado. A adoração dos franceses por Leônidas da Silva se justifica. Na Copa de 38, o futebol do "homem borracha" encantou o mundo. O Combinado venceu por 3 a 2. Fora dos campos, a longa permanência em Paris transformou os jogadores em turistas. Zizinho não esconde seu desejo de aproveitar ao máximo a capital dos franceses:

"Desde 1938 meu sonho era ir a Paris. E eu vou chegar em Paris e vou ficar concentrado? Passei uma semana, noite e dia rodando pela cidade. Ficamos dez dias em Paris sem jogar. Eu era apaixonado por aquele país, aquela bandalha que era a França. Aqueles cinemas sacanas da França. Sou até hoje. E eu peguei um resfriado tremendo lá. Queimando em febre, fui para Roma jogar uma partida contra a Lazio".

Zizinho referia-se ao próximo compromisso do Combinado programado para Roma, contra a Lazio. E ele tinha que jogar. Estava com 40 graus de febre, sem qualquer condição. E não atuou.

"O seu Ondino pegou um casaco dele, uma boina dele, viram que eu não tinha condições. Entrei em campo, dei uma volta pelo campo. Foi lindo à beca, foi emocionante, chorei pra cassete".

Sem Zizinho o Combinado enfrentou uma partida duríssima. Os italianos haviam colocado "pilha" na véspera da partida. Os jogadores da Lazio exageraram na carga, como publicou o jornal A Noite, na matéria "Batalha de socos e pontapés", assinada pelo jornalista Fausto de Almeida:

"Não sabemos porque os italianos encararam o jogo de ontem como uma luta de vida e de morte. Houve por parte da imprensa especializada uma preparação de vitória a qualquer preço e ainda por cima foi escolhido um juiz fraquíssimo e sem personalidade".

O jogo foi paralisado três vezes. Motivo: violência. Um gol legítimo de Durval foi anulado. Alazani agrediu Teixeirinha a socos, provocando o revide por parte de Alcino, Durval e Mirim. Final de jogo: 0 a 0. O público de 30 mil pessoas aplaudiu o time brasileiro e vaiou a Lazio.

Terminado o jogo em Roma, Zizinho, acompanhado de Ondino Vieira e parte do grupo do Combinado, partiu em direção aos seus companheiros que os esperavam em Copenhague, na Dinamarca, onde enfrentariam um time local. Vitória por 3 a 1. Dois dias depois teria que estar em Portugal, onde o Combinado enfrentaria o Sporting, em Lisboa. Aí terminaria a excursão prematuramente, graças ao choque de frente entre dois pesos pesados: Zizinho e Leônidas da Silva.

A antipatia que Leônidas nutria por Zizinho desde a época do Flamengo acabou estourando fora do Brasil. Escalado para técnico daquele jogo, Leônidas barrou o craque banguense, o que provocou o fim da excursão. Zizinho se preparava para o jogo ainda no hotel, quando Décio Esteves perguntou-lhe:

- Vai fazer o quê?

- Eu vou pegar minha roupa para jogar.

- Você não está escalado não.

- Você está brincando. Aqui não te mais desculpa. Na Itália sim, mas aqui não tem mais desculpa para eu não jogar.

- O Leônidas disse que você negou-se a jogar na Itália.

- Ele não pode dizer isso. Ele foi o primeiro a botar a mão em mim.

Novamente sem Zizinho, o Combinado Bangu/São Paulo foi para campo. E mais uma vez proporcionou um grande espetáculo. Somente três jogadores do Bangu saíram jogando: Teixeirinha, Nívio e Mirim. O Combinado deu um show de bola para um Estádio Nacional lotado. Sapecou 4 a 1, com dois gols de Teixeirinha e um de Nívio. A repercussão foi das mais positivas junto a imprensa portuguesa.

O Notícias Esportivas se encantou com o futebol apresentado pelos brasileiros: "Até o final, os brasileiros abrandaram um tanto e passaram, de vez em quando, a entreterem-se com a bola em prodígios de malabarismo no chamado baile tão do seu agrado. Bauer, Mauro, Teixeirinha e Nívio foram as grandes estrelas da equipa".

Depois deste jogo a excursão terminou.

O motivo único do cancelamento do resto da excursão foi devido ao São Paulo não haver cumprido uma das cláusulas do acordo firmado, no que se refere ao uso dos uniformes. Isso vinha sendo o pivô do descontentamento dos dirigentes banguenses, culminando em Portugal, onde o Bangu fazia questão que sua camisa fosse usada em todo o decorrer do jogo, porque a Fábrica Bangu, patrocinadora das irradiações, possuía na capital portuguesa inúmeros acionistas. Mas a camiseta banguense somente apareceu na segunda fase. Daí o rompimento total do acordo e o regresso antecipado.

De fato, no jogo contra o Sporting, o selecionado posou duas vezes para a tradicional foto, com a camisa do São Paulo e, no retorno, para o segundo tempo, com a camisa do Bangu.

Obs: Nildo Teixeira de Melo Júnior, autor do texto, é filho do jogador banguense Teixeirinha que participou do Combinado Bangu/São Paulo. Em 2001, Nildo publicou um livro em homenagem ao seu pai, intitulado "O Craque Eterno".

          
Livros
 
Estatísticas
 
Jogos 4.116
Vitórias 1.713
Empates 980
Derrotas 1.423
Gols Pró 7.267
Gols Contra 6.306
Saldo de Gols 961
Artilheiros
 
Ladislau 229
Moacir Bueno 202
Nívio 152
Menezes 138
Zizinho 124
Luís Carlos 119
Paulo Borges 109
Décio Esteves 97
Arturzinho 93
Marinho 83