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Apresentação Agradecimentos  Prefácio

 
1966
 
De faixa, o time campeão carioca: Mário Tito, Ubirajara, Luís Alberto, Ari Clemente, Fidélis e Jaime. Agachados: Pastinha (massagista), Paulo Borges, Cabralzinho, Ladeira, Ocimar e Aladim.

Era o quarto ano da administração de Euzébio de Andrade. Nos três últimos, o torcedor banguense acostumara-se a ter o melhor time de futebol da cidade, que nas horas decisivas tropeçava sempre no Fluminense e perdia o título que parecia certo.

Em 1963, a derrota para o tricolor por 3 a 1, na penúltima rodada, quando ainda lutávamos pelo primeiro lugar, foi tão cruel quanto a expulsão de Zózimo das fileiras banguenses, por ter o atleta colocado a mão na bola dentro da área, provocando um pênalti infantil para o adversário.

No ano seguinte, 1964, a decisão do Campeonato Carioca ficou entre Bangu e Fluminense. No primeiro jogo da final, o juiz Cláudio Magalhães ajudou o tricolor com um pênalti de uma falta de Mário Tito em Amoroso, que, na verdade, ocorreu fora da área. Na segunda partida, com a sentida ausência do goleiro Ubirajara, o Bangu perdeu por 3 a 1, ficando com o vice-campeonato.

E, por fim, em 1965, precisando desesperadamente de uma vitória sobre o Fluminense na última rodada, o Bangu voltou a cair pelo placar mínimo de 1 a 0, o que fez com que o Flamengo saboreasse o título antes mesmo de sua partida final contra o Botafogo.

Para a nova temporada, o Bangu mantinha o técnico Zizinho, que alcançara o vice-campeonato no ano anterior. Quem não ficaria mais no clube era o atacante Parada, negociado com o Botafogo logo no início do ano.

Em 1966, a primeira partida do ano, foi um amistoso contra o Bonsucesso em Moça Bonita. O resultado foi uma goleada de 7 a 0. A equipe era composta por: Ubirajara, Fidélis, Mário Tito, Luis Alberto e Ari Clemente; Jaime e Roberto Pinto; Paulo Borges, Cabralzinho, Manuelzinho e Zé Carlos - que este fazia sua estréia depois de ser contratado junto à Portuguesa.

O desafio inicial da equipe era participar do Torneio Rio-São Paulo. O time até que começou bem, vencendo a Portuguesa de Desportos em São Januário no dia 12 de fevereiro, mas depois desandou. Perdeu seguidamente para Corinthians e Vasco, ambos por 1 a 0. Conseguiu vencer o Palmeiras por 2 a 0 e voltou a perder de forma consecutiva para São Paulo, Santos e Botafogo, afastando-se de vez da conquista do título. A equipe acordou apenas nos dois últimos jogos, quando venceu o Fluminense e o Flamengo. Terminamos em oitavo lugar entre os dez participantes, com 8 pontos ganhos em 9 jogos. Um péssimo início de temporada para um time do qual se esperava muito.

Apesar dos resultados não serem tão significativos no primeiro torneio do ano, o Bangu foi convidado para um amistoso contra a Seleção Brasileira, que se preparava para a Copa do Mundo da Inglaterra. No dia 8 de maio, em Teresópolis, a torcida assistiu a uma grande demonstração de talento da Seleção, não a Nacional, mas a banguense. Com uma atuação espetacular, o Bangu venceu por 1 a 0, gol de Cabralzinho. O técnico Vicente Feola, que contava com três banguenses em seu elenco (Ubirajara e Paulo Borges na reserva, e Fidélis como titular da lateral-direita), assustado com o que viu, resolveu marcar logo uma revanche.

Três dias após a vitória banguense, desta vez em em Niterói, a Seleção Brasileira, finalmente, conquistou o seu triunfo. O placar foi 3 a 2, tendo Cabralzinho e Araras anotado os gols banguenses, contra dois gols de Gérson e um de Silva.

Na hora de ir para a Copa do Mundo, Ubirajara e Paulo Borges acabaram não sendo convocados por Feola, enquanto Fidélis seguiu para a Inglaterra, atuando apenas na última partida da Seleção contra Portugal, que marcou a nossa eliminação após a derrota por 3 a 1.

Em 1966, Ubirajara fez duas partidas pela Seleção, Paulo Borges atuou quatro vezes e Fidélis honrou as cores nacionais em nove ocasiões. Além deles, dois outros atletas do elenco banguense também já colecionavam passagens pelo Scratch Nacional: Mário Tito fizera um jogo em 1963, e Aladim atuou uma vez em 1964. Isso sem contar o nosso treinador Zizinho, que por diversos anos fora titular absoluto da Seleção.

Depois do Torneio Rio-São Paulo, mais um jogador banguense era negociado. Agora seria a vez de Roberto Pinto, que após muitos anos comandando o meio-campo alvirrubro, já não estava mais nos planos da diretoria.

Antes do início do Campeonato Carioca, a Federação instituiu novamente a disputa da Taça Guanabara. Era, provavelmente, a última chance de Zizinho conquistar um título pelo Bangu. Novamente a equipe não fez um grande papel. Foram somente cinco jogos, que resultaram em duas vitórias, um empate e duas derrotas. Na última rodada, o Bangu precisava vencer o Flamengo para chegar à final. Perdeu por 2 a 1 e acabou em quarto lugar.

Foi, de fato, a gota d'água para o técnico Zizinho. Um dia após a derrota para o Flamengo, o presidente Euzébio de Andrade comunicava à diretoria e à imprensa a demissão do treinador. Faltavam apenas seis dias para o início do Campeonato Carioca e um novo nome tinha que ser chamado às pressas para comandar o Bangu. O argentino Alfredo González se apresentou antes da estréia contra o Madureira com a imensa responsabilidade de dar um título carioca ao clube após 33 anos.

O argentino González, ex-jogador do Boca Juniors e do Flamengo, era um colecionador de títulos: vencera oito no Rio Grande do Sul, três em São Paulo, três em Portugal e mais três em Pernambuco.

A fórmula do Campeonato Carioca foi alterada mais uma vez. Se, no ano anterior, apenas oito equipes disputaram o torneio, em 1966 as doze equipes estavam de volta, ainda que apenas oito se classificassem para o segundo turno. A equipe que mais pontos somasse nos dois turnos seria a campeã. Era a fórmula encontrada pela Federação para agradar a todos os clubes e evitar um excesso de jogos.

O Bangu começou a campanha de 1966 como que predestinado a obter o título pelo qual vinha lutando desde 1963. Iniciou o campeonato disposto a superar a sina que o perseguia nesses últimos anos, quando deixara escapar o título nos jogos finais.

A equipe - jogadores, técnico e diretores - irradiava otimismo, embora nunca deixasse de usar a humildade de "time pequeno" como sua principal arma. Um perfeito entendimento entre atletas e dirigentes e um time tecnicamente bem preparado, quase sem falhas, fez o Bangu finalmente campeão.

Eis a maravilhosa campanha que levou o Bangu à finalíssima contra o Flamengo:

O Bangu empreendeu a arrancada para o título de 66 goleando espetacularmente o Madureira, em Conselheiro Galvão, por 5 a 0, numa partida em que foi sempre superior, em virtude da grande fragilidade do adversário.

Graças a sua maior categoria e jogando um futebol rápido e solto, o Bangu voltou a golear, desta vez, o São Cristóvão, também por 5 a 0. Os banguenses mostraram excelente entrosamento tático e bom preparo físico, ao contrário dos alvos, que se mostraram apáticos e sem entendimentos mútuos.

Na terceira partida, o time estava embaralhado e confuso no primeiro tempo, mas conseguiu acertar as peças no período final, goleando o América, por 4 a 1, graças às alterações feitas no ataque pelo técnico Alfredo González.

Pela quarta rodada, mesmo sem empenhar-se totalmente e jogando com um jogador a mais - Íris do Campo Grande saiu de campo chorando e com o braço torcido - o Bangu derrotou o Campo Grande por 3 a 0, sem apresentar perfeito entrosamento tático, porém, garantindo a liderança ao lado de Fluminense e Vasco.

E o Bangu continuou goleando. A nova vítima foi o Olaria, que perdeu de 5 a 0, num jogo assistido por pouco mais de mil pessoas. O Olaria resistiu valentemente no primeiro tempo, mas sucumbiu aos gols relâmpagos do Bangu no período final.

A excessiva tranqüilidade e o próprio desinteresse pelo jogo quase complicaram a vitória do Bangu por 2 a 1 sobre a Portuguesa, pela sexta rodada, que chegou ao empate de 1 a 1, e só não conseguiu manter este resultado em virtude do belo gol assinalado por Paulo Borges, quando faltavam apenas quatro minutos para o término da partida.

No primeiro grande desafio, o estreante Norberto assinalou aos 36 minutos do segundo tempo aquele que seria o gol da vitória do Bangu sobre o Fluminense e que daria também a condição de líder invicto e isolado do campeonato. O placar não refletiu o que se passou em campo, pois o Bangu foi sempre mais objetivo, esbarrando apenas na boa forma do goleiro Vitório, que salvou o Fluminense de sofrer mais gols.

O clássico da oitava rodada entre Bangu e Vasco terminou com o empate de 0 a 0. O Bangu teve mais presença em campo, jogando certo tecnicamente. O Vasco, por seu lado, foi um quadro que não se deixou abater, lutando com garra do princípio ao fim, justificando o empate sem gols. O Bangu foi infeliz em certos lances, quando perdeu várias oportunidades de gol.

Contra mais um dos grandes, o Bangu foi dominado e acuado em seu próprio campo no primeiro tempo, mas reagiu no período complementar levando seu time à frente, impondo seu ritmo de jogo ao Botafogo, porém sem conseguir alterar o placar de 0 a 0, que persistiu até o fim. O jogo, de modo geral, foi equilibrado, fazendo justiça aos dois times. O momento mais difícil ocorreu quando Mário Tito cometeu pênalti em Parada, aos 26 minutos do 1º tempo. Gérson cobrou, mas Ubirajara defendeu. Antes, aos 15 minutos, o Botafogo já tinha tido um gol anulado do atacante Zélio, que estava em impedimento.

Voltando às vitórias e incentivado pela sua torcida que sempre pedia "mais um", o Bangu fez 2 a 0 sobre o Bonsucesso. Os gols foram feitos por Cabralzinho, aos 4 e 16 minutos do 1º tempo. Daí em diante, o Bangu preferiu trocar passes, sem ameaçar o Bonsucesso que, confuso, se defendia de qualquer forma. No final, o jogo terminou monótono.

O Bangu perdeu o 1º turno para o Flamengo, que continuou invicto, quando tinha a vantagem de um ponto, em partida dramática, por 2 a 1. Almir tornou-se o herói da partida marcando um gol sensacional, arrastando-se no chão e empurrando a bola para o gol, criando uma polêmica entre os torcedores, pois muitos afirmaram ter sido com a mão. O outro gol coube a Silva, empatando, após o Bangu ter a vantagem de um gol durante o maior tempo do jogo.

Na estréia do returno, um gol de meia-bicicleta de Paulo Borges, aos 30 minutos do 1º tempo acabou com a apreensão da torcida banguense contra o Bonsucesso. No 2º tempo, mais três gols deram tranqüilidade total ao time do Bangu, que acabou goleando o Bonsucesso por 4 a 0.

Pela segunda rodada, um gol de Ladeira, feito de bico, aproveitando um excelente cruzamento de Aladim, aos 7 minutos do 1º tempo foi o início da vitória do Bangu sobre o Olaria por 3 a 1. Daí em diante, o quadro banguense, que não estava bem, melhorou bastante, passando a dominar amplamente o seu adversário, que ainda conseguiu seu gol de honra.

A grande atuação veio mesmo na terceira rodada. Manga, ao tomar inesperado gol, num autêntico frango, numa bola deixada por Dimas e que Paulo Borges aproveitou para inaugurar o marcador, aos 33 minutos do 1º tempo, abriu o caminho da vitória banguense por 3 a 0 sobre o Botafogo. Nos quinze minutos finais, o Bangu chegou a aplicar o conhecido "olé", para delírio de sua torcida.

A quarta vitória consecutiva do Bangu - sobre o América por 3 a 2 - chegou a provocar a morte de um torcedor americano que não suportou seu time levar o terceiro gol. O jogo foi disputado em verdadeiro clima de guerra, e culminou com a invasão de campo pelo diretor Castor de Andrade, que inconformado com a marcação de um pênalti cometido por Cabrita contra seu time, invadiu o campo de arma na mão. A turma do "deixa disso" conseguiu conter Castor. O Bangu venceu graças a um pênalti arrumado pelo Sr. Idovan Silva, aos 45 minutos do 2º tempo, e cobrado por Cabralzinho. Sinal que a invasão de campo do vice-presidente ajudou e muito o Bangu a vencer.

Em seguida, o Bangu passou tranqüilo pelo Vasco, vencendo por 3 a 0. Aliás, o placar não refletiu a supremacia do vencedor, que poderia ter goleado. Calmo e eficiente, o time do Bangu foi assinalando os gols da vitória sem se interessar por uma goleada. Até a torcida vascaína passou a torcer pelo Bangu, numa mostra de revolta pela má campanha do time e simpatia pelo adversário.

O Bangu credenciou-se a disputar o título máximo da temporada ao vencer o Fluminense por 3 a 1, com facilidade e muita tranqüilidade. Hábil e talentoso, Cabralzinho comandou a orquestra de Moça Bonita, que bem afinada, isto é, com bom conjunto, não encontrou dificuldades para vencer o quadro tricolor. Esta vitória importantíssima valeu ao Bangu a Taça Semana da Marinha, oferecida pela Marinha do Brasil.

A situação antes da grande final de 1966 apresentava a seguinte perspectiva: o Bangu tinha 30 pontos e jogava por um empate, enquanto que o Flamengo tinha 29 pontos e a obrigação de vencer o jogo do dia 18 de dezembro.

A maravilhosa torcida banguense, comandada por Juarez,
fez a sua parte no dia da decisão de 1966.

A semana que antecedeu o jogo foi de muita especulação. Falava-se na falta de sorte do Bangu nos momentos de decisão, do "maior peso" da camisa do Flamengo, mais acostumado com as glórias. O que se questionava não era a maior técnica do time alvirrubro, era como iria se comportar psicologicamente uma equipe que perdera três títulos praticamente ganhos nos três últimos anos.

Parecia uma luta desleal entre toda a torcida flamenguista e um único banguense: Juarez de Oliveira. Este cearense de 40 anos era o mais fanático torcedor do alvirrubro. Chegou ao Rio no início da década de 40 e na primeira partida de futebol que foi assistir, entre Fluminense e Bangu, viu o alvirrubro perder por 10 a 2. Ao invés de torcer para o Flu, Juarez se apaixonou pelo "pequeno" Bangu e passou a ser o seu maior defensor. Passou também, a partir daí, a andar sempre com a camisa do seu time por baixo do traje social e saudando a todos com a frase típica: "Viva o Bangu!".

A camisa do Bangu, o escudo no peito, a fivela do cinto e as meias alvirrubras eram seus companheiros inseparáveis. Ele era inspetor de seguros e, um dia, o diretor da empresa, Augusto Frederico Schmidt, torcedor do Botafogo, chamou-o:

- Juarez, você vai ter que tirar essa camisa do Bangu. Schmidt referia-se à camisa do clube que Juarez usava por baixo da camisa social. Conversa daqui, conversa de lá, o diretor fechou a questão: a camisa ou o emprego. Juarez ficou com a camisa.

No dia do jogo, Juarez prometia ao Jornal dos Sports uma passeata no centro da cidade, na quinta-feira, dia 22, puxada por dois elefantes vestidos de tecido vermelho e branco, caso o Bangu fosse campeão. Além disso, Juarez afirmava que ver o seu clube campeão lhe daria mais prazer do que ver seu filho formado em medicina ou direito.

Os preparativos eram gigantescos e o Jornal dos Sports relatou a programação completa dos festejos da torcida banguense antes do jogo:

"Para incentivar o time, agrupados do lado direito das tribunas, vão se reunir baterias de cinco escolas de samba: Unidos de Padre Miguel, Mocidade Independente de Padre Miguel, Unidos de Bangu, Vai Quem Quer e Relâmpago.

Para o transporte de cerca de 60 mil torcedores do bairro, que tem 240 mil habitantes, foram convocados oito caminhões da fábrica, fretados 16 ônibus e um trem especial da Central.

Para transportar os foguetes, foi alugado um caminhão. Duas orquestras foram colocadas de sobreaviso, afora a banda da Fábrica Bangu. Também a Administração Regional de Bangu cedeu 30 homens para a organização das festas, inclusive colocando gambiarras ao longo da Avenida Cônego de Vasconcelos.

O carnaval em Bangu já está preparado."

As bilheterias do Maracanã registraram um público de 143.978 pagantes. No total, mais de 150 mil pessoas estavam no estádio para presenciar a decisão de 1966.

O Flamengo, por precisar da vitória, começou melhor, apesar da contusão de Carlos Alberto logo nos minutos iniciais. Um lance que poderia ter mudado o destino do jogo foi a cabeçada de Silva, mandando a bola no travessão de Ubirajara, logo aos 16 minutos do 1º tempo.

Mas, o Bangu se acalmou e começou a mostrar sua maior classe, que o levaria ao título.

Aos 23 minutos de jogo, Aladim driblou o zagueiro Jaime e tocou para Ocimar que chutou alto, aproveitando-se do fato do goleiro Valdomiro estar um pouco adiantado. Era o primeiro gol do Bangu.

Quatro minutos depois, era a vez de Ocimar retribuir o presente para Aladim, que teve muita calma para ajeitar a bola e marcar o segundo gol. Neste momento, ninguém duvidava que o título de 1966, com menos de meia hora de jogo, já era do Bangu.

Desesperados e vendo o bicampeonato fugir, os flamenguistas tentaram uma tática suicida no segundo tempo. Avançaram para o ataque e deixaram a defesa desprotegida, fazendo uma linha de impedimento para invalidar os lançamentos do Bangu. A estratégia do técnico Renganeschi mostrou-se ineficaz, pois logo aos três minutos, Paulo Borges recebeu um lançamento de Cabralzinho e chutou forte na saída de Valdomiro: 3 a 0. Era o 16º gol dele no campeonato, que o consagrava como artilheiro máximo do ano. Estava liquidado o jogo.

A torcida do Bangu começou logo o seu carnaval. Agitando bandeiras, lenços brancos e cantou em coro: "Tá chegando a hora..." e "É campeão".

O Flamengo, completamente perdido, teria agora que evitar levar uma goleada maior. O desespero era visível e a solução encontrada para evitar o massacre foi apelar para a pancadaria. O jornal A Tribuna explica como foi o conflito mais famoso da história do Maracanã:

"Aos 26 minutos, Paulo Henrique e Ladeira trocaram pontapés no meio-campo e o jogador do Flamengo queixou-se de ter levado um tapa no rosto. Almir, nas proximidades, veio correndo feito um louco e depois de procurar Ladeira, deu-lhe um soco que pegou de raspão.

Ladeira correu e Almir saiu atrás, perseguindo-o. Quando Ladeira passava perto de Itamar, este pulou com os dois pés em seu peito, escorando-o. Ladeira, inteiramente grogue, caiu ao chão e disse se aproveitou Almir para chutar sua cabeça, num bolo de jogadores.

O conflito degenerou-se, com quase todos os jogadores brigando. A polícia só entrou em campo para aumentar a confusão e agredir fotógrafos. Almir chegou a ir até a margem do campo e ali fez sinais indecorosos para a torcida do Bangu. Depois voltou até o meio de campo porque não estava expulso.

O juiz já estava decidido a expulsar apenas Paulo Henrique e Ladeira, quando Ubirajara foi até Almir para dizer alguma coisa e Almir respondeu com um soco que derrubou o goleiro. Acontece que o atacante do Flamengo ficou rodeado por jogadores do Bangu e apanhou muito de Ubirajara, Luís Alberto e Ari Clemente, pois só depois é que chegaram os seus companheiros.

Almir saiu de campo, mostrando a camisa. O campo foi invadido por jornalistas e fotógrafos e o juiz Aírton Vieira de Morais deu a partida por encerrada, pois anunciara ter expulso Almir, Paulo Henrique, Silva, Valdomiro e Itamar, pelo Flamengo; e Ubirajara, Luís Alberto, Ari Clemente e Ladeira, pelo Bangu."

Ânimos serenados, o Bangu, de Euzébio de Andrade, desfilou tranqüilamente pelo gramado, diante da frustração de 100 mil rubro-negros.

Almir foi acusado de ter jogado dopado. Ventilou-se a anulação da partida e os dirigentes do Flamengo deixaram no ar a possibilidade dos banguenses terem comprado juizes e bandeirinhas ao longo do campeonato. O exame antidoping inocentou Almir; o presidente da FCF, Antônio do Passo, afastou qualquer hipótese de se realizar um novo jogo, e as insinuações jamais ficaram comprovadas. O título, depois de 33 anos, era novamente do Bangu.
 
Capa da revista comemorativa da conquista do Campeonato Carioca de 1966 pelo Bangu.

A festa da vitória

"Um, dois, três, se não foge cai de seis" - esse o cântico, misto de alegria e sadismo da população de Bangu, que tomou literalmente a Avenida Cônego Vasconcelos, desde a estação de trem até a sede do clube, onde duas orquestras animaram o carnaval da vitória.

O cortejo, que partiu do Maracanã por volta das 21 horas, chegou a Bangu às 22:30, com um jogador em cada carro conversível.

Do Maracanã até o Méier tudo foi calmo, com os torcedores acenando para os campeões, mas tudo de maneira displicente. Do Méier para cima, as manifestações iam se tornando mais efusivas. Quintino, Cascadura, Largo do Campinho, para explodir em Padre Miguel, num foguetório ensurdecedor.

O Bangu conseguia reunir todas as simpatias e, por incrível que possa parecer, até mesmo torcedores do Flamengo deixaram de lado suas bandeiras, como foi o caso de um senhor, que declarava em frente à sede: "Eu sou Flamengo, mas o Bangu é do meu coração, eu moro aqui, estou feliz..."

Na rua, quase todas as escolas de samba do local desfilaram, além dos blocos improvisados, aos cantos de "Canta, canta moçada, que o Almir não é de nada". Homens, crianças - até senhoras idosas - dançavam desde a estação até o clube, num trajeto longo.

Se na rua tudo era alegria, no salão da sede e no ginásio do Bangu as manifestações chegavam às raias da loucura. O chope - centenas de barris, que chegavam minuto a minuto, de caminhões que encostavam na porta dos fundos - concorria para aumentar a euforia.

Duas orquestras animavam o grande baile (uma delas a famosa banda carnavalesca do Bola Preta), enquanto os jogadores foram ao palco e chamados um a um pelo presidente Euzébio de Andrade Silva, diziam uma ou duas palavras e recebiam as faixas de campeão.

À certa altura, o patrono do clube, Dr. Guilherme da Silveira Filho beijou o presidente e o chefe da torcida, Juarez, dizendo: "Vocês me deram o maior Natal da minha vida".

O vice-presidente Castor de Andrade foi carregado pelos torcedores, que lhe jogaram confetes e champanhe, enquanto várias bandeiras eram agitadas. Assim se conta, em rápidas pinceladas, alguns trechos da festa do novo campeão carioca.

A Tribuna, 19 de dezembro de 1966

Euzébio Gonçalves de Andrade Silva foi presidente do Bangu entre 1963 e 1968, portanto foi no seu período que o clube se armou e conquistou o título de campeão carioca de 1966. Além disso, durante esses seis anos, o alvirrubro viveu sua época de ouro, os melhores anos de sua longa vida esportiva. Outros elementos também colaboraram para a conquista deste título. Numa homenagem toda especial, publicamos a relação de todos que ajudaram o Bangu dentro e fora dos gramados nesta inesquecível conquista.

 
Euzébio de Andrade comemora o tão esperado título junto com Paulo Borges.

Diretoria 1966

Patrono: Dr. Guilherme da Silveira Filho.
Grandes Beneméritos: Dr. Manoel Guilherme da Silveira e Dr. Joaquim Guilherme da Silveira.
Presidente: Euzébio Gonçalves de Andrade Silva.
Vice-presidentes: Dr. Castor Gonçalves de Andrade Silva (administrativo), Leopoldino Bernando de Lima (finanças), João Baptista dos Santos (social) e Márcio Alves Franco (esportes amadores).
Secretários: José Vital, Hélio Vital de Oliveira e Jacy Marques Gonçalves.
Tesoureiros: Ayrton Moreira da Silva, Arthur Araújo e Cássio Reis Lopes.
Diretores: Manoel Rodrigues Moura (patrimônio histórico), Araken Gonçalves Destri (social), Francisco Giorno (esportes profissionais) e Antenor Vicente Corrêa Filho (esportes amadores).
Conselho Fiscal: Elias José Gaze, Joviniano Antônio da Silva e José Jorge Leite.


Comissão Técnica

Departamento Médico: Drs. Arnaldo Santiago Lopes e Ivon Côrtes
Massagistas: José Pinto de Oliveira, Nilton Dantas de Farias e José Martins de Carvalho Júnior.
Preparação física e técnica: Alfredo González, Silas da Silva e Francisco José Brasileiro.
Sapataria: Aristides Pereira
Rouparia: Manoel Rodrigues e Waldir Belisário de Morais
Departamento técnico: Antônio Gonçalves Teixeira e José Rodrigues Cruzeiro.


Atletas Campeões

Goleiros:
Ubirajara Gonçalves Motta

Laterais:
José Maria Fidélis dos Santos
João Batista Faria (Cabrita)
Ari Paulino Clemente da Silva

Zagueiros:
Mário Tito
Luís Alberto Alves Severino

Meio-Campo:
Jaime Corrêa Freitas
Ocimar dos Santos Dutra
Jair Silva Santos

Atacantes:
Paulo Luís Borges
Carlos Roberto Ferreira Cabral (Cabralzinho)
Adaílton Ladeira
Aladim Luciano
Ênio da Rocha Chaves
José Carlos da Silva (Zé Carlos)
Norberto Roque Safioti
Antônio Luiz da Costa (Tonho)
Luís Moreira da Silva Filho (Luisinho Boiadeiro)

 

A festa da vitória

Amigos, pergunto ao Luís Baiér: "Quantos anos tem o Bangu?" Retruca o colega: "O Bangu é antigo pra burro!" E, realmente, ainda segundo o Baiér, o Bangu é mais antigo do que o América. Tem muita idade. No período que vai do seu nascimento até hoje, outros pereceram, ou estão agonizando, ou mergulharam num ocaso sem esperança.

Cabe então a pergunta: E o Bangu? Eis o que eu queria dizer: durante várias gerações ele foi um mistério do nosso futebol. Ninguém sabia se o Bangu era grande, ninguém sabia se era pequeno. Talvez não fosse nem uma coisa nem outra, isto é, nem grande, nem pequeno. E, por isso, justamente, não era campeão há 33 anos.

Vejam vocês: 33 anos! Há sujeitos que não vivem tanto. Do último campeonato do Bangu para cá, acontecera o diabo. Pode-se dizer que nasceu um novo mundo. E imaginem vocês se, depois de 33 anos de frustração, ele não conseguisse vencer o Flamengo na finalíssima. Eu sou um dos que acreditavam mais na vitória rubro-negra. E explico: não basta time para levantar um campeonato. É preciso algo mais.

Reparem como os grandes fazem entre si o rodízio do título. Há 33 anos que todo mundo era campeão, menos o Bangu. Num jogo decisivo, importa ser grande e ser pequeno. Muitas vezes o grande tem pior equipe. Mas há uma série de imponderáveis que, muitas vezes, valem mais do que o talento. E eu achava que o Flamengo tinha mais autoridade, mais tradição, mais experiência, mais sabedoria.

Há o jogo e o Bangu vence espetacularmente. Pergunto: e por que? Foi um pequeno que venceu um grande? Não. Foi um grande que venceu um grande. A verdade é que, não sei quantos anos depois do seu nascimento, eis que o Bangu se torna grande. Foi preciso que, domingo, ele tivesse conquistado o título para que descobríssemos a sua nova dimensão.

Pode parecer que ele ficou grande de repente. Não é bem assim. Um grande clube não se improvisa. Há todo um processo imperceptível. Mas houve um fato que devia ser elucidativo para o bom entendedor. Refiro-me ao gesto do Sr. Castor de Andrade, invadindo o campo no jogo Bangu x América. Eu não fui testemunha do episódio. Contam que o vice-presidente do Bangu entrou em campo e parecia um Tom Mix.

Um dirigente de pequeno clube não faria isso, não teria essa audácia. E quando o Sr. Castor de Andrade assumiu essa atitude, e lançou esse desafio, eu imaginei: "O Bangu começou a ser grande". A truculência de um dirigente define um clube e, por vezes, o consagra. Comecei então a desconfiar que o Bangu amadurecera para o título.

Foi como grande clube que entrou em campo domingo passado e resistiu e sobreviveu à pressão de um estádio lotado e ululante. Outro qualquer teria tremido e teria amarelado. Mas o Bangu já era grande e, repito, era o novo grande clube da cidade.

RODRIGUES, Nelson. Nasceu um grande clube. Rio de Janeiro. Jornal dos Sports, 24 de dezembro de 1966

Obs: A crônica de Nelson Rodrigues, no Jornal dos Sports, vem de encontro com um texto escrito por seu irmão Mário Filho, quando o Bangu perdeu a final do campeonato carioca de 1951 para o Fluminense. Na época, Mário Filho aclamava o Bangu como "o novo grande do futebol carioca". Neste período de 15 anos, o Bangu esteve sempre nas primeiras posições no cenário esportivo carioca, além de conquistar diversos títulos internacionais e em torneios amistosos pelo país. Infelizmente, o grande jornalista Mário Filho, fundador do Jornal dos Sports, morreria em 17 de setembro de 1966 e não veria o Bangu campeão.

          
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