...o
meu time que está jogando assim,
ainda conta com Ladeira e o ponta-esquerda
Aladim...
Assim
terminava a música que enaltecia
os campeões de 1966. O ponta-esquerda
Aladim era um menino de 20 anos que
durante o campeonato roubou a posição
do titular Zé Carlos e se eternizou
na história do Bangu.
Nascido em Barra Mansa, em 1946, Aladim
Luciano chegou ao alvirrubro levado
por um olheiro chamado Belmiro, em
1962. Começou nos Juvenis,
treinado por Moacir Bueno e em 1963,
estreou entre os profissionais numa
partida do Torneio Início contra
o América, no Maracanã.
Daí permaneceu no clube até
1970, passando pelas mãos de
vários treinadores: Tim, Martim
Francisco, Plácido Monsores,
Daniel Pinto e o campeão de
1966, Alfredo González.
Escalou os degraus da profissão
aceitando tranqüilamente a camisa
11 quando o argentino Alfredo González
o chamou para ser o ponta-esquerda
do time principal do Bangu. Chutando
de curva, com violência, e voltando
sempre para ajudar o meio-campo, Aladim
logo construiu uma fama que lhe assegurou
lugar entre os grandes jogadores do
futebol carioca. Campeão em
66, ele ainda foi, aos 20 anos, titular
da Seleção Carioca por
três anos seguidos, completando
um ataque no qual formavam Jairzinho,
Gérson, Roberto e Afonsinho.
Paulo César Caju era apenas
o seu reserva.
Deslumbrado, Aladim não teve
tempo e nem juízo para aproveitar
a fase e fazer um pé-de-meia.
Afinal, tinha passado de 10 cruzeiros
mensais para 180, e mesmo sabedor
que seu companheiro de clube, Paulo
Borges, ganhava mil, ele não
ligava.
“O Castor era ótimo,
arrumava dinheiro pra todo mundo.
Só que eu não era puxa-saco,
e, além disso, ele tinha os
seus favoritos, os caras da badalação.
Eu era um capiau, só fui a
Copacabana algumas vezes. Um dia quiseram
que eu experimentasse drogas, nunca
mais voltei lá”.
Do grande time que o Bangu foi desmontando
aos poucos, Aladim foi dos últimos
a sair, em setembro de 1970. Foi para
o Corinthians, seguindo Paulo Borges,
“ganhando bem menos”...
Pelo Bangu, foram 194 jogos (81 vitórias,
51 empates e 62 derrotas), marcando
61 gols. Destaca, além da final
contra o Flamengo, três jogos
marcantes na conquista de 1966: a
derrota para o Fla no 1º turno
por 1 x 2, a dramática vitória
sobre o América por 3 x 2 com
direito a invasão de campo
de Castor de Andrade para ameaçar
o juiz e a goleada de 3 x 0 sobre
o Botafogo.
Do time campeão, Aladim faz
questão de lembrar um por um,
mas diz que só mantém
contato mesmo com Ari Clemente e Cabralzinho.
Sua carreira foi além de Bangu
e Corinthians, jogou também
no Coritiba e no Colorado e por isso,
mora até hoje na capital paranaense,
onde é dono de padaria no bairro
Bacacheri e nas últimas eleições,
conseguiu ser reeleito vereador pelo
PV.
Esteve no Rio recentemente, tentando
ajudar o seu companheiro de partido,
Fernando Gabeira, a se eleger prefeito
da cidade e conseqüentemente,
visitou o bairro que lhe projetou
para o mundo do futebol.
E como será que o vereador
Aladim Luciano vê o atual momento
do Bangu Atlético Clube?
“Com tristeza. Alguém
com a destreza de um Castor de Andrade
ou de um Silveirinha poderia adotar
novamente o clube para sair deste
marasmo. Quer um exemplo? Carlinhos
Maracanã”.
Histórias de Aladim...
“Sinto saudade daqueles
tempos de Bangu. O ‘homem’
era bom demais. Premiava as vitórias
com bicho gordo. E às vezes
até nos surpreendia, como um
dia aconteceu em Porto Alegre.
Nenhum gaúcho acreditava que
pudéssemos tirar ponto do Inter.
Mas fomos lá e empatamos em
2 x 2 (26/4/1967, Torneio Roberto
Gomes Pedrosa). O Castor se emocionou
mais que todos e, de volta ao hotel,
reuniu a turma e falou:
- Moçada, hoje quem paga sou
eu! Me acompanhem!
Chegamos à melhor boate da
cidade e ele foi logo falando para
a dona:
- Por favor, peça para todos
os homens que estão aqui se
retirarem e feche a casa. Quero diversão
da boa para os meus meninos.
E ficamos lá até o sol
raiar.”
“O Castor foi o maior mão-aberta
que eu conheci. Se um jogador estava
precisando de dinheiro emprestado,
era só chegar nele. E o engraçado
é que ele ficava louco de raiva
quando o cara ia pagar:
- Por acaso eu lhe pedi para devolver?
– dizia.
Ganhei muito dinheiro do Castor porque
um dia descobri que ele dava tanto
para quem ia pedir quanto para quem
só acompanhava o necessitado.
Sabe como é, sempre havia os
que tinham medo de chegar no ‘homem’.
E eu vivia me oferecendo:
- Alguém aí está
a fim de dar uma mordida no Castor?”
“O Bangu tinha um técnico
muito velho, que já enxergava
pouco. Não vou dizer o nome
dele por respeito (Plácido
Monsores). Nessa época, chegou
ao clube um atacante chamado Araras.
E o Parada logo invocou com ele.
No primeiro jogo do novato, o Parada
passava no banco e reclamava:
- Esse Araras não joga nada.
É muito ruim.
Só que era o Parada que não
estava jogando nada. Mas o nosso técnico,
mal das vistas, acreditava. O jogo
estava difícil, e lá
pelas tantas o Parada erra um gol
certo. E o velho, cheio de raiva,
se levanta do banco:
- Mas esse Araras é mesmo uma
m...
Só não o substituiu
porque foi avisado a tempo.”
“Em 1967 o Bangu excursionou
aos Estados Unidos. Foram 54 dias.
No início, tudo era bom, tudo
era novidade. Mas, no fim, não
dava mais para agüentar a saudade.
Nosso técnico, Martim Francisco,
era o que mais sentia saudade da família.
E muitas vezes, ali pelas 11 horas
da noite, ele procurava um grupo de
jogadores para conversar e beber uísque.
Era uma festa. Até que um dia
um dos malandros descobriu que isso
acontecia quando Martim recebia carta
da família. Lia, chorava e
ia bater papo regado a uísque.
E o nosso técnico passou a
se comover com o interesse da turma,
que todos os dias lhe perguntava:
- Como é, chefe, tem recebido
notícias da família?”