Rio de Janeiro, segunda-feira, 24 de julho de 2017 - 21h51min
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BANGU SE ARMA PARA REVIVER A GRANDE EQUIPE DOS ANOS 60

Não foi uma volta olímpica das mais animadas. O jogo terminara antes do tempo, em seguida a uma histórica pancadaria promovida pelo atacante Almir. Mas os jogadores do Bangu, camisas suadas, alguns exibindo hematomas causados pela descarga de socos e pontapés de parte a parte, desfilavam seu triunfo diante da surpresa torcida do Flamengo, certa da conquista de mais um título carioca naquele 18 de dezembro de 1966, afinal de posse do adversário. No placar, a marca indelével da autoridade técnica de um legítimo campeão: 3 a 0, números que seguramente seriam dilatados caso a partida completasse os 90 minutos. Um time de respeito esse que vai correndo pelo campo. Ubirajara, Fidélis, Mário Tito, Luís Alberto e Ari Clemente, Jaime e Ocimar, Paulo Borges, Ladeira, Cabralzinho e Aladim.

Na boca do túnel, um dirigente de talhe esguio, óculos escuros, roupa esporte, vibrava e chorava até sofrer um súbito desmaio, do qual se refez rapidamente e a tempo de ser abraçado por torcedores e, sobretudo, pelos jogadores, a reconhecerem no todo-poderoso Castor de Andrade o homem que lhes ofereceu condições de chegar àquele monumento inesquecível.

Janeiro de 1980. Quatorze anos depois, uma nova diretoria toma posse no clube e o destino volta a reunir o mesmo homem e o mesmo clube, para o mesmo objetivo. Reviver as glórias de um passado recente. A contratação de cinco jogadores conhecidos, Tobias, Moisés, Dé, Carlos Roberto e Caio Cambalhota é apenas o primeiro passo.

São 18h e as luzes do velho estádio proletário de Moça Bonita, hoje Guilherme da Silveira, que por lá viu passar nomes ilustres como Domingos da Guia, Zizinho, o bicampeão mundial Zózimo, Parada, Paulo Borges e outros, começam a se acender para receber os novos reforços, todos eles com contrato com o Bangu, mas confiando mais no poderio financeiro de Castor de Andrade.

E o maior exemplo disso é o de Dé. Ele tem tanta convicção em Castor, que chegou a recusar uma transferência para o Recife, só para ficar no Bangu:

- O que conta para mim é a admiração e amizade que tenho por Castor, de quem sou amigo há 10 anos. Ele me ligou e pediu para levantar o Bangu. Nesse mesmo dia o Botafogo tinha me vendido para o Sport Recife e eu ia ganhar Cr$ 1 milhão de luvas. Coloquei Castor no telefone e ele conseguiu minha liberação, acertando meu empréstimo por oito meses por Cr$ 300 mil de luvas e o mesmo salário do Botafogo. Mas não vim por dinheiro e sim por reconhecimento. Claro, se houver chance de ganhar dinheiro, melhor ainda.

E os outros? Todos demonstram a mesma satisfação em atuar pelo Bangu. Moisés chega a afirmar que não viria se não tivesse confiança no dirigente: "Afinal são 12 anos de carreira disputando títulos em grandes clubes e não iria correr o risco de atuar numa equipe chamada pequena se não houvesse chance de se formar um bom time".

Tobias, Carlos Roberto e Caio são da mesma opinião. Para eles, o importante é haver uma boa estrutura e o clube está conseguindo isso, misturando jogadores mais experientes com outros mais novos, como ex-juvenil Tita, do Botafogo, ou Luisão, o goleador e ídolo da torcida.

E para Luisão, a contratação de reforços só veio lhe facilitar a conquista de mais gols:

- Sinto que as coisas estão indo bem, e está até mais fácil de jogar. Além disso os prêmios estão aparecendo e os bons jogadores preparados no Bangu estão sendo prestigiados.

Dirigir jogadores experientes e que sabem tudo de bola não é nenhum problema para Ananias, atual treinador e antigo jogador do clube, onde fez de tudo, desde gandula, até de enfermeiro, passando pelos dentes-de-leite, infantil, juvenil, aspirante e profissional, enquanto conversa com seu auxiliar, Neco, outro que realizou praticamente toda sua carreira no clube:

- O comportamento dos jogadores está excelente e no campo procuro deixá-los à vontade sem querer inventar nada. Somos líderes da Taça de Prata em nosso grupo, e a tendência é só melhorar com o tempo, assim que conseguirmos um melhor entrosamento. Além disso, estamos esperando mais alguns reforços, como Ademir Vicente, ex-Botafogo, e vamos incomodar bastante já na Taça de Ouro.

A campanha do Bangu vem animando os dirigentes que não esperavam resultados tão bons, no pouco tempo de treinamento que o time teve. Nas últimas partidas chegou a golear o Serrano por 4 a 1, e o Noreste por 2 a 0 com a seguinte equipe: Tobias, Rodrigues (ex-São Cristóvão), Moisés, Ademir e Cacau; Carlos Roberto, Tita e Paulo Roberto; Luisão, Caio e Dé.

O vice-presidente Rui Esteves explica que o trabalho da atual diretoria começou em janeiro quando tomou posse já em cima da disputa da Taça de Prata, e teve pouco tempo para formar a equipe. Assim, contratou sete reforços mais experientes e manteve os que se destacaram na temporada passada.

Para Rui, a tranquilidade existente em todo clube hoje é devido a dois fatores: o grande quadro social, composto de 16 mil sócios, e o apoio de Castor. A folha de pagamento chega a Cr$ 1 milhão por mês, e mesmo sabendo que a média de renda do clube tem sido de Cr$ 100 mil na Taça de Prata, não se preocupa:

- Já sabíamos que iríamos perder dinheiro no começo, mas pretendemos recuperar tudo com a disputa da Taça de Ouro e o Campeonato Carioca. O Bangu está com 16 mil sócios, o patrimônio aumentou, a sede foi comprada à Fábrica Bangu de Tecidos e o próximo passo será a compra do estádio. A área onde estamos situados só tende a crescer e existem poucas opções de lazer. Assim seremos sempre a melhor opção.

- A faixa de salário de nossos jogadores está dividida em dois grupos - quem explica é o diretor de futebol Antônio Fernandes Filho. Para os jogaodres mais conhecidos: Cr$ 50 mil; para os menos conhecidos, Cr$ 25 mil. Embora reclamando das despesas, para ele o maior problema foi organizar o departamento de futebol, "muito abandonado pela diretoria anterior", e explica:

- Reformulamos todo o estádio, a concentração, organizamos um Departamento Médico, contratamos roupeiro e estamos tratando de criar toda uma estrutura como a dos grandes clubes, pois só assim voltaremos a atrair a torcida aos campos de futebol.

E a grande preocupação de todos é exatamente esta. Como reagirá a torcida? Se depender dos dirigentes, ela pode voltar tranquila, pois o objetivo do clube na sua primeira etapa é ser o melhor dos pequenos e incomodar os cinco grandes. Depois é disputar o título em pé de igualdade com eles. E quem conhece Castor de Andrade sabe que ele costuma cumprir suas promessas. Exatamente como em 1966.


Repórter: Marcos Penido.
Fonte: Jornal do Brasil, 23 de março de 1980.

     
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