Rio de Janeiro, quinta-feira, 18 de dezembro de 2014 - 10h20min
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ALADIM: UM ETERNO ESTREANTE NA VIDA

Foto: José Eugênio

No ano passado ele pensou que ia morrer de uma doença estranha. Recuperado, voltou a correr como um garoto.

Foto: José Eugênio
Programa favorito: o papo no bar

Vamos mudar de assunto. Ao final de quatro horas de papo, no bar onde costuma tomar uma cervejinha depois dos treinos do início da semana ("Em vésperas de jogos não bebo nada"), Aladim Luciano, 33 anos, meio calvo, ponta-esquerda, botou a mão direita na mesa, olhou para cima, e pediu para não falar mais.

Durante quatro horas de conversa, o velho Aladim falou mais do que ouviu, e contou histórias nem sempre alegres dos 19 anos pelos quais se prolonga a sua trajetória de jogador de bola. Lembrou do começo, em 62, quando o garotinho canhoto de Barra Mansa se apresentou nas divisões inferiores do Bangu, time que ainda hoje mora no seu coração. Lembrou do primeiro título no Bangu, em 66, dos muitos títulos no Coritiba, da passagem pelo Corinthians, dos truques do todo-poderoso Castor de Andrade e da malandragem de Evangelino Costa Neves. Do carinho que tem para com amigos como Almir de Almeida, que o trouxe para Curitiba. E do desprezo que sente por gente como Diede Lameiro e Admildo Chirol. Só não quis mesmo falar do grande trauma, do episódio que quase encerrou a bela carreira iniciada em Bangu, naquele ano longínquo.
- Vamos mudar de assunto.

Em 19 anos de carreira Aladim nunca sofreu uma contusão grave, só pequenos estiramentos, ligeiras torções. Então, de repente, durante um treino no Alto da Glória, ano passado, começou a se sentir mal, o corpo todo formigando. O massagista Osvaldo Sarti, do Coritiba, lembra que lhe aplicou uma injeção na veia e deu uns comprimidos antigripais. Ao chegar em casa, Eliza -a esposa de Aladim - verificou que ele estava com 39 graus de febre. Avisado, o médico do Coritiba mandou que elo tomasse um antitérmico, e Aladim melhorou, e chegou mesmo a jogar contra o Rio Branco, ajudando na goleada de 5 x 1. No dia seguinte, um domingo, a febre voltou, e o joelho esquerdo - que nunca levara pancada - estava surpreendentemente inchado.

O Alegre e gozador Aladim, o piadista que animava as concentrações e comandava as batocadas nas viagens pelo interior, começou a se transformar, a emudecer, a pensar na morte. À sua mente começaram a vir lembranças que ele gostaria de ter esquecido.

Jorge Carvoeiro, ponta-direita do Vasco, morreu com 23 anos, de leucemia, depois de meses de tratamento inútil. Aladim lembrava-se bem dele, da carreira interrompida ainda no nascedouro. Foi aí que começou a pensar na morte. Com medo. Com desespero.

- Tive medo, sim. Pensei em tudo o que não presta.

Foto: José Eugênio
Em casa, com a esposa e os filhos: medo de morrer e ficar sem eles

Mas pensou principalmente nas cruzes que ficaram pelo caminho do futebol tricampeão do mundo. No lateral Jorge Luís, do Vasco da Gama, e no armador Geraldo, do Flamengo, que mal chegaram a brilhar e que foram vítimas da incompetência ou da omissão. E pensou em muita bobagem. Claudinho, centroavante do Coritiba, e um dos maiores amigos de Aladim, conta:

- Lá no hospital, quando estava se recuperando, ele contou pra gente que, se sentisse que ia morrer, dava um jeito de levar a Eliza também.

O velho Aladim negaceia, mas depois admite a revelação do amigo:

- Afinal, só eu é que poderia contar histórias da bola para as crianças (Júnior e Elizângela). Não gostaria que outra pessoa fizesse isso por mim.

Durante uma semana, Aladim esteve hospitalizado, submentendo-se a uma grande e variada quantidade de exames.

- Só não me examinaram a cabeça. O resto foi dissecado. Deu tudo negativo, não encontraram nada. Ninguém sabe o que aconteceu.

Supersticioso ele não é, nem místico. Ainda que, menino em Barra Mansa, carregasse velas nas procissões.
Sempre confiou na fé sem ser fanático. Apenas crente. Foi assim que escalou os degraus da profissão, aceitando tranqüilamente a camisa 11 quando o argentino Alfredo González o chamou para ser o ponta-esquerda do time principal do Bangu. Chutando de curva, com violência, e voltando sempre para ajudar o meio-campo, Aladim logo construiu uma fama que lhe assegurou lugar entre os grandes jogadores do futebol carioca. Campeão em 66, ele ainda foi, aos 20 anos, titular da seleção carioca por três anos seguidos, completando um ataque no qual formavam Jairzinho, Gérson, Roberto e Afonsinho. Paulo César Caju, que Aladim garante "ter mais de 30 anos", era apenas o seu reserva. Deslumbrado, Aladim não teve tempo e nem juízo pára aproveitai a fase e fazer um pé-de-meia. Afinal, tinha passado de 10 cruzeiros mensais para 180, e mesmo sabedor que seu companheiro de clube, Paulo Borges, ganhava mil, ele não ligava.

- O Castor era ótimo, arrumava dinheiro pra todo mundo. Só que eu não era puxa-saco, e, além disso, ele tinha os seus favoritos, os caras da badalação. Eu era um capiau, só fui a Copacabana algumas vezes. Um dia quiseram que eu experimentasse drogas, nunca mais voltei lá.

Do grande time que o Bangu foi desmontando aos poucos, Aladim foi dos últimos a sair, em 70. Foi para o Corinthians, seguindo Paulo Borges, "ganhando bem menos,.."

- No Corinthians, ninguém queria nada com a bola. Vi gente que se machucava de propósito, só para não entrar em campo. O Servílio, o Tales, o lvair, o Célio, o Benê. Aí o Aimoré Moreira cismou de me barrar e eu pedi para ser vendido, mas o Matheus não topou. O Botafogo me queria, mas ele não me deixou sair. Para o Botafogo, aliás, Aladim quase tinha ido, tempos antes. Só não foi porque Admildo Chirol, preparador físico do time, o encontrou uma tarde tomando chope com uma garota, em São Conrado.

- O Tim me contou depois que o Chirol botou areia no negócio, espalhando que eu era cachaceiro. É um mau-çaráter.

Aladim teria ficado esquentando banco no Corinthians, se Almir de Almeida, então supervisor no clube paulista, não tivesse lhe arranjado um empréstimo para o Coritiba. Depois, foi comprado pelo time Coxa, onde foi titular durante oito anos e ganhou cinco títulos estaduais. Só não foi campeão em 78, quando esteve emprestado ao Atlético.
- O técnico lá era o Diede Lameiro, um dos caras mais "trafras" que eu já conheci ("traíra", para Aladim, é o mau-caráter). Não agüentei a barra e voltei ao Coritiba. Do Coritiba ele se despediu agora, vendido ao Colorado, depois de ter sido eleito, em 80, "o melhor ponta-esquerda do campeonato". Mas ainda não conseguiu explicar a transferência ao filho Júnior, de seis anos, que vive com o uniforme do Coritiba e ensaia os primeiros chutes de bico de pé. Na carreira de 19 anos-ele talvez seja o mais antigo jogador em atividade no Brasil-, Aladim defendeu apenas quatro clubes ("O Atlético não conta"). Sempre com muita disposição e amor.

Foto: JB
Fla x Bangu, decisão de 66

Até hoje, em qualquer partida, eu sempre fico nervoso nos primeiros dez minutos. Só depois é que me libero. Qualquer jogo, pra mim, é como se fosse uma estréia. Por coincidência, a sua estréia com a camisa do Cobrado, foi exatamente contra o querido Bangu, lá no campinho de Moça Bonita, de tantas lembranças. Durante 90 minutos ele correu, chutou, bateu faltas, buscou jogo, suou a camisa. No final, encontrou seu velho amigo Castor de Andrade, dono do time. Lembraram histórias de 12 anos atrás, quando a grana de Castor fazia Aladim correr com a mesma disposição de hoje. Em meio às lembranças, justo quando passavam alguns jogadores do atual Bangu, Castor não se conteve:

- Quero o Bangu jogando com a fibra, o empenho e a dedicação deste senhor.

E recebeu um forte abraço de Aladim, herói de mais uma estréia, esquecido dos sustos e com fome de bola.


Repórter: Roberto José da Silva
Fonte: Revista Placar, 23/01/1981.
          Revista gentilmente cedida por Leonardo Cesar (leoicet@terra.com.br).
     
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