|
| » »
Informação » |
ALADIM: UM ETERNO ESTREANTE NA VIDA
No
ano passado ele pensou que ia morrer de uma doença
estranha. Recuperado, voltou a correr como um garoto.
|
Foto:
José Eugênio
|
|
|
|
Programa
favorito: o papo no bar
|
Vamos
mudar de assunto. Ao final de quatro horas
de papo, no bar onde costuma tomar uma cervejinha
depois dos treinos do início da semana
("Em vésperas de jogos não
bebo nada"), Aladim Luciano, 33 anos,
meio calvo, ponta-esquerda, botou a mão
direita na mesa, olhou para cima, e pediu
para não falar mais.
Durante quatro horas de conversa, o velho
Aladim falou mais do que ouviu, e contou histórias
nem sempre alegres dos 19 anos pelos quais
se prolonga a sua trajetória de jogador
de bola. Lembrou do começo, em 62,
quando o garotinho canhoto de Barra Mansa
se apresentou nas divisões inferiores
do Bangu, time que ainda hoje mora no seu
coração. Lembrou do primeiro
título no Bangu, em 66, dos muitos
títulos no Coritiba, da passagem pelo
Corinthians, dos truques do todo-poderoso
Castor de Andrade e da malandragem de Evangelino
Costa Neves. Do carinho que tem para com amigos
como Almir de Almeida, que o trouxe para Curitiba.
E do desprezo que sente por gente como Diede
Lameiro e Admildo Chirol. Só não
quis mesmo falar do grande trauma, do episódio
que quase encerrou a bela carreira iniciada
em Bangu, naquele ano longínquo.
- Vamos mudar de assunto.
Em 19 anos de carreira Aladim nunca sofreu
uma contusão grave, só pequenos
estiramentos, ligeiras torções.
Então, de repente, durante um treino
no Alto da Glória, ano passado, começou
a se sentir mal, o corpo todo formigando.
O massagista Osvaldo Sarti, do Coritiba, lembra
que lhe aplicou uma injeção
na veia e deu uns comprimidos antigripais.
Ao chegar em casa, Eliza -a esposa de Aladim
- verificou que ele estava com 39 graus de
febre. Avisado, o médico do Coritiba
mandou que elo tomasse um antitérmico,
e Aladim melhorou, e chegou mesmo a jogar
contra o Rio Branco, ajudando na goleada de
5 x 1. No dia seguinte, um domingo, a febre
voltou, e o joelho esquerdo - que nunca levara
pancada - estava surpreendentemente inchado.
O Alegre e gozador Aladim, o piadista que
animava as concentrações e comandava
as batocadas nas viagens pelo interior, começou
a se transformar, a emudecer, a pensar na
morte. À sua mente começaram
a vir lembranças que ele gostaria de
ter esquecido.
Jorge Carvoeiro, ponta-direita do Vasco, morreu
com 23 anos, de leucemia, depois de meses
de tratamento inútil. Aladim lembrava-se
bem dele, da carreira interrompida ainda no
nascedouro. Foi aí que começou
a pensar na morte. Com medo. Com desespero.
- Tive medo, sim. Pensei em tudo o que não
presta.
|
Foto:
José Eugênio
|
|
|
|
Em casa,
com a esposa e os filhos: medo de morrer e ficar
sem eles
|
Mas
pensou principalmente nas cruzes que ficaram
pelo caminho do futebol tricampeão
do mundo. No lateral Jorge Luís, do
Vasco da Gama, e no armador Geraldo, do Flamengo,
que mal chegaram a brilhar e que foram vítimas
da incompetência ou da omissão.
E pensou em muita bobagem. Claudinho, centroavante
do Coritiba, e um dos maiores amigos de Aladim,
conta:
- Lá no hospital, quando estava se
recuperando, ele contou pra gente que, se
sentisse que ia morrer, dava um jeito de levar
a Eliza também.
O velho Aladim negaceia, mas depois admite
a revelação do amigo:
- Afinal, só eu é que poderia
contar histórias da bola para as crianças
(Júnior e Elizângela). Não
gostaria que outra pessoa fizesse isso por
mim.
Durante uma semana, Aladim esteve hospitalizado,
submentendo-se a uma grande e variada quantidade
de exames.
- Só não me examinaram a cabeça.
O resto foi dissecado. Deu tudo negativo,
não encontraram nada. Ninguém
sabe o que aconteceu.
Supersticioso ele não é, nem
místico. Ainda que, menino em Barra
Mansa, carregasse velas nas procissões.
Sempre confiou na fé sem ser fanático.
Apenas crente. Foi assim que escalou os degraus
da profissão, aceitando tranqüilamente
a camisa 11 quando o argentino Alfredo González
o chamou para ser o ponta-esquerda do time
principal do Bangu. Chutando de curva, com
violência, e voltando sempre para ajudar
o meio-campo, Aladim logo construiu uma fama
que lhe assegurou lugar entre os grandes jogadores
do futebol carioca. Campeão em 66,
ele ainda foi, aos 20 anos, titular da seleção
carioca por três anos seguidos, completando
um ataque no qual formavam Jairzinho, Gérson,
Roberto e Afonsinho. Paulo César Caju,
que Aladim garante "ter mais de 30 anos",
era apenas o seu reserva. Deslumbrado, Aladim
não teve tempo e nem juízo pára
aproveitai a fase e fazer um pé-de-meia.
Afinal, tinha passado de 10 cruzeiros mensais
para 180, e mesmo sabedor que seu companheiro
de clube, Paulo Borges, ganhava mil, ele não
ligava.
- O Castor era ótimo, arrumava dinheiro
pra todo mundo. Só que eu não
era puxa-saco, e, além disso, ele tinha
os seus favoritos, os caras da badalação.
Eu era um capiau, só fui a Copacabana
algumas vezes. Um dia quiseram que eu experimentasse
drogas, nunca mais voltei lá.
Do grande time que o Bangu foi desmontando
aos poucos, Aladim foi dos últimos
a sair, em 70. Foi para o Corinthians, seguindo
Paulo Borges, "ganhando bem menos,.."
- No Corinthians, ninguém queria nada
com a bola. Vi gente que se machucava de propósito,
só para não entrar em campo.
O Servílio, o Tales, o lvair, o Célio,
o Benê. Aí o Aimoré Moreira
cismou de me barrar e eu pedi para ser vendido,
mas o Matheus não topou. O Botafogo
me queria, mas ele não me deixou sair.
Para o Botafogo, aliás, Aladim quase
tinha ido, tempos antes. Só não
foi porque Admildo Chirol, preparador físico
do time, o encontrou uma tarde tomando chope
com uma garota, em São Conrado.
- O Tim me contou depois que o Chirol botou
areia no negócio, espalhando que eu
era cachaceiro. É um mau-çaráter.
Aladim teria ficado esquentando banco no Corinthians,
se Almir de Almeida, então supervisor
no clube paulista, não tivesse lhe
arranjado um empréstimo para o Coritiba.
Depois, foi comprado pelo time Coxa, onde
foi titular durante oito anos e ganhou cinco
títulos estaduais. Só não
foi campeão em 78, quando esteve emprestado
ao Atlético.
- O técnico lá era o Diede Lameiro,
um dos caras mais "trafras" que
eu já conheci ("traíra",
para Aladim, é o mau-caráter).
Não agüentei a barra e voltei
ao Coritiba. Do Coritiba ele se despediu agora,
vendido ao Colorado, depois de ter sido eleito,
em 80, "o melhor ponta-esquerda do campeonato".
Mas ainda não conseguiu explicar a
transferência ao filho Júnior,
de seis anos, que vive com o uniforme do Coritiba
e ensaia os primeiros chutes de bico de pé.
Na carreira de 19 anos-ele talvez seja o mais
antigo jogador em atividade no Brasil-, Aladim
defendeu apenas quatro clubes ("O Atlético
não conta"). Sempre com muita
disposição e amor.
|
Foto:
JB
|
|
|
|
Fla
x Bangu, decisão de 66
|
Até
hoje, em qualquer partida, eu sempre fico
nervoso nos primeiros dez minutos. Só
depois é que me libero. Qualquer jogo,
pra mim, é como se fosse uma estréia.
Por coincidência, a sua estréia
com a camisa do Cobrado, foi exatamente contra
o querido Bangu, lá no campinho de
Moça Bonita, de tantas lembranças.
Durante 90 minutos ele correu, chutou, bateu
faltas, buscou jogo, suou a camisa. No final,
encontrou seu velho amigo Castor de Andrade,
dono do time. Lembraram histórias de
12 anos atrás, quando a grana de Castor
fazia Aladim correr com a mesma disposição
de hoje. Em meio às lembranças,
justo quando passavam alguns jogadores do
atual Bangu, Castor não se conteve:
- Quero o Bangu jogando com a fibra, o empenho
e a dedicação deste senhor.
E recebeu um forte abraço de Aladim,
herói de mais uma estréia, esquecido
dos sustos e com fome de bola.
Repórter:
Roberto José da Silva
Fonte: Revista Placar, 23/01/1981.
Revista
gentilmente cedida por Leonardo Cesar (leoicet@terra.com.br).
|
 |
 |
|
|
|
|
|
|
Estatísticas 2013 |
|
| Jogos |
17 |
| Vitórias |
4 |
| Empates |
5 |
| Derrotas |
8 |
| Gols Pró |
15 |
| Gols Contra |
18 |
| Saldo de Gols |
-3 |
| Aproveitamento |
33% |
|
|
|
|
|
Artilheiros 2013 |
|
Sérgio Júnior
|
7 |
Mayaro
|
2 |
Raphael Azevedo
|
1 |
Celsinho
|
1 |
Hugo
|
1 |
Eudes
|
1 |
Willen
|
1 |
Bernardo
|
1 |
|
|
|
|