BANGU,
REINO DA MALANDRAGEM
A
cada dia, o time enche mais velhos malandros
do futebol brasileiro. Os últimos foram
Marco Antônio e Alcino. Agora, fala-se
em Jairzinho. Do futebol, eles conhecem todos
os macetes - qualidade ideal para sobreviver
no Bangu
| Foto:
Revista Placar |
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| Moisés,
aqui marcando uma cerveja, é o
lider do time, o homem de Castor no
futebol. Dá duro nos jogadores
novos e, se tudo der certo, ingressa
na vida política: quer ser vereador
pelo PP |
-
Que caras são essas, meus meninos?
Todos com olhinho de jacaré em beira
de pântano? Vamos que é hora
de serpentear atrás da bola!
Quem diria? O velho Moisés dando ordem
de serviço, puxando a fila nos exercícios
físicos. Aos 33 anos, virou o sargentão
do Bangu, o porta-voz de Castor de Andrade
para assuntos de futebol.
O calor é intenso em Moça Bonita,
mas o time está em campo pronto para
treinar. Moisés é cercado pelos
companheiros e dá o recado: "Papai
Castor convida todo mundo para mastigar 'uma
carne macia e tomar uma cerveja, que garganta
seca não solta palavra". Hoje
é dia de churrascada, amanhã
de feijoada, pescaria ou roda de samba. Os
jogadores organizam, Castor paga tudo.
Paga tanto que o lateral Marco Antônio,
comprado ao Vasco, nem acreditou quando Castor
de Andrade resolveu presenteá-lo com
uma quitinete, como votos de boas-vindas ao
clube.
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Fotos:
Revista Placar |
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| Marco
Antônio: "O Castor é
a Srra pelada da minha vida". |
Renê:
a ordem não é chegar junto.
É chegar primeiro. |
Alcino:
"Atacante devagar vira jacaré
de sapato". |
215
anos de idade e de muita malandragem
- O senhor
é a Serra Pelada da minha vida - exclamou
o jogador, a um tempo surpreso e emocionado.
Marco Antônio (29 anos),Moisés
(33), Ademir Vicente (29), Carlos Roberto
(33), Alcino (29), Tobias (29) e Renê
(33) integram o chamado "'esquadrão
da malandragem". Juntos, somam 215 anos
de idade, milhares de minutos correndo atrás
de uma bola, vivendo e aprendendo os macetes
do futebol. Mas que ninguém se iluda:
no Bangu, o malandro maior continua a ser
o "doutor" Castor, rei do jogo do
bicho, industrial bem-sucedido. E quando suas
conversas ao pé do ouvido não
resolvem - o que é raro -, resta sempre
um último e poderoso argumento: seu
38 todo dourado e com cabo de madre-pérola
que traz sempre ao alcance da mão.
Na verdade, esse temível esquadrão.não
custou muito a perceber que, no Bangu, a grande
malandragem é rezar segundo a cartilha
de Castor. O ponta-esquerda Marcelinho, garoto
novo, demorou um pouco mais para aprender
esta lição. Andou torrando o
dinheiro dos bichos e salários, além
de chegar sistematicamente atrasado aos treinos.
Até que um dia recebeu o recado de
Moisés: "O homem quer falar com
você".
Na sala de Castor, foi recebido por uma expressão
carrancuda e uma pergunta formulada com voz
firme: "Você anda chegando tarde
todo dia, não é?" Tentou
contemporizar: "O senhor compreende,
o ônibus vem cheio..." E já
ia preparando o espírito para uma punição
qualquer, quando Castor ordenou: "Olha,
isso tem de acabar de vez, garoto. Passe lá
na minha agência e pegue um fusca. E
seu. E não me atrase mais".
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Fotos:
Revista Placar |
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Ademir
Vicente:
dando o exemplo para a garotada. |
Carlos
Roberto:
na democracia à Bangu, todos
dão palpite. |
Com
o centroavante Luisão, a história
não foi muito diferente. Ele tinha
a promessa de ganhar um automóvel se
marcasse um gol contra o Goytacaz. Fez o que
pôde em campo: correu, deu cabeçada
em beque, chutou a trave, mas não conseguiu
marcar. Por isso, passou uma semana triste,
inconsolável. Comovido com o estado
do companheiro, Carlos Roberto resolveu interceder
junto a Castor. Alguns dias depois,o crioulo
aparecia para o treino motorizado e com um
enorme riso branco na cara:
- Cê viu, baixinho (Carlos Roberto),
o kadron do meu voiquisvague?
Na opinião de Marco Antônio,
o Bangu é o paraíso do futebol
brasileiro. E para justificar tal afirmação,
ele cita não só o apartamento
que ganhou de presente de Castor, mas também
o clima de liberdade que vigora no clube.
Nas reuniões antes de cada jogo, por
exemplo, todos falam de tática, discutem
qual a melhor maneira da equipe atuar. Essa
prática, há quem diga, esvaziou
o comando do técnico Décio Leal.
Mas Carlos Roberto tem outra opinião:
- Até seu Castor dá palpite
e, de todas as sugestões, surge a tática.
Vem cá, você não acredita
em democracia? Pois aqui exercitamos a democracia
à moda Bangu. É um esquema de
tanta liberdade que o Castor até já
avisou no bar: "Podem servir chope depois
do treino porque os meninos gostam. Mas somente
dois para cada um".
À sua maneira, Castor vai dirigindo
o Bangu, animado por um antigo sonho: repetir
a façanha de 1966, o clube sagrar-se
novamente campeão carioca. O ano para
a grande conquista já está até
marcado: 1982.
- O que eu tenho - explica Castor de Andrade
- não são malandros, mas, sim,
jogadores com uma dose bem mesclada de sabedoria
e picardia, que, cá entre nós,
é uma forma mais refinada de malandragem.
Desse imprevisível e surpreendente
Bangu, que mistura velhas raposas do futebol
com alguns jovens valores, pode sair de tudo.
Futuros campeões e até mesmo
um político - Moisés, que conta
com a ajuda financeira e o prestígio
de Castor de Andrade para eleger-se vereador
pelo Partido Popular. O mote da campanha já
está até preparado:
- Um homem só é feliz quando
dá arroz e feijão ao pobre.
E eu, se for eleito, lutarei por isso - afirma
Moisés, ensaiando um discurso tão
populista quanto os métodos de trabalho
de seu padrinho político.
Repórter:
Hideki Takizawa. Fotógrafo: Ignácio
Ferreira.
Fonte: Revista Placar, 23/01/1981.
Revista
gentilmente cedida por Leonardo Cesar (leoicet@terra.com.br).