MOISÉS,
O XERIFE
Um craque na intimidade
Nome:
Moisés Matias de Andrade
Naturalidade:
Estado do Rio de Janeiro (Resende)
Idade: 34 anos
Estado civil:
Casado
Filhos: 2
Clubes: Bonsucesso,
Flamengo, Botafogo, Vasco, Corintians, Fluminense,
Portuguesa dos Desportos e Bangu.
Posição:
Zagueiro
Altura: 1,79m
Peso: 76kg
Chuteira: 41
Qual foi o jogo mais difícil de
que você participou? (Alberto Leo,
TV Bandeirantes)
- Já disputei várias partidas
difíceis, mas a que me recordo com
orgulho foi contra a Rússia em Moscou.
A Seleção Brasileira, naquela
época, 1973, tinha que se firmar, pois
estávamos nos preparando para a Copa
do Mundo de 1974. Não foi brincadeira,
como eu sofri.
Você
sente medo do Castor de Andrade ou tem admiração
por ele?
- Por que teria medo de Castor de Andrade?
É um homem e um dirigente honesto.
Sabe tratar o jogador de futebol e, por isso,
acho que me dou muito bem com ele. Sinto profunda
admiração por Castor de Andrade
e além do mais ele é fã
do jogador. Talvez seja isto o segredo do
Bangu nos campeonatos.
É
verdade que você é o treinador
do Bangu? (Paula César Vasconcelos,
OGlobo)
- Não. Claro que, com a minha experiência
no futebol, tenho 18 anos de carreira, dou
a minha opinião. Apenas ajudo o técnico
João Francisco, que é um rapaz
competente. Antes de ele assumir era diferente,
pois quase todas as observações
que fazia eram aceitas.
Onde
você anda investindo seu dinheiro, uma
vez que a Bolsa de Valores já não
é tão rentável? Você
já mudou de idéia de ser o homem
de paletó e gravata, como James Bond?
(Haroldo Habibi, O Dia)
- Já fiz de tudo na vida. Trabalhei
com dólar, ouro, mercado imobiliário
e já tive até loja de calçado.
Mas depois de analisar e estudar bem, cheguei
à conclusão de que o melhor
investimento é construir. Tenho seis
casas alugadas em Macaé e estou construindo
uma na Barra da Tijuca. Esta terá de
tudo. Piscina, sauna, quadra de tênis
e outras coisas mais. É para nenhum
rico botar defeito. Paletó e gravata
só coloco quando vou resolver assuntos
ligados ao Bangu.
Qual
foi o atacante mais difícil que você
marcou? (Paulo Stein, TVBandeirantes)
- Seria uma injustiça citar um só
jogador. Jairzinho e Pelé foram os
que me deram mais trabalho. Não preciso
citar as virtudes desses dois jogadores. Todos
sabem do passado de Pelé e Jairzinho.
Porque
você teve a idéia de fundar o
Bloco das Piranhas? Sabe que você fica
muita bem travestido? Daria até para
ir àquele famoso Baile das Bonecas.
- O bloco foi fundado há vinte anos
e apenas o ressuscitei. Meus tios desfilavam
vestidos de mulheres e quando vi as fotografias
da época me deu vontade de aderir.
O Bloco das Piranhas ficou famoso porque vários
jogadores desfilam e é proibida a participação
de homossexuais, para não perder a
graça, pois o bonito é que desfilam
homens vestidos de mulheres. Não tenho
vocação para ir ao Baile das
Bonecas. Acho que cada um fica na sua. Mas
que dá para confundir dá. Mas
sou homem.
Qual
o seu passatempo preferido?
- A caça submarina é minha paixão.
Conte
uma de pescador
- Estou domesticando um tubarão. Quase
todos os dias vou lá, na Ilha Tijuca,
e dou tiro de espingarda na cabeça
dele. Parece que ele gosta e todas as vezes
que vou pescar, lá está.
Acusado
de violento, você mesmo faz questão
de vender esta imagem. O problema é
que quase você recebe o Troféu
Belfort Duarte. E aí? Seria uma vergonha
ou não? Afinal, você sempre disse
que zagueiro que se preza não ganha
Belfort Duarte (João Areosa, Jornal
do Brasil)
- O zagueiro tem que ser respeitado. O atacante
tem que saber que está sendo marcado
duro, nunca deslealmente. A lei até
permite que o jogador faça uma falta
violenta. E mantenho a opinião de que
zagueiro que se preza não pensa em
Belfort Duarte. Seria muita falta de sorte
receber o Belfort Duarte. Aí perderia
a moral.
Qual
o jogador mais violento que você marcou?
E o mais valente?
- Jairzinho e Pelé foram os dois atacantes
mais desleais e valentes que já enfrentei.
Eles não tinham medo de nada e na hora
de dividir a bola eles o faziam por cima.
Aí eu tinha que colocar todo o meu
vigor físico para contê-los.
Você
já quebrou a perna de alguém?
- O único que machuquei gravemente
foi Jairzinho. Ele ficou quase um ano sem
jogar ou até mais, não me recordo
com precisão. Mas nesse dia ele me
provocou. Dei uma entrada dura e ele me ameaçou.
Aí meu filho, era vida ou morte. O
seu azar é que acertei logo no joelho.
O Botafogo ficou longo tempo sem o seu melhor
atacante.
Fora
do futebol, seu esporte preferido é
a caça submarina. Contam, inclusive,
que certa vez um tubarão se aproximou,
olhou na seu rosto e gritou "epa, é
o Moísés". E fugiu apavorado,
você é bom mesmo nisso? (José
Antonio Alves, Jornal do Brasil)
- Devido a minha profissão sou razoável.
Mas quando parar com o futebol tenho condições
de ser um dos melhores do país neste
esporte. Agora que o tubarão me respeita
isso não tenha dúvida. Parece
até que ele vai aos campos de futebol
me ver jogar.
Morar
em São Paulo e jogar pelo Corinthians
foi prêmio ou castigo?
- Foi um prazer. Naquela época fui
o zagueiro mais caro em termos de negociação
no Brasil. Além do mais, ganhei 15%
do valor do meu passe. Era sonho de todo jogador
ir para o Corinthians e quebrar o tabu do
clube que não ganhava títulos
há 20 anos. E em 1976 fui vice-campeão
brasileiro e no ano seguinte campeão
paulista. Estava recompensado.
Fica
bem um jogador valente como você vestir-se
de Marilyn Monroe e sair rebolando no Bloco
das Piranhas? (lvannir Yasbeck, Jornal
do Brasil)
- É uma coisa interessante desfilar
de mulher no carnaval. Acho que é uma
forma convincente de você curtir aqueles
dias. Não me importa o que os outros
pensam.
Você
é violento mesmo ou faz tipo?
- Na atualidade jogo apenas com a técnica.
Já fui violento, agora só faço
tipo.
Você
ajuda sua mulher no trabalho de casa?
- Não. Acho que quem fica em casa é
caramujo.
Quando
você chega tarde em casa como reage
sua mulher?
- Ela fica enciumada. Aí tenho que
ter um argumento muito forte, geralmente tenho
e não há problemas.
Em
todos os clubes por que passou você
investia o dinheiro dos jogadores na Bolsa
de Valores. Você já fez algum
jogador ficar rico?
- Acho que não fiz ninguém
ficar rico, mas ganharam um bom dinheiro.
Apenas os aconselhava e aí dependia
de cada um aceitar ou não a minha opinião.
Você
vai se candidatar a vereador? Por que decidiu
a ingressar na carreira política e
qual seu partido?
- Primeiro lugar pela popularidade que tenho
pelos bairros da Zona Norte. Acho que tenho
condições de fazer alguma coisa
pela classe de baixa renda. Pretendo criar
um novo sistema que possa melhorar as pessoas
mais pobres. E também defender a classe
dos jogadores, que está entregue às
traças. Meu partido político
é o PMDB.
Conta
uma história sobre sua passagem no
Corinthians?
- Estava emprestado ao Flamengo que se interessou
em comprar meu passe. Aí fui a São
Paulo convencer o Vicente Mateus a me liberar.
Cheguei lá, disse que estava inutilizado
para o futebol e que já tinha ido aos
médicos do INPS. Ele não acreditou
e me olhava desconfiado. No dia seguinte engessei
a perna e apareci sem me barbear e de camisa
rasgada. Parecia realmente um mendigo. Aí
ele ficou com pena e me deu o passe livre.
Custei a acreditar e sai da sala rapidamente.
Fonte:
Revista Destaque - Nº 1 - Ano I - 1982