Rio de Janeiro, terça-feira, 22 de julho de 2014 - 14h26min
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UM BICHO MUITO GORDO

Ilustração: Ique Woitschach (Jornal do Brasil)

Solteirão avarento deixa uma fortuna em ações e imóveis para um dos times mais pobres do Rio

O Bangu Atlético Clube, um dos times mais pobres do futebol carioca, sem estádio, com torcida pequena, apenas dois títulos estaduais (1933 e 66) e um plantel sustentado pelo banqueiro de bicho Castor de Andrade, chegou pelas mãos da sorte às manchetes esportivas dos jornais do Rio de Janeiro na semana passada, quando foi anunciado que o clube recebera uma fortuna deixada como herança por um rico torcedor solteirão.

Foto: Revista Placar
O solitário professor Luiz torcia pelo Bangu

Na quinta-feira, dia 24, o Jornal do Brasil informou que o Bangu herdara "mais de 500 bilhões de cruzeiros" deixados em testamento pelo matemático Luiz Oswaldo Teixeira da Silva, professor catedrático da Universidade Federal Fluminense (UFF) e do Instituto Militar de Engenharia (IME), que morreu de septicemia (infecção sanguínea), aos 65 anos, a 21 de dezembro último. No dia seguinte, enquanto o JB insistia em que a parte do Bangu chegava mesmo a meio trilhão de cruzeiros, O Globo assegurava que a herança do clube não passava de 1,5 bilhão. A dúvida será tirada dentro de alguns meses, depois que estiver destrinchado o testamento do solitário mestre, que dividiu seus bens entre o Bangu, a Casa São Luiz para a Velhice e mais sete pessoas - a primeira delas Jorge Paz Arevello, 29 anos, seu secretário e amigo íntimo.

"Eu sou como São Tomé: só vendo para acreditar", dizia simplesmente Castor de Andrade, presidente do conselho deliberativo do Bangu, habituado a lidar com grandes somas de dinheiro e ciente de que poderia comprar os melhores jogadores do mundo caso se confirmasse a versão semitrilionária do advogado do clube, Humberto Gaze, que chegou a sugerir um enredo romântico para a história: o excêntrico solteirão, que morava em Botafogo e nem era sócio do Bangu, beneficiara o clube em memória dos momentos felizes que passara nas arquibancadas do pequeno estádio de Moça Bonita - propriedade da Fábrica de Tecidos Bangu e atualmente sob penhora no Banco do Brasil - em sua juventude, quando estudava na Escola Militar do Realengo, ali perto, e namorava uma morena bangüense.

A história não é tão romântica assim, mas pode dar samba. Um samba meio esquisito, é verdade. No Bangu, onde o presidente do clube, Rui Esteves, chegou a falar em erguer um busto ao benfeitor, o professor Luiz Oswaldo Teixeira da Silva não era muito conhecido. Torcedor apaixonado, assistia às partidas disputadas pelo Bangu no Rio e às vezes chegava a passar mal durante os jogos, mas seu esporte favorito era o bridge, considerado "o xadrez das cartas". Três vezes por semana, o discreto professor comparecia ao Bridge Clube do Rio de Janeiro, em Copacabana, um clube fechado, com apenas 250 sócios, freqüentado por algumas das figuras mais ilustres da cidade, como o empresário de comunicações Roberto Marinho, dono da Rede Globo.

Foto: Sérgio Sbraga (Revista Placar)
Com a herança, o Bangu pode comprar o campo que está penhorado

Respeitado como jogador brilhante, o solitário matemático é lembrado no Bridge Clube do Rio como uma pessoa introvertida, que falava pouco e gastava menos ainda. "Ele era uma pessoa extremamente avarenta", lembra Afrânio Moreira de São Sebastião, 81 anos, comerciante aposentado, que o conhecia há mais de 40 anos. "Ele nunca fez uma refeição no clube, só comprava uma água mineral", cita como exemplo. Outra parceira de brigde acrescenta: "Ele quase só andava de ônibus para não gastar a gasolina do seu Chevette e nunca passava a roleta antes de chegar perto de casa, temendo que o ônibus enguiçasse e já tivesse pagado a passagem". Uma das pessoas mais próximas do ricaço no ambiente das cartas era Maria Sá Earp, ex-soprano do Teatro Municipal do Rio e diretora patrimonial do Bridge Clube. Ela confirma que entre as afinidades de ambos destacava-se o gosto pela monarquia como forma de governo, mas estranhou que, entre os bens citados pelo advogado do Bangu, apareçam terras em Portugal e na Espanha. "O que ele gostava mesmo era de comprar e vender ações", afirma sua amiga, que não está entre os herdeiros da fortuna.

O professor viveu durante a vida inteira no sobrado da Rua Alfredo Gomes, 8, em Botafogo. Era filho de um comerciante muito conhecido no bairro, João Luiz Teixeira da Silva, que lhe deixou uma boa herança. Ficou também com a herança da mãe e de uma tia solteira. Metódico, acordava invariavelmente às 6 horas da manhã e tomava apenas um copo de leite antes de sair para o trabalho, dividido entre o IME, na Urca, e a UFF, em Niterói - nas duas instituições, ele era muito respeitado como matemático.

Foto: Ricardo Beliel (Placar)
Castor, esperando 10 bilhões

Em sua casa, com vitrais e móveis antigos, não havia ostentação de riqueza. Durante o dia, o casarão ficava entregue a 20 gatos e aos cinco parentes de Maria da Silva, 78 anos, a "mãe preta" que cuidou do professor durante 40 anos e também ficou fora da herança. Ele achava que eu ia morrer antes dele", justifica a responsável pela casa, onde o único sinal do Bangu eram duas flâmulas com a foto do time campeão carioca de 1966. Entre os beneficiários do testamento do professor figuram duas senhoras de nome Nadir, uma delas sua vizinha em Botafogo, que ficará com metade do casarão da Rua Alfredo Gomes, além de móveis e jóias. Os livros de matemática, que constituíam a maior parte da biblioteca de 2 000 volumes, foram doados a dois professores do IME, ex-alunos do torcedor do Bangu.

Depois de afirmar que o clube de Moça Bonita teria direito a 1,5 bilhão de cruzeiros da herança estimada em 10 bilhões, o advogado Luís Fernando Amida Correa, testamenteiro do delicado avarento, preferiu não falar de números. "Seria leviano de minha parte", disse ele, garantindo, porém, que não existe a quantidade de imóveis mencionada pelo advogado do Bangu. "Posso garantir que são apenas oito imóveis pequenos, a maioria residenciais, para dividir entre o Bangu e o asilo de velhos", acrescentou. Quanto às ações, é difícil calcular o valor deixado pelo professor. Numa avaliação superficial feita com base na lista publicada pelo jornal O Globo, o presidente da Associação Brasileira de Analistas do Mercado de Capitais, Roberto Terziani, chegou a um total de 1,659 bilhão de cruzeiros - quantia obtida apenas com as ações negociadas na Bolsa do Rio de janeiro e atribuídas, meio a meio, para o asilo e o Bangu. Esse dinheiro já daria para comprar o campo de futebol da Fábrica de Tecidos Bangu, mas já caíram por terra os sonhos do treinador Moisés de montar um time só de craques importados do futebol italiano. Castor de Andrade, que procurou ficar à parte da história, sabe que a herança não chega ao meio trilhão pretendido por seu advogado, mas também não se contenta com a hipótese do testamenteiro. "Acho que no máximo receberemos 10 bilhões", anima-se ele, sem ligar para o fato de que na Loteria Federal da quarta-feira passada tenha dado 51 195, veado na cabeça.


Fonte: Revista Placar, 01/02/1985.
          Revista gentilmente cedida por Leonardo Cesar (leoicet@terra.com.br).

     
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