Rio de Janeiro, sábado, 25 de outubro de 2014 - 20h04min
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O CHEFÃO DE BANGU
Castor, acima do bem e do mal

Sacerdote que comanda as orações do time, arquimilionário banqueiro do bicho, que se cerca de 23 guarda-costas. Castor de Andrade, numa semana passada toda em estado de graça

Acabado o massacre sobre o Brasil, a torcida do Bangu já deixava sambando as arquibancadas do Maracanã em direção à zona norte do Rio. No gramado, apenas Marinho, cercado por repórteres de rádio, uma entrevista emendada na outra, saboreando a glória. De repente, os olhos do artilheiro focalizam a figura esguia que abre caminho entre os repórteres. Marinho corta a frase pelo meio, à espera da ordem que não tarda. "Vamos logo". diz Castor de Andrade. "Só falta você para a gente rezar e liberar o vestiário." Há seis anos, desde que Castor voltou a comandar o clube, ganhe ou perca o Bangu, o ritual é sempre o mesmo: antes e depois dos jogos, estranhos são mantidos fora do vestiário e o time reza em torno de uma imagem de Nossa Senhora Aparecida.

A voz delicada de Castor de Andrade entoa a prece e o vestiário vive um clima místico. Aquele bando de homens feitos, de calção e chuteiras, formam um círculo com as mãos dadas, incluindo o treinador Moisés, conhecido como Xerife desde seus tempos de zagueiro truculento. Todos agradecem o milagre da classificação para a final da Taça de Ouro e não há dúvida entre eles sobre quem seria o santo. Claro, é o mesmo que dirige o clube, apesar de ter o cargo de presidente do conselho deliberativo - o presidente no papel, o dentista Rui Esteves das Dores Filho, é um rapaz obediente de 37 anos, crescido no bairro de Bangu, que não mexe uma palha sem consultar o mestre. Castor de Andrade, 59 anos, não tem tempo para cuidar apenas do time - é um dos reis do jogo do bicho carioca e presidente também da escola de samba Mocidade Independente de Padre Miguel, campeã deste ano. Para ajudar a controlar o Bangu, conseguiu um outro milagre: nomeou como diretor de futebol Carlinhos Maracanã, presidente da rival Portela e outro luminar do bicho carioca.

O Bangu é Castor. Na arquibancada do Maracanã, domingo, foram agitadas lado a lado as bandeiras vermelho e branco do clube e verde e branco da Mocidade Independente. Seu império se confunde e não há ameaças rondando seu poder. Nesta terça-feira, ele está intimado a depor na 28ª Vara Criminal do Rio, num processo em que responde como um dos 13 envolvidos pelo funcionamento de um cassino no Clube Umuarama, na Gávea, mas não parece nem um pouco incomodado. Ao contrário, nesse domingo era com muita tranqüilidade que Castor de Andrade circulava pelo Maracanã, sem nenhum de seus 23 guarda-costas por perto. A seu lado, apenas dois protetores: os delegados da Policial Federal gaúcha Irandir Paiva e Carlos Lacerda, amigos que coordenaram seu esquema de segurança no primeiro jogo das semifinais, quarta-feira em Porto Alegre, e vinham completar o trabalho no Rio. Foi só com eles que Castor se instalou domingo na cabine 15 do Maracanã - reservada ao superintendente do estádio -, depois de comandar a prece inicial no vestiário, antes da partida. Ao passar pela tribuna, distribuindo autógrafos, Castor reparou na presença de fotógrafos e sussurrou para um dos delegados; "Essas fotos não vão prejudicar vocês?" O policial balançou a cabeça; "Nada, doutor, somos seus assessores".

Deu sorte assistir ao jogo de Porto Alegre ao lado dos delegados, com os dedos em figa, raros goles de uísque servido por um garçom e apenas dois cigarros filados de seus acompanhantes no camarote. Foi no carro do delegado Paiva que Castor chegou ao Estádio Olímpico, precedido por uma viatura da Polícia Militar, de sirene aberta. Antes de ir ao vestiário, desceu o túnel e apareceu no gramado para examinar de frente a torcida do Brasil. "Assassino!", "Mafioso!", "Bicheiro!", urrava a Xavante. O dirigente não moveu um músculo. "Tudo bem, é sempre assim. Você vai passando e as vaias acabam virando aplausos", refletiu. No vestiário, a meia hora do jogo, enquanto os jogadores enrolavam as ataduras e calçavam as chuteiras, Castor estava ajoelhado em frente à imagem de Nossa Senhora, que acompanha o clube desde sua última grande conquista, o Campeonato Carioca de 1966. A imagem foi doada por seu pai, o fazendeiro Eusébio de Andrade e Silva, o "seu" Zizinho, patrono do clube, falecido há menos de um mês. Ao se levantar, Castor parecia tomado. Batendo, palmas, gritava: "Vamos assinando a súmula!" Em seguida começou a reza.

No caminho para a tribuna, todos lhe abriam passagem, reverentes. Ele parece satisfeito, mas acha normal ser tratado como um ser especial, uma lenda viva. Conta que no Sul mesmo ganhou um jogo de facas de um admirador. No Nordeste, recentemente, um rapaz lhe trouxe para benzer o filho de três anos, batizado com seu nome. "Minha relação com o clube é assim: eu não me promovo com o Bangu, meu prestígio é que ajuda a promovê-lo", diz.

Castor parece ter sempre algo mais a fazer, é difícil descansar. No domingo anterior, por exemplo, depois que seu time realizou o primeiro da série de milagres derrotando o Internacional em Porto Alegre, o dirigente mandou o técnico Moisés dar toda a liberdade aos jogadores naquela noite e embarcou para o Rio. Os craques já tinham feito sua parte, agora era com ele. No avião, veio tramando seu trabalho de bastidores na CBF para transferir a partida de Pelotas para Porto Alegre, até que soube da orientação já estabelecida pela entidade: os jogos nesta fase devem ser disputados nos melhores estádios de cada Estado. Estava riscado o pequeno reduto do Brasil em Pelotas, com seus 25 mil lugares.

Na manhã de terça-feira, completamente descansado, Castor tomava café com torradas e frutas junto com a filha Cármen Lúcia, 19 anos, uma bela morena, estudante de Direito, no espetacular apartamento de frente para o mar, os vidros com as iniciais C.A. Mastigando uma torrada, ele dava ordens para o mordomo Hércules, um moreno gordinho que faz mais do que servir a mesa e supervisionar o trabalho dos outros empregados. "Entregue 2 milhões àquele senhor daquela casa de caridade", ordenou o patrão. "E mande dar uma olhada no banheiro de Cármen Lúcia, ela acha que está dando cupim no armário." Aquela hora, Castor já ligara quatro vezes para Porto Alegre querendo saber se a torcida do Brasil estava incomodando seus rapazes. Retirou-se para trocar de roupa e voltou à sala com uma capa de gabardine azul-marinho. Lá embaixo, onde o esperavam três seguranças, enfiou o chapéu italiano, da marca Borsalino, um dos dez de sua coleção, e rumou para Bangu, a 50 km dali. Num Opala, ele e o motorista Haroldo. Em outro carro, atrás, os seguranças.

Bangu, 1 milhão de habitantes incluindo a zona rural, seu reinado carioca. Ao meio-dia Castor chegava ao primeiro de seus quartéis-generais, o Estádio Proletário. Deu uma série de ordens, pediu ao funcionário Carlinhos um histórico de toda a campanha do Bangu na Taça de Ouro, a papelada para profissionalizar o lateral-esquerdo Baby, ainda amador, e a quantia reservada ao pagamento dos direitos de arena a quem participara do jogo contra o Inter, domingo.

Minutos depois já estava na Castor Veículos, não muito longe, uma espécie de galpão bem-acabado. Antes de entrar no escritório, acariciou sua Mercedes-Benz verde-clara, um dos 40 carros estacionados na agência. Em sua mesa de trabalho, onde aparece sob o vidro numa foto de jornal cumprimentando o ministro da Marinha do governo Figueiredo, Alfredo Karam, falou pela quinta vez com Porto Alegre. Quem atendeu foi Baby, a quem informou do processo de profissionalização; depois mandou chamar o apoiador Israel, para avisar que o Escort prateado, que o jogador namorava há algum tempo, estava à disposição. "Olha, eu comprei o carro por 43 milhões", explicou Castor. "Como te devo 10 milhões das luvas, sai por 33, tudo bem?"

Uma hora mais tarde despachava em seu terceiro QG, o principal: a casa na Rua Fonseca, onde a família morou tantos anos e ele cresceu em sua infância despreocupada de família já rica, um garoto que matava as aulas do tradicional Colégio Dom Pedro II nadando na Praia do Flamengo. Os seguranças estavam à sua espera. O ex-boxeador Válter Silva, 50 anos, campeão brasileiro dos meios-pesados em 1963, homem imenso que Castor chamava de "Anjo Negro", se perfilou e bateu continência. Castor, que chegou a cabo do Exército retribuiu bem-humorado e foi tratar do que o esperava: o meia Arturzinho estava ali para acertar detalhes de sua transferência do Corinthians para o Bangu por 450 milhões de cruzeiros. Castor despachou tudo muito rápido, com espírito prático, mas se movimentava algo emocionado pela casa que guarda um bom pedaço de sua vida. Ele abriu a porta de um quarto, com as paredes mofadas e uns poucos móveis amontoados, um piano e algumas fantasias da Mocidade Independente de Padre Miguel. Desde que sua mãe morreu, o pai fechou o quarto e nunca mais abriu. Agora, Castor planeja fazer uma grande reforma, para devolver à casa a vida que só se vê em seu gabinete. Por trás de sua mesa de executivo, um retrato do pai na parede, outros da filha, de Castor ao lado do estandarte da escola de samba e, caprichosamente emoldurado, seu diploma da Escola Nacional de Direito. Castor só saiu dali para almoçar no refeitório. Na cabeceira da mesa, com seus auxiliares diretos, não deixava outro assunto dominar a refeição. Fez o elogio a quem considera o melhor exemplo do time, o meia Mário: "A garra, a vontade que ele tem de ganhar, mostra como nosso grupo é solidário". Um auxiliar resolveu celebrar outro nome, com a certeza de que o chefe gostaria da lembrança: "E Marinho, como está jogando, hein?" Castor se abriu num sorriso: "Ah, esse é um passarinho".

Um passarinho, todos concordaram que a definição era perfeita. Castor olhava o relógio, às 19 horas pegaria o avião para Porto Alegre, onde Marinho - para quem o dirigente "é o pai que eu não tive" - e todo o elenco esperavam ansiosos pela chegada do homem, que dá muito mais confiança a eles com sua presença física.

Castor de Andrade era a figura mais conhecida do vôo da Varig naquele início de noite. Ficou na ala dos não-fumantes, tomou vinho tinto no jantar, leu e re-leu os jornais cariocas. Na pasta, que ele vive abrindo para fazer anotações em bloquinhos de papel, levava um envelope com 16,5 milhões de cruzeiros em dinheiro - prêmio pela vitória contra o Inter, que entregou ao chefe da delegação, o advogado Miguel Ângelo, assim que chegou ao Hotel InterContinental. Ali mesmo, já tarde da noite, deu entrevista para uma rádio gaúcha, tomou uma sopinha de legumes no restaurante Caçarola, do próprio hotel, e bebeu uma garrafa de água mineral. Conversou ainda com Moisés e com os dois delegados da Polícia Federal, que a partir daí passaram a acompanhá-lo pela cidade.

"Estamos na Libertadores, porra!", berrou ao entrar eufórico no vestiário depois da primeira vitória sobre o Brasil, quarta-feira, no Estádio Olímpico. Em seguida baixou a voz, indicou aos intrusos o caminho da porta e, a sós com o elenco, entoou a prece em que dedicou uma homília particular ao goleiro Gilmar, em sua opinião o herói da partida. Saiu do estádio cada vez mais venerado. Não se ouviam os gritos de "mafioso" ou "bicheiro" do início da noite. À sua passagem, o caminho se abria respeitosamente, as pessoas queriam tocá-lo, pedir autógrafos. Ele atendia a todos, e piscou um olho: "Viu só? Hoje, existem poucos dirigentes que têm coração, paixão mesmo. Não quero me comparar, mas não podemos nos esquecer de um Gilberto Cardoso, do Flamengo, um Carlito Rocha, do Botafogo, ou Cito Aranha, do Vasco, grandes nomes do esporte brasileiro".

De todas essas legendas, nenhuma tão poderosa como a de Castor de Andrade, uma lenda viva que circula pelo Rio acima do bem ou do mal. Um homem arquimilionário, declaradamente fora da lei, na medida em que sua fortuna é construída em torno do jogo de azar, que ele lamenta sinceramente não ser legalizado ("E triste ver o brasileiro tendo de atravessar nossas fronteiras para isso", costuma dizer). Um homem que se define assim: "Tenho amigos de direita, de esquerda e de centro. Eu sempre estou com o governo, não tenho culpa se ele muda de lado". Castor está onde sempre esteve: no poder.


Repórter: Tim Lopes. Fotógrafo: Rodolpho Machado.
Fonte: Revista Placar, 02/08/1985.
          Revista gentilmente cedida por Leonardo Cesar (leoicet@terra.com.br).

     
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