Rio de Janeiro, domingo, 28 de maio de 2017 - 07h21min
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O SÉCULO NÃO ACABA EM 85!

O Rio inteiro amanheceu vermelho e branco no dia em que o Bangu ia ser campeão. A festa se esparramaria de Moça Bonita pela cidade, mas acabou na bola chutada por Ado para fora. Era a volta da sina: 1933,1966,1999...

Estava tudo pronto. Até o lugar destinado ao poster dos campeões brasileiros, que ficaria orgulhosamente instalado na sede social do Bangu, bem no meio dos times de 1933 e 66. A exótica torcida frente ampla que invadiu o Maracanã também já antevia o título: "Noventa e nove é hoje!", resumia uma faixa perdida no meio da galera. referência à história de que o time tem uma sina a cumprir na contabilidade de suas conquistas - campeão carioca em 1933 e 66, só teria outra glória na virada do século. Toda Bangu, com seu milhão de habitantes, amanheceu na quarta passada certa de que a festa iria rolar fácil e farta.

Foto: Rodolpho Machado - Revista Placar
A tristeza pela derrota: Gílson "Gênio" cai num choro convulsivo

Mas veio o empate com o Coritiba, mantido na prorrogação. E veio aquela maldita cobrança de pênaltis, que todo o Rio não vai esquecer tão cedo. Foi triste para quem estava no Maracanã, como foi triste para "seu" Vivi, 80 anos, reserva no timaço de 1933, proibido há muito tempo pelos médicos de ir aos campos de futebol. Sobrou tanta tristeza que até um jogador experimentado como Gílson "Gênio", o minúsculo ponta-esquerda, juntou-se aos mais novos num choro doído, amparado no ombro de um torcedor.

Mas foi particularmente triste aquele dia para o menino Ado. Já era quinta-feira quando o pontinha correu para bater o 11º pênalti da decisão, cheio de estilo. O toque, sutil, deslocou o goleiro Rafael para o canto esquerdo. A bola foi para o outro lado, mas para fora. Ado colocou as mãos na cabeça e ficou ali, estático, olhando a bola até ela se perder no fundo do campo. Depois da eternidade daqueles instantes, começou a andar junto à linha lateral. O choro veio a seguir, consolado unicamente pelo companheiro Israel, também em prantos. Naquela hora, Maracanã emudecido, a voz de Ado era um fio. "Meu Deus, que vergonha! Não posso mais ficar no Bangu. Vou largar tudo. E minha mãe, meu pai, meus irmãos, o que vão dizer disso? Que vergonha. Meu Deus, destruí o sonho de milhares de pessoas...

LEMBRANDO TITA

Foto: Ricardo Beliel - Revista Placar
Emudecido, o Maracanã inteiro acompanha o drama de Ado: "Acho que agora tenho de ser vendido"

Ado, 22 anos, mal conseguia se manter em pé. Chorou muito. Só depois de algum tempo conseguiu se acalmar, já no vestiário, a cabeça começando a clarear. "Não vou largar o futebol, não. Até Tita já perdeu pênalti numa decisão, mas não se deixou abater e soube dar a volta por cima." Era exatamente o que Ado começava a planejar: dar a volta por cima, mesmo que não seja em Moça Bonita, pois ele acha que aquela bola para fora marcou demais sua carreira no clube, esquecido de que, uma semana antes, fora uma outra bola sua - a que acabou no fundo do gol do Brasil, em Porto Alegre - que abriu o caminho do time para as finais: "Não sei, mas acho que o melhor mesmo é o Bangu me vender." Largar a profissão como chegou a pensar, não daria mesmo. Paraíbano de Campina Grande, Ado chegou ao Rio de Janeiro num pau-de-arara espremido com a mãe e dez irmãos. Do pai, só teve notícias seis meses mais tarde. "O velho se mandou para São Paulo, para tentar a sorte na lavoura."

Com os 2,5 milhões de cruzeiros que recebe atualmente do Bangu, é o rapaz de corpo muito magro e cara de menino quem garante o sustento da casa, que ganhou na última renovação de contrato. O sonho do título vinha na esteira de outro, bem mais concreto - apressar a reforma da casa e dar um pouco mais de conforto para a família. "Durmo do lado de tijolo e cimento. Meu quarto se resume a um armário e uma cama. Por isso era tão importante ganhar a Taça de Ouro e o bicho que 'seu' Castor ia pagar para a gente." Ficou para outra vez, exatamente como a festa da proletária Bangu ou a colocação do poster na sede social. Mas tudo bem. O século não ia acabar mesmo quarta-feira passada.


Repórter: Armando Calvano.
Fonte: Revista Placar, 09/08/1985.

     
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