O
CRAQUE DA TAÇA - MARINHO O BOLA DE
OURO
Logo,
logo, a tristeza pela perda do título
brasileiro vai passar. E o melhor jogador
do campeonato voltará a ser alegre
- como seus dribles, que fazem lembrar Mané
Garrincha.
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Foto:
Revista Placar agosto/1985 |
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sonho que virou pesadelo: Marinho faz
o gol de sua vida, sai comemorando "e
o juiz estraga tudo" |
O
funcionário do Maracanã balança
impacientemente um molho de chaves e avisa,
mais uma vez, que tem gente esperando por
Marinho lá fora. O jogador ajeita o
cabelo em frente a um espelho no vestiário
e sai pelo túnel mal iluminado e em
silêncio. É 1 e meia da madrugada.
No caminho, vem de novo aquela mesma imagem
que ele não consegue esquecer. Marinho
pega a bola no meio de campo e os 90 000 presentes
ao estádio parecem estar calados, respiração
suspensa. O rápido ponta-direita dribla
o zagueiro Gomes, ultrapassa com a simplicidade
de um toque o quase intransponível
goleiro Rafael e vê Gomes plantado debaixo
das traves. A bola rola mansa por entre as
pernas do vexado zagueirão e vai descansar
no fundo da rede. Bangu 2 x 1. O Coritiba
já era. Marinho corre e vibra. De repente,
um apito estridente soa mais alto que o samba
da bateria da Mocidade Independente de Padre
Miguel. No instante do gol, pouquíssimas
coisas passaram pela cabeça desse mineiro
de temperamento alegre e brincalhão.
Ele vivia momentos de sonho que o maldito
apito estridente levou embora. O apito de
Romualdo Arppi Filho, que anulou o gol (Marinho
estava realmente impedido) e roubou do ponteiro
a alegria de se sentir vestido com a camisa
7 da Seleção Brasileira, um
dia famosa no corpo do genial Mané
Garrincha. Na verdade, muita gente que foi
ao Maracanã assistir à decisão
da Taça de Ouro entre Bangu e Coritiba,
várias vezes se lembraram de Garrincha.
Marinho deu dribles desconcertantes no seu
competente e promissor marcador, o lateral
Dida. A torcida ia ao delírio. O ponta
provou mesmo que foi o melhor jogador do Campeonato
Brasileiro - e por isso ganhou a Bola de Ouro,
de PLACAR.
| Foto:
Revista Placar agosto/1985 |
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| Em
casa com a mulher Tânia: irreverente,
moleque, brincalhão |
Na
verdade, nada consolava a caminhada de Marinho
no escuro túnel do Maracanã.
"Aquele gol ia me consagrar para o resto
da vida", inconforma-se. Agora, ele só
quer encontrar a família e os amigos
mais próximos para aliviar sua dor.
"Ei, ei, ei, Marinho é nosso rei...
Ei, ei, ei..." Um grupo de torcedores
- todos da família -berrava na saída
do estádio, tentando animar o jogador
que saía cabisbaixo. Um abraço
na mulher Tânia, um esboço de
sorriso e logo, logo, ao ser colocado nos
ombros daqueles solidários fãs,
o velho brilho de alegria, sua marca registrada.
É hora de ir para o Ponto do Chopp,
em Copacabana afogar as mágoas, exigida
a ressalva de não se falar mais em
futebol pelo resto da madrugada.
A quarta-feira da semana passada, dia de decisão
da Taça de Ouro, havia começado
bem diferente para Marinho. Na Toca do Castor,
horas antes do jogo, foi ele quem organizou
uma lista entre os companheiros arrecadando
dinheiro para ser distribuído entre
os serventes da concentração.
"Ele sempre procura ajudar aos outros",
elogia Lislei, administradora da Toca. "Marinho
tem um coração enorme."
O craque dispensa os elogios. "Eu sofri,
passei maus bocados na vida e sei que a barra
é pesada", justifica, lembrando
da infância em Belo Horizonte, quando
andava 2 horas para ir treinar no Atlético
Mineiro. Aos 12 anos, estreou nos dentes-de-leite
e ganhou uma bicicleta por ter sido o melhor
em campo. O prêmio não conseguiu
aliviar a primeira grande tristeza de sua
vida: sua irmã Irene morrera atropelada
na véspera, aos 21 anos, em cima da
calçada no bairro pobre de Santa Efigênia,
onde Marinho nasceu e passou sua infância.
Antes de se firmar no Atlético, Marinho
foi engraxate e zanzou durante muito tempo
pelas ruas de Belo Horizonte. Mas a mãe,
dona Ifigênia, era fanática e
queria porque queria que o filho - que ela
chama de Leleza - fosse jogador de futebol.
"Ela é minha maior incentivadora",
diz orgulhoso. Na quarta-feira da decisão,
hora do almoço, Marinho vê a
mãe na tela da televisão, no
Globo Esporte. Leva um susto, mas não
perde mais uma oportunidade de bancar o palhaço:
"Ih, foram desencravar a velha lá
em Belo Horizonte", goza. "Olha
só a peruca que ela está usando.
Vai ser vaidosa assim na China."
| Foto:
Revista Placar agosto/1985 |
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| Pose
de artista de cinema: para esquecer
dos tempos difíceis de criança
pobre em Minas |
Só
ele sabe o sacrifício que a "velha"
fez para criar os filhos. O pai tinha desaparecido
de casa e era ela quem segurava a barra da
família. "Ela trabalhava na lavanderia
do Hospital Militar e mais tarde acabou lavando
cadáveres. É mole?", pergunta.
Paradoxalmente, diz que foi da mãe
que herdou a alegria e a descontração.
Unia presença de espírito que
fez com que, há pouco tempo, por exemplo,
espalhasse faixas de pano pela rua onde mora.
Havia brigado com a mulher e tentava a reconciliação
com um singelo "Tânia, eu te amo"
escrito em letras garrafais.
Criança crescida, nem parece ter 28
anos de idade. E capaz de loucuras, como a
de se jogar na água da Barra da Tijuca
e ser arrastado pela correnteza. Foi salvo
por Cláudio Adão e pelo goleiro
Nardo, em agosto do ano passado. Os companheiros
de Bangu o adoram. Afinal, ele sempre tem
uma piada nova para contar, uma gozação
pronta para fazer com alguém. E não
foi só com os amigos do clube que ele
se enturmou. Apreciador de uma cerveja bem
geladinha, descobriu uma família de
mineiros dentro da favela do Vintém,
uma das cinco que cercam Bangu, por onde passava
levando papos e matando as saudades da terra
com "seu" Ivan, dono da casa. Esse
passatempo já estava atrapalhando sua
vida profissional e familiar. Voltou a viver
entre o clube e sua casa "Aqui só
aparece meus verdadeiros amigos", proclama
Marinho. Na mesa da sala, a Bíblia
está aberta na página 576: "Tudo
tem seu tempo determinado e há tempo
para todo o propósito debaixo do céu".
| Foto:
Revista Placar agosto/1985 |
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| Um
momento de carinho, com a filha Priscila:
"A vida com a família é
bem melhor" |
O
tempo de ascensão, para o ponta, começou
no clube do seu coração o Atlético.
Lá, foi campeão mineiro de 1978
e vice-campeão brasileiro de 1977 (ironicamente,
o Galo perdeu a decisão para o São
Paulo nos pênaltis, depois de ter feito
uma campanha espetacular). Acabou, indo para
o América de São José
do Rio Preto (SP), depois de ter sido sacado
do time do Atlético pelo treinador
Barbatana. No interior paulista, começou
a ser cobiçado pelos grandes clubes.
Além disso, Marinho e Tânia conquistaram
Rio Preto. Até hoje Marinho tem pendurada
na parece da sala uma moldura com o "Diploma
de Mérito Esportivo", da Câmara
Municipal de São José do Rio
Preto.
A casa, por sinal, localizada numa tranqüila
rua de Jacarepaguá, dada pelo patrono
do Bangu, Castor de Andrade, vale 120 milhões
de cruzeiros. É o maior patrimônio
de Marinho. Ele mora ali com Tânia e
o casal de filhos: Priscila, de cinco anos,
e Júnior, de seis. Antes de se instalar
em Jacarepaguá, entretanto, arrumou
as malas umas quatro vezes. Uma hora ia para
o Grêmio, outra, para o Internacional.
Chegaram até a dizer que era epilético.
O negócio só foi realizado quando
Castor de Andrade chegou interessado no seu
passe. "Ele veio, botou o revólver
em cima da mesa e o negócio saiu",
lembra. Seu passe foi vendido por 40 milhões
de cruzeiros mais a cessão dos jogadores
Dreifus e Gilmar. Em janeiro de 1983 ele chegou
ao Rio com 300.000 cruzeiros no bolso e hospedagem
no Hotel Plaza, por ordem do homem.
| Foto:
Revista Placar agosto/1985 |
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| Na
rua, em Bangu: sempre pronto a ajudar
quem precisa |
As
lembranças do passado, as emoções
do presente e uma extrema, fortíssima
confiança no futuro se misturam na
mesa do Ponto do Chopp. De vez em quando,
Marinho fica triste, apagado. O apito do gol
anulado ecoa em sua cabeça. Nada pode
mudar e a melancolia deste Marinho que desperta
para o futebol aos 28 anos aumenta. Ainda
resta a esperança, porém: todos
os que gostam desse imprevisível jogo
de bola continuam acreditando na simplicidade
dos dribles fenomenais desse pontinha atrevido.
Que ele continue vestindo - quem sabe no México?
- essa mágica camisa 7 que Mané
Garrincha imortalizou.
Repórter:
Tim Lopes. Fotógrafo: Ricardo Beliel.
Fonte: Revista Placar, 09/08/1985.