GILMAR,
A MURALHA DO BANGU
O
time de Castor de Andrade mudou a imagem do
ex-palmeirense temperamental. Hoje, ele é
o goleiro mais regular do Rio de Janeiro
O
radinho de pilha que animava as tardes de
domingo na pequena casa da família
do tapeceiro João Lucídio da
Costa, em Marília, interior de São
Paulo, estava sempre sintonizado em transmissões
de jogos de futebol. João era são-paulino
doente e sua mulher, Diana, corintiana roxa.
Quando nasceu o quinto filho do casal, no
festivo dia 7 de setembro de 1956, a mãe
já havia decidido: o nome da criança
seria uma homenagem ao goleiro Gilmar dos
Santos Neves, que na época defendia
o Corinthians. E o filho foi registrado como
Leir Gilmar da Costa, cujo primeiro nome só
seria usado mesmo em documentos oficiais.
Alto, músculos bem desenhados, elástico,
corajoso, aos 29 anos e defendendo o Bangu,
atual vice-campeão brasileiro e uma
das sensações deste Campeonato
Carioca, hoje Gilmar se destaca como o goleiro
mais regular do Rio de Janeiro. De fevereiro
do ano passado, quando foi contratado junto
ao Palmeiras, até agora, ele já
defendeu o Bangu em mais de 100 jogos e nunca
deixou de usar a camisa titular, tendo sido
substituído apenas uma vez, no jogo
de returno contra o América, por ter
se machucado. Apesar dessa presença
constante em campo, até antes de enfrentar
o Botafogo, no último domingo, ele
ostentava a condição de goleiro
menos vazado do atual certame, com oito gols
tomados, um a menos que Paulo Vítor,
do Fluminense, time campeão do primeiro
turno.
Bem que o velho Gilmar, bicampeão mundial
em 1958 e 62, há cinco anos já
chamara a atenção para o jeito
de jogar do jovem xará, então
no Palmeiras, em que passou 11 anos. "Seu
estilo é muito parecido com o meu",
dizia o consagrado Gilmar. "E isso é
espantoso, pois o garoto nunca me viu jogar."
Mas o Gilmar que agora brilha no Bangu prefere
esquecer tal comparação. Para
ele, já bastam as que foram feitas
enquanto tentava assegurar para si o espaço
que o eterno Leão parecia ter-se reservado
no gol palmeirense, mesmo sem estar defendendo
o clube em 1978, quando Gilmar se profissionalizou.
A personalidade de Leão era - e é
- de fato tão forte que a torcida do
Palmeiras parecia não se satisfazer
com ninguém que viesse a substituí-lo.
Gilmar teve de lutar muito contra esse fantasma.
"Sempre quis criar minha própria
imagem", garante.
Não foi à toa que em sua estréia
no time profissional, na final do Campeonato
Brasileiro de 1978 (vencido pelo Guarani,
de Campinas), Gilmar esmerou-se em tudo, não
apenas preparando-se psicologicamente para
o momento mas também procurando vestir-se
de maneira especial. Afinal, o rival ausente
- por causa de uma expulsão no jogo
anterior - fora o lançador de uma revolucionária
moda de uniformes de goleiros. O estreante
escolheu para a festa uma camisa cor de abóbora
chocante e, embora tenha perdido a partida
por 1 x 0, desempenhou bem sua função.
Mais que isso, marcou presença com
a cor berrante, mostrando personalidade.
Em 1979, o Palmeiras teria sua última
campanha realmente merecedora de um título
paulista. Mas alguns desacertos no fim do
campeonato acabaram por roubar-lhe a grande
chance, somando-se mais um ano em sua fila
de espera por uma conquista. Com o time, o
goleiro Gilmar passou por períodos
de grande instabilidade, não raramente
sendo acusado pelas derrotas. Esta situação
colaborou para que algumas pequenas rebeldias
de princípio de carreira assumissem
proporções maiores do que realmente
tinham, rendendo-lhe a fama de irritadiço
e criador de casos.
Hoje, Gilmar está consciente de que
as coisas que o aborreciam no Palmeiras, além
das cobranças dentro de campo, eram
as posturas disciplinares excessivamente rígidas
por parte dos dirigentes. "Uma vez, eu
estava chupando picolé no clube e o
técnico me repreendeu dizendo que ali
não era lugar para aquilo", recorda.
"Outra vez, eu estava vendo televisão,
quando o supervisor, sem me perguntar se eu
estava com sono ou não, veio e desligou
o aparelho. Ora, eu já não era
um menino", reclama. Até que um
dia - ao saber que Leão voltara ao
clube - Gilmar se descontrolou e deu um murro
na porta do vestiário, abrindo um rombo
na madeira compensada. Colocado em disponibilidade,
teve a sorte de o Bangu interessar-se por
seu futebol.
A negociação com Castor de Andrade,
patrono do Bangu, e o técnico Moisés
foi rápida: não durou mais que
meia hora. Pouco depois, no Estádio
de Moça Bonita, Gilmar começaria
a reencontrar a alegria de jogar futebol.
De viver, também, embora no começo
o Rio de Janeiro o assustasse muito. "Fui
cair no foco da malandragem carioca",
constatou. "Levei um susto quando cheguei
ao Bangu." Os métodos, no Parque
Proletário Guilherme da Silveira Filho,
precário campo do novo clube, eram
muito diferentes dos adotados no Parque Antártica.
Para Gilmar, rapaz provinciano e elegante,
que nunca havia saído de São
Paulo, foi um grande choque. Logo que se apresentou
ao Bangu, por exemplo, recebeu do técnico
Moisés uma caixa de sapatos cheia de
dinheiro vivo, num total de 7,5 milhões
de cruzeiros, que eram metade do pagamento
das luvas prometidas por Castor de Andrade.
"Não sabia o que fazer com aquele
dinheiro todo", conta Gilmar. "Já
era noitinha e não havia mais bancos
abertos. Além disso, haviam me dito
que o Rio era cheio de assaltantes."
Gilmar teve medo e, por precaução,
dormiu aquela primeira noite com o dinheiro
escondido debaixo do colchão.
Além da informalidade do novo ambiente,
havia ainda mais com que se acostumar. Por
exemplo, com os freqüentes 40 graus à
sombra que se registram em Bangu, o mais quente
subúrbio carioca, e que causam tonturas,
falta de ar aos organismos desacostumados.
Sorte é que ali não havia mais
a obrigatoriedade de usar os tradicionais
abrigos de treino, confortavelmente substituídos
por calções e, nem sempre, camisetas.
O pessoal do Bangu contribuía para
que o novo goleiro se pusesse à vontade.
A malandragem dos companheiros e do técnico,
a amizade pessoal de Castor de Andrade, tudo
ajudava.
Gilmar aprendeu rápido a viver no Bangu.
Preferiu ficar morando na Toca do Castor,
uma residência mantida pelo próprio
clube, junto com o zagueiro Oliveira e o cabeça-de-área
Israel. Perfeitamente integrado, já
freqüenta os pagodes e as rodas de samba
que os craques do Bangu adoram. Não
pensa em se mudar dali, pois o clube providencia
tudo - comida, roupa lavada - para que ele
tenha toda a tranqüilidade e se preocupe
exclusivamente com a profissão. "Não
vim ao Rio para me divertir, vim para trabalhar",
diz.
E tem trabalhado muito bem. Sua visão
de jogo e sua segurança no comando
da zaga são constantemente elogiadas.
"O posicionamento de Gilmar é
fantástico", afirma Moisés.
"E nas saídas de gol ele está
melhorando muito." O zagueiro Oliveira
faz coro. "Com 10 minutos de jogo, Gilmar
já sabe perfeitamente como o adversário
busca o gol", revela. "Assim ele
corrige rápido as falhas da zaga".
O próprio Gilmar admite que a experiência
tem operado sensíveis mudanças
em sua maneira de atuar. "Hoje em dia,
olho o atacante, observo para que lado ele
vai, pressinto com que perna ele vai chutar
e já me posiciono", explica. "Também
aprendi a técnica de encarar os atacantes
olhando em seus olhos: aí, vence quem
conseguir desequilibrar o outro emocionalmente."
A experiência lhe mostrou, porém,
que isso de olho no olho jamais funcionou
com craques experientes, como Reinaldo, Zico
ou Cláudio Adão. "Esses
fazem que vão arrombar e dão
um chutinho colocado", ensina. Com eles,
Gilmar sempre teve que se desdobrar.
Assim, desdobrando-se, ele já foi chamado
de Muralha do Bangu. Mas não se impressiona
com o sucesso, que pode virar fracasso de
uma hora para outra, bastando que a regularidade
que hoje mantém desapareça por
um motivo ou outro. "No futebol, os erros
não se perdoam; mas estou consciente
disso", diz. Gilmar também se
considerada preparado para separar perfeitamente
a vida profissional da vida pessoal, que faz
questão de manter íntegra. "Primeiro
sou homem; depois, jogador de futebol",
define-se. Por isso é que evita comentários
sobre a namorada, a bela chacrete Chininha,
loura cheia de encantos, que não raro
é vista em Moça Bonita à
espera de que termine o treino do Bangu. Por
valorizar-se pessoalmente, também,
não abre mão de alguns luxos,
como o de cortar os cabelos exclusivamente
num cabeleireiro de São Paulo, do qual
é cliente desde os tempos do Palmeiras.
Também não deixou de lado a
elegância. As camisa que veste em campo
ou são desenhadas por ele mesmo ou
mandadas da Europa pelo amigo César
(ex-palmeirense e ex-vascaíno), que
joga hoje no Vitória de Guimarães,
em Portugal. A elegância, afinal, hoje
em dia parece ser um atributo inseparável
dos grandes goleiros.
Fonte:
Revista Placar, 06/12/1985.