OPERÁRIOS
DO BANGU
Carregam
o piano e não desafinam
Quase ninguém percebe o trio em campo.
Mas Mário, Oliveira e Israel estão
lá e dão conta do recado
Os
chamados "operários" ou "carregadores
de piano" são freqüentes
em todos os times, em qualquer época,
embora despertem pouca atenção
dos torcedores. Fazem raros gols, esporádicos
lances extraordinários e quase sempre
são esquecidos na hora da escolha do
melhor em campo.
De qualquer forma, eles são praticamente
indispensáveis. Recorde-se que na década
de 60, por exemplo, o Santos tinha craques
como Pelé, mas operários como
Mengálvio; o Botafogo carioca tinha
astros como Garrincha, porém utilizava
carregadores de piano como o gaúcho
Élton.
O Bangu, vice-campeão brasileiro e
finalista do Campeonato Carioca, com sua escalação
atual vem apenas comprovar essa tradição
do futebol. Seu ídolo, como se sabe,
é o ponta-direita Marinho. Seu líder,
o técnico Moisés. Seu dono,
o patrono Castor de Andrade. Ao lado deles,
alguns nomes aparecem pouco, mas são
fundamentais. Os operários do Bangu
formam, na verdade, uma espécie de
espinha dorsal do time.
Na zaga, surge Oliveira, que no Rio de Janeiro
só perde em regularidade para Leandro,
do Flamengo, enquanto mais à frente
Israel subverte todos os conceitos sobre o
posicionamento de um cabeça-de-área.
E, na ponta-de-lança, Mário,
campeão pelo Fluminense em 1980, continua
justificando sua indicação como
um dos melhores na especialidade na última
Taça de Ouro.
Oliveira e Israel estão convencidos
de sua missão. Não demonstram
preocupação ao ser classificados
como carregadores de piano. Gostam declaradamente
de atuar para o time. Jogando atrás,
os dois acumulam três gols cada um,
em sua curta carreira. "Todos decisivos,
graças a Deus", observa Oliveira.
O zagueiro-central, nascido há 25 anos
em Itaperuna, interior Fluminense, tem um
estilo elegante e seguro. Às vezes,
avança, faz deslocamentos, mas sobretudo
mostra uma certeza. "Se o Bangu está
mantendo uma ótima fase é exatamente
porque possui uma base sólida",
explica Oliveira. "Afinal, atrás
de um bom ataque sempre existe um bom meio-campo,
uma firme defesa e um impecável goleiro.
E, enfim, um segura as possíveis falhas
do outro".
Israel, também 25 anos, cabeça-de-área,
concorda com Oliveira. Ele assinala, ainda,
que seu êxito é de total re sponsabilidade
do técnico Moisés. "Não
é qualquer treinador que vai buscar
um jogador desconhecido, de time pequeno,
e logo o coloca como titular", esclarece.
De fato, Israel, carioca da Tijuca, começou
a jogar na equipe amadora do Petropolitano,
de Petrópolis, como lateral-esquerdo.
Em seguida, foi convocado para a Seleção
Carioca de juniores, ainda na posição.
Passou, rápido, pelo Serrano e o Campo
Grande. Levado para o Bangu, experimentou
a mudança para a cabeça-de-área.
"Pegar na bola e chutar a gol, realmente
não é o meu forte", analisa.
"Eu prefiro fazer lançamentos,
dar passes, atingir a linha de fundo. Ajuda
atrás e na frente. Sou o fator surpresa
do meu time".
Os dois carregadores de piano do clube são
também bons amigos e residem na Toca
do Castor, concentração mantida
pelo patrono do time, no subúrbio carioca
de Bangu. Dividem futebol, amizade e saudade
da raiz da serra de Petrópolis - alia
estão localizadas as cidadezinhas de
Itaperuna, onde nasceu Oliveira, e de Xerém,
onde vive a família de Israel: "Temos
certeza de que quem entende de futebol sabe
da nossa importância", confia o
cabeça-de-área.
Já o ponta-de-lança Mário
desafina o coro dos conformados. Ele cultiva
velhas amarguras. Em 1980, quando foi campeão
pelo Fluminense, esperava que o técnico
Telê Santana o convocasse para a Seleção.
Como Telê não o chamou, considera-se
injustiçado. Não aceita os rótulos
de operário e carregador de piano.
"Não sei o que acontece comigo",
lamenta. "Corro como um louco em campo.
Eu me mato, faço tudo igualzinho aos
outros. E, no fim, ninguém me vê".
Mário, que tem 28 anos, chuta forte,
possui bom domínio de bola e quase
não faz gol, confessa, desolado, que
não ouve a torcida gritar seu nome.
Reclama que seu futebol não é
reconhecido e aponta como última injustiça
sua ausência na lista de premiados da
Bola de Prata, de Placar. "Querem me
levar à loucura", fala, entredentes,
em tom ácido.
Mário não vive na Toca do Castor,
a 52 km da Zona Sul do Rio. Separado da mulher,
ele alterna passagens pela casa dos pais,
na Ilha do Governador, e da irmã, no
subúrbio de Pilares, não muito
distante do clima da concentração,
permanecendo unido, de certa forma, a Oliveira
e Israel pelo estigma de carregador de piano
ou operário.
Enfim, os três operários do Bangu
moram todos perto do Estádio de Moça
Bonita. E, se não têm o trabalho
comentado, discutido e reconhecido fora do
campo, pelo menos sabem que, no gramado, são
responsáveis pelo bom desempenho do
time mais regular do Campeonato Carioca. Não
é por acaso que o Bangu está
disputando o título estadual e é
o atual vice-campeão brasileiro.
Nome: João Batista de Oliveira
Posição: Zagueiro
Clube anterior: Americano
Estréia: 27 de janeiro de 1985:
Bangu 1 x 0 Brasília, em Moça
Bonita
Total de jogos pelo Bangu: 236
Período em que jogou: 1985 a
1992
Gols marcados: 6
Último jogo: 6 de dezembro de 1992:
Bangu 1 x 1 América, no Andaraí
Nome: Israel Venâncio Ferreira
Posição: Meio-campo
Clube anterior: Campo Grande
Estréia: 1º de junho de
1984: Bangu 4 x 0 Seleção da
Tailândia, na Coréia do Sul
Total de jogos pelo Bangu: 220
Período em que jogou: 1984 a
1991
Gols marcados: 2
Último jogo: 25 de novembro
de 1991, Bangu 1 x 3 Fluminense, nas Laranjeiras
Nome: Mário Marques Coelho
Posição: Meio-campo
Clube anterior: Vasco
Estréia: 18 de agosto de 1982:
Bangu 1 x 1 Madureira, em Moça Bonita
Total de jogos pelo Bangu: 143
Período em que jogou: 1982 a
1986
Gols marcados: 14
Último jogo: 29 de julho de 1986:
Bangu 0 x 2 Coritiba, no Paraná
Fonte:
Revista Placar - nº 812, 13/12/1985.