LIBERTADORES:
BANGU APOSTA NA CATIMBA
O vice-campeão
brasileiro inicia uma grande aventura e confia
na malandragem de sua comissão técnica
para ir à forra do Coritiba
Junto
com as bolas, meiões, ataduras, uniformes,
agasalhos e caneleiras, o Bangu incorporou
um item insólito na bagagem para sua
estréia na disputa da Libertadores
da América, a partir do próximo
dia 1º: 15 kg de feijão-preto
e 10 kg de carne-seca, costelinha, paio, lingüiça,
toucinho e temperos como alho, sal e cebola.
Tudo para que os jogadores não sintam
muita falta do Brasil em seu périplo
pelo Equador.
E, para transformar todos esses ingredientes
na brasileiríssima feijoada, que tanto
delicia os banguenses, a cozinheira da Toca
do Castor - concentração do
clube -, dona Teresinha da Cunha Nunes, já
está integrada à delegação.
Nada de mais para um time que, mesmo sem torcida
e tradição, já chegou
ao vice-campeonato brasileiro e carioca -
e, além de tudo, tem como presidente
de honra e "protetor" um dos maiores
banqueiros de jogo do bicho do Rio de Janeiro,
Castor de Andrade. O Bangu é, realmente,
uma equipe sui generis.
Tamanho sucesso o Bangu só conheceu
em duas ocasiões de sua longa vida
esportiva: 1933 e 1966. Foram os anos de seu
únicos títulos de campeão
carioca. E agora, escorado no dinheiro e na
paixão de Castor, na malandragem do
técnico Moisés e no talento
do craque Marinho, atualmente na Seleção
Brasileira, o Bangu chegou à Libertadores.
E já sonha com a final do Mundial Interclubes
em Tóquio.
E é na base da catimba e da esperteza
que o Bangu pretende levar a cobiçada
taça para casa. Afastado da disputada
da Taça Guanabara (primeiro turno do
Campeonato Carioca), o clube tratou de investir
forte na competição. Marinho
trocou a Toca do Castor pela Toca da Raposa?
Tudo bem! Moisés trouxe Toby, do Coritiba;
Ricardo, do Paulista de Jundiaí; Márcio
Rossini, do Santos; Fajardo, do Friburguense;
e Filipe, do Bonsucesso. Com esses reforços,
foram gastos cerca de 2 milhões de
cruzados. Não é muito para quem
fatura algo em torno disso, a cada dois dias,
com o jogo do bicho.
Ágil, Castor já deu também
o primeiro drible no jogo do tapetão.
Sua grande vitória, fora do campo,
foi marcar as duas partidas com os times equatorianos,
o Barcelona, de Guaiaquil, e o Deportivo,
de Quito, para o Estádio de Moça
Bonita, em Bangu. É de fato uma façanha,
pois a Confederação Sul-Americana
exige estádios com capacidade para
25.000 pessoas enquanto Moça Bonita
só comporta 15.000. Para isso, Castor
contou com a boa vontade do Coritiba, que
também preferiu enfrentar os equatorianos
em seu estádio, o Couto Pereira, cuja
segurança está ameaçada
por um problema na sustentação
da cobertura das sociais. Uma evidente troca
de gentilezas, que Castor retribuiu com a
decisão de transferir o jogo entre
ambos do apertado, esburacado, porém
conhecido, campo de Moça Bonita para
o Maracanã.
No Bangu - como aliás acontece no Coritiba
-, todos estão convencidos de que essa
partida será a realmente decisiva do
grupo. "A sede de revanche vai nos ajudar",
prevê Moisés, lembrando-se da
derrota, nos pênaltis, na final da Taça
de Ouro de 1985. Mas, de início, as
atenções estão mesmo
voltadas para os desconhecidos Barcelona e
Deportivo. Assim, nesta sexta-feira, dia 18,
com duas semanas de antecedência. Moisés
já viaja para lá. Oficialmente,
irá reservar hotéis e campos
para treinamento. Na verdade, ele vai é
espionar a estréia do Coritiba, contra
os equatorianos e um dos jogos entre eles.
Mas o Bangu ainda tem um ás na manga,
que é a sua comissão técnica.
O supervisor Neco (ex-lateral-direito), o
técnico Moisés (ex-zagueiro-central),
o treinador de goleiros Paulo Lumumba (ex-quarto-zagueiro)
e o assistente Alfinete (ex-lateral-direito)
foram uma zaga de respeito, bem ao estilo
do torneio: viris, trombadores e vigorosos.
E com a vantagem de todos terem disputado
pelo menos uma Libertadores. Neco foi o que
jogou a mais remota entre os quatro - em 1962,
pelo Cerro Porteño, de Assunção,
ao qual estava emprestado pelo próprio
Bangu. Lumumba participou pelo Fluminense
em 1971; e Alfinete, pelo Vasco, em 1975.
O treinador Moisés jogou pelo Vasco,
em 1975, e pelo Corinthians, em 1977.
Se o jogo duro e violento e a parcialidade
dos juízes não assustam o malandro
Bangu, resta esperar que o estigma do América
carioca não se tenha transferido de
vez para Moça Bonita e, novamente,
o time nade, nade e acabe morrendo na praia.
Fonte: Revista Placar, n° 830, publicada
em 21/04/1986.