Rio de Janeiro, sexta-feira, 24 de outubro de 2014 - 21h48min
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FARTURA EM MOÇA BONITA

Foto: Revista Placar 06/10/1986
O chefão Castor de Andrade(de chapéu):
reinando em Bangu...

Novatos no vice-campeão brasileiro, Mauro Galvão, Neto e Jacimar deslumbram-se com o mundo encantado de Castor de Andrade, onde o que não falta é dinheiro.

Bangu, na língua indígena, significa paredão escuro, cheio de sombras, segundo o historiador Theodoro Sampaio em seu livro Tupi na Geografia Nacional. Para os jogadores do clube, especialmente os novos contratados Mauro Galvão, Jacimar e Neto, Bangu quer dizer muito mais. E sinônimo de tranqüilidade, conforto - e dinheiro farto.

Foto: Revista Placar 06/10/1986
... e na Escola de Samba Mocidade Independente, outra alegria do subúrbio carioca

Na opinião de tricolores e rubro-negros, porém, o time que tomou emprestado o nome do distante subúrbio do Rio de Janeiro tem ainda a conotação de violência. Coincidência ou não, Zico, Assis e Romerito saíram de jogos contra o Bangu direto para uma longa e indesejada convivência com médicos e fisioterapeutas.
 
No dia 29 de agosto do ano passado, o lateral Márcio Nunes entrou duro no joelho esquerdo de Zico. Há duas semanas, nos Estados Unidos, o maior ídolo da história do Flamengo sofreu nova cirurgia no local. Sua volta ainda é uma incógnita.

No dia 2 de novembro, depois de uma disputa com Jair, Assis, do Fluminense, sofreu ruptura dos ligamentos do joelho direito. Entrou na faca e permanece no estaleiro.

No dia 31 de agosto deste ano, num lance envolvendo o meia Róbson, o tricolor Romerito fraturou o perônio da perna esquerda. O paraguaio não mostrará seu talento nesta Copa Brasil.

O retrospecto é feio. Em Moça Bonita, no entanto, ninguém se considera violento. Jogadores e comissão técnica preferem creditar as contusões dos adversários a uma incômoda série de adversidades. Afirmam até que os gordos bichos distribuídos pelo patrono do clube, o bicheiro Castor de Andrade, não incentivam o jogo duro. "Nem sabemos quanto será o prêmio antes das partidas", defende-se o zagueiro Mauro Galvão. No futebol, como na vida, acidentes acontecem. A má fama, em todo o caso, é incapaz de nublar o entusiasmo dos recém-contratados. O próprio Mauro Galvão revela-se um dos mais animados. Após sete anos no Internacional, de Porto Alegre, o beque de 25 anos, 1,79 m e 70 kg, está realmente boquiaberto com o fino tratamento que vem recebendo.

Comprado por 2,3 milhões de cruzados, já ganhou, em pouco mais de um mês no Rio, o que nem sonharia em receber no Inter: 750 000 cruzados em luvas, 345 000 pelos 15% do passe, a mudança (50 000) e o aluguel de um apartamento na Barra da Tijuca (17 000). Fora os 50 000 cruzados por mês de salário.

Foto: Revista Placar 06/10/1986
Maracanã de óculos: cuidando dos juniores

MONTANHA DE GRANA - Se o experiente Mauro Galvão está impressionado, o lateral Jacimar, 24 anos, que veio da Desportiva de Vitória, muito mais. Depois de receber 75000 cruzados de luvas, assinou um contrato em branco. Por quanto? Ele não sabe e, na verdade, nem quer saber. Mas tem uma certeza: não se decepcionará ao ver o, primeiro envelope de pagamento. É isso mesmo. No Bangu, em apenas três jogos, Jacimar levantou, em bichos, mais que seu salário na Desportiva. Ou seja: 8 000 cruzados. Agora, já sonha com vencimentos em torno do triplo disso, a média do clube.

O meia-esquerda Neto é outro deslumbrado. Emprestado pelo Guarani até o final do ano, José Ferreira Neto, 20 anos, 1,70 m e 76 kg, custou 1 milhão de cruzados aos cofres bangüenses, mais luvas de 150 000 e salários de 50 000. Sempre que pode, Neto faz questão de anunciar que não pretende mais voltar a Campinas. Seu sonho, alardeia, é ser comprado pelo clube carioca.

Mas de onde vem a montanha de grana do Bangu? Todos sabem, mas preferem não comentar. Apontado como dono dos pontos de bicho entre Anchieta e Santíssimo, uma área de aproximadamente 442 km2 - equivalente ao município fluminense de Duque de Caxias -, Castor de Andrade e Silva, 60 anos, o Doutor, reina no clube com o paternalismo dos cartolas e a sobriedade dos administradores.

É ele quem complementa a folha de pagamento, em torno de 600 000 cruzados mensais, paga as luvas, contrata e gratifica. Se dependesse do que fatura em rendas, o clube mal poderia cobrir os generosos prêmios oferecidos pelo bicheiro. No empate de 1 x 1 com o São Paulo, dia 7 de setembro, o time foi surpreendido com um inesperado bicho de 2 500 cruzados. "Valeu o esforço demonstrado em campo", contentou-se o cartola.

Além de gastar a rodo, ele gosta também de incentivar a equipe. A sua maneira, é claro.

Foto: Revista Placar 06/10/1986
Cena do parque aquático: lazer para 20.000 sócios

PRÊMIOS CRIATIVOS - Suas preleções são sempre vibrantes, recheadas de frases de efeito e palavras de ordem. Mas o que o torna mesmo tão popular entre os jogadores é a criatividade em premiar. No ano passado, quando o Bangu estava em Guaiaquil, no Equador, para a disputa da Taça Libertadores, Castor resolveu divertir-se. Prometeu 50 dólares, cerca de 700 cruzados, a quem vencesse o então técnico Moisés, atualmente no Santa Cruz, em uma prova de natação na piscina do hotel. Márcio Rossini venceu e, na mesma hora, recebeu o dinheiro.

Em outra ocasião, querendo motivar o treino de cobranças de faltas, colocou uma camisa no ângulo superior do travessão. Quem a derrubasse com a bola também ganharia 50 dólares. Vários conseguiram e Castor ia pagando, sorridente.

Esse prazer em gastar dinheiro, marca registrada do Doutor, está fazendo do Bangu um verdadeiro paraíso financeiro para os jogadores de futebol. O ponta-direita Marinho, xodó do patrono, não quer outra vida. Antes de ser negociado pelo Guarani com o Brest, da França, o zagueiro Júlio César confidenciou ao amigo Neto que, para ir ao Bangu, abriria mão até de seus 15%.

Como os jogadores, os técnicos não podem reclamar. Nos tempos de Moisés, a relação era de total camaradagem. O ex-técnico distribuía e controlava os salários, bichos e luvas, além de ser o responsável pelas contratações. Agora, com o gaúcho Paulo César Carpegiani no comando, o astral ganhou uma nota de seriedade. Mas a fartura continua a mesma. O atual treinador pediu reforços para a Copa Brasil e foi atendido imediatamente. "Não existe sequer comparação com o Flamengo ou o Internacional, clubes nos quais trabalhei", exulta.

Foto: Revista Placar 06/10/1986
Na Toca do castor: Marinho, entre Neto, Mauro Galvão e Jacimar, fazendo as honras da casa

Entretanto, o Bangu é mais que esse folclore futebolístico. É um clube com 20 000 sócios - e já existe uma campanha de venda de títulos a fim de aumentar esse número -, dono de três sedes e duas concentrações. Fundado pela fábrica de tecidos Bangu, em 17 de abril de 1904, atinge uma região onde moram cerca de 1 milhão de habitantes. Até o fim do ano espera ganhar um novo atrativo: uma herança estimada pelo presidente Rui Esteves em 250 milhões de cruzados.

Graças ao professor Luís Osvaldo Teixeira da Silva, que morreu dia 21 de dezembro de 1984 e deixou parte de sua fortuna para a agremiação. Tratava-se de um senhor solitário cuja única paixão era o Bangu.

Foto: Revista Placar 06/10/1986
Venda de títulos: a agremiação quer crescer

MOVIDO PELA PAIXÃO - O dinheiro já tem destino certo. A reforma do Estádio Proletário Guilherme da Silveira Filho, em Moça Bonita. O que sobrar será investido no clube, mas "só depois que o sistema de computação estiver funcionando totalmente", avisa o presidente Rui Esteves. Bites, sim. O Bangu, distante mais de 40 km do centro do Rio, quer crescer. Para isso, entrou na era da informática há três anos.

Contabilidade, correspondência e registro de sócios estão sendo inseridos em moderníssimos computadores instalados na sede social, em plena zona rural carioca.

Enquanto a herança não chega, o jeito é contar com os benfeitores vivos mesmo. Castor e Carlinhos Maracanã, este responsável pelas divisões inferiores, estão aí para o que der e vier. Maracanã, 59 anos, é companheiro do Doutor no mundo do jogo de bicho. "Meu retomo é apenas sentimental", explica.

Isso mesmo. O Bangu é movido pela emoção, pela paixão, pela vaidade e pela alegria. Não é à toa que Castor e Maracanã comandam, sem contar o clube e suas bancas de jogo de bicho, duas das escolas de samba mais populares do Rio: a Mocidade Independente de Padre Miguel e a Portela. Sob o signo do futebol, do batuque e da contravenção, o clube de Moça Bonita faz bonito. E pede passagem.

Repórter: Paulo Roberto Pereira.
Fonte: Revista Placar, 06/10/1986.
          Revista gentilmente cedida por Leonardo Cesar (leoicet@terra.com.br).

     
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