FARTURA
EM MOÇA BONITA
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Revista Placar 06/10/1986 |
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| O
chefão Castor de Andrade(de chapéu):
reinando em Bangu... |
Novatos
no vice-campeão brasileiro, Mauro Galvão,
Neto e Jacimar deslumbram-se com o mundo encantado
de Castor de Andrade, onde o que não
falta é dinheiro.
Bangu,
na língua indígena, significa
paredão escuro, cheio de sombras, segundo
o historiador Theodoro Sampaio em seu livro
Tupi na Geografia Nacional. Para os jogadores
do clube, especialmente os novos contratados
Mauro Galvão, Jacimar e Neto, Bangu quer
dizer muito mais. E sinônimo de tranqüilidade,
conforto - e dinheiro farto.
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Revista Placar 06/10/1986 |
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e na Escola de Samba Mocidade Independente,
outra alegria do subúrbio carioca |
Na
opinião de tricolores e rubro-negros,
porém, o time que tomou emprestado o
nome do distante subúrbio do Rio de Janeiro
tem ainda a conotação de violência.
Coincidência ou não, Zico, Assis
e Romerito saíram de jogos contra o Bangu
direto para uma longa e indesejada convivência
com médicos e fisioterapeutas.
No dia 29 de agosto do ano passado, o lateral
Márcio Nunes entrou duro no joelho esquerdo
de Zico. Há duas semanas, nos Estados
Unidos, o maior ídolo da história
do Flamengo sofreu nova cirurgia no local. Sua
volta ainda é uma incógnita.
No dia 2 de novembro, depois de uma disputa
com Jair, Assis, do Fluminense, sofreu ruptura
dos ligamentos do joelho direito. Entrou na
faca e permanece no estaleiro.
No dia 31 de agosto deste ano, num lance envolvendo
o meia Róbson, o tricolor Romerito fraturou
o perônio da perna esquerda. O paraguaio
não mostrará seu talento nesta
Copa Brasil.
O retrospecto
é feio. Em Moça Bonita, no entanto,
ninguém se considera violento. Jogadores
e comissão técnica preferem creditar
as contusões dos adversários a
uma incômoda série de adversidades.
Afirmam até que os gordos bichos distribuídos
pelo patrono do clube, o bicheiro Castor de
Andrade, não incentivam o jogo duro.
"Nem sabemos quanto será o prêmio
antes das partidas", defende-se o zagueiro
Mauro Galvão. No futebol, como na vida,
acidentes acontecem. A má fama, em todo
o caso, é incapaz de nublar o entusiasmo
dos recém-contratados. O próprio
Mauro Galvão revela-se um dos mais animados.
Após sete anos no Internacional, de Porto
Alegre, o beque de 25 anos, 1,79 m e 70 kg,
está realmente boquiaberto com o fino
tratamento que vem recebendo.
Comprado por 2,3 milhões de cruzados,
já ganhou, em pouco mais de um mês
no Rio, o que nem sonharia em receber no Inter:
750 000 cruzados em luvas, 345 000 pelos 15%
do passe, a mudança (50 000) e o aluguel
de um apartamento na Barra da Tijuca (17 000).
Fora os 50 000 cruzados por mês de salário.
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Revista Placar 06/10/1986 |
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| Maracanã
de óculos: cuidando dos juniores |
MONTANHA
DE GRANA - Se
o experiente Mauro Galvão está
impressionado, o lateral Jacimar, 24 anos, que
veio da Desportiva de Vitória, muito
mais. Depois de receber 75000 cruzados de luvas,
assinou um contrato em branco. Por quanto? Ele
não sabe e, na verdade, nem quer saber.
Mas tem uma certeza: não se decepcionará
ao ver o, primeiro envelope de pagamento. É
isso mesmo. No Bangu, em apenas três jogos,
Jacimar levantou, em bichos, mais que seu salário
na Desportiva. Ou seja: 8 000 cruzados. Agora,
já sonha com vencimentos em torno do
triplo disso, a média do clube.
O meia-esquerda Neto é outro deslumbrado.
Emprestado pelo Guarani até o final do
ano, José Ferreira Neto, 20 anos, 1,70
m e 76 kg, custou 1 milhão de cruzados
aos cofres bangüenses, mais luvas de 150
000 e salários de 50 000. Sempre que
pode, Neto faz questão de anunciar que
não pretende mais voltar a Campinas.
Seu sonho, alardeia, é ser comprado pelo
clube carioca.
Mas de onde vem a montanha de grana do Bangu?
Todos sabem, mas preferem não comentar.
Apontado como dono dos pontos de bicho entre
Anchieta e Santíssimo, uma área
de aproximadamente 442 km2 - equivalente ao
município fluminense de Duque de Caxias
-, Castor de Andrade e Silva, 60 anos, o Doutor,
reina no clube com o paternalismo dos cartolas
e a sobriedade dos administradores.
É ele quem complementa a folha de pagamento,
em torno de 600 000 cruzados mensais, paga as
luvas, contrata e gratifica. Se dependesse do
que fatura em rendas, o clube mal poderia cobrir
os generosos prêmios oferecidos pelo bicheiro.
No empate de 1 x 1 com o São Paulo, dia
7 de setembro, o time foi surpreendido com um
inesperado bicho de 2 500 cruzados. "Valeu
o esforço demonstrado em campo",
contentou-se o cartola.
Além de gastar a rodo, ele gosta também
de incentivar a equipe. A sua maneira, é
claro.
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| Cena
do parque aquático: lazer para
20.000 sócios |
PRÊMIOS
CRIATIVOS - Suas
preleções são sempre vibrantes,
recheadas de frases de efeito e palavras de
ordem. Mas o que o torna mesmo tão popular
entre os jogadores é a criatividade em
premiar. No ano passado, quando o Bangu estava
em Guaiaquil, no Equador, para a disputa da
Taça Libertadores, Castor resolveu divertir-se.
Prometeu 50 dólares, cerca de 700 cruzados,
a quem vencesse o então técnico
Moisés, atualmente no Santa Cruz, em
uma prova de natação na piscina
do hotel. Márcio Rossini venceu e, na
mesma hora, recebeu o dinheiro.
Em outra ocasião, querendo motivar o
treino de cobranças de faltas, colocou
uma camisa no ângulo superior do travessão.
Quem a derrubasse com a bola também ganharia
50 dólares. Vários conseguiram
e Castor ia pagando, sorridente.
Esse prazer em gastar dinheiro, marca registrada
do Doutor, está fazendo do Bangu um verdadeiro
paraíso financeiro para os jogadores
de futebol. O ponta-direita Marinho, xodó
do patrono, não quer outra vida. Antes
de ser negociado pelo Guarani com o Brest, da
França, o zagueiro Júlio César
confidenciou ao amigo Neto que, para ir ao Bangu,
abriria mão até de seus 15%.
Como
os jogadores, os técnicos não
podem reclamar. Nos tempos de Moisés,
a relação era de total camaradagem.
O ex-técnico distribuía e controlava
os salários, bichos e luvas, além
de ser o responsável pelas contratações.
Agora, com o gaúcho Paulo César
Carpegiani no comando, o astral ganhou uma nota
de seriedade. Mas a fartura continua a mesma.
O atual treinador pediu reforços para
a Copa Brasil e foi atendido imediatamente.
"Não existe sequer comparação
com o Flamengo ou o Internacional, clubes nos
quais trabalhei", exulta.
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| Na
Toca do castor: Marinho, entre Neto, Mauro
Galvão e Jacimar, fazendo as honras
da casa |
Entretanto,
o Bangu é mais que esse folclore futebolístico.
É um clube com 20 000 sócios -
e já existe uma campanha de venda de
títulos a fim de aumentar esse número
-, dono de três sedes e duas concentrações.
Fundado pela fábrica de tecidos Bangu,
em 17 de abril de 1904, atinge uma região
onde moram cerca de 1 milhão de habitantes.
Até o fim do ano espera ganhar um novo
atrativo: uma herança estimada pelo presidente
Rui Esteves em 250 milhões de cruzados.
Graças ao professor Luís Osvaldo
Teixeira da Silva, que morreu dia 21 de dezembro
de 1984 e deixou parte de sua fortuna para a
agremiação. Tratava-se de um senhor
solitário cuja única paixão
era o Bangu.
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Revista Placar 06/10/1986 |
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| Venda
de títulos: a agremiação
quer crescer |
MOVIDO
PELA PAIXÃO - O dinheiro já
tem destino certo. A reforma do Estádio
Proletário Guilherme da Silveira Filho,
em Moça Bonita. O que sobrar será
investido no clube, mas "só depois
que o sistema de computação estiver
funcionando totalmente", avisa o presidente
Rui Esteves. Bites, sim. O Bangu, distante mais
de 40 km do centro do Rio, quer crescer. Para
isso, entrou na era da informática há
três anos.
Contabilidade, correspondência e registro
de sócios estão sendo inseridos
em moderníssimos computadores instalados
na sede social, em plena zona rural carioca.
Enquanto a herança não chega,
o jeito é contar com os benfeitores vivos
mesmo. Castor e Carlinhos Maracanã, este
responsável pelas divisões inferiores,
estão aí para o que der e vier.
Maracanã, 59 anos, é companheiro
do Doutor no mundo do jogo de bicho. "Meu
retomo é apenas sentimental", explica.
Isso mesmo. O Bangu é movido pela emoção,
pela paixão, pela vaidade e pela alegria.
Não é à toa que Castor
e Maracanã comandam, sem contar o clube
e suas bancas de jogo de bicho, duas das escolas
de samba mais populares do Rio: a Mocidade Independente
de Padre Miguel e a Portela. Sob o signo do
futebol, do batuque e da contravenção,
o clube de Moça Bonita faz bonito. E
pede passagem.
Repórter:
Paulo Roberto Pereira.
Fonte: Revista Placar, 06/10/1986.
Revista
gentilmente cedida por Leonardo Cesar (leoicet@terra.com.br).
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