Rio de Janeiro, segunda-feira, 24 de julho de 2017 - 21h49min
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MARINHO, DO BANGU
A vida que a bola salvou

Foto: Revista Placar 06/10/1986
"Quem me vê brincar não sabe que é um disfarce para afastar o baixo astral"

Um dos mais alegres jogadores do futebol brasileiro confessa pela primeira vez um passado cruel, que só seus dribles conseguiram vencer

Esta é uma história que a bola não conta. Gira em torno de um dos personagens mais divertidos e geniais do futebol brasileiro, o ponta-direita Marinho, do Bangu - Bola de Ouro de PLACAR no último Campeonato Brasileiro e uma das maiores estrelas desta reta final do Campeonato Carioca. Mas, antagonicamente, é uma história moldada por profunda tristeza e um gesto de esperança: na vida não há sofrimento, por maior que seja, intransponível.

O mineiro Mário José dos Reis Emiliano esconde, atrás de um sorriso generoso e de uma piada sempre na ponta da língua, uma vida de extrema dificuldade: miséria, reformatório, espancamentos, fugas, novamente miséria, álcool e a certeza de que só agora, perto dos 29 anos, está se transformando num astro do futebol e num dos craques que poderá defender a Seleção Brasileira na próxima Copa do Mundo.

Rosto precocemente envelhecido, Marinho gaguejou, engasgou, fungou - mas não chorou nem ameaçou: falar era se livrar de um fantasma. E ele precisava, de uma vez por todas, encarar o monstro de frente.

É a história de um homem que, dentro de si, tem um menino estampado no seu sorriso, no seu jeitão alegre, contagiante - e deste menino salta um homem que ainda não exorcizou o passado e teme o futuro.
 
"Vocês vão ler sobre a minha vida. E, no final, responder: 'Marinho é ou não herói?" Vocês vão descobrir que por trás da minha alegria há um menino violentado, um adolescente perdido, um homem sem futuro.

Nasci a 23 de maio de 1957 numa área pobre do bairro de Santa Efigênia, em Belo Horizonte. Eu era o sétimo irmão - três meninos e quatro meninas. O pai dos seis primeiros morrera e minha mãe mal conhecera meu pai Raimundo, engravidou e logo depois eles se separaram. Nasci sem pai. Só fui conhecê-lo adulto, com mais de 18 anos. Minha mãe criava mais seis primos e sustentava todos lavando cadáver no necrotério da Polícia Militar.

Morávamos numa casa precária, com dois pequenos quartos que dividíamos entre 14 pessoas. Difícil mesmo era para comer: minha mãe tinha grande amizade com alguns barraqueiros do mercado central e pegava xepa na hora da troca de mercadoria. Nosso prato era sempre uma sopa com restos de legumes e verduras boiando.

Foto: Revista Placar 06/10/1986
Bem-vestido e no carrão:
superando um drama

Aos oito anos, mudamos para um bairro ainda mais pobre: Betânia. O que era ruim ficou péssimo. Primeiro, fomos morar no quartel da Polícia Militar e. logo depois, conseguimos um terreno abandonado, onde estendemos uma lona grande e fizemos uma casa. Era numa baixada, num buraco sufocante. Quando fazia calor, não se podia entrar; no frio, sem cobertas, dormíamos um em cima do outro, para aquecer. Mas o pior era em dia de chuva: descia uma enxurrada do morro e tenho gravada até hoje a cena de minha mãe pegando os menorezinhos e levando para uma casa em cima do morro e os maiores tentando salvar nossos objetos.

A fome, nesta época, era grande. Eu vivia com um grupo de oito amigos na lixeira central de Belo Horizonte. Catávamos objetos para vender e dividíamos o dinheiro que entregávamos a nossas mães. Com oito para nove anos, invadíamos as chácaras próximas para roubar frutas. Eu vivia dentro dos bares vendo jogo de sinuca, baralho. Ia a festinhas e usava o meu tóxico: uma mistura de pinga, Coca-Cola e melhoral. Nossa turma arrasava o que via pela frente. Preocupada com minha vida solta, a mãe (dona Efigênia) aceitou a conversa de um soldado-barbeiro da PM, Luís, para me internar num reformatório da Polícia Militar. Numa manhã, sem dizer nada, ela pegou a mim, um dos meus irmãos e um primo, nos vestiu com a roupinha de domingo e nós quatro fomos em um trem para Pirapora, a horas e horas de Belo Horizonte.

O INFERNO COMEÇOU - Quando lá chegamos, eu pressenti: 'Ela vai me deixar'. Agarrei minha mãe pela saia e, num momento de distração, ela trocou uma idéia com um tenente. Imediatamente ele disse: 'Menino, você gosta de jogar bola? Então vai lá'. Quando voltei, minha mãe tinha ido embora no trem. Imediatamente disse a meu irmão: 'Nós vamos fugir'. Começou o meu inferno.

Na primeira fuga, estávamos colocando lenha num trator, eu com oito anos. Chamei o soldado-inspetor e pedi para ir no mato, pois 'estava com dor de barriga'. Logo depois, meu irmão fez o mesmo. E escapamos, entrando pelo matagal. Depois de 3 horas correndo meio sem direção, escuto latido de cachorros, cada vez mais perto. Quatro pastores alemães nos cercaram. Até hoje, em muitas noites, acordo com pesadelos, cães me mordendo. Os soldados nos pegaram e fomos, uns 6 km, apanhando com a bainha dos facões. Por isso tenho essas marcas no rosto. Apanhamos quase até desmaiar. Era tarde da noite. Às 5 horas da manhã, eu e meu irmão fomos colocados nus. Fazia um frio temendo, uma forte cerração - e nus fomos obrigados a ficar rolando na grama úmida até nosso peito sangrar.

Mas a vontade de liberdade era maior: eu queria reencontrar minha mãe. Fugimos pela segunda vez numa noite escura. Eu não sabia se o medo maior era da própria fuga ou da escuridão, do barulho dos bichos no mato. Eu e meu irmão tínhamos idades parecidas - eu com nove, ele com dez. Não chegamos a andar 1 km. Havia uma sensação horrível de que um olho invisível controlava nossos movimentos. Eram os alcagüetes que nos entregavam aos guardas.

Foto: Revista Placar 06/10/1986
Contra o Coritiba, na final da Taça de Ouro deste ano: o melhor jogador do certame

Os guardas nos pegaram e desta vez, além da bainha do facão, nos deram socos na cara e na cabeça - eu sentia como se algo estivesse deslocando dentro da cachola. Mas não desistimos: tentamos a terceira vez. Num torneio de futebol, com muitas visitas, nos escondemos dentro do porta-malas de um carro. Nova frustração: de novo tínhamos sido entregues. Desta vez, eles se excederam. Arriados a porrada, fomos fazer 'aviãozinho': ficar de joelhos com os braços abertos como Cristo e um tijolo em cada mão. Se caíssem, nova surra.

Eu falava a meu irmão: 'A gente vai fugir, a gente vai fugir'. Mas ele já fraquejava - e eu também. Os castigos iam aumentando. No meio de tanta violência, os meninos faziam xixi na cama, nervosos, descontrolados.

Eu vivia angustiado, chorava sozinho. A sensação era de que aquilo jamais terminaria. Até que um soldado me disse: 'Sua mãe vem te buscar no dia 14'. Não sabia o mês ou o ano, mas eu disse a todos, orgulhoso: 'Minha mãe vem me buscar no dia 14'. Um belo dia mandaram que eu fosse lavar a roupa, uns 6 km a pé, lá no rio. Como a roupa não secava rápido, fiquei nadando até que escutei o barulho de um caminhão. Ele parou e lá dentro, atirada sobre o carvão, estava minha mãe, que vinha me buscar. Era um dia 14 e eu tinha esquecido.

O BARRACO, UM PARAÍSO - Voltei a Betânia com dez anos. Já não conhecia ninguém, ficara um menino medroso, tenso. Passava o dia inteiro em casa. Não havia luz, banheiro, TV ou geladeira. Sabe quando bebi água gelada a primeira vez na vida? Aos 12 anos, no dente-de-leite do Atlético Mineiro. Era a mesma pobre casa. E eu me sentia no paraíso, com medo de voltar para o inferno.

Mas aos poucos fui voltando à vidinha de antes do reformatório. Vivia nos bares, comecei a fumar. Com 11 para 12 anos, um amigo de minha mãe, Aílton, massagista do Atlético, me levou para o dente-de-leite. Na véspera da estréia, minha irmã Irene, única a trabalhar para ajudar a mãe, me levou ao campo e, quilômetros na frente, morria atropelada. Eu me senti responsável, mas nem pude ir ao enterro, por ordem da mãe: 'Filho, no seu futebol está nossa salvação'. Ganhamos do Santa Teresa por 3 x 1.

Eu não estudava, não tinha o que comer, pois o dinheiro era quase nenhum. No Atlético, com os companheiros, armamos um esquema de sobrevivência: íamos para o mercado, um perguntava o preço e o outro roubava a fruta. Comia bem nesta época, mas sentia uma forte Dor na cabeça. De 12 para 13 anos, comecei a ter ataques violentos: a dor de cabeça aumentava lentamente, os olhos iam escurecendo, a boca contraindo, o corpo retesado. Eu saía batendo em todos, quebrando tudo o que tinha pela frente. O barraco de lona ia se desmantelando a cada acesso. Minha mãe me submeteu a todos os exames possíveis e um médico deu o diagnóstico: 'Ele ficou maluco'. Tomava doses maciças de Gardenal, um calmante fortíssimo. De repente, como chegou, a doença foi embora. Creio que era a rebarba ainda do reformatório.

Aí comecei a me dedicar mais à bola. Repartia o pouquinho do dinheiro que ganhava no Atlético com minha mãe. Comia na concentração do Atlético e, coisa de menino, tinha sonhos em comer esta comida de arroz que mistura frango. Até hoje, quase todo o dia tem risoto de frango lá em casa.

Em 1975, fiz meu primeiro jogo no profissional. O técnico era Telê Santana, ganhamos de 2 x 0 do Uberaba. Com o dinheiro do bicho, comprei roupa. Hoje, para afastar mais ainda o fantasma da miséria tenho 20 calças. 45 camisas, seis tênis, três pares de sapatos, quatro ternos, dez perfumes diferentes.

Foto: Revista Placar 06/10/1986
Grande fase aos 29 anos:
"É agora ou nunca"

Em 1976, jogando bem, fui como titular para a Olimpíada de Montreal. Na época dos treinamentos, fomos visitar a praia de Santos e, maravilhado com o mar que nunca tinha visto, consegui uma garrafa e levei água salgada para casa. Na Seleção, passei a viver novo drama: eu era analfabeto. Ao receber uma ficha na concentração do Hotel das Paineiras, no Rio, fui para o quarto e, do chuveiro, gritei: 'Júlio César (ponta-esquerda, ex-Flamengo), dá para você preencher para mim?' Ele perguntava e eu respondia. Com vergonha, fingia que sabia ler: colocava o jornal na minha frente. Quando me perguntavam o que diziam do jogo, eu logo atacava: 'Olha, lê aí que tenho de ir lá dentro'. Só aprendi a ler e a escrever com 23 anos. Casei aos 20 e minha mulher não acreditou quando eu disse a ela que era analfabeto. Aí ela me ensinou direitinho. Eu sou do 'Sobral', o que sobrou do Mobral.

Quando voltei da Olimpíada, comprei uma televisão. A casa de lona começava a dar espaço para uma de tijolo, construída com as economias. Campeão mineiro de 1976, fui crescendo e no ano seguinte o técnico Cláudio Coutinho citou meu nome para a Seleção Brasileira. Eu estava no auge, comprei uma Variante, era boate toda a noite, muita bebida e mulher - eu fazia sexo todo dia. A perna foi fraquejando: eu sabia driblar, mas não agüentava.

Estava de novo diante do fracasso. Já estava casado com a Tânia. E o futebol não vingava. Aluguei uma casa no bairro de Padre Eustáquio e devia três meses: à noite, encostei um caminhão na porta, tirei tudo o que era nosso e sumi sem pagar. Em 1918, fui para o América de São José do Rio Preto (SP). Cheguei no fim do campeonato. As dificuldades aumentaram. Grávida, Tânia teve um princípio de aborto de minha filha Priscila (hoje com seis anos. Marinho tem também um filho, o Júnior) e a internei no Hospital Santa Helena. Jamais poderei esquecer da cena ao chegar uma manhã para visitá-la: 'Marinho, por favor, me traz comida de casa. A daqui é insuportável'. Respondi: 'Mas, filha, não tem um grão de arroz em casa'. E choramos juntos. Ao chegar no apartamento, a comida da vizinha estava cheirando e bati na porta: Olha, eu preciso de um prato de comida para levar a Tânia, no hospital' - A moça foi generosa.

O Campeonato Paulista de 1979 começou e eu fui bem, muito bem: o melhor ponta daquele ano. Em 1980, terminei vice-artilheiro; em 1981 fui para a Seleção de Novos do Telê Santana. Eu imaginava: engrenou, minha vida engrenou. Em 1982, emprestado por três meses ao Atlético Mineiro, ganhei 5 milhões de cruzeiros, o que não ganhara toda a vida. E estava certo de que seria convocado para a Copa do Mundo: não fui. Sumi de casa, passei um dia e meio bebendo sem parar, no meio da rua. Sem comer, sem dormir: bebia sem parar. Tânia foi me buscar, curou o porre, mas eu continuei a beber por bom tempo.

SAINDO DO LODO - Santos, Internacional, Grêmio queriam o meu passe, mas o presidente do América, Birígüi, não me liberava. Até que surgiu Castor de Andrade: vim para o Bangu. Sofri aqui no início. Só no ano passado, numa partida diante do Vasco, em que fiz dois gols, comecei a tirar o pé do lodo. Comprei uma casa melhor, dei mais conforto a minha mulher e a meus filhos. Mas sou franco comigo mesmo: estou velho, vou completar 29 anos e tenho, no máximo, mais três anos de carreira. É agora ou nunca. O futebol parece hoje a minha vida no início: completamente indefinida. Não depende dos meus dribles, dos meus gols, a minha ascensão, o meu pé-de-meia para o futuro. Há, do outro lado, homens que representam os clubes - e eles querem tirar tudo do jogador. Tenho medo - se antes encarava, hoje, com filhos, temo. Sei que estou entre os melhores, ganho hoje 12 milhões de cruzeiros mensais e recebi 40 milhões de cruzeiros de luvas.

Penso no futuro. Quem me vê brincar, assim cheio de alegria, não sabe que isso é um disfarce para não cair num baixo astral. Todos se enganam comigo. Não quero que meus filhos passem pela mesma humilhação minha. Quando os abraço, pareço sentir-me pequeno, querendo ter um pai, uma casa bonita, comida, Natal. Meus filhos têm isso. Vocês podem ter certeza: eu sou um herói."


Fonte: Revista Placar, 29/11/1985. Repórter: Marcelo Rezende.
          Revista gentilmente cedida por Leonardo Cesar (leoicet@terra.com.br).

     
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