MARINHO,
DO BANGU
A
vida que a bola salvou
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Revista Placar 06/10/1986 |
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| "Quem
me vê brincar não sabe
que é um disfarce para afastar
o baixo astral" |
Um
dos mais alegres jogadores do futebol brasileiro
confessa pela primeira vez um passado cruel,
que só seus dribles conseguiram vencer
Esta é uma história que a bola
não conta. Gira em torno de um dos
personagens mais divertidos e geniais do futebol
brasileiro, o ponta-direita Marinho, do Bangu
- Bola de Ouro de PLACAR no último
Campeonato Brasileiro e uma das maiores estrelas
desta reta final do Campeonato Carioca. Mas,
antagonicamente, é uma história
moldada por profunda tristeza e um gesto de
esperança: na vida não há
sofrimento, por maior que seja, intransponível.
O mineiro Mário José dos Reis
Emiliano esconde, atrás de um sorriso
generoso e de uma piada sempre na ponta da
língua, uma vida de extrema dificuldade:
miséria, reformatório, espancamentos,
fugas, novamente miséria, álcool
e a certeza de que só agora, perto
dos 29 anos, está se transformando
num astro do futebol e num dos craques que
poderá defender a Seleção
Brasileira na próxima Copa do Mundo.
Rosto precocemente envelhecido, Marinho gaguejou,
engasgou, fungou - mas não chorou nem
ameaçou: falar era se livrar de um
fantasma. E ele precisava, de uma vez por
todas, encarar o monstro de frente.
É a história de um homem que,
dentro de si, tem um menino estampado no seu
sorriso, no seu jeitão alegre, contagiante
- e deste menino salta um homem que ainda
não exorcizou o passado e teme o futuro.
"Vocês vão ler sobre a minha
vida. E, no final, responder: 'Marinho é
ou não herói?" Vocês
vão descobrir que por trás da
minha alegria há um menino violentado,
um adolescente perdido, um homem sem futuro.
Nasci a 23 de maio de 1957 numa área
pobre do bairro de Santa Efigênia, em
Belo Horizonte. Eu era o sétimo irmão
- três meninos e quatro meninas. O pai
dos seis primeiros morrera e minha mãe
mal conhecera meu pai Raimundo, engravidou
e logo depois eles se separaram. Nasci sem
pai. Só fui conhecê-lo adulto,
com mais de 18 anos. Minha mãe criava
mais seis primos e sustentava todos lavando
cadáver no necrotério da Polícia
Militar.
Morávamos numa casa precária,
com dois pequenos quartos que dividíamos
entre 14 pessoas. Difícil mesmo era
para comer: minha mãe tinha grande
amizade com alguns barraqueiros do mercado
central e pegava xepa na hora da troca de
mercadoria. Nosso prato era sempre uma sopa
com restos de legumes e verduras boiando.
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Revista Placar 06/10/1986 |
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| Bem-vestido
e no carrão:
superando um drama |
Aos
oito anos, mudamos para um bairro ainda mais
pobre: Betânia. O que era ruim ficou péssimo.
Primeiro, fomos morar no quartel da Polícia
Militar e. logo depois, conseguimos um terreno
abandonado, onde estendemos uma lona grande
e fizemos uma casa. Era numa baixada, num buraco
sufocante. Quando fazia calor, não se
podia entrar; no frio, sem cobertas, dormíamos
um em cima do outro, para aquecer. Mas o pior
era em dia de chuva: descia uma enxurrada do
morro e tenho gravada até hoje a cena
de minha mãe pegando os menorezinhos
e levando para uma casa em cima do morro e os
maiores tentando salvar nossos objetos.
A fome, nesta época, era grande. Eu vivia
com um grupo de oito amigos na lixeira central
de Belo Horizonte. Catávamos objetos
para vender e dividíamos o dinheiro que
entregávamos a nossas mães. Com
oito para nove anos, invadíamos as chácaras
próximas para roubar frutas. Eu vivia
dentro dos bares vendo jogo de sinuca, baralho.
Ia a festinhas e usava o meu tóxico:
uma mistura de pinga, Coca-Cola e melhoral.
Nossa turma arrasava o que via pela frente.
Preocupada com minha vida solta, a mãe
(dona Efigênia) aceitou a conversa de
um soldado-barbeiro da PM, Luís, para
me internar num reformatório da Polícia
Militar. Numa manhã, sem dizer nada,
ela pegou a mim, um dos meus irmãos e
um primo, nos vestiu com a roupinha de domingo
e nós quatro fomos em um trem para Pirapora,
a horas e horas de Belo Horizonte.
O INFERNO COMEÇOU - Quando lá
chegamos, eu pressenti: 'Ela vai me deixar'.
Agarrei minha mãe pela saia e, num momento
de distração, ela trocou uma idéia
com um tenente. Imediatamente ele disse: 'Menino,
você gosta de jogar bola? Então
vai lá'. Quando voltei, minha mãe
tinha ido embora no trem. Imediatamente disse
a meu irmão: 'Nós vamos fugir'.
Começou o meu inferno.
Na primeira fuga, estávamos colocando
lenha num trator, eu com oito anos. Chamei o
soldado-inspetor e pedi para ir no mato, pois
'estava com dor de barriga'. Logo depois, meu
irmão fez o mesmo. E escapamos, entrando
pelo matagal. Depois de 3 horas correndo meio
sem direção, escuto latido de
cachorros, cada vez mais perto. Quatro pastores
alemães nos cercaram. Até hoje,
em muitas noites, acordo com pesadelos, cães
me mordendo. Os soldados nos pegaram e fomos,
uns 6 km, apanhando com a bainha dos facões.
Por isso tenho essas marcas no rosto. Apanhamos
quase até desmaiar. Era tarde da noite.
Às 5 horas da manhã, eu e meu
irmão fomos colocados nus. Fazia um frio
temendo, uma forte cerração -
e nus fomos obrigados a ficar rolando na grama
úmida até nosso peito sangrar.
Mas a vontade de liberdade era maior: eu queria
reencontrar minha mãe. Fugimos pela segunda
vez numa noite escura. Eu não sabia se
o medo maior era da própria fuga ou da
escuridão, do barulho dos bichos no mato.
Eu e meu irmão tínhamos idades
parecidas - eu com nove, ele com dez. Não
chegamos a andar 1 km. Havia uma sensação
horrível de que um olho invisível
controlava nossos movimentos. Eram os alcagüetes
que nos entregavam aos guardas.
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Revista Placar 06/10/1986 |
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| Contra
o Coritiba, na final da Taça de
Ouro deste ano: o melhor jogador do certame |
Os
guardas nos pegaram e desta vez, além
da bainha do facão, nos deram socos na
cara e na cabeça - eu sentia como se
algo estivesse deslocando dentro da cachola.
Mas não desistimos: tentamos a terceira
vez. Num torneio de futebol, com muitas visitas,
nos escondemos dentro do porta-malas de um carro.
Nova frustração: de novo tínhamos
sido entregues. Desta vez, eles se excederam.
Arriados a porrada, fomos fazer 'aviãozinho':
ficar de joelhos com os braços abertos
como Cristo e um tijolo em cada mão.
Se caíssem, nova surra.
Eu falava a meu irmão: 'A gente vai fugir,
a gente vai fugir'. Mas ele já fraquejava
- e eu também. Os castigos iam aumentando.
No meio de tanta violência, os meninos
faziam xixi na cama, nervosos, descontrolados.
Eu vivia angustiado, chorava sozinho. A sensação
era de que aquilo jamais terminaria. Até
que um soldado me disse: 'Sua mãe vem
te buscar no dia 14'. Não sabia o mês
ou o ano, mas eu disse a todos, orgulhoso: 'Minha
mãe vem me buscar no dia 14'. Um belo
dia mandaram que eu fosse lavar a roupa, uns
6 km a pé, lá no rio. Como a roupa
não secava rápido, fiquei nadando
até que escutei o barulho de um caminhão.
Ele parou e lá dentro, atirada sobre
o carvão, estava minha mãe, que
vinha me buscar. Era um dia 14 e eu tinha esquecido.
O BARRACO, UM PARAÍSO - Voltei
a Betânia com dez anos. Já não
conhecia ninguém, ficara um menino medroso,
tenso. Passava o dia inteiro em casa. Não
havia luz, banheiro, TV ou geladeira. Sabe quando
bebi água gelada a primeira vez na vida?
Aos 12 anos, no dente-de-leite do Atlético
Mineiro. Era a mesma pobre casa. E eu me sentia
no paraíso, com medo de voltar para o
inferno.
Mas aos poucos fui voltando à vidinha
de antes do reformatório. Vivia nos bares,
comecei a fumar. Com 11 para 12 anos, um amigo
de minha mãe, Aílton, massagista
do Atlético, me levou para o dente-de-leite.
Na véspera da estréia, minha irmã
Irene, única a trabalhar para ajudar
a mãe, me levou ao campo e, quilômetros
na frente, morria atropelada. Eu me senti responsável,
mas nem pude ir ao enterro, por ordem da mãe:
'Filho, no seu futebol está nossa salvação'.
Ganhamos do Santa Teresa por 3 x 1.
Eu não estudava, não tinha o que
comer, pois o dinheiro era quase nenhum. No
Atlético, com os companheiros, armamos
um esquema de sobrevivência: íamos
para o mercado, um perguntava o preço
e o outro roubava a fruta. Comia bem nesta época,
mas sentia uma forte Dor na cabeça. De
12 para 13 anos, comecei a ter ataques violentos:
a dor de cabeça aumentava lentamente,
os olhos iam escurecendo, a boca contraindo,
o corpo retesado. Eu saía batendo em
todos, quebrando tudo o que tinha pela frente.
O barraco de lona ia se desmantelando a cada
acesso. Minha mãe me submeteu a todos
os exames possíveis e um médico
deu o diagnóstico: 'Ele ficou maluco'.
Tomava doses maciças de Gardenal, um
calmante fortíssimo. De repente, como
chegou, a doença foi embora. Creio que
era a rebarba ainda do reformatório.
Aí comecei a me dedicar mais à
bola. Repartia o pouquinho do dinheiro que ganhava
no Atlético com minha mãe. Comia
na concentração do Atlético
e, coisa de menino, tinha sonhos em comer esta
comida de arroz que mistura frango. Até
hoje, quase todo o dia tem risoto de frango
lá em casa.
Em 1975, fiz meu primeiro jogo no profissional.
O técnico era Telê Santana, ganhamos
de 2 x 0 do Uberaba. Com o dinheiro do bicho,
comprei roupa. Hoje, para afastar mais ainda
o fantasma da miséria tenho 20 calças.
45 camisas, seis tênis, três pares
de sapatos, quatro ternos, dez perfumes diferentes.
| Foto:
Revista Placar 06/10/1986 |
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| Grande
fase aos 29 anos:
"É agora ou nunca" |
Em
1976, jogando bem, fui como titular para a Olimpíada
de Montreal. Na época dos treinamentos,
fomos visitar a praia de Santos e, maravilhado
com o mar que nunca tinha visto, consegui uma
garrafa e levei água salgada para casa.
Na Seleção, passei a viver novo
drama: eu era analfabeto. Ao receber uma ficha
na concentração do Hotel das Paineiras,
no Rio, fui para o quarto e, do chuveiro, gritei:
'Júlio César (ponta-esquerda,
ex-Flamengo), dá para você preencher
para mim?' Ele perguntava e eu respondia. Com
vergonha, fingia que sabia ler: colocava o jornal
na minha frente. Quando me perguntavam o que
diziam do jogo, eu logo atacava: 'Olha, lê
aí que tenho de ir lá dentro'.
Só aprendi a ler e a escrever com 23
anos. Casei aos 20 e minha mulher não
acreditou quando eu disse a ela que era analfabeto.
Aí ela me ensinou direitinho. Eu sou
do 'Sobral', o que sobrou do Mobral.
Quando voltei da Olimpíada, comprei uma
televisão. A casa de lona começava
a dar espaço para uma de tijolo, construída
com as economias. Campeão mineiro de
1976, fui crescendo e no ano seguinte o técnico
Cláudio Coutinho citou meu nome para
a Seleção Brasileira. Eu estava
no auge, comprei uma Variante, era boate toda
a noite, muita bebida e mulher - eu fazia sexo
todo dia. A perna foi fraquejando: eu sabia
driblar, mas não agüentava.
Estava de novo diante do fracasso. Já
estava casado com a Tânia. E o futebol
não vingava. Aluguei uma casa no bairro
de Padre Eustáquio e devia três
meses: à noite, encostei um caminhão
na porta, tirei tudo o que era nosso e sumi
sem pagar. Em 1918, fui para o América
de São José do Rio Preto (SP).
Cheguei no fim do campeonato. As dificuldades
aumentaram. Grávida, Tânia teve
um princípio de aborto de minha filha
Priscila (hoje com seis anos. Marinho tem também
um filho, o Júnior) e a internei no Hospital
Santa Helena. Jamais poderei esquecer da cena
ao chegar uma manhã para visitá-la:
'Marinho, por favor, me traz comida de casa.
A daqui é insuportável'. Respondi:
'Mas, filha, não tem um grão de
arroz em casa'. E choramos juntos. Ao chegar
no apartamento, a comida da vizinha estava cheirando
e bati na porta: Olha, eu preciso de um prato
de comida para levar a Tânia, no hospital'
- A moça foi generosa.
O Campeonato Paulista de 1979 começou
e eu fui bem, muito bem: o melhor ponta daquele
ano. Em 1980, terminei vice-artilheiro; em 1981
fui para a Seleção de Novos do
Telê Santana. Eu imaginava: engrenou,
minha vida engrenou. Em 1982, emprestado por
três meses ao Atlético Mineiro,
ganhei 5 milhões de cruzeiros, o que
não ganhara toda a vida. E estava certo
de que seria convocado para a Copa do Mundo:
não fui. Sumi de casa, passei um dia
e meio bebendo sem parar, no meio da rua. Sem
comer, sem dormir: bebia sem parar. Tânia
foi me buscar, curou o porre, mas eu continuei
a beber por bom tempo.
SAINDO DO LODO - Santos, Internacional,
Grêmio queriam o meu passe, mas o presidente
do América, Birígüi, não
me liberava. Até que surgiu Castor de
Andrade: vim para o Bangu. Sofri aqui no início.
Só no ano passado, numa partida diante
do Vasco, em que fiz dois gols, comecei a tirar
o pé do lodo. Comprei uma casa melhor,
dei mais conforto a minha mulher e a meus filhos.
Mas sou franco comigo mesmo: estou velho, vou
completar 29 anos e tenho, no máximo,
mais três anos de carreira. É agora
ou nunca. O futebol parece hoje a minha vida
no início: completamente indefinida.
Não depende dos meus dribles, dos meus
gols, a minha ascensão, o meu pé-de-meia
para o futuro. Há, do outro lado, homens
que representam os clubes - e eles querem tirar
tudo do jogador. Tenho medo - se antes encarava,
hoje, com filhos, temo. Sei que estou entre
os melhores, ganho hoje 12 milhões de
cruzeiros mensais e recebi 40 milhões
de cruzeiros de luvas.
Penso no futuro. Quem me vê brincar, assim
cheio de alegria, não sabe que isso é
um disfarce para não cair num baixo astral.
Todos se enganam comigo. Não quero que
meus filhos passem pela mesma humilhação
minha. Quando os abraço, pareço
sentir-me pequeno, querendo ter um pai, uma
casa bonita, comida, Natal. Meus filhos têm
isso. Vocês podem ter certeza: eu sou
um herói."
Fonte:
Revista Placar, 29/11/1985. Repórter:
Marcelo Rezende.
Revista
gentilmente cedida por Leonardo Cesar (leoicet@terra.com.br).
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