Zizinho recusa
convite do Bangu para ser operário
e vai parar na Gávea, onde vira ídolo
Foto:
Jornal O Dia
Finalmente,
surgira a tão sonhada chance. Deixou
Niterói, desceu na estação
das barcas, na Praça 15, pegou um lotação
até a Central do Brasil e, dali, um
trem que se arrastaria até os confins
da Zona Oeste do Rio.
O jovem Thomaz Soares da Silva, caboclo de
17 anos, estrela do Carioca de São
Gonçalo, dera um show de bola no treino
do Bangu Atlético Clube. A caminho
do vestiário, um dos empregados do
Dr. Silveirinha, dono do clube e da Fábrica
de Tecidos Bangu, veio dar-lhe o recado:
Doutor mandou o senhor passar no escritório
dele, depois do banho.
Os olhos de Zizinho brilharam. O sonho de
tornar-se um profissional de futebol, enfim,
estava se materializando. Dez minutos depois,
cheirando a sabonete Eucalol, o jovem deu
três toques e abriu a porta. Afável,
o empresário abriu os braços,
oferecendo-lhe uma cadeira. E deu logo a notícia:
Está contratado!
O coração do jovem armador disparou:
Então, vamos assinar o contrato?
Dr. Silveirinha estranhou:
Contrato? Contrato de quê?
O jovem respondeu:
Ora, para que eu seja profissional do
Bangu.
O dono do clube abriu um sorriso maroto:
Não, meu rapaz. Vou registrá-lo
como operário da fábrica. E
aí você passará a jogar
pelo nosso time.
Zizinho sentiu o chão desaparecer sob
seus pés. Resolveu perguntar, para
que não houvesse nenhuma dúvida:
O senhor quer me contratar como operário?
É lógico!, rebateu
o empresário, confiante.
Zizinho abaixou a cabeça e desabafou:
Poxa! Atravessei a cidade e vim aqui
para parar de trabalhar, para me dedicar exclusivamente
ao futebol, e vocês querem me dar um
emprego na fábrica? Tchau!, disse,
pondo as chuteiras embaixo do braço
e indo embora.
Existem lendas que contam como Pelé
e Garrincha foram recusados por alguns clubes.
Essa é a história de Zizinho,
tão fenomenal como aqueles dois. É
a história do dia em que a sorte fechou
as portas de Moça Bonita e abriu as
do Estádio José Bastos Padilha,
na Gávea, onde Ziza foi parar para
mais um teste.
Faltavam 15 minutos para o treino terminar,
quando Leônidas da Silva o Pelé
da época sentiu a coxa e teve
de deixar o campo. O técnico Flávio
Costa mandou que chamassem o rapaz de
Niterói.
Zizinho entrou e, apesar do pouco tempo, marcou
três gols. Um deles driblando diversos
adversários antes de chutar para o
gol. Nunca mais ficou no banco de reservas
no Flamengo, nem na seleção
brasileira.
Encerrou a carreira no Bangu de Dr. Silveirinha,
que jamais se conformou em ter perdido a chance
de contratar um dos maiores craques brasileiros
de todos os tempos.
Com 80 anos, Zizinho só assiste a jogos
de basquete. Evita ver essas peladas que enchem
de monotonia as noites brasileiras, a bem
da saúde e do talento:
Tenho medo de desaprender, esclarece.
Fonte:
Jornal O Dia - Futebol-Arte
Repórter: Cláudio Vieira