Rio de Janeiro, quarta-feira, 22 de novembro de 2017 - 20h01min
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UM DRIBLE DO DESTINO

Zizinho recusa convite do Bangu para ser operário e vai parar na Gávea, onde vira ídolo

Foto: Jornal O Dia  

Finalmente, surgira a tão sonhada chance. Deixou Niterói, desceu na estação das barcas, na Praça 15, pegou um lotação até a Central do Brasil e, dali, um trem que se arrastaria até os confins da Zona Oeste do Rio.

O jovem Thomaz Soares da Silva, caboclo de 17 anos, estrela do Carioca de São Gonçalo, dera um show de bola no treino do Bangu Atlético Clube. A caminho do vestiário, um dos empregados do Dr. Silveirinha, dono do clube e da Fábrica de Tecidos Bangu, veio dar-lhe o recado:

“Doutor mandou o senhor passar no escritório dele, depois do banho.”

Os olhos de Zizinho brilharam. O sonho de tornar-se um profissional de futebol, enfim, estava se materializando. Dez minutos depois, cheirando a sabonete Eucalol, o jovem deu três toques e abriu a porta. Afável, o empresário abriu os braços, oferecendo-lhe uma cadeira. E deu logo a notícia:

“Está contratado!”

O coração do jovem armador disparou:

“Então, vamos assinar o contrato?”

Dr. Silveirinha estranhou:

“Contrato? Contrato de quê?”

O jovem respondeu:

“Ora, para que eu seja profissional do Bangu.”

O dono do clube abriu um sorriso maroto:

“Não, meu rapaz. Vou registrá-lo como operário da fábrica. E aí você passará a jogar pelo nosso time.”

Zizinho sentiu o chão desaparecer sob seus pés. Resolveu perguntar, para que não houvesse nenhuma dúvida:

“O senhor quer me contratar como operário?”

“É lógico!”, rebateu o empresário, confiante.

Zizinho abaixou a cabeça e desabafou:

“Poxa! Atravessei a cidade e vim aqui para parar de trabalhar, para me dedicar exclusivamente ao futebol, e vocês querem me dar um emprego na fábrica? Tchau!”, disse, pondo as chuteiras embaixo do braço e indo embora.

Existem lendas que contam como Pelé e Garrincha foram recusados por alguns clubes. Essa é a história de Zizinho, tão fenomenal como aqueles dois. É a história do dia em que a sorte fechou as portas de Moça Bonita e abriu as do Estádio José Bastos Padilha, na Gávea, onde Ziza foi parar para mais um teste.

Faltavam 15 minutos para o treino terminar, quando Leônidas da Silva – o Pelé da época – sentiu a coxa e teve de deixar o campo. O técnico Flávio Costa mandou que chamassem “o rapaz de Niterói”.

Zizinho entrou e, apesar do pouco tempo, marcou três gols. Um deles driblando diversos adversários antes de chutar para o gol. Nunca mais ficou no banco de reservas no Flamengo, nem na seleção brasileira.

Encerrou a carreira no Bangu de Dr. Silveirinha, que jamais se conformou em ter perdido a chance de contratar um dos maiores craques brasileiros de todos os tempos.

Com 80 anos, Zizinho só assiste a jogos de basquete. Evita ver essas peladas que enchem de monotonia as noites brasileiras, a bem da saúde e do talento:

“Tenho medo de desaprender”, esclarece.


Fonte: Jornal O Dia - Futebol-Arte
Repórter: Cláudio Vieira

     
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