Rio de Janeiro, quarta-feira, 22 de outubro de 2014 - 23h33min
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MEDALHA TIRADENTES - UM GOL CONTRA OS PRECONCEITOS RACIAIS

Projeto aprovado pela assembléia reconhece o Bangu como primeiro time a aceitar negros

O Bangu Atlético Clube não conquista um título dentro de campo há décadas. Fora dos gramados, porém, o clube está para marcar um belo gol e, de quebra, trazer a público uma nova versão para a presença dos negros no futebol. Ou começar uma grande polêmica.

Um projeto do deputado estadual Noel de Carvalho (que foi aprovado na semana passada pela Assembléia Legislativa) prevê a concessão ao clube da Medalha Tiradentes, com a justificativa de ter sido o Bangu o primeiro a escalar atletas negros, e não o Vasco da Gama. O presidente do Bangu, Rubens Lopes, diz que a medalha é a reparação de uma injustiça:

- Nós já sabíamos do nosso pioneirismo em aceitar negros no clube e no time de futebol. Mas tudo isso precisou de um rigoroso trabalho de pesquisas para que chegássemos às provas.

Documentos e fotos reunidos pelo historiador (e banguense) Carlos Molinari informam que já em 1905 - apenas um ano depois da fundação do clube - já havia um negro no elenco, o apoiador Francisco Carregal. Em 1911 o Bangu se sagrou campeão carioca (segunda divisão) contando com quatro negros na equipe.

Pelos quadros do clube passaram jogadores como Luiz Antônio da Guia, irmão mais velho de Domingos da Guia e, segundo Molinari, atleta que mais tempo defendeu um clube de futebol no Brasil (de 1912 até 1931):

- Ele jogou todos esse anos e sempre estava na seleção carioca. Porém nunca foi convocado para a seleção brasileira, por ser negro.


HISTÓRIA: CLUBES RECUPERAM FATOS PARA MOSTRAR QUE NÃO FORAM RACISTAS, AFIRMA PROFESSOR. TÍTULO DO VASCO FOI UM MARCO.


Embora documentos reunidos pelo Bangu apontem para a primazia do clube na quebra dos preconceitos, a tese convive com narrativas sobre o pioneirismo de outros times. Para Ronaldo Helal, professor da UERJ e mestre em sociologia do futebol, o Vasco chocou a sociedade ao se sagrar campeão carioca de 1923, sendo o primeiro clube a colocar uma maioria de negros e mestiços no time. Mas não foi o primeiro a escalar negros. Helal diz que a medida marcou também quando ajudou a pôr fim ao falso amadorismo:

- Os jogadores recebiam para jogar, mas ninguém admitia. Com o time de 1923, formado basicamente por operários, o Vasco desbanca a elite branca do futebol e inicia a era do profissionalismo.

O professor da Universidade Gama Filho e pesquisador da história do futebol, Antônio Jorge Soares vai além. Para ele, é interessante como o futebol (como a música) se presta a uma análise sociológica do relaxamento das tensões raciais:

- Parece que tentam resgatar fatos para comprovar que não eram racistas. Há uma mística em torno do Vasco porque o time foi campeão - diz, acrescentando que o Paulistano, de São Paulo, tinha um negro no time no começo do século, mas este era da elite.


CRAQUE DEFENDEU O CLUBE DURANTE 19 ANOS - PARA A IMPRENSA, "O PERFEITO".


Ele não teve a mesma projeção do irmão mais famoso. Mas quem o viu jogar garante que seu futebol nada ficava devendo ao de Domingos da Guia. Luiz Antônio da Guia defendeu o Bangu 19 anos (até hoje um recorde no futebol brasileiro, segundo o historiador Carlos Molinari), período em que conquistou dois títulos estaduais da segunda divisão.

Estreou contra o Flamengo, em 1912, e ajudou o Bangu a vencer por 7 a 4. Luiz Antônio sempre se destacou pela classe e a firmeza (como mais tarde aconteceria com Domingos), ganhando da imprensa o apelido de "O Perfeito".

Convidado para jogar no rival América, respondeu: "Talvez seja fácil vestir a camisa do América. Difícil vai ser enfrentar o Bangu."

Fonte: Jornal O Globo (Zona Oeste), 22/06/2001.

Há uma errata no placar do jogo de estréia de Luiz Antônio. O Bangu não venceu por 7 a 4, e sim, perdeu por 7 a 4, por ter o goleiro Heráclito Soares do Bangu "vendido" quatro gols para o adversário.

Leia a nota com o projeto de lei que concede ao Bangu a Medalha Tiradentes, com a respectiva justificativa.

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20/11/2001 - Bangu, pioneiro contra o racismo
Fo
nte: Jornal O Globo (Repórter: Pedro Motta Gueiros)

Foi na Fábrica de Tecidos Bangu, no início do século passado, que se começou a costurar a integração, ao menos esportiva, entre brancos e negros. A história do futebol consagra, hoje, com a medalha Tirandentes, concedida pela Assembléia Legislativa do Estados do Rio de Janeiro (Alerj), o Bangu Atlético Clube como o primeiro clube a admitir jogadores negros, já na edição inaugural do Campeonato Carioca, em 1906.

Hoje, no dia de Zumbi dos Palmares, o nome de Manoel Maia, tecelão da fábrica criada por operários ingleses, se transforma em mártir contra o racismo no futebol. O cidadão negro fazia parte do time do Bangu, uma das seis equipes fundadoras da Liga, 14 anos após a abolição da escravatura.

A pesquisa desenvolvida por José Carlos Abreu, assessor do deputado estadual Noel de Carvalho (PSB), se transformou em verdade histórica quando a Alerj aprovou, em maio, o projeto para que o Bangu fosse homenageado com a condecoração. Entre os deputados que assinaram reconhecendo o pioneirismo do Bangu, está Roberto Dinamite (PMDB), maior ídolo da história do Vasco, clube que até então ostentava a condição pioneira contra o racismo, por ter admitido negros no início dos anos 20.

— Até isso querem tirar do Vasco — teria dito Roberto, ao assinar o projeto.

A integração que existia na fábrica, e chegou ao campo, causou reação da Liga Metropolitana que em 1 de maio de 1907 decidiu, por unanimidade, proibir o registro de atletas negros. No dia 14 do mesmo mês, o jornal Gazeta de Notícias informava que o Bangu abandonara a Liga em virtude da decisão racista.

Mesmo com a proibição em vigor, o Bangu manteve abertas suas portas aos negros. Na equipe que voltou à Liga em 1912, o negro Luís Antônio da Guia, irmão mais velho de Domingos da Guia, desfilava futebol elegante no gramado outrora desbravado por Manoel Maia.

O caminho rumo à liberdade ainda era tortuoso. Na divulgação da Lei do Amadorismo, pelo Diário Oficial de 20 de dezembro de 1917, o artigo quatro sobre registro de jogadores é aviltante. Diz o texto que não poderão ser registrados “os que tirem os meios de subsistência de profissão braçal”, “aqueles que exerçam profissão humilhante que lhes permitam o recebimento de gorjetas”, “os analfabetos e os que embora tendo profissão estejam, a juízo do Conselho Superior, abaixo do nível moral exigido”.

A Lei gerou protestos veementes do então vice-presidente da Liga e dirigente do Bangu Noel de Carvalho. Hoje, a fábrica existe apenas como memória de um tempo em que o seu apito anunciava uma partida que os atleta negros, desde Manoel Maia, passando por Leônidas da Silva e Pelé, conseguiram vencer. No jogo da vida, o placar ainda é adverso. Por tudo isso, o Bangu, de tão poucos títulos, merece essa medalha.

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20/11/2001 - Ousadia vale Tiradentes
Fo
nte: Jornal do Brasil (Repórter: Roberto Assaf)

Bangu é homenageado por ser primeiro a escalar negro no time de futebol


A Medalha Tiradentes que a Assembléia Legislativa entrega hoje ao Bangu em sua sede, à Avenida Cônego Vasconcelos, é o reconhecimento por uma ousadia cometida há quase um século, quando o clube tornou-se o primeiro clube de futebol do país a escalar um negro no time.

Fundado em 17 de abril de 1904 por imigrantes britânicos que trabalhavam na Companhia Industrial Progresso do Brasil - a fábrica de tecidos Bangu -, o Bangu disputou sua primeira partida no dia 24 de julho daquele ano, perdendo de 5 a 0 para o Rio Cricket, em Niterói. A partir de 1905, o clube suburbano passou a lançar o negro Francisco Carregal em sua equipe principal, ao lado de ingleses como Andrew Procter, James Hartley, John Starck, Thomas Hellowell e Thomas Donohue.

No dia 24 de maio de 2001, a Alerj reconheceu o pioneirismo do clube ''na luta para superar preconceitos discriminatórios'', orientado pelo projeto de autoria do deputado Noel de Carvalho Neto (PSB). O parlamentar baseou-se na pesquisa detalhada de seu assessor, José Carlos de Jesus Abreu. O despacho da Alerj foi publicado no Diário Oficial do último dia 18 de junho.

Apartheid - De acordo com a pesquisa, documentada com publicações de jornais da época, o Bangu não só abriu as portas para negros - os operários Alfredo Guedes de Mello Manoel Maia também passaram a integrar o time nos anos subseqüentes -, como foi obrigado a afastar-se entre 1907 e 1909 da Liga Metropolitana, que dirigia os destinos do futebol do Rio, por discordar da evidente discriminação da entidade, explícita, por exemplo, na nota oficial publicada no jornal Gazeta de Notícias de 14 de maio de 1907. ''Comunicamo-vos que o Diretório da Liga, em sessão de hoje, resolveu por unanimidade que não sejam registradas como atletas pessoas de cor'', ressalta a nota, autêntica pérola do apartheid caboclo que orientou o futebol do Rio naquele começo do século, e que o Bangu ousou enfrentar.

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22/11/2001 - Bangu é agraciado com a Medalha Tiradentes
Fo
nte: Jornal dos Sports (Repórter: Paulo Rocha)

Foto: Márcia Feitosa
JUSTA HOMENAGEM: Rubens Lopes(E), Noel de Carvalho e Paulo Giancristóforo

O Bangu recebeu na última terça-feira uma justa homenagem. O primeiro clube do Brasil a escalar um jogador negro em seu time de futebol foi agraciado com a Medalha Tiradentes, concedida através de Projeto de Resolução proposto pelo deputado Noel de Carvalho, cujo avô foi dirigente do Banguense no início do século passado.

A cerimônia de entrega da medalha aconteceu na sede social do clube, animada pela Banda da Polícia Militar e a Bateria Mirim da Mocidade Independente de Padre Miguel. Orgulhoso, o presidente Rubens Lopes garantiu que os banguenses terão muitas alegrias em 2002, a começar pela formação de uma grande equipe para a disputa do Torneio Rio-São Paulo.

"Nosso convênio com a Gortin, empresa do Reinaldo Pitta, continuará firme no próximo ano e a meta é formar um bom time para disputa do Rio-São Paulo. Pouca gente se lembramas, na primeira vez que o Torneio foi disputado, o Bangu terminou como o mais bem colocado entre os cariocas, na quarta posição."

O presidente banguense não quis especular o nome de reforços, mas um dirigente que pediu para não ser identificado, garantiu que vários jogadores de nome poderão reforçar a equipe, como informa a coluna TRIBUNA DE HONRA. O único sobre o qual o Rubens Lopes falou foi o lateral-esquerdo Felipe, atualmente emprestado pelo Vasco ao Atlético-MG:

"Que clube não gostaria de ter o Felipe? No entanto, ele está em outro clube que está disputando o Campeonato Brasileiro e não seria ético falar disso neste momento."

Mas de uma coisa a torcida pode ficar certa: o Bangu voltará a seus melhores dias no ano que vem.

     
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