MEDALHA
TIRADENTES - UM GOL CONTRA OS PRECONCEITOS
RACIAIS
Projeto
aprovado pela assembléia reconhece
o Bangu como primeiro time a aceitar negros
O Bangu Atlético Clube não conquista
um título dentro de campo há
décadas. Fora dos gramados, porém,
o clube está para marcar um belo gol
e, de quebra, trazer a público uma
nova versão para a presença
dos negros no futebol. Ou começar uma
grande polêmica.
Um projeto do deputado estadual Noel de Carvalho
(que foi aprovado na semana passada pela Assembléia
Legislativa) prevê a concessão
ao clube da Medalha Tiradentes, com a justificativa
de ter sido o Bangu o primeiro a escalar atletas
negros, e não o Vasco da Gama. O presidente
do Bangu, Rubens Lopes, diz que a medalha
é a reparação de uma
injustiça:
- Nós já sabíamos do
nosso pioneirismo em aceitar negros no clube
e no time de futebol. Mas tudo isso precisou
de um rigoroso trabalho de pesquisas para
que chegássemos às provas.
Documentos e fotos reunidos pelo historiador
(e banguense) Carlos Molinari informam que
já em 1905 - apenas um ano depois da
fundação do clube - já
havia um negro no elenco, o apoiador Francisco
Carregal. Em 1911 o Bangu se sagrou campeão
carioca (segunda divisão) contando
com quatro negros na equipe.
Pelos quadros do clube passaram jogadores
como Luiz Antônio da Guia, irmão
mais velho de Domingos da Guia e, segundo
Molinari, atleta que mais tempo defendeu um
clube de futebol no Brasil (de 1912 até
1931):
- Ele jogou todos esse anos e sempre estava
na seleção carioca. Porém
nunca foi convocado para a seleção
brasileira, por ser negro.
HISTÓRIA: CLUBES RECUPERAM FATOS PARA
MOSTRAR QUE NÃO FORAM RACISTAS, AFIRMA
PROFESSOR. TÍTULO DO VASCO FOI UM MARCO.
Embora documentos reunidos pelo Bangu apontem
para a primazia do clube na quebra dos preconceitos,
a tese convive com narrativas sobre o pioneirismo
de outros times. Para Ronaldo Helal, professor
da UERJ e mestre em sociologia do futebol,
o Vasco chocou a sociedade ao se sagrar campeão
carioca de 1923, sendo o primeiro clube a
colocar uma maioria de negros e mestiços
no time. Mas não foi o primeiro a escalar
negros. Helal diz que a medida marcou também
quando ajudou a pôr fim ao falso amadorismo:
- Os jogadores recebiam para jogar, mas ninguém
admitia. Com o time de 1923, formado basicamente
por operários, o Vasco desbanca a elite
branca do futebol e inicia a era do profissionalismo.
O professor da Universidade Gama Filho e pesquisador
da história do futebol, Antônio
Jorge Soares vai além. Para ele, é
interessante como o futebol (como a música)
se presta a uma análise sociológica
do relaxamento das tensões raciais:
- Parece que tentam resgatar fatos para comprovar
que não eram racistas. Há uma
mística em torno do Vasco porque o
time foi campeão - diz, acrescentando
que o Paulistano, de São Paulo, tinha
um negro no time no começo do século,
mas este era da elite.
CRAQUE DEFENDEU O CLUBE DURANTE 19 ANOS -
PARA A IMPRENSA, "O PERFEITO".
Ele não teve a mesma projeção
do irmão mais famoso. Mas quem o viu
jogar garante que seu futebol nada ficava
devendo ao de Domingos da Guia. Luiz Antônio
da Guia defendeu o Bangu 19 anos (até
hoje um recorde no futebol brasileiro, segundo
o historiador Carlos Molinari), período
em que conquistou dois títulos estaduais
da segunda divisão.
Estreou contra o Flamengo, em 1912, e ajudou
o Bangu a vencer por 7 a 4. Luiz Antônio
sempre se destacou pela classe e a firmeza
(como mais tarde aconteceria com Domingos),
ganhando da imprensa o apelido de "O
Perfeito".
Convidado para jogar no rival América,
respondeu: "Talvez seja fácil
vestir a camisa do América. Difícil
vai ser enfrentar o Bangu."
Fonte:
Jornal O Globo (Zona Oeste), 22/06/2001.
Há uma errata
no placar do jogo de estréia de Luiz
Antônio. O Bangu não venceu por
7 a 4, e sim, perdeu por 7 a 4, por ter o
goleiro Heráclito Soares do Bangu "vendido"
quatro gols para o adversário.
Leia a
nota
com o projeto de lei que concede ao Bangu
a Medalha Tiradentes, com a respectiva justificativa.
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20/11/2001
-
Bangu, pioneiro contra o racismo
Fonte:
Jornal O Globo (Repórter: Pedro Motta
Gueiros)
Foi na Fábrica
de Tecidos Bangu, no início do século
passado, que se começou a costurar
a integração, ao menos esportiva,
entre brancos e negros. A história
do futebol consagra, hoje, com a medalha Tirandentes,
concedida pela Assembléia Legislativa
do Estados do Rio de Janeiro (Alerj), o Bangu
Atlético Clube como o primeiro clube
a admitir jogadores negros, já na edição
inaugural do Campeonato Carioca, em 1906.
Hoje, no dia de Zumbi dos Palmares, o nome
de Manoel Maia, tecelão da fábrica
criada por operários ingleses, se transforma
em mártir contra o racismo no futebol.
O cidadão negro fazia parte do time
do Bangu, uma das seis equipes fundadoras
da Liga, 14 anos após a abolição
da escravatura.
A pesquisa desenvolvida por José Carlos
Abreu, assessor do deputado estadual Noel
de Carvalho (PSB), se transformou em verdade
histórica quando a Alerj aprovou, em
maio, o projeto para que o Bangu fosse homenageado
com a condecoração. Entre os
deputados que assinaram reconhecendo o pioneirismo
do Bangu, está Roberto Dinamite (PMDB),
maior ídolo da história do Vasco,
clube que até então ostentava
a condição pioneira contra o
racismo, por ter admitido negros no início
dos anos 20.
Até isso querem tirar do Vasco
teria dito Roberto, ao assinar o projeto.
A integração que existia na
fábrica, e chegou ao campo, causou
reação da Liga Metropolitana
que em 1 de maio de 1907 decidiu, por unanimidade,
proibir o registro de atletas negros. No dia
14 do mesmo mês, o jornal Gazeta de
Notícias informava que o Bangu abandonara
a Liga em virtude da decisão racista.
Mesmo com a proibição em vigor,
o Bangu manteve abertas suas portas aos negros.
Na equipe que voltou à Liga em 1912,
o negro Luís Antônio da Guia,
irmão mais velho de Domingos da Guia,
desfilava futebol elegante no gramado outrora
desbravado por Manoel Maia.
O caminho rumo à liberdade ainda era
tortuoso. Na divulgação da Lei
do Amadorismo, pelo Diário Oficial
de 20 de dezembro de 1917, o artigo quatro
sobre registro de jogadores é aviltante.
Diz o texto que não poderão
ser registrados os que tirem os meios
de subsistência de profissão
braçal, aqueles que exerçam
profissão humilhante que lhes permitam
o recebimento de gorjetas, os
analfabetos e os que embora tendo profissão
estejam, a juízo do Conselho Superior,
abaixo do nível moral exigido.
A Lei gerou protestos veementes do então
vice-presidente da Liga e dirigente do Bangu
Noel de Carvalho. Hoje, a fábrica existe
apenas como memória de um tempo em
que o seu apito anunciava uma partida que
os atleta negros, desde Manoel Maia, passando
por Leônidas da Silva e Pelé,
conseguiram vencer. No jogo da vida, o placar
ainda é adverso. Por tudo isso, o Bangu,
de tão poucos títulos, merece
essa medalha.
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20/11/2001
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Ousadia vale Tiradentes
Fonte:
Jornal do Brasil (Repórter: Roberto
Assaf)
Bangu é homenageado por ser primeiro
a escalar negro no time de futebol
A Medalha Tiradentes que a Assembléia
Legislativa entrega hoje ao Bangu em sua sede,
à Avenida Cônego Vasconcelos,
é o reconhecimento por uma ousadia
cometida há quase um século,
quando o clube tornou-se o primeiro clube
de futebol do país a escalar um negro
no time.
Fundado em 17 de abril de 1904 por imigrantes
britânicos que trabalhavam na Companhia
Industrial Progresso do Brasil - a fábrica
de tecidos Bangu -, o Bangu disputou sua primeira
partida no dia 24 de julho daquele ano, perdendo
de 5 a 0 para o Rio Cricket, em Niterói.
A partir de 1905, o clube suburbano passou
a lançar o negro Francisco Carregal
em sua equipe principal, ao lado de ingleses
como Andrew Procter, James Hartley, John Starck,
Thomas Hellowell e Thomas Donohue.
No dia 24 de maio de 2001, a Alerj reconheceu
o pioneirismo do clube ''na luta para superar
preconceitos discriminatórios'', orientado
pelo projeto de autoria do deputado Noel de
Carvalho Neto (PSB). O parlamentar baseou-se
na pesquisa detalhada de seu assessor, José
Carlos de Jesus Abreu. O despacho da Alerj
foi publicado no Diário Oficial do
último dia 18 de junho.
Apartheid - De acordo com a pesquisa, documentada
com publicações de jornais da
época, o Bangu não só
abriu as portas para negros - os operários
Alfredo Guedes de Mello Manoel Maia também
passaram a integrar o time nos anos subseqüentes
-, como foi obrigado a afastar-se entre 1907
e 1909 da Liga Metropolitana, que dirigia
os destinos do futebol do Rio, por discordar
da evidente discriminação da
entidade, explícita, por exemplo, na
nota oficial publicada no jornal Gazeta de
Notícias de 14 de maio de 1907. ''Comunicamo-vos
que o Diretório da Liga, em sessão
de hoje, resolveu por unanimidade que não
sejam registradas como atletas pessoas de
cor'', ressalta a nota, autêntica pérola
do apartheid caboclo que orientou o futebol
do Rio naquele começo do século,
e que o Bangu ousou enfrentar.
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22/11/2001
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Bangu é agraciado com a Medalha
Tiradentes
Fonte:
Jornal dos Sports (Repórter: Paulo
Rocha)
| Foto:
Márcia Feitosa |
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| JUSTA
HOMENAGEM: Rubens Lopes(E), Noel de
Carvalho e Paulo Giancristóforo |
O
Bangu recebeu na última terça-feira
uma justa homenagem. O primeiro clube do Brasil
a escalar um jogador negro em seu time de
futebol foi agraciado com a Medalha Tiradentes,
concedida através de Projeto de Resolução
proposto pelo deputado Noel de Carvalho, cujo
avô foi dirigente do Banguense no início
do século passado.
A cerimônia de entrega da medalha aconteceu
na sede social do clube, animada pela Banda
da Polícia Militar e a Bateria Mirim
da Mocidade Independente de Padre Miguel.
Orgulhoso, o presidente Rubens Lopes garantiu
que os banguenses terão muitas alegrias
em 2002, a começar pela formação
de uma grande equipe para a disputa do Torneio
Rio-São Paulo.
"Nosso convênio com a Gortin, empresa
do Reinaldo Pitta, continuará firme
no próximo ano e a meta é formar
um bom time para disputa do Rio-São
Paulo. Pouca gente se lembramas, na primeira
vez que o Torneio foi disputado, o Bangu terminou
como o mais bem colocado entre os cariocas,
na quarta posição."
O presidente banguense não quis especular
o nome de reforços, mas um dirigente
que pediu para não ser identificado,
garantiu que vários jogadores de nome
poderão reforçar a equipe, como
informa a coluna TRIBUNA DE HONRA. O único
sobre o qual o Rubens Lopes falou foi o lateral-esquerdo
Felipe, atualmente emprestado pelo Vasco ao
Atlético-MG:
"Que clube não gostaria de ter
o Felipe? No entanto, ele está em outro
clube que está disputando o Campeonato
Brasileiro e não seria ético
falar disso neste momento."
Mas de uma coisa a torcida pode ficar certa:
o Bangu voltará a seus melhores dias
no ano que vem.