SOMBRAS DO PASSADO
Carrinho
que Márcio Nunes deu em Zico, em 85, volta
a ser lembrado por Galinho em seu filme. Ex-lateral
também não consegue esquecer. 'Fiquei
marcado para sempre'
Recortes
de jornais amarelados pelo tempo, fotos já
descoloridas, uma faixa de vice-campeão brasileiro
do distante ano de 1985. Pequenas sobras de um passado
quase sempre lembrado com certa tristeza. Um desbotado
recorte de jornal, de maio de 87, mostra o reencontro
do ex-lateral-direito Márcio Nunes com Zico,
a quem havia ido pedir desculpas pelo carrinho que
antecipou o fim da carreira do Galinho. O ex-lateral-direito
chora. "Ele foi muito humano. Tinha tanto medo
que me recebesse mal. Nunca me esquecerei desse dia",
emociona-se.
O lançamento do filme sobre a vida de Zico
na segunda-feira revirou novamente a vida do ex-lateral
do Bangu. O Galinho lembrou a dramática luta
travada para não se tornar um dependente de
morfina, que tomava na medicação para
suportar as terríveis dores, após a
cirurgia feita em setembro de 1986, devido a uma trágica
sucessão de contusões que começou
com o fatídico carrinho de Márcio Nunes.
"Não guardei rancor dele porque sei que
ele cumpria ordens", entende Zico, referindo-se
ao técnico Moisés.
"Isso não aconteceu. Foi somente um trágico
acidente", rebate Márcio Nunes.
Todo drama tem dois lados. Se o carrinho dado pelo
zagueiro foi o início do fim de Zico, também
abortou a carreira de Márcio Nunes. O zagueiro
ficou marcado para sempre e decidiu parar em maio
de 88, aos 25 anos, vítima de um carrinho dado
pelo vascaíno Fernando. Após três
cirurgias, foi aposentado pelo INSS, por invalidez.
Sobrevive com pouco mais de um salário no bolso
e muitos sonhos na cabeça.
"Nunca viram o meu lado. Fui chamado de assassino
e criminoso. Até hoje, há pessoas que
dizem que me odiavam por ter destruído a carreira
do Zico. Mas eu também o amava como ídolo
e sofri demais. Ainda sofro", desabafa.
Márcio gostaria de ensinar futebol às
crianças - já teve uma escolinha, que
não durou muito, e espera ver concretizado
o plano de ir trabalhar no Japão. "Já
estou batendo meu currículo. Um amigo vai tentar
me encaixar em algum clube, como instrutor de futebol",
conta.
Ex-integrante da torcida Fla-Mallet, Márcio
hoje tem horror do Flamengo. Tanto, que fez o filho
Mayson virar alvinegro. O ex-lateral não se
conforma com o sofrimento do pai, seu Alcides, que
morreu há cinco meses, levando muita mágoa
no coração devido à repercussão
negativa que tomou conta da carreira do filho, que
um dia sonhou ver com a camisa rubro-negra. "Ele
jogou fora tudo o que colecionava sobre o Flamengo,
que passou a ser um assunto proibido lá em
casa", revela.
Márcio Nunes se tornou evangélico e
visita hospitais e presídios, "para dar
conforto e levar a palavra de Deus". Acha que
já pagou os seus pecados com juros e altíssima
correção monetária e que muitos
rubro-negros devem se sentir vingados com seu sofrimento.
Mas gostaria muito de poder apagar para sempre do
calendário de sua vida o dia em que feriu o
Galinho. "Sou um cara honesto, que nunca fez
mal a ninguém. Não entendo por que tive
de passar por tudo isso. É coisa de Deus".
Uma carta selou o perdão
Corria
o segundo tempo de um jogo noturno, que acabaria empatado
sem gols. Zico dominou a bola no meio-campo, passou
por Israel e Jair, mas acabou sendo atingido pelo
carrinho de Márcio Nunes, diante de quase 24
mil indignados torcedores. Zico teve várias
lesões: torção no joelho esquerdo
e no joelho direito, pancada no perônio direito,
entorse nos tornozelos e outras escoriações
pelo corpo. Márcio Nunes acabou sendo expulso,
após ter reagido a um pisão de Mozer.
Quase um ano depois, Márcio Nunes enviou uma
carta ao ídolo. "Estou feliz por ver você
se recuperando, para alegria da torcida rubro-negra
e de milhões de brasileiros, que, como eu,
são fãs de seu futebol. Espero vê-lo
novamente em campo, fazendo os belos gols e as grandes
jogadas que só um gênio como você
é capaz de fazer".
No dia seguinte (29/8/87), o zagueiro o procurou pessoalmente.
"Só de lembrar, eu choro. Quando ele disse
que eu estava perdoado, desatei a chorar. Foi um momento
muito lindo", recorda.
"No fundo, sei que ele não teve a intenção
de fazer aquilo. Mas, infelizmente, fez. De qualquer
jeito, já sofreu muito com tudo isso",
lamenta Zico.
E como sofreu! O lateral não teve mesmo mais
sorte, desde então. Um exemplo: até
hoje briga por um apartamento que comprou, mas não
levou, em Bangu. A obra parou e o dinheiro sumiu.
O Fiat 147 usado foi vendido e, depois que se separou
da mulher, foi obrigado a viver na modesta casinha
em que o pai vivia, no Mallet. Só mesmo um
emprego no eldorado japonês para dar um novo
rumo a sua vida: "Seria um prêmio, após
tanto sofrimento".
Fonte:
Jornal O Dia, 04/08/2002. Repórter: Martha
Esteves.