BANGU
BOTECO ATLÉTICO CLUBE
Tradicional clube
carioca, que já colecionou títulos
e ídolos, agoniza, afundado em dívidas
e descaso
A
longa história do Bangu - fundado como
The Bangu Athletic Club -, que completará
um século de existência em 17
de abril de 2004, está caminhando na
direção mais crítica
desde a sua criação. Clube de
títulos e glórias, além
de jogadores que deixaram marcas no futebol
brasileiro, o vermelho e branco da Zona Oeste
está pela hora da morte. Ao ponto de
a principal atividade econômica do clube,
o esporte, ser transformada num botequim,
como consta na Secretaria
Estadual de Fazenda do Rio de Janeiro.
Localizada na Avenida Cônego Vasconcelos
549, no bairro que dá nome ao clube,
a sede social do Bangu está aos cacos.
O prédio principal, tombado pelo Instituto
Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac),
em 1990, nunca sofreu uma reforma desde o
tombamento. Os tijolos da fachada despencam
aos montes, pondo em risco a vida dos pedestres
que transitam pela avenida. Os arquitetos
do Inepac afirmaram ao JORNAL DOS SPORTS nunca
terem recebido qualquer pedido de reparo na
sede.
"Em 13 anos de tombamento da sede do
Bangu, não fizeram nenhum pedido para
recuperar ou reformar o prédio. É
necessário que os diretores do clube
nos encaminhem um projeto de restauração
e recuperação para ser analisado
pelos técnicos responsáveis.
É uma pena, entretanto, que ele esteja
nesta situação. Se a direção
do Bangu não contactar o Inepac, não
poderemos fazer nada para recuperar a fachada
daquele prédio", afirmou o arquiteto
Roberto da Luz, da divisão de restauração
do instituto.
As dívidas do Bangu, somente com a
Previdência, chegam a R$ 600 mil. Além
disso, o patrimônio do clube se deteriora
a cada dia. O Estádio Proletário
Guilherme da Silveira, por exemplo, não
sofre uma grande reforma há muito tempo.
Francisco de Souza, administrador do local
há cinco anos, disse que, desde quando
assumiu a função, apenas as
grades que separam o campo da arquibancada
foram trocadas e os vestiários reformados.
"Nunca tivemos uma obra de impacto no
estádio."
A sede da Cônego de Vasconcelos também
não passa por reformas há anos.
Lá, nem linha telefônica existe.
O vice-presidente de patrimônio Djalma
Antônio de Carvalho, no cargo desde
janeiro, não soube calcular em quanto
está avaliado o patrimônio do
clube, que também tem uma sede aquática
na Rua Francisco Real. A situação
do Bangu é tão dramática
que, segundo documento da Receita
Federal, o clube está inapto para
funcionar. E lá se vão quase
cem anos de histórias, inclusive esta.
| O
RETRATO DA DECADÊNCIA DE UM CLUBE
CENTENÁRIO
(Tristes
imagens) |
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1
- A entrada para a arquibancada do estádio |
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2
- A fachada da sede social, onde funciona
um cabeleleiro |
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3
- Os refletores quebrados |
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4-
Fios desemcapados, um perigo à
mostra |
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5
- A cerca de arame farpado malconservada |
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6
- Parte interna do estádio com
a caixa d'água destampada |
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7
- A fachada, em péssimo estado,
com o nome do clube escrito de forma
errada |
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8
- Sede social onde funciona um estúdio
de dança e um bar |
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9
- O placar quebrado |
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10
- Obras paradas do departamento médico
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11
- Infiltrações |
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12
- Banheiros malconservados |
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13
- Rachaduras e infiltrações |
O PRESIDENTE
"Não podemos ir tão
longe. Não há dinheiro para
nada"
| Foto:
Lula Aparício (Jornal dos Sports) |
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| JOÃO
PAULO, presidente do clube, não
sabe informar sobre as negociações
entre o clube e a Peugeot |
O
salto do Bangu para o futuro poderia ser a
parceria com a megamontadora francesa de automóveis
Peugeot-Citroën, que, mês passado,
enviou o representante da seção
latino-americana da empresa, Jean Pierre Bechir,
para um encontro com o presidente do clube,
João Paulo Giancristóforo. Intermediada
pelo presidente de honra da Fifa, João
havelange, a negociação está
parada.
João Paulo não pareceu empolgado
com a iniciativa dos executivos franceses,
que pretendem investir no Bangu: "Não
sei de nada. As negociações
com a Peugeot estão sendo conduzidas
pelo departamento de futebol. Eu não
tenho informações sobre este
assunto", afirmou ele, dirigente máximo
do clube que, em tese, seria um dos responsáveis
pelo processo de parceria.
Sobre as comemorações dos cem
anos do clube, João Paulo também
disse nada saber. Ele apenas limitou-se a
informar ter nomeado uma comissão para
preparar e organizar os festejos do clube.
"Já escolhemos as pessoas encarregadas
da festa do centenário. Mas não
podemos ir tão longe. Não há
dinheiro para nada", completou o presidente.
O TORCEDOR
"O mais triste é ver esse descaso
absurdo com o Bangu"
| Foto:
Lula Aparício (Jornal dos Sports) |
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| ALTINO,
guardador da CET-Rio e banguense apaixonado,
mostra de onde os tijolos despencam
na rua |
A
fachada da sede social do Bangu, formada por
tijolinhos vermelhos, que deveriam embelezar
o prédio centenário, está
despencando de uma altura de cerca de 20 metros.
Uma simples chuva e uma fraca rajada de vento
podem ser capazes de destruir o local.
A denúncia é do guardador autônomo
da CET-Rio Altino Barreto Peçanha,
que há quatro anos trabalha na Avenida
Cônego Vasconcelos, em frente à
sede do clube. Torcedor do Bangu e morador
do bairro há 26 anos, ele disse estar
entristecido com o que presencia quase todos
os dias.
"Já vi tijolos caírem lá
de cima, mas felizmente ainda não acertou
a cabeça de ninguém. Isso é
um perigo para todos nós que estamos
aqui diariamente, uma pena. O mais triste
é ver esse descaso absurdo com o Bangu
sem que possamos fazer algo para ajudar. O
Clube acabou", afirmou Altino, apontando
para o prédio.
A HERANÇA
Uma fortuna perdida na burocracia da justiça
Uma batalha judicial que já dura 18
anos pode salvar o Bangu da miséria.
Luiz Oswaldo Teixeira da Silva, um ricaço
professor de matemática, morto em 84,
deixou de herança para o clube uma
fortuna, segundo notícias da época,
calculada em 500 bilhões de cruzeiros,
o equivalente a cerca de US$ 150 milhões.
Maurício Mendonça, advogado
do clube que acompanha o caso, afirmou que
em valores atuais a herança não
ultrapassa R$ 1 milhão. Já o
ex-presidente do Bangu Rubens Lopes falou
em R$ 130 mil. Além da fortuna em dinheiro
deixada por Luiz Oswaldo, há sete imóveis
localizados em São Cristóvão
e na Lapa.
De acordo com Mendonça, o processo
não anda porque a juíza Frana
Elizabeth Mendes, da 7ª Vara de Executivos
Federais, penhorou os bens do Bangu por causa
de uma dívida de R$ 600 mil com o INSS.
"A lei Federal 8641/93 beneficiou o Bangu,
transferindo a dívida para a Federação
do Estado do Rio", afirmou.
| O
ORGULHO NO PASSADO |
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Zizinho,
o maior craque da história do
Bangu. Seleção Brasileira
Vice mundial de 1950. |
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Domingos
da Guia (C), um dos mais famosos
zagueiros do futebol brasileiro |
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Zózimo,
zagueiro, bicampeão mundial pela
Seleção em 58 (Suécia)
como reserva e em 62 (Chile) como titular |
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Ademir
da Guia, filho de Domingos, jogou
também pelo Palmeiras e pela
Seleção. |
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TÍTULOS:
Campeão carioca de 1933 e de
1966 (foto), quando venceu por 3 a 0
o Flamengo na final.
Campeão do Torneio de Nova York
em 1960.
Vice-campeão brasileiro de 1985. |
Fonte:
Jornal dos Sports (Repórter: Marlos
Bittencourt), 13/07/2003.
.
. . . . . . . . . . . . . .
14/07/2003
-
BANGU
Fonte:
Jornal dos Sports - Coluna Passe Livre (José
Antônio Gerheim)
Ao mesmo tempo
que todos vibrávamos com as vitórias
do Botafogo e do Brasil no vôlei, dói
no coração do torcedor carioca
e brasileiro ver o que fizeram com um clube
da tradição do Bangu. A excelente
reportagem do repórter Marlos Bittencourt,
domingo no JORNAL DOS SPORTS, é um
retrato cruel de como anda sendo administrado
o futebol do Rio de Janeiro. E é um
grito de alerta para que outros "grandes"
não venham a ser o Bangu de amanhã.