UM
CENTENÁRIO SEM MOTIVO PARA FESTA
Às
vésperas de completar 100 anos,
Bangu tem salários atrasados e patrimônio
destruído
A
quatro meses de completar 100 anos de existência,
o Bangu Atlético Clube é hoje
uma instituição com um passado
lembrado com saudades e um presente para ser
esquecido. Em meio ao planejamento para a
comemoração do centenário,
a diretoria tenta contornar crises financeiras,
políticas e até de credibilidade
para não dar vexame em 2004.
O obstáculo mais difícil de
ser superado é financeiro. O Bangu
tem hoje apenas 731 sócios e só
40 deles menos de 5,5% pagaram
a mensalidade de novembro, de R$ 10 para proprietários
e R$ 15 para contribuintes. Sem apoio de empresas,
o clube depende desse dinheiro para cobrir
suas despesas.
O que eu posso fazer? Sócios
são uma loteria. O clube não
tem opções de lazer diferentes
do que o morador encontra no bairro. E nem
todo mundo pode pagar R$ 10 ou R$ 15 por mês
lamenta João Paulo Giancristoforo,
presidente do clube desde janeiro.
Entre as conseqüências da falta
de recursos estão os constantes atrasos
de salários dos 17 funcionários
vinculados ao Bangu. O clube já chegou
a retardar o pagamento em até seis
meses e a dívida atual é relativa
a dois meses.
A falta de recursos também se reflete
na sede social do Bangu, um dos retratos mais
nítidos da crise que atinge o clube.
Tombado pelo município desde 1990,
o prédio centenário tem sérios
problemas de estrutura e manutenção.
Uma parte do telhado chegou a ceder e uma
lona foi colocada para evitar que chuvas causassem
maiores prejuízos ao salão nobre.
Há janelas quebradas e as paredes têm
manchas e infiltrações. O trajeto
entre o salão e a única quadra
de futsal para sócios e escolinhas
é feito necessariamente por um corredor
sujo e sem iluminação.
Precisaríamos de três
mil sócios em dia para quitar dívidas,
pagar os salários e fazer a manutenção
adequada da sede. Só que isso é
um sonho afirma Giancristoforo.
Para tentar equilibrar as finanças
e completar a receita das mensalidade dos
sócios, o já combalido salão
nobre tem sido alugado para eventos e festas.
Há dois meses, uma grande festa para
jovens levou oito mil pessoas à sede
do clube, um público que o estádio
de Moça Bonita não recebe há
muito tempo.
É a única forma de conseguir
dinheiro para as reformas mais urgentes na
nossa sede justifica João Paulo.
Apoio polêmico a empresários
Há
crise e polêmica também no futebol
profissional do Bangu. Há um mês,
a diretoria do clube revoltou parte dos torcedores
ao publicar uma nota oficial de apoio aos
empresários Reinaldo Pitta e Alexandre
Martins, condenados a 11 anos de reclusão
por lavagem de dinheiro no escândalo
do propinoduto. Segundo um acordo firmado
em 2001, os dois traziam atletas para o clube
e mantinham a folha salarial do elenco. Em
compensação, podiam vender qualquer
um que se destacasse.
A idéia já era absurda,
porque transformava o Bangu numa vitrine e
quem era bom saía do clube na hora.
Depois da condenação, o acordo
se tornou imoral reclama Celso de Medeiros,
sócio-proprietário do clube
desde 1974.
O presidente João Paulo Giancristofo
garante que o acerto com os empresários
será mantido mesmo depois da condenação.
Para ele, o acordo beneficia o Bangu e a nota
oficial foi justificada.
Nenhum clube tem mais o passe dos jogadores,
porque todos pertencem a empresários.
Os dois podem ter errado, mas sempre foram
honestos conosco explica.
O time de profissionais não joga desde
o início de novembro, quando foi eliminado
da terceira divisão do Campeonato Brasileiro.
Na semana passada, o clube contratou um técnico
de futebol de salão, Marcelo Cabo,
para dirigir o time de campo no Campeonato
Estadual, que começa em 25 de janeiro.
Sócios insatisfeitos fundam a Democracia
Banguense
Um
grupo cada vez maior de opositores a membros
da atual diretoria do Bangu se organizou para
protestar e exigir mudanças: é
o Movimento Democracia Banguense, que já
conta com 382 adeptos, entre sócios,
ex-sócios e torcedores. Eles se queixam
de que estão impedidos de opinar e
atuar nas decisões do clube. Além
disso, acusam a diretoria de cassar títulos
de sócios e cobrar taxas extras nas
mensalidades.
Eles cobram taxas de obras absurdas
apenas para alguns sócios e quem não
paga é excluído do quadro social.
Eu paguei e mesmo assim fui impedido de me
candidatar à presidência
diz o sócio patrimonial Itamar de Oliveira.
O presidente João Paulo Giancristoforo
rebate:
Nunca me procuraram e só querem
chamar atenção. Quem quer um
pão tem que dar dinheiro para o padeiro.
Então, se pagarem as mensalidades,
dou até um cargo na diretoria para
eles. Mas terão que trabalhar de graça,
porque nenhum diretor recebe dinheiro do Bangu
diz.
Os integrantes do movimento culpam a diretoria
pela perda do projeto que previa a ampliação
do estádio de Moça Bonita para
abrigar jogos do Pan 2007. A prefeitura preferiu
construir um complexo esportivo no Engenho
de Dentro.
Foi uma escolha política
afirma Giancristoforo.
Ex-diretor revela outras dívidas
O
ex-diretor de patrimônio do Bangu Carlos
Molinari responsabiliza as últimas
diretorias pela crise. Ele trabalhou no clube
entre 1999 e 2001, mas foi demitido e teve
o título de sócio suspenso.
Para ele, a crise é a pior da história
do Bangu, que chegou a ter a sede náutica
leiloada no início do ano. Tudo devido
a uma dívida trabalhista de R$ 130
mil com uma ex-funcionária.
Além disso, o clube tem uma
dívida de R$ 600 mil*
com o INSS e um documento da Receita Federal
diz que o Bangu está inapto para funcionar
como associação revela.
O presidente João Paulo Giancristoforo
reconhece a dívida de R$ 130 mil e
diz que o clube já pagou sete das dez
parcelas que devia. Ele, no entanto, confessa
não saber o valor da dívida
com o INSS:
Não sei qual é o valor
da dívida, mas pode ter certeza de
que é impagável.
Enquanto isso, apenas três esportes
funcionam no clube hoje: as escolinhas de
futsal; o futebol nas categorias de base,
que conquistou o torneio Octávio Pinto
Guimarães em novembro; e a natação,
cujas despesas e receitas são divididas
com o ex-nadador e medalhista olímpico
Djan Madruga.
Fonte:
Jornal O Globo - Bairros: Zona Oeste (Repórter:
Rafael Pinna), 07/12/2003.
*
Acordo informação do próprio
Carlos Molinari o valor correto da dívida
do clube com o INSS é de R$ R$ 383.995,36,
conforme processos abaixo:
BANGU ATLETICO CLUBE
CEI/CNPJ raiz: 33.664.319/0000-00
Processo(s) cadastrado(s)
| UF |
CEI/CNPJ |
PROCESSO |
FASE |
VALOR
(R$) |
| RJ |
33.664.319/0001-70 |
351307117 |
0520 |
11.587,92 |
| RJ |
33.664.319/0001-70 |
351025952 |
0799 |
2.950,66 |
| RJ |
33.664.319/0001-70 |
351025944 |
0520 |
15.157,31 |
| RJ |
33.664.319/0001-70 |
351025936 |
0520 |
66.502,79 |
| RJ |
33.664.319/0001-70 |
351025910 |
0520 |
15.590,73 |
| RJ |
33.664.319/0001-70 |
327105194 |
0535 |
124.845,21 |
| RJ |
33.664.319/0001-70 |
317125192 |
0535 |
147.360,74 |
| TOTAL |
383.995,36 |
Descrição
das fases da Dívida Ativa do INSS
0520 - Inscrição de Crédito
em Dívida Ativa
0535 - Ajuizamento/Distribuição
0799 - Parcelamento Cancelado.
O que o Bangu precisa fazer para
sair da crise ?
Fonte:
Jornal O Globo - Bairros: Zona Oeste, 14/12/2003.
Em
primeiro lugar, os banguenses, sócios
ou não, devem estar unidos. Trabalhar
harmoniosamente em busca da preservação
do capital cultural, social e simbólico
do clube centenário. A crise do Bangu
deve ser encarada como oportunidade para uma
decisão. Os atuais dirigentes deveriam
buscar o diálogo e estabelecer parceria
com todos aqueles que amam o clube, mas que
dele estão afastados por questões
políticas. Sinvaldo do Nascimento
Souza, professor
O Bangu precisa urgentemente de pessoas
verdadeiramente compromissadas com o clube
no comando. Nós, torcedores, não
agüentamos mais esse clima ditatorial,
no qual qualquer oposição é
intimidada. Repudiamos também a parceria
com os dirigentes com os empresários
Alexandre Martins e Reinaldo Pitta, que só
malefícios trouxeram ao clube, transformando-o
num mero balcão de negócios.
Como demonstrou a reportagem, o clube tem
um quadro patrimonial desolador e a atual
diretoria é incapaz de resgatar os
anos dourados do Bangu no ano de seu centenário.
Alessandro Nunes, estudante
É preciso que saiam a atual diretoria
e os empresários que comandam o clube,
além de dar anistia para os sócios
expulsos pela diretoria anterior. O clube
precisa se reestruturar. Alexandre
Ferreira, funcionário público