AMÉRICA
E BANGU: DESAFIO NO ANO DO CENTENÁRIO
O
apito da fábrica de tecidos, sinal
da fase áurea do bairro de Bangu, calou-se
nos anos 90. Na Zona Norte do Rio, os anos
dourados já não brilham mais.
O aprazível Andaraí hoje é
cenário de novela. Parte da elite tijucana
migrou para outras regiões. O América
continua lá, mas seu futebol agora
mora na Baixada. Na Zona Oeste, o Bangu resiste
ao tempo. Os dois clubes, que foram fundados
por ingleses e celebram seu centenário
este ano, têm glórias no passado
e uma dúvida quanto ao futuro.
Na última temporada os dois times foram
praticamente dissolvidos em março e
remontados em setembro para a Série
C do Brasileiro. O calendário, ingrato
com os chamados pequenos, não lhes
permite manter um elenco em atividade o ano
todo. A incerteza dá lugar ao otimismo
efêmero sempre que o Estadual vai começar.
O América, dono de sete títulos
(1913/16/22/28/31/35/60), estréia hoje
contra o Friburguense, às 16h, em Édson
Passos. E o Bangu, campeão em 33 e
66, enfrenta o Americano, em Campos, no mesmo
horário.
É muito difícil montar
e manter um bom time hoje. Com o fim do passe,
qualquer jogador que se destaca no América
está livre para ir embora, não
temos recursos para fazer contratos longos
reconhece Amaro, apoiador do último
título estadual conquistado pelo clube
em 1960.
O Bangu vai existir por mais 300 anos,
clubes não acabam. Agora, o destino
do futebol do Bangu é outra história
admite o presidente de honra do clube,
Rubens Lopes.
América, sem parceria, tenta voltar
a ser quinta força
O América parece mais promissor
desde a escalação do time, que
começa com o goleiro Carlos Germano,
principal contratação do centenário
do clube, em 18 de setembro. O presidente
americano, o ex-juiz de futebol Reginaldo
Mathias, ainda tenta trazer Robert, Leandro
Ávila e Léo Inácio, para
o time dirigido por Renê Weber:
Queremos voltar a ser a quinta força
do Rio, terminamos em sétimo no ano
passado, atrás do Bangu.
A folha salarial do América é
de cerca de R$ 100 mil mensais. O clube vai
receber R$ 400 mil da Rede Globo e R$ 80 mil
de um patrocinador. Boa parte dos jogadores
tem contrato de apenas três ou quatro
meses. O clube acaba de recusar proposta de
uma empresa que oferecia R$ 90 mil mensais
para gerir o futebol.
Não estamos à venda,
seremos sempre comandados por americanos.
Como o ex-presidente Giulite Coutinho, que
dá nome ao Estádio de Édson
Passos, a principal conquista desde a Copa
dos Campeões, em 82.
Nos últimos 30 anos, nosso estádio
foi o único a ser construído
no Rio afirmou o presidente, que não
vê rivais no horizonte. Fluminense
e Flamengo têm terrenos baldios, o estádio
do Botafogo é arrendado. Estamos melhores
do que qualquer outro em termos de patrimônio
e dívidas.
No Bangu, o time, com média de idade
de 20 anos e dirigido pelo técnico
Marcelo Cabo, é bem mais modesto do
que a história do clube, fundado em
17 de abril. De 37 a 49, quando era presidido
por Guilherme da Silveira Filho, dono da fábrica,
o time excursionava para o exterior em eventos
do setor têxtil e levava peças
de algodão como brindes para seus adversários.
Sob o comando do bicheiro Castor de Andrade,
os pagamentos eram fartos, feitos em dinheiro
vivo. Agora, não há mais um
grande provedor e o clube se ressente da prisão
dos empresários Reinaldo Pitta e Alexandre
Martins, parceiros no futebol profissional.
A empresa deles, a Gortin, paga os
salários de alguns jogadores. Claro
que a parceria fica prejudicada, mas vão
ficar o tempo que quiserem disse Rubinho,
que é sobrinho de Castor e braço
direito de Eduardo Viana na Federação.
Bangu tenta se livrar das ligações
com a contravenção
Apesar de o futebol ser gerido como empresa,
separado do clube, os números são
obscuros. Rubinho não revela para evitar
ações de credores. Ele diz que,
assim como a atividade social, o futebol dá
prejuízo. No passado, o Bangu aglutinava
toda a população do bairro,
com festas, bailes e shows. O carnaval, com
salão repleto por cinco mil foliões,
garantia o pagamento de despesas por cinco
meses. A festa acabou num bairro em que o
lazer passou a ser patrocinado pelo governo,
com lonas culturais e vilas olímpicas.
Restam os personagens da história,
como o ponta Marinho, vice-campeão
brasileiro de 85 que vive em Bangu e o lateral
Neco, reserva na conquista do último
título em 66.
Ninguém assume, mas eu digo
que tomava remédio para correr mais.
Também acho que fui gato, meu pai me
registrou quando eu já tinha 12 anos
e meu horóscopo sempre dá errado,
não bate nunca conta Neco, posando
ao lado do busto de Castor. Se balançar
é capaz de cair uma nota.
A estátua seria o troféu da
Taça Guanabara de 98, mas sua entrega
foi proibida pelo governo estadual por tratar-se
de apologia ao crime. Rubinho esclarece que
o clube não tem mais vínculo
com a contravenção e lembra
os problemas do passado com a legalidade.
O clube não foi punido por isso, é
passado. A maior ameaça, também
para o América, está no futuro.
Em Moça Bonita, a presidenta pioneira
O Bangu foi reconhecido com a Medalha
Tiradentes da Assembléia Legislativa
do Rio como o primeiro clube a abrir suas
portas a jogadores negros, com Manoel Maia,
em 1906. O clube, em seu site, também
reivindica para o bairro a primazia na realização
de um jogo de futebol no país, que
teria ocorrido em em abril de 1894 pelos pés
do escocês Donohoe. Mas, inegavelmente,
o Bangu é pioneiro ao ser comandado
por uma mulher. Rita de Cássia preside
o Conselho Diretor, responsável pelo
futebol, com boa aparência, mas não
se dá tanta importância:
Não sei se sou a primeira, devem
haver outras. Quem responde pelo clube é
o Rubinho mesmo disse, referindo-se
ao presidente de honra, Rubens Lopes.
Fátima se lembra dos bailes, dos shows
de Renato e Seus Blue Caps, mas admite não
ter na cabeça o time de 66.
Deveria saber, mas não sou a
única. Nem o técnico sabe qual
o time vai pôr em campo minutos antes.
No América, a força feminina
vem da torcida. A ex-nadadora Margaret Dawes
lembra o tempo em que os jogadores moravam
na pensão de seu pai, perto da rua
Campos Sales, que ela freqüenta até
hoje. Ruth Aragão Rodrigues, a Tia
Ruth, não esquece as cores do clube
ao se vestir, nem a data de aniversário
de seus eternos ídolos:
Ligo para todos, o seu é no
dia três de outubro, né?
diz, antes de abraçar Luisinho Lemos,
maior artilheiro do clube, com 392 gols, campeão
da Taça Guanabara em 74, da Copa dos
Campeões em 82 e terceiro no Brasileiro-86.
Eu era um peladeiro. Em 86, a gente
jogava de manhã pelo Brasileiro e à
tarde já estava na pelada em Icaraí.
Fonte:
Jornal O Globo (Repórter: Pedro Motta
Gueiros), 25/01/2004.