Rio de Janeiro, quarta-feira, 22 de novembro de 2017 - 20h00min
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A AGONIA DOS PEQUENOS

O rebaixamento do Bangu para a Segunda Divisão causou espanto e incômodo aos amantes do futebol. O clube da Zona Oeste, celeiro de craques de um passado centenário, parece ter chegado ao fundo do poço - carcomido e sem perspectivas. Triste realidade que o Jogo Extra encontrou em outros pequenos clubes suburbanos e que a partir de hoje será mostrada em uma série de reportagens

O Subúrbio pede socorro

Longe dos títulos e próximos da falência, o tormento dos pequenos clubes do Rio

O DEPRIMENTE retrato atual do Bangu: a tradicional sede social caindo aos pedaços
 
A FACHADA de uma das sedes sociais: o descaso em seis letras

Em 1981, o Olaria foi campeão da Taça de Bronze, terceira divisão do futebol brasileiro. No ano seguinte, foi a vez do Campo Grande levar a Taça de Prata, segunda divisão nacional. E faltou um pênalti bem batido para que o Bangu alcançasse o título brasileiro, em 85. Desde então, o cenário para os pequenos clubes do Subúrbio do Rio é a cada dia mais assustador.

Endividados, abandonados e sem o charme do Passado, Bangu, Campo Grande, São Cristóvão, Olaria, Madureira e até mesmo o América se perderam no curso da malsucedida política de interiorização do futebol do Estado. Obra de auditoria do bacharel em direito Eduardo Augusto Viana da Silva, 65 anos, presidente da Federação do Rio (Ferj), no cargo desde 1985.

Salvo exceções, como Americano e Friburguense, que disputam as semifinais da Taça Rio, o que se vê é o esfalecimento do que já era ruim e o enfraquecimento do que seria mediano. Os clubes do interior não acrescentaram um só título a sua história e os pequenos da capital são um retrato indigno e cruel de antigos celeiros de craque.

Bangu, o desleixo com a história

Glamour da sede erguida no início do século dá lugar ao abandono. Só 50 sócios pagam em dia

O BURACO no teto do corredor que leva ao salão nobre, trancado por grades: triste retrato
 
A QUADRA com tacos de madeira virou estacionamento: quem paga R$ 1 pára o carro

Rebaixado no ano do centenário. Talvez seja o castigo pelo descaso com a própria história. O Bangu hoje é um clube sem alma. A glamourosa sede social da Rua Cônego de Vasconcelos, erguida pelos ingleses no início do século passado, está abandonada, socorrida por estruturas metálicas que mancham sua beleza. O charmoso salão nobre, palco de bailes e peças teatrais que reuniam a nata do bairro, está trancado por grades. Como um livro de páginas arrancadas, a festa dos 100 anos, dia 17 de abril, não será escrita ali. A diretoria preferiu fazê-la numa casa de festas.

Dentro da sede, o cenário é desalentador. O corredor que dá acesso ao salão nobre assusta. Buracos e infiltrações no teto são convidados nada de honra.

- A sede abondonada é um crime. Meu pai cuidava com muito carinho de tudo. Se estivesse vivo, ficaria triste - lamenta Alice da Silveira, filha do industrial Guilherme da Silveira, de quem o Estádio Proletário leva o nome. Dono da Fábrica de Tecidos Bangu, foi ele quem fez a fusão do clube de funcionários da fábrica ao Bangu Atlético Clube, em 1939.

O ginásio do clube virou estacionamento. Por R$ 1 pode-se deixar o carro sobre os tacos de madeira onde José Carlos Moura, filho de Vivi, campeão carioca de futebol pelo Bangu em 33, foi campeão brasileiro juvenil de vôlei, em 56.

- Isso dói demais - chora José Carlos.

Será difícil mudar o curso da história. Segundo o presidente social João Paulo Giancristóforo, só 50 sócios pagam em dia a mensalidade de R$ 30. Os salários estão atrasados.

- São três ou quatro meses. Não é muito. Quem entra para trabalhar aqui, já sabe que atrasa - minimiza o presidente.

A receita social por mês é de R$ 15 mil, metade do necessário para não operar no vermelho. A única fonte de renda é o aluguel do salão para eventos. Nem assim perde-se a pose.

- O Flamengo está pior que a gente. Com R$ 2 milhões, saldamos as dívidas. O Flamengo deve R$ 200 milhões - ironiza o dirigente.


Estádio decente

O Estádio de Moça Bonita sem melhorias e ainda longe da modernidade

No futebol, o Estádio de Moça Bonita não passa vergonha. Está longe da modernidade, mas com a pintura em dia, razoável conservação e gramado decente.

A vergonha foi no campo, mas a presidente do futebol Rita de Cássia e o todo-poderoso Rubens Lopes falam em virada de mesa.

- É preciso começar do zero - aconselha Ademir da Guia, grande ídolo do Palmeiras, criado em Bangu.


ENTREVISTA:
Peri Cozer - Presidente da Democracia Banguense

"Fizeram do clube uma casa de negócios"

A revolta com a atual administração do Bangu fez com que sócios e moradores do bairro criassem em 2003 um movimento de oposição, a Democracia Banguense. A maior crítica é a falta de transparência da diretoria. Peri Cozer, líder do grupo, acabou excluído do clube, junto com 300 sócios. A diretoria alega inadimplência. A briga parou na justiça.

- Qual o objetivo da Democracia Banguense?

- Nosso grupo é de gente da comunidade. O rebaixamento foi conseqüência do descaso desta diretoria. O clube está abandonado. Fizeram de lá uma casa de negócios. Queremos resgatar os valores éticos e morais.

- Por que vocês entraram na justiça?

- Foram mais de 300 sócios expulsos. Alegam que foi falta de pagamento. Mas quem faz oposição, eles eliminam. É uma ditadura. Deram prazo de 30 dias para quitação de débito. Fui pagar no prazo e não me deixaram. Outros estão nessa situação. Além da ação de reintegração, temos outra solicitando a prestação de contas da diretoria. Ninguém tem acesso à contabilidade.

Saudades de velhos ídolos

Marinho e Mauro Galvão participaram da última conquista do Bangu, a Taça Rio de 87

REENCONTRO DE ÍDOLOS em Bangu: Marinho e Mauro Galvão relembram tempos inesquecíveis

O reencontro entre Mauro Galvão e Marinho na porta de Moça Bonita é emocionante. O aperto de mão é repleto de afeto. Remete a boas lembranças. Foram dois dos últimos ídolos de um Bangu que metia medo. Um passado não tão longe. Mas infinitamente distante do momento atual. Um clube rebaixado, sem ídolos, sem identidade. Sem ao menos um patrono que um dia passou a ser o símbolo que o representa até hoje: castor.

- Na minha época, o bicho era pago no vestiário. O Castor (de Andrade, ex-presidente e patrono na época) abria a mala, tirava o dinheiro e pagava ali mesmo - recorda Galvão, preocupado com o futuro do clube:

- O Bangu abriu as portas do futebol carioca para mim. Torço para que não se apequene. A situação é ruim com o rebaixamento. A gente teme que não possa mais voltar a ser forte.

Galvão viaja no tempo. Impossível esquecer Marinho, o símbolo da equipe.

- O Marinho era um grande jogador, o mais identificado com o Bangu. Decidiu vários jogos para nós. Sua alegria era contagiante. Ali, ele era rei - conta Galvão, que se transferiu, junto com Marinho, para o Botafogo, em 1988.

- Teve um treino que o Galvão levou uma entrada forte e caiu. O Castor desceu da tribuna, com a arma na mão, querendo saber o que tinha acontecido. Não tinha acontecido nada. O Galvão tinha machucado a unha - divertiu-se Marinho.

Bons tempos. Mas bastou Marinho sair do Bangu para a vida dele entrar em parafuso. Perdeu tudo. Só não perdeu o bom-humor.

- Hoje, estou fazendo macumba com caldo Knor porque não tenho dinheiro para comprar o frango.

- O Marinho sempre foi assim - sorriu Galvão.

E o Bangu nunca mais foi o mesmo sem Marinho e Mauro Galvão.

MEMÓRIA: Anos dourados do Bangu

Da família Da Guia ao Mestre Ziza

Fotos de arquivo
ZIZINHO, "Mestre Ziza", atacante mais completo antes da era Pelé
 
DOMINGOS DA GUIA, "Divino Mestre", do clã dos Da Guia

Dos irmãos Da Guia - Luiz Antônio, Ladislau, Médio e Domingos, o "Divino Mestre" -, passando por Fausto dos Santos, a "Maravilha Negra" da Copa de 1930, até Zizinho, "Mestre Ziza", o mais completo atacante brasileiro até surgir Pelé, o Bangu sempre teve tradição de contar com excelentes jogadores. Muitos deles da seleção brasileira. Em 33, o clube conquistou seu peimeiro título carioca.

Na década de 50, o Bangu teve o zagueiro Zózimo, bicampeão mundial com a seleção. Na de 60, Paulo Borges, Ubirajara, Parada, Fidélis. Em 66, veio o segundo título carioca.

Na década de 70, vieram Dé e Jorge Mendonça. Em 80, o uruguaio Pedro Rocha e Marco Antônio. Até chegar à geração vice-campeã carioca e brasileira, em 85, com Arturzinho, Paulinho Criciúma, Cláudio Adão, Mauro Galvão, Marinho. O último título foi a Taça Rio de 1987.

Fonte: Jornal Extra, 28/03/2004.
Reportagem: Guilherme Van Der Laars e Leslie Leitão.
Fotos: Eurico Dantas.

     
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