A AGONIA DOS PEQUENOS
O
rebaixamento do Bangu para a Segunda Divisão
causou espanto e incômodo aos amantes
do futebol. O clube da Zona Oeste, celeiro
de craques de um passado centenário,
parece ter chegado ao fundo do poço
- carcomido e sem perspectivas. Triste
realidade que o Jogo Extra encontrou em
outros pequenos clubes suburbanos e que
a partir de hoje será mostrada
em uma série de reportagens
O
Subúrbio pede socorro
Longe dos títulos e próximos
da falência, o tormento dos pequenos clubes
do Rio
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O
DEPRIMENTE retrato atual do Bangu: a tradicional
sede social caindo aos pedaços
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A
FACHADA de uma das sedes sociais: o descaso
em seis letras
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Em
1981, o Olaria foi campeão da Taça
de Bronze, terceira divisão do
futebol brasileiro. No ano seguinte, foi
a vez do Campo Grande levar a Taça
de Prata, segunda divisão nacional.
E faltou um pênalti bem batido para
que o Bangu alcançasse o título
brasileiro, em 85. Desde então,
o cenário para os pequenos clubes
do Subúrbio do Rio é a cada
dia mais assustador.
Endividados, abandonados e sem o charme
do Passado, Bangu, Campo Grande, São
Cristóvão, Olaria, Madureira
e até mesmo o América se
perderam no curso da malsucedida política
de interiorização do futebol
do Estado. Obra de auditoria do bacharel
em direito Eduardo Augusto Viana da Silva,
65 anos, presidente da Federação
do Rio (Ferj), no cargo desde 1985.
Salvo exceções, como Americano
e Friburguense, que disputam as semifinais
da Taça Rio, o que se vê
é o esfalecimento do que já
era ruim e o enfraquecimento do que seria
mediano. Os clubes do interior não
acrescentaram um só título
a sua história e os pequenos da
capital são um retrato indigno
e cruel de antigos celeiros de craque.
Bangu,
o desleixo com a história
Glamour da sede erguida
no início do século dá
lugar ao abandono. Só 50 sócios
pagam em dia
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| O
BURACO no teto do corredor que leva
ao salão nobre, trancado
por grades: triste retrato |
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| A
QUADRA com tacos de madeira virou
estacionamento: quem paga R$ 1 pára
o carro |
Rebaixado
no ano do centenário. Talvez seja
o castigo pelo descaso com a própria
história. O Bangu hoje é
um clube sem alma. A glamourosa sede social
da Rua Cônego de Vasconcelos, erguida
pelos ingleses no início do século
passado, está abandonada, socorrida
por estruturas metálicas que mancham
sua beleza. O charmoso salão nobre,
palco de bailes e peças teatrais
que reuniam a nata do bairro, está
trancado por grades. Como um livro de
páginas arrancadas, a festa dos
100 anos, dia 17 de abril, não
será escrita ali. A diretoria preferiu
fazê-la numa casa de festas.
Dentro da sede, o cenário é
desalentador. O corredor que dá
acesso ao salão nobre assusta.
Buracos e infiltrações no
teto são convidados nada de honra.
- A sede abondonada é um crime.
Meu pai cuidava com muito carinho de tudo.
Se estivesse vivo, ficaria triste - lamenta
Alice da Silveira, filha do industrial
Guilherme da Silveira, de quem o Estádio
Proletário leva o nome. Dono da
Fábrica de Tecidos Bangu, foi ele
quem fez a fusão do clube de funcionários
da fábrica ao Bangu Atlético
Clube, em 1939.
O ginásio do clube virou estacionamento.
Por R$ 1 pode-se deixar o carro sobre
os tacos de madeira onde José Carlos
Moura, filho de Vivi, campeão carioca
de futebol pelo Bangu em 33, foi campeão
brasileiro juvenil de vôlei, em
56.
- Isso dói demais - chora José
Carlos.
Será difícil mudar o curso
da história. Segundo o presidente
social João Paulo Giancristóforo,
só 50 sócios pagam em dia
a mensalidade de R$ 30. Os salários
estão atrasados.
- São três ou quatro meses.
Não é muito. Quem entra
para trabalhar aqui, já sabe que
atrasa - minimiza o presidente.
A receita social por mês é
de R$ 15 mil, metade do necessário
para não operar no vermelho. A
única fonte de renda é o
aluguel do salão para eventos.
Nem assim perde-se a pose.
- O Flamengo está pior que a gente.
Com R$ 2 milhões, saldamos as dívidas.
O Flamengo deve R$ 200 milhões
- ironiza o dirigente.
Estádio decente
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| O
Estádio de Moça Bonita
sem melhorias e ainda longe da modernidade |
No
futebol, o Estádio de Moça
Bonita não passa vergonha. Está
longe da modernidade, mas com a pintura
em dia, razoável conservação
e gramado decente.
A vergonha foi no campo, mas a presidente
do futebol Rita de Cássia e o todo-poderoso
Rubens Lopes falam em virada de mesa.
- É preciso começar do zero
- aconselha Ademir da Guia, grande ídolo
do Palmeiras, criado em Bangu.
ENTREVISTA:
Peri Cozer - Presidente
da Democracia Banguense
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| "Fizeram
do clube uma casa de negócios" |
A
revolta com a atual administração
do Bangu fez com que sócios e moradores
do bairro criassem em 2003 um movimento
de oposição, a Democracia
Banguense. A maior crítica é
a falta de transparência da diretoria.
Peri Cozer, líder do grupo, acabou
excluído do clube, junto com 300
sócios. A diretoria alega inadimplência.
A briga parou na justiça.
- Qual o objetivo da Democracia Banguense?
- Nosso grupo é de gente da comunidade.
O rebaixamento foi conseqüência
do descaso desta diretoria. O clube está
abandonado. Fizeram de lá uma casa
de negócios. Queremos resgatar
os valores éticos e morais.
- Por que vocês entraram na justiça?
- Foram mais de 300 sócios expulsos.
Alegam que foi falta de pagamento. Mas
quem faz oposição, eles
eliminam. É uma ditadura. Deram
prazo de 30 dias para quitação
de débito. Fui pagar no prazo e
não me deixaram. Outros estão
nessa situação. Além
da ação de reintegração,
temos outra solicitando a prestação
de contas da diretoria. Ninguém
tem acesso à contabilidade.
Saudades
de velhos ídolos
Marinho e Mauro Galvão participaram
da última conquista do Bangu, a
Taça Rio de 87
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| REENCONTRO
DE ÍDOLOS em Bangu: Marinho
e Mauro Galvão relembram
tempos inesquecíveis |
O
reencontro entre Mauro Galvão e
Marinho na porta de Moça Bonita
é emocionante. O aperto de mão
é repleto de afeto. Remete a boas
lembranças. Foram dois dos últimos
ídolos de um Bangu que metia medo.
Um passado não tão longe.
Mas infinitamente distante do momento
atual. Um clube rebaixado, sem ídolos,
sem identidade. Sem ao menos um patrono
que um dia passou a ser o símbolo
que o representa até hoje: castor.
- Na minha época, o bicho era pago
no vestiário. O Castor (de Andrade,
ex-presidente e patrono na época)
abria a mala, tirava o dinheiro e pagava
ali mesmo - recorda Galvão, preocupado
com o futuro do clube:
- O Bangu abriu as portas do futebol carioca
para mim. Torço para que não
se apequene. A situação
é ruim com o rebaixamento. A gente
teme que não possa mais voltar
a ser forte.
Galvão viaja no tempo. Impossível
esquecer Marinho, o símbolo da
equipe.
- O Marinho era um grande jogador, o mais
identificado com o Bangu. Decidiu vários
jogos para nós. Sua alegria era
contagiante. Ali, ele era rei - conta
Galvão, que se transferiu, junto
com Marinho, para o Botafogo, em 1988.
- Teve um treino que o Galvão levou
uma entrada forte e caiu. O Castor desceu
da tribuna, com a arma na mão,
querendo saber o que tinha acontecido.
Não tinha acontecido nada. O Galvão
tinha machucado a unha - divertiu-se Marinho.
Bons tempos. Mas bastou Marinho sair do
Bangu para a vida dele entrar em parafuso.
Perdeu tudo. Só não perdeu
o bom-humor.
- Hoje, estou fazendo macumba com caldo
Knor porque não tenho dinheiro
para comprar o frango.
- O Marinho sempre foi assim - sorriu
Galvão.
E o Bangu nunca mais foi o mesmo sem Marinho
e Mauro Galvão.
MEMÓRIA:
Anos dourados do Bangu
Da família Da Guia ao Mestre
Ziza
| Fotos
de arquivo |
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| ZIZINHO,
"Mestre Ziza", atacante
mais completo antes da era Pelé |
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| DOMINGOS
DA GUIA, "Divino Mestre",
do clã dos Da Guia |
Dos
irmãos Da Guia - Luiz Antônio,
Ladislau, Médio e Domingos, o "Divino
Mestre" -, passando por Fausto dos
Santos, a "Maravilha Negra"
da Copa de 1930, até Zizinho, "Mestre
Ziza", o mais completo atacante brasileiro
até surgir Pelé, o Bangu
sempre teve tradição de
contar com excelentes jogadores. Muitos
deles da seleção brasileira.
Em 33, o clube conquistou seu peimeiro
título carioca.
Na década de 50, o Bangu teve o
zagueiro Zózimo, bicampeão
mundial com a seleção. Na
de 60, Paulo Borges, Ubirajara, Parada,
Fidélis. Em 66, veio o segundo
título carioca.
Na década de 70, vieram Dé
e Jorge Mendonça. Em 80, o uruguaio
Pedro Rocha e Marco Antônio. Até
chegar à geração
vice-campeã carioca e brasileira,
em 85, com Arturzinho, Paulinho Criciúma,
Cláudio Adão, Mauro Galvão,
Marinho. O último título
foi a Taça Rio de 1987.
Fonte:
Jornal Extra, 28/03/2004.
Reportagem: Guilherme Van Der Laars e
Leslie Leitão.
Fotos: Eurico Dantas.