DIFÍCIL
HORA DE LARGAR A CHUTEIRA
Poucos
jogadores de futebol souberam guardar
dinheiro para garantir aposentadoria.
Maioria sofre com problemas financeiros
| Foto:
O Dia |
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| Marinho,
ex-Bangu, viveu dias de fama e
riqueza e hoje está pobre.
Sem emprego, já pensa em
trabalhar como motorista de ônibus
ou trocador |
Nada
mais difícil para o jogador de
futebol do que saber a hora de parar.
Muitos desafiam o tempo e tentam se
manter na ativa - principalmente porque
não conseguiram guardar dinheiro
para uma aposentadoria tranqüila
ou porque não sabem fazer outra
coisa.
O despreparo para encarar a vida fora
das quatro linhas é o último
capítulo da série que
o ATAQUE apresentou, mostrando a dura
realidade da profissão de jogador
de futebol. Ídolos que conviveram
com estádios lotados e a fama,
e que não souberam se preparar
para o fim de carreira.
A Fundação de Garantia
ao Atleta Profissional (Fugap) é
uma das poucas entidades a dar algum
tipo de auxílio a estes ex-jogadores.
A entidade fornece assistência
a 18 ex-atletas, doando cesta básica
e ajudando com R$ 200 por mês.
Sem os quais, eles não teriam
como viver.
"Apesar da falta de maior apoio,
vamos tocando o barco, pois temos responsabilidade
com as pessoas que dependem de nós",
comentou Édson Souza, ex-jogador
do Fluminense na década de 80
e há um ano à frente da
entidade. Ele lembra que a situação
da Fugap não é muito melhor
da dos ex-atletas que ajuda.
"Recebemos apenas 2% da renda líquida
dos jogos no Maracanã. Enfrentamos
problemas de repasse desse dinheiro,
principalmente em jogos do Fluminense.
A Federação empurra a
solução para a Suderj,
que faz o mesmo em relação
à Federação. A
alegação é de que
o dinheiro foi penhorado pela Justiça",
lamenta.
Ex-jogador do Botafogo precisa de
cesta básica
Por determinação do departamento
de assistência social da Fugap,
seus beneficiados não podem dar
entrevista, para evitar constrangimentos.
Mas não faltam exemplos de ex-jogadores
que conheceram tardes de glória
no Maracanã, e hoje precisam
de auxílio para sobreviver.
"Há um ex-jogador do grande
time Botafogo, dos anos 60 e 70 (Nei
Conceição), que tinha
Afonsinho, Paulo César Caju,
Carlos Roberto, Gérson, entre
outros. Ele recebe a cesta básica
da Fugap", conta Édson.
Um dos casos mais conhecidos e comoventes
é o do ex-ponta-direita Marinho,
que começou no Atlético-MG,
mas conquistou fama e fortuna jogando
pelo Bangu do bicheiro Castor de Andrade,
na década de 80. Chegou, inclusive,
a ser convocado para a Seleção
por Telê Santana.
Depois de enfrentar o trauma da morte
do filho e não se estruturar
para encerrar a carreira, Marinho mergulhou
no álcool e nas drogas, e por
pouco não teve de mendigar. Hoje,
encontra-se desempregado. Mas ele ainda
sonha com dias melhores e espera voltar
ao seu Bangu. Dessa vez, como treinador.
E sabe que, aos jovens, terá
muito a ensinar. Especialmente, como
se preparar para os dias de esquecimento
e solidão.
O
drama de quem conheceu dias de ídolo
| Foto:
O Dia |
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| 'Preciso
trabalhar. Sem ocupação,
perco a dignidade'
Marinho, ex-jogador do Bangu,
Botafogo e Seleção
Brasileira, 47 anos |
Mansão
em Jacarepaguá, carros importados,
muito dinheiro no bolso, noitadas...
Todo esse luxo fez parte da vida do
ex-jogador Marinho, de 47 anos, que
brilhou no Bangu, Botafogo e seleção
brasileira. Desempregado há três
meses, ele contou seu drama: como se
envolveu com drogas (cocaína)
e quase virou mendigo. Em busca de emprego,
Marinho faz um apelo: "Preciso
trabalhar. Um homem sem ocupação
perde a dignidade".
Como chegou a esse ponto?
Quando eu estava no auge, recebia
30 telefonemas por dia. Agora, ninguém
me procura oferecendo ajuda. Só
ligam quando precisam de você.
Se não fosse a minha mulher segurar
a barra... (os olhos de Marinho se enchem
de lágrimas ao falar de Liza
Minelli, secretária, com quem
está casado há 15 anos).
Qual é a sua fonte de renda?
Nenhuma. Trabalhei muito tempo no Bangu
e nos últimos tempos estava no
Ceres (2ª Divisão), onde
ganhava R$ 800. A Universidade Estácio
de Sá assumiu o clube e fui dispensado.
Só vou suportar mais um mês
parado. Depois, abandonarei de vez o
futebol e procurarei emprego de motorista
de ônibus e até de trocador.
Você não se aposentou?
Faltam quatro anos. Tenho dependido
até de médicos amigos
para socorrer a mim e a meus parentes
(mora em Padre Miguel, com Liza e os
filhos do casal, Stevie Wonder (13 anos)
e Laiz de Minelli (11).
Como é viver dessa forma
já tendo sido rico?
A sensação é de
perda. Ganhava de salário o equivalente,
hoje, a R$ 100 mil. Mas acabei me deslumbrando
com o sucesso e esbanjei com bebida,
noitadas e drogas.
Como foi que isso aconteceu?
A partir da morte do meu filho (Marlon,
de 1 ano e meio), em 88. Tentei salvar
o menino, que estava se afogando na
piscina da minha casa, mas não
consegui. Ele faleceu nos meus braços.
Até hoje tenho a imagem dessa
trágica cena dentro de mim. Depois,
perdi o tesão pela vida.
E as drogas?
Fui na onda das más companhias
e a minha vida descambou. Cheirava cocaína,
mas há dez anos me livrei do
vício. 'Pardal que acompanha
joão-de-barro amanhece pedreiro'
(riu, ironizando a própria desgraça).
Em que momento você buscou
ajuda?
No dia em que vagava pela rua, sob chuva,
de camiseta, calção e
chinelo de dedo, e estava a um passo
de me tornar mendigo.
O que ainda espera do futebol?
O meu sonho é ser técnico
do Bangu e ajudar o clube a voltar à
Primeira Divisão do Rio.
Marco Antônio, herói
no México, tem três empregos
| Foto:
Carlos Moraes (O Dia) |
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Do
ensolarado e festivo Estádio
Azteca, no México, em 1970, para
o árido campo do Fazenda, em
Vilar dos Teles, comandando a peneira
do clube da Terceirona do Rio. Um dos
heróis da conquista do tricampeonato
mundial pela seleção brasileira,
o ex-lateral-esquerdo Marco Antônio
tem consciência, hoje, do quanto
é importante fazer um pé-de-meia
ao longo da curta carreira de jogador
de futebol, para garantir uma aposentadoria
tranqüila.
Tive uma ascensão rápida.
Cheguei ao Santos, com 16 anos, e aos
18 já me sagrei campeão
do mundo. Não estava preparado
para a fama repentina. Passei a chegar
atrasado aos treinos, às vezes
nem aparecia no clube, e gostava de
ir aos barzinhos, à noite. Comportamento
que prejudicou minha imagem. Mas sabia
jogar bola. Eu era um mal necessário,
reconheceu Marco, que só não
consegue se livrar do cigarro, vício
cultivado desde a época de jogador.
Aos 53 anos, o ex-craque não
está passando necessidade, mas
precisa atuar em três frentes
de trabalho para tocar sua vida: é
um dos organizadores do Fazenda, coordena
escolinhas de futebol para crianças
carentes (projeto da prefeitura) e realiza
partidas com o master do Bangu.
Contribuição para
poder garantir aposentadoria
Para que possa se aposentar daqui a
três anos, Marco Antônio
paga a contribuição de
R$ 266,06 ao INSS. Um futuro reforço
na renda da família, que mora
no bairro Cerâmica, em Nova Iguaçu.
O ex-jogador, porém, não
se lamenta da sorte. Aproveita o contato
com os garotos para alertá-los
a não repetir os erros cometidos
por ele na juventude. O ex-lateral atuou
no Fluminense, Vasco, Bangu e Botafogo.
Encerrou sua carreira, em 84, no Alvinegro,
aos 34 anos.
Fonte:
O Dia (Repórter Marco Senna),
09/06/2004.