PERFIL
- Rubens Lopes, Presidente em exercício
da Federação de Futebol do Rio
UM RÓTULO DIFERENTE PARA A MESMA CAIXA
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Foto:
Cezar Loureiro (O Globo)
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RUBENS
LOPES, posa ao lado das fotos de Eduardo
Viana e Álvaro Bragança,
ex-presidentes da Ferj: "Prefiro
ficar mais ao lado do Bragança"
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Dirigente
rejeita Eduardo Viana, velho aliado político,
mas prega virada de mesa e é acusado
de perseguir juízes
Na
hora de posar para a foto, entre as imagens
dos ex-presidentes Eduardo Viana e Álvaro
Bragança, o atual comandante da Federação
de Futebol do Rio, Rubens Lopes, usou e abusou
do sarcasmo:
Prefiro ficar mais ao lado do Bragança.
O comentário, estranhamente, sai da
boca de um velho aliado político de
Caixa DÁgua, que só se
sentou na mesma cadeira do amigo por ter sido
seu vice-presidente geral. Agora, três
meses depois do afastamento de Eduardo Viana
pela Justiça, acusado de envolvimento
na máfia da evasão de renda
no Maracanã, Rubens Lopes tenta, de
todas as maneiras, libertar sua imagem da
do antecessor. Para muitos, porém,
sua história no futebol o credita para
a mesma escola de dirigentes de Caixa DÁgua
e do presidente do Vasco, Eurico Miranda.
Ele é mais técnico e
eu sou mais político, mas não
somos muito diferentes reforça
Eduardo Viana.
Assim como ele, Rubinho, como é chamado,
tem compromissos com um clube de menor porte
do estado. Presidente de honra do Bangu, já
foi alvo de críticas de árbitros
que se sentiram pressionados em jogos do clube,
a exemplo de Caixa em relação
ao Americano. A mais famosa aconteceu na semifinal
contra o Fluminense, no Estadual de 2002,
quando Rubinho já tinha força
na Federação. Depois de errar
contra o Bangu, Reinaldo Ribas jamais voltou
a apitar.
Ele se aposentou por ter estourado
o limite de 45 anos diz Rubinho, ignorando
que no Estadual não é raro ver
juízes trabalhando até os 50
anos.
Mesmos aliados e inimigos
Desde que assumiu a Federação,
dia 8 de dezembro, os atritos com os juízes
continuaram. Embora fale em mudanças
radicais no apito, manteve a mesma comissão
de arbitragem de Caixa DÁgua.
Abriu guerra contra o sindicato da categoria,
que teve de desistir de um contrato publicitário
que dava uma renda extra aos juízes.
Estranhamente, toda a diretoria pediu demissão.
O presidente recém-eleito, Jorge Rabelo,
o único que não renunciou, não
vai apitar neste campeonato. Assim como acontecia
com Caixa, só critica Rubinho quem
já largou o apito, já que não
pode mais sofrer represálias.
O Eduardo fez muito mal à arbitragem
mas, com o Rubinho, os juízes vão
sentir falta dele. O que um é para
o Americano, o outro é para o Bangu
diz o ex-juiz Jorge Travassos.
Rubinho sustenta que a profissão de
juiz de futebol não é regulamentada
e, por isso, não há necessidade
de sindicato.
O juiz tem autonomia dentro de campo,
mas a arbitragem não pode ser independente
porque deve atender à filosofia da
Federação diz o dirigente,
num discurso que poderia ser colocado na boca
de Eduardo Viana.
A pretensa modernidade da administração
de Rubinho também admite virada de
mesa, prática comum na gestão
de Caixa DÁgua. Durante todo
o ano passado, ele pregou a manutenção
do seu Bangu na Primeira Divisão do
Estadual.
O mapa político da Ferj foi outra coisa
que não mudou. Entre os quatro clubes
grandes, os aliados e os inimigos da entidade
são os mesmos. Botafogo e Flamengo
fazem críticas; Vasco e Fluminense,
afagos. A diretoria alvinegra emitiu nota
oficial esta semana lamentando que o Estadual
de 2005 venha nas suas primeiras rodadas apresentando
os mesmos sintomas de falta de organização
e seriedade de competições
anteriores.
Não mudou nada. Ele manteve
a comissão de arbitragem e rejeitou
mudanças na gestão financeira
do campeonato completa o presidente
do Flamengo, Márcio Braga.
Viana: "Rubinho aprovava tudo"
Como principais bandeiras
de mudança em relação
à gestão de Caixa DÁgua,
Rubinho cita o enxugamento administrativo
e a extinção da Coopeb, a cooperativa
do quadro móvel que se tornou insustentável
por ser apontada pelo Ministério Público
como instrumento da evasão de renda.
Admiro a cultura e a articulação
política do Eduardo, mas ele foi um
péssimo administrador. Já avisava
a ele que a Coopeb era um problema e, por
isso, acabei com ela afirma Rubinho.
O Rubinho aprovava tudo o que eu fazia.
E, na verdade, quem acabou com a Coopeb foi
o Plínio Jordão, que foi o primeiro
a assumir quando fui afastado corrige
Viana.
O passado de Rubinho e Caixa DÁgua
não combina com os discursos divergentes.
Afinados politicamente, a relação
ficou mais próxima depois que Viana
sofreu enfarto em 1997. Médico, o ex-presidente
do Bangu o atendeu prontamente.
Salvei a vida dele diz.
Talvez por isso Viana seja menos crítico
com o aliado ou ex-aliado. Considera
Rubinho competente e, por isso, o chamou para
vice na última eleição.
O atual presidente conta que só aceitou
porque Caixa DÁgua lhe prometera
concorrer à presidência da CBF
e, assim, deixar-lhe o cargo. Apesar da ambição
política, Rubens Lopes diz que ainda
não pensa em reeleição.
Mas, se o exemplo for o Bangu, ele vai querer
se perpetuar no poder, como Eurico faz no
Vasco e Viana ainda tenta fazer na Ferj. Já
foi duas vezes presidente do clube, pôs
um cunhado no cargo e a filha é do
Conselheiro Deliberativo. Desde que assumiu
pela primeira vez a presidência, em
1989, sempre elegeu o sucessor, à exceção
da última eleição. Pelo
menos, oficialmente.
Ele apoiou candidato biônico
para evitar a oposição. O que
venceu (Ângelo Marques) também
é da situação
diz Peri Cozer, um dos 350 sócios afastados
pelas últimas diretorias.
Testemunha da queda do Bangu
O candidato biônico
foi uma das técnicas usadas por Viana
na última eleição da
Ferj. A oposição do Bangu denuncia
outra, esta usada por Eurico Miranda no Vasco.
Para manter o Conselho Deliberativo sob o
poder da situação, exige-se
que a chapa seja referendada pelos Grandes
Beneméritos. Detalhe: estes são
apenas três, sendo que um recebeu o
título de Rubinho e outro é
o próprio.
A único forma de tirar a turma do Rubinho
é à força, mas quem usa
deste expediente são eles diz
o ex-diretor de patrimônio histórico
do clube Carlos Molinari.
Rubinho foi levado ao Bangu pelo tio, o bicheiro
Castor de Andrade. Dele, critica o descaso
com o patrimônio do clube e elogia a
capacidade de fazer times competitivos, um
deles vice-campeão brasileiro. No primeiro
ano de Rubinho na presidência, o Bangu
caiu para a Terceira Divisão do Brasileiro.
Sob a administração de Rita
de Cássia, uma ex-secretária
de Rubinho, caiu para a Segunda Divisão
do Estadual.
Caímos por forças ocultas,
depois que entrei em atrito com o Eduardo
por causa do vice-presidente de relações
externas (Chico Aguiar, também afastado
por decisão judicial) justifica
Rubinho.
O atrito pode ter atrapalhado a virada de
mesa mas as atuações do Bangu
em campo explicam o rebaixamento. A pífia
campanha no Estadual incluiu uma goleada de
5 a 1 para o América. Mantido pelos
empresários Reinaldo Pitta e Alexandre
Martins, condenados a 11 anos de prisão
no escândalo do propinoduto, o time
ainda foi eliminado da Copa do Brasil dentro
de Moça Bonita, sem as forças
ocultas da Ferj. Seria outra coincidência
entre Rubinho e Caixa DÁgua a
decadência do Bangu e do futebol carioca?.
Viana não se dá por vencido
O Rubinho não
é presidente da Federação.
Ele está presidente.
A
frase de Eduardo Viana deixa claro sua intenção
de voltar ao cargo que só largou sob
ordens da Justiça, quase 20 anos depois
de assumi-lo. Enquanto se dedica ao tratamento
de um caso grave de insuficiência renal,
o dirigente diz que está debruçado
noite e dia sobre o processo que lhe apontou
como artífice intelectual
da evasão de renda no Maracanã.
Confio na minha absolvição
diz.
No dia 14 de outubro, o juiz da 37 Vara Criminal,
Geraldo Prado, determinou o afastamento de
Viana e de mais cinco dirigentes da Ferj,
acusados de formação de quadrilha,
estelionato, fraude processual e falsidade
ideológica. A Justiça negou
na última terça-feira hábeas-corpus
que levaria Viana de volta ao cargo. No dia
1 de fevereiro, serão ouvidos vários
dirigentes, entre eles Rubens Lopes. Não
se sabe ainda se, a esta altura, ele será
testemunha de defesa ou acusação.
Fonte:
Jornal O Globo (Repórter: Fellipe Awi),
30/01/2005.