Ademir
da Guia volta a Moça Bonita para filmar
documentário sobre sua vida
Foto:
Jair Motta (Jornal dos Sports)
Começaram
ontem em Bangu as filmagens do documentário
"Um Craque Chamado Divino", de Penna
Filho. O diretor, que também assina
o roteiro do longa-metragem, é, como
todo fã de futebol, um admirador confesso
de Ademir da Guia. Penna conseguiu um grande
acervo de fotos e filmes antigos, que resgatam
toda a mestria de Ademir não só
nos gramados do mundo como também fora
deles. A infância de Ademir no subúrbio
carioca terá um espaço de destaque
na obra, que reúne depoimento de ex-jogadores,
jornalistas e personalidades que apreciavam
seu futebol. Gérson e Leivinha, entre
outros, falam sobre o Divino no documentário.
Um dos mais elegantes jogadores brasileiros,
dentro e fora de campo, Ademir da Guia, o
Divino, nasceu e foi criado em Bangu, Zona
Oeste do Rio de Janeiro. Filho de Domingos
da Guia, considerado o melhor zagueiro-central
do futebol brasileiro de todos os tempos,
Ademir começou a jogar pelo Bangu,
a exemplo de seu pai. Muitos não sabem,
mas antes de demonstrar o seu talento no gramado
de Moça Bonita Ademir foi campeão
de natação vestindo a touca
vermelha e branca. O meia, que disputou a
Copa do Mundo de 1974, na Alemanha, transferiu-se
para o Palmeiras em 1961 e ostenta a posição
de terceiro maior atilheiro do clube paulista
e de ídolo de seus torcedores. Abaixo,
alguns detalhes da carreira e da vida do ex-craque.
Início - "Comecei, como
todo garoto, jogando peladas nos campinhos
de várzea. Mas antes disso nadei algum
tempo pelo Bangu e conquistei várias
medalhas. Anos depois, ingressei no futebol."
Bangu - "Bairro e clube estarão
para sempre marcados na minha vida. Lá
nasci e fui criado, além de ter dados
os meus primeiros chutes por lá. Fiquei
pouco tempo no clube, mas fiz muitos amigos.
Cheguei a trabalhar na Fábrica de Tecidos
por quatro meses, mas não levava muito
jeito como operário."
Relação com o pai - "Ele
sempre me incentivou. Chegou a ser meu técnico,
quando era garoto. Aprendi muito com ele,
embora nossas posições fossem
diferentes."
Palmeiras - "O Bangu fez uma excursão
a Campinas e o técnico do Guarani Armando
Renganeschi gostou do meu futebol e me indicou
à diretoria. Mas naquele momento nada
ocorreu. Pouco tempo depois, Renganeschi havia
sido contratado pelo Palmeiras e viabilizou
minha ida para o Parque Antártica."
Ídolo - "Gostava muito
de ver Rubens, que atuou por Flamengo e Vasco,
jogar. Admirava o seu estilo de jogo, ofensivo.
Também era fã de Zizinho. Hoje
em dia, aprecio o futebol de Robinho."
Seleção Brasileira -
"Tive a sorte de pertencer a uma geração
privilegiada, repleta de craques. Não
defendi muito a Seleção, mas
disputei uma Copa (a de 74), que era um dos
meus sonhos."
Rótulo - "Quando cheguei
a São Paulo, muitos diziam que eu era
um jogador lento. Na verdade, o futebol carioca
era mais cadenciado do que o paulista e por
isso tive um pouco de dificuldade no início.
Mas procurei adaptar-me."
Documentário - "Fico muito
feliz com o reconhecimento das pessoas. Isso
é muito importante na vida de qualquer
um."
Um passeio por onde tudo começou
Mesmo há muito tempo em São
Paulo, Ademir não esqueceu suas origens.
"Sempre que posso dou um pulo aqui em
Bangu", disse o ex-jogador, que tem parentes
na cidade. O Divino, como ficou conhecido
na época da famosa Academia palmeirense,
demonstrou que sua personalidade reflete o
estilo de jogo que o consagrou: elegante e
simples. Trajando camiseta e calçando
chinelos, Ademir deu uma volta pelo calçadão
de Bangu e ficou boquiaberto com as transformações
do bairro: "Está tudo muito diferente
por aqui, mas, felizmente, as mudanças
foram benéficas para a região",
disse. Se não fosse por um amigo ou
outro, ele passaria despercebido pelas ruas.
"Em São Paulo, não posso
andar nessa tranqüilidade toda.",
brincou.
O craque recordou bons momentos de sua vida,
no Grêmio Literário José
Mauro de Vasconcelos, um marco cultural do
bairro. Lá, Ademir pôde reconhecer
companheiros de sua época de juvenil,
além de observar os times históricos
do Bangu, que contava com seu pai, na maioria
das vezes. Ele ficou encantado com o que viu:
"É muito bom contar com espaços
como este, que preservam a história
do local".
À tarde, toda a equipe de filmagem
foi deslocada para a frente da desativada
Fábrica de Tecidos de Bangu, onde Ademir
gravou uma cena. "Tudo começou
aqui", disse, lembrando que trabalhou
por quatro meses no local. "Meu negócio
era jogar bola, não levava o mínimo
jeito com aquelas máquinas todas",
confessou.
Fonte: Jornal dos Sports, 14/05/2005.
Reportagem: Luiz Thiago.