A
PAIXÃO SOBREVIVE
Jogos
pela Seletiva do Campeonato Estadual, apesar
do forte calor, dos campos esburacados e do
baixíssimo nível de futebol
apresentado, conseguem manter vivo o interesse
de torcedores que permanecem fiéis
a seus times de coração
A
diversão é garantida. Nem mesmo
o forte calor e os jogos pouco atrativos são
motivos para diminuir a alegria abnegados
torcedores, que escolhem os clubes pequenos
como alvo de sua paixão.
O placar eletrônico do estádio
da Rua Bariri, parcialmente quebrado, pode
até anunciar a vitória de 3
a 0 para o Bangu, na quarta rodada do octogonal
da Seletiva do Estadual, que vai escolher
quatro clubes para subir à Primeira
Divisão do Rio ano que vem. Mas o solitário
Carlinhos Vieira, fanático pelo Olaria,
não está nem aí. Seu
time está em sexto lugar, com apenas
três pontos (Bangu, Portuguesa, Macaé
e Goytacaz ocupam as primeiras posições),
mas nem isso diminuiu o esforço de
Carlinhos.
Na quarta-feira ensolarada e quente, ele fez
a sua parte. Usando um tambor de uma velha
máquina de lavar como megafone improvisado,
fazia barulho para incentivar seu time de
coração. E seus gritos de incentivo
ecoavam no estádio quase vazio.
"Olaria, Olaria, Olaria, Olaria, Olaria,
Olaria", urrava, sem perder o fôlego.
Carlinhos ocupa o lugar de Chicão,
conhecido torcedor do time suburbano que gritava
o nome do time sem parar, enlouquecendo os
rivais e até os amigos. Chicão
se tornou evangélico e cedeu o lugar
para Carlinhos, que ganhou de um amigo um
tarol para seu batuque insuportávele
desafinado.
"O megafone é criação
minha e ajuda a difundir meus gritos. O time
gosta do apoio e os jogadores até me
agradecem", orgulha-se carlinhos, que
também recebe os agradecimentos de
outros torcedores, quando pára de gritar
e batucar.
Na torcida do eu-sozinho, carrega a faixa
"Eu amo o Olaria" para reafirmar
sua paixão. Professor aposentado, Carlinhos,
de 56 anos, freqüenta o clube desde os
12. Sai de Irajá, onde vive, para acompanhar
todos os jogos de seu clube.
Arthur Souza, de 43 anos, faz o mesmo. Ele
trabalha à noite numa empresa de informática
e aproveita as tardes para ver de perto seu
time do coração buscar o sonho,
cada vez mais longe, de voltar à Primeira
Divisão. Arthur fundou, em 1995, a
pequena torcida organizada Fiel, que tem três
faixas e não mais de 20 torcedores.
"Contra o Macaé, nós enchemos
três carros", diverte-se Arthur,
motivo de chacota dos amigos. "Nem ligo.
Sou Olaria até morrer".
Zoando
o dono do megafone
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| No
jogo contra o Olaria, vitória
fácil do Bangu, por 3 a 0 |
É
de rolar de rir. Enquanto o enlouquecido torcedor
grita Olaria sem para, o Bangu segue fazendo
gols. A cada comemoração, a
pequena torcida alvirrubra responde ao fanático
torcedor rival: "Eu, eu, eu... o megafone
se f...", grita, fazendo um trenzinho
da alegria.
O dono do "megafone" nem liga. Continua
gritando. "Aperta a marcação",
pede. Ao seu lado, um outro grita: "Aperta
o pescoço desses pernas-de-pau",
mas não houve resposta. carlinhos segue
incentivando o time. "Mata a jogada".
A provocação vem com eco. "Mata
cada um desses bostas". Depois disso,
ninguém mais controla as gargalhadas.
Nem o auxiliar da arbitragem, que se diverte
até com as plaquinhas de madeira, usadas
para anunciar as substituições.
Como o 2 estava meio apagado, sinaliza com
dois dedos da mão direita para que
o árbitro visse quem deveria sair do
time do Olaria: "Jogo pequeno é
assim mesmo. A gente ganha pouco, mas se diverte".
Vale qualquer sacrifício para
ver o Bangu
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| As
torcedoras do Bangu, sempre uniformizadas,
se divertem muito por amor ao time |
A
produção é feita com
cuidado. catarina Jorge, de 72 anos, Maria
Melido, de 70, e a caçula Léa
Amaral, de 60, vestem-se dos pés à
cabeça de vermelho e branco e juntam-se
aos amiguinhos da mesma idade para torcer
juntos pelo Bangu.
Léa, de brincos e presilha vermelha
nos cabelos, é a mais animada da Banfiel,
que tem até um guarda-sol, para não
esquentar os miolos. Todos têm alguma
ligação com a extinta Fábrica
de Tecidos Bangu. O fundador da torcida organizada,
Fábio Labre, de 27 anos, é neto
de um ex-funcionário, e conta que a
Banfiel tem até sede própria,
onde organiza bingos, bailes, e churrascos
para seus integrantes.
"A gente se diverte sempre. O amor pelo
Bangu nos une. E tudo vai melhorar depois
que voltarmos à Primeira Divisão",
espera Catarina.
O amor pelo clube é tão grande,
que fez Palúcio Souza Filho, 74 anos,
superar as dores de um recenete atropelamento
para ver o time vencer o Olaria, no meio da
semana. 'Faço tudo pelo Bangu".
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| Palúcio,
74: "Faço tudo pelo Bangu" |
Fonte:
O Dia, 15/10/2006.
Repórter: Martha Esteves.
Fotos: Carlos Mesquita.