José
Carlos Moura (E), ex-diretor do clube
e Peri Cozer (D),
líder da Democracia Bangüense.
A
entrevista do presidente do Bangu Atlético
Clube, Jorge Varella, ao FutRio, causou
indignação em representantes
da Democracia Bangüense, movimento
que representa um grupo de associados que
teriam sido arbitrariamente eliminados do
quadro social da agremiação
da Zona Oeste. O grupo exige reintegração
e o resgate das tradições
do alvirubro.
Na entrevista, Varela afirma que os associados
foram excluidos por não pagarem taxas
extras e mensalidades, além de terem
perdido na Justiça todas as ações
de reintegração. Empresário
de 62 anos, atuante no ramo de comércio
exterior, o líder do movimento, Peri
Cozer, e José Carlos Moura, de 68
anos, funcionário aposentado da Petrobrás,
professor de Educação Física
e ex-diretor do clube contestam as declarações
em entrevista exclusiva.
» O que é a Democracia Bangüense?
Peri Cozer: Constituimos um grupo
de 30 associados arbitrariamente excluídos
do quadro social e exigimos nossa reintegração
ao mesmo, com o mesmo status quo
que tínhamos quando fomos excluídos.
Infelizmente foi preciso realizar uma ação
judicial para que se resolvesse esta questão,
pois amigavelmente não foi possível
e todas as tratativas foram esgotadas.
José Carlos: Apesar de termos
esta ação contra o clube,
não somos inimigos da administração.
Somos apenas adversários e queremos
ajudar o Bangu. Somos pessoas com muita
história e identificação
com o clube. Sou filho do Vivi, campeão
carioca de 1933 com a camisa do Bangu, no
primeiro título da era profissional
do futebol. Fui campeão brasileiro
infanto-juvenil de vôlei pelo Bangu,
em 1956. Joguei ainda tênis de mesa
e basquete e fui diretor de esportes. Não
somos um grupo de arruaceiros, como querem
fazer crer.
» E por que Democracia Bangüense?
Peri Cozer: Muita gente imagina
que tenha alguma relação com
a Democracia Corintiana. Não tem
nada a ver. O Bangu foi na verdade o primeiro
clube verdadeiramente democrático,
e a resposta está nas suas origens.
É um clube fundado a partir de uma
fábrica, em um espaço onde
convergiam os diretores ingleses e funcionários
brancos, negros e mulatos. No futebol do
Bangu, todos eles jogavam. Diretor e operário,
negros e brancos. Não é à
toa que o Bangu teve o primeiro jogador
negro da história do futebol carioca.
José Carlos: O primeiro
jogador negro foi Francisco Carregal, que
jogou em 1905, embora se atribua este pioneirismo
ao Vasco. Basta pesquisar que se comprovará.
» Como está a ação
de reintegração de posse dos
títulos?
Peri Cozer: Ele (Varela) disse
que perdemos em todas as instâncias
e só ganhamos agora, mas não
é verdade. Vencemos em todas as instâncias,
e o Bangu sempre recorria. Agora não
tem como. Eles terão que nos reintegrar,
o processo já transitou em julgado
e eles não terão outra alternativa,
senão nos reintegrar, com todos os
direitos, nas mesmas categorias e com os
mesmos títulos que possuíamos
até a exclusão. Ofereço
até mesmo o número do processo,
para que o leitor possa conferir o que digo
no site do Tribunal
da Justiça: 2004.204.001107-5.
Lá (no site) o leitor pode ver e
constatará que não perdemos
em momento algum. Rubens (Lopes) dizia que
era mais fácil ele se tornar Presidente
da República do que nós retornarmos
ao Bangu. Ele não será presidente
jamais, mas nós estamos retornando
ao Bangu.
» Como o clube reagiu à decisão
judicial?
Peri Cozer: Eles têm que
cumprir, mas continuam fazendo gracejos.
Por exemplo, o advogado deles está
enviando para alguns associados interpelações
extra-judiciais, sem valor jurídico
algum.
José Carlos: Eles não entendem
que não somos inimigos, apenas adversários.
» E qual o objetivo dos dirigentes
em excluí-los?
Peri Cozer: Não consigo
vislumbrar qualquer vantagem que isso traga
para o clube ou para a comunidade, então,
tudo me leva a crer que seja alguma espécie
de interesse pessoal, que para mim ainda
não está claro qual.
» Todos os associados na mesma situação
aderiram ao movimento?
José Carlos: O nosso processo
foi pioneiro e envolve 30 associados, mas
há um grupo de 150 associados que
já está organizado e assim
que formos reintegrados, eles entrarão
com o processo deles, pois assim já
se terá criado uma jurisprudência,
afinal, é a mesma situação.
» Como e quando se deu a exclusão?
Peri Cozer: A partir do momento
em que o grupo que está no poder
chegou a ele, em 1995. Fomos excluídos
por um processo ilegal, no arrepio da lei.
Muitos estavam em dia. Outros, como eu,
foram pagar e a secretaria não recebeu.
Para que fossemos excluídos, deveríamos
ter sido notificados e deveria haver a publicação
de um edital. O clube é uma entidade
pública! Eles também alegam
ter enviado as cobranças pelo correio,
mas ninguém recebeu. Se eram cobranças
judiciais, deveria haver um aviso de recebimento,
e alguém teria como comprovar o envio
e o recebimento, mas ninguém recebeu.
Como os endereços estariam desatualizados
se todos são moradores da região?
No grupo, há quem resida em Bangu
há mais de 25 anos na mesma residência,
portanto, não mudaram de endereço.
José Carlos: Ao mesmo tempo,
foram realizadas inúmeras mudanças
no estatuto, para atender aos interesses
do grupo político que se apoderou
do clube. Hoje, para que se registre uma
chapa para concorrer as eleições,
é preciso ter a aprovação
de um dos grandes beneméritos do
clube. O Bangu, até pouco tempo,
tinha três sócios nesta condição,
era um triunvirato. Um deles faleceu recentemente,
então, só restam Rubens Lopes
e Sérgio Saraiva.
» Qual é a identificação
do bairro com o clube?
Peri Cozer: É muito grande.
O morador de Bangu tem orgulho do bairro
em que reside. É um bairro planejado,
onde as ruas terminam em praça. Tudo
organizado para bem atender à Companhia
Progresso Industrial de Bangu, dona da Fábrica
Bangu de tecidos. Por isto, apenas Bangu
e Tijuca têm nomes específicos
para rotular seus moradores: Bangüense
e Tijucano. Apesar disso, é preciso
oferecer opções para que o
morador se associe ao clube. A sede social
nada oferece, e por isto tem tão
poucos sócios.
José Carlos: Hoje não
moro mais em Bangu, mas todos nós
temos um elo com o bairro, e é um
elo muito forte, nossas histórias
estão aqui, e o Bangu precisa voltar
a ser o clube da comunidade.
» Quais os projetos para o clube?
Peri Cozer: Fomos alijados do Bangu
e nosso primeiro objetivo é conquistar
formalmente a reintegração,
nas mesmas condições que estávamos
no momento da exclusão. Reintegrados,
retomaremos o convívio com o clube
e conheceremos sua real situação,
e a patir daí, a batalha será
outra. Precisamos ser reintegrados para
conhecer a situação real do
clube, já que não há
transparência. A Democracia Bangüense
não é um grupo político,
um grupo homogêneo ou um clube. É
a reunião de um grupo de associados
que busca reaver seus direitos. Aguardamos
o cumprimento da decisão judicial
que nos reintegra.